Quando acordei, estávamos todos nós, prisioneiros, ainda no salão, mas libertos do cárcere, havia pedaços de gaiolas pra todo lado, e os outros todos estavam em volta de Astarte, que conversava e respondia perguntas enquanto era admirada e recebia dezenas de agradecimentos e elogios. Minha alma iluminou-se com uma luz mais intensa que a do Sol! Estávamos livres afinal! Havia muito alegria no ar, como se as mágoas de anos se desfizessem de uma só vez em uma grande comemoração cheia de absoluto regozijo. Eu devia tudo a Astarte, devia minha vida, minha paz, minha felicidade que explodia agora da forma mais maravilhosa. Eu estava certa! Não há alegria maior do que aquela que se sente quando se sai de uma situação de extremo sofrimento, agora eu escapava da dor, do medo, da desesperança, e podia regozijar com o alívio divino de não sentir nenhuma sensação desagradável! Astarte, eu a amaria de uma forma diferente se ela fosse um garoto, azar o meu não ter nascido com gostos contrários à natureza, a regularidade de meus inexpressivos impulsos sexuais, se é que posso chamar assim minha fraca e rara atração por algumas pessoas ou ideal de pessoa. Há uma simpatia que tenho por algumas pessoas assim que as vejo e sinto a natureza de sua energia, quando me agradam, sinto um pequenino desejo de abraçá-las, e, de alguma forma, ter a companhia delas, e é esse desejo de abraçar, tocar e acompanhar que chamo de atração. Acho que não posso dizer que tenha desejado alguém como amante, nunca quis beijar ninguém, nunca quis namorar ninguém, e por mais que eu goste de Astarte, bonita, inteligente, boa para mim, confiável, poderosa, de fato, não poderia sentir por ela algo mais do que amizade. Mas ai se ela fosse um rapaz, então eu a agarraria e beijaria com todas as forças, pois ela tem tudo que desejo, mas tem o defeito de ser mulher, e os homens são homens mas não têm nenhuma qualidade, são desinteressantes e vazios, e sequer gosto de olhar para eles. Ergui-me e a abracei. - Como você consegue ser tão magnífica? Fale para mim, você é demais. O que foi aquilo?
- Eu só usei meu dom e detonei as grades.
- Nenhum de nós conseguia usar quaisquer dons, como você conseguiu usar o seu?
- Boa pergunta. Como é possível que eu tenha conseguido usar o meu?
Nós todos ficamos conversando, Astarte no meio, falávamos sobre nosso encarceramento, a trágicas experiências, o tempo passado lá dentro, os planos para o futuro, e claro, o que faríamos com Belzebu e seus servos se tivéssemos a oportunidade de uma vendeta. Ele havia alimentado o lado doentio da imaginação de cada um dos prisioneiros, um deles sugeriu que o espetassem com agulhas por todo o corpo e acendessem chamas em cada uma delas. A minha era um pouco mais original, um método extraordinário e invulgar, me orgulhei de ter tamanha imaginação:
Depois de um bom tempo de diálogo sem real importância, Astarte e eu fomos embora para outro local, mas não antes de terminar de destruir qualquer material que pudesse ser usado futuramente naquele antro.
De volta à Cidadela dos Leitores, nosso lar! Que paz imensa tomou conta do meu coração ao me ver longe do Salão de Belzebu, quase tinha vontade de chorar de tanta felicidade. Mas não poderia, pois tamanha felicidade era em grande parte neutralizada por um rancor vingativo, eu precisava, eu exigia, se tornava uma verdadeira necessidade fisiológica que eu matasse, da maneira que havia descrito de acordo com minha imaginação corrompida, Belzebu e Donatien de Sade. Canalhas!
- Luna, o que vamos fazer daqui em diante? Nos separaremos?
- Não, não agora. Quero ficar com você. Mas afinal, o que você está procurando para sua vida? Talvez nossos objetivos sejam compatíveis um com o outro e possamos buscá-los juntos. - Me senti um tanto melosa com esse período.
- Você está falando de um objetivo na vida? Não sei se realmente tenho, geralmente apenas vivo cada dia, atualmente estou interessada em desenvolver meus dons, controlá-los melhor. Por que não fazemos isso juntas? Nós duas somos especial, difíceis de se controlar, parece perfeito.
- E de fato é! Vamos treinar nossas habilidades juntas, ajudar uma à outra.
- Só falta a gente achar algum lugar pra treinar.
- Falta mesmo. Mas existem muitos lugares que não são habitados, né? Muito espaço livre, é só achar.
- Vamos perguntar a alguém ou pesquisar possibilidades. - Sugeri, e ela aceitou. Logo estávamos na biblioteca, foi aí que descobrimos que não existem bons livros de mapas disponíveis ao público, e que os poucos que ainda são acessíveis encobrem uma quantidade muito pequena de dimensões, e apenas as que estão entre o Céu e o Inferno, a esses dois, só se pode chegar sozinho. Mesmo com toda as limitações, conseguimos um pequeno guia de locais comuns, não estariam realmente inabitados, mas haveria espaço livre o bastante, o que escolhemos era conhecido como Montanha Árdua. Achei o nome idiota, mas nos teletransportamos até lá ainda assim, nomes nem sempre são tão importantes. Na realidade não era apenas uma montanha, mas várias, um cordilheira de montes rochosos mais ou menos altos, estávamos no topo de uma de "tamanho médio" em relação às outras, algumas eram tão altas que mal conseguíamos olhar em direção ao topo, e a menores pareciam morrinhos lá para baixo. Muitas delas se conectavam entre si por pontes de madeira que não demonstravam nenhuma segurança, tínhamos muito espaço na nossa montanha, suponho que tivesse a área um pouco maior que o Coliseu de Roma, assim, podíamos usar à vontade, e era tudo nosso. E eu não me esqueceria de forma alguma de forma alguma de descrever o que era aquele cenário, pois uma névoa azulada cobria discretamente algumas áreas acima de nós, ao passo que todas aquelas rochas tão bem esculpidas por todos os lados era um quadro magnífico, sem descrever a emoção que as alturas podem proporcionar, o prazer de ver morros do tamanho de cabeças humans de tão distantes. Ar puro! O mundo espiritual parecia demonstrar cada vez mais características do material. Qual teria copiado qual? Assunto para depois.
- Não poderia ser melhor. - Falei, respirando fundo aquele ar excelente.
- Eu nunca vi seus dom de verdade, Luna. Por que não me mostra agora? Primeiro a gente mostra nossa força total uma à outra, pra gente conhecer nossos limites. - Ela riu engraçada e esquisita.
- Bem, se eu usar total mesmo, eu perco não apenas o controle, mas também a consciência, você sabe como funciona.
- Veja, se você perder sua consciência e virar o monstro, eu te volto ao normal na porrada. Tá bom?
- Tem certeza que você consegue? Você quebrou as gaiolas, eu não, mas acho perigoso.
- Mas é perigoso. Mas como vamos controlar dons perigosos sem correr perigo?
- Está bem, e é agora. - Abris os braços e me libertei, deixei os oito flagelos saírem pelas minhas costas e se espalharem pelo local, não eram tentáculos, eram sacos imensos, compridos e pesados, ocupavam muito espaço, os deixei erguidos bem alto e os batia para lá e para cá, apenas queria ver o quanto podia deixá-los grandes. Eles iam crescendo como objetos infláveis, mas maciços, e moldei cada um na forma de uma mão, terrivelmente grandes, mas ligadas apenas por finos fios de flagelo ao meu corpo. Como dizer... cada uma tinha dez vezes o meu tamalho, mais ou menos, Astarte ficou com o pescoço erguido olhando as massas que flutuavam.
- Grande, mas é intenso? Me acerta com isso se puder, Luna. - Zombou docemente, dando a língua. Hesitei um pouco mas obedeci, se desse errado eu a absorviria, mas não daria. Não! As oito desceram como martelos, o local imediatamente se tornou amarelo, areia se espalhou por todo o local, se reunia em estranhas dunas que empurravam meus flagelos na direção contrária, e logo aquela areia escurecia para um negro ferroso, tudo se uniu em uma "coisa aracnídea" enorme, que se jogou contra mim, e quando me atingiu, perdi a consciência. Acordei deitada do lado de Astarte, olhei para ela, estava toda esfolada, os cabelos longos estavam pela metade, assim como alguns dedos que faltavam na mão direita, ela estava péssima. Me senti horrorizada. O que eu fiz?Tentei me levantar, mas também estava mal, foi quando olhei minha mão, a pele havia sido arrancada, ardia demais.
- O que aconteceu? - Perguntei, com pouco ar.
- Chegamos ao limite. - Ela riu como sempre fazia, mas com a boca cheia de cortes. - Sabe, eu sou mais forte que você, mas não muito. Você perdeu a consciência como esperado, o que aconteceu é que eu bati no sa sua forma monstruosa com toda a força, usei todos os meus recursos para te conter, mas mesmo assim, não pude fazer isso sem evitar me machucar um pouco.
- Oh! O que eu fiz? Astarte, por favor, me perdoe, eu disse que era perigoso! Me desesperei.
- Não fique assim, eu me regenero tão bem quanto você, mas gastei tanta energia pra te conter que vamos te que esperar umas horas para eu poder fazer isso. Você está conseguindo?
Eu tentei fechar minhas feridas, não funcionou. - Não, nem me levantar.
- Eu devo ter cortado uns trinta quilos de carne sua, não é a toa que está fraca, e depois que eu consegui te nocautear e te fazer volta ao estado normal, só se passaram alguns poucos minutos, então ainda temos tempo pra nos recompor.
- Explique com detalhes como eu ataquei, como você me combateu, eu nunca me vi na forma monstruosa, não sei como ajo quando estou nela, e nem como é minha forma. Como é?
- Olha, é bem difícil explicar, deixa eu desenhar. - Transformou a pele da mão direita em uma folha de papel, e o indicador da esquerda em um grafite, e começou a representação. Virei o rosto para só ver quando estivesse pronto, fiquei esperando até ela me cutucar e me entregar o desenho. Oh! Não podia ser! Como um ser vivo poderia ser tão abominável? Era assustador, doentio, anormal, para mim aquela era a prova definitiva da não existência de um Deus ou existência superior! Não, um ser superior nunca poderia permitir a criação de uma criatura daquela! Um monstro, não tenho palavras para descrever minha repulsa, e parece que Astarte era uma excelente desenhista, sem poupar sequer os detalhes mais repugnantes.
- Como, não pode ser! Astarte? Isso sou eu?
- Era. - Acenou com a cabeça tranquilamente.
- Não quero ser isso, eu não aceito ser isso! - Rasguei a folha, ela fez uma careta, tinha esquecido que era um pedaço dela, que dom esquisito ela tinha também.
- Não rasgue minha pele, por favor. Luna, aquele monstro não é você realmente, não é a Luna, é apenas um estado descontrolado, um erro, você é você. E se quiser se você para sempre, tem que aprender a se controlar a nunca mais chegar naquele estágio. Nunca mais! Luna, Luna, minha doce amiga, você não vai ser um monstro, você vai ser uma menina doce e gentil, minha amiga, e vamos ler muitos livros juntos.
- Você faz eu me sentir confiante. - Sorri, as palavras dela eram gotas de alívios para o meu mar de angústia. Um monstro. - Acho que precisamos é de informação antes de qualquer coisa, esse aqui vai ser nosso campo de treinamento, mas darei uma pesquisada por aí para descobrir o que pode ajudar. Você, fique aqui treinando, não venha comigo, não será necessário e não quero que perca o seu tempo.
- Por que quer sair sozinha?
- Fique aqui e treine só, eu quero ir a locais em que você não deveria.
- Não seja boba! Você mal consegue se levantar! Vai onde. Tá querendo ir pro Abismo?
- Não.
- Então o que, bobinha? Por que não quer que eu vá? Tá com cara de algo errado.
-É assim, senhorita Astarte, eu quero fazer essa busca sozinha para ter certeza de que eu sou capaz, mas quero vê-la em breve, não quero tê-la longe de mim.
- Isso é um treinamento pra você? Um treinamento de independência?
- É, mais ou menos isso. - Tentei me levantar, ainda não dava.
- Então descanse, eu faço o mesmo.
Deitei e ela também, dormimos em pouco tempo, estávamos muito cansadas.
Inveja
Quando acordei a minha mão já estava com uma fina camada de pele regenerada, minha companheira ainda dormia como a criança que era, caída da barriga pra cima, esparramada, boca aberta, era difícil pensar que aquela figura inofensiva era o que era. Pensei em acordá-la, mas tive uma ideia melhor, de ir sem me despedir, não íamos demorar para nos reencontrar mesmo. Já conseguia me regenerar e me levantar, fiz os procedimentos e me teletransportei para a Cidadela dos Leitores novamente. Fui caminhando pelas ruas abordando cada indivíduo que demonstrasse conhecimentos fartos, minhas perguntas podiam ser das mais indiscretas: "Senhor, como lidar com monstros?; Sabe como se controlar?; Como uma pessoa pode derrotar o próprio mal?; O que você faria se sua consciência fosse insana e tentasse te dominar?; Como não se deixar dominar?; Conhece alguém que saiba as respostas para essas perguntas?' Quem é o melhor professor de auto-controle?". Estava sendo muito barulhenta, muito chamativa, eles me olhavam estranho, parecia que sabiam o que eu era, respondiam sem interesse, respostas vazias, inúteis, sequer pensavam. Dezenas deles, tão indiferentes, assim são as pessoas, só se importam com os próprios problemas. E o que há de anormal nisso? Nada, mas continuei tentando, se Teresa havia sido boa para mim, talvez alguém mais fosse informativo, eu devia estar parecendo uma louca psicóticas falando coisas sem sentido, mas mesmo os mais insanos têm alguma, mesmo que escassa até o limite, sensatez.
Apenas um jovem rapaz me disse algo de possível utilidade, e guardei bem aquelas palavras que poderiam ajudar a iluminar o meu caminho: "Não culpe ninguém por nada de ruim que acontece ou há em você, e assim você terá o poder de controlar o seu destino sem interrupções ou desculpas." Fui à biblioteca, lá haveria de ter algo informativo. Ora, sou estúpida? Uma informação que eu tinha e nunca havia sequer pensado em usar! Ora, agora eu não seria uma imbecil tão digna de desprezo! Fui à seção de livros de política dos mundos inferiores, fui procuarando pelas letras, puxei o I, Inveja. Abri o livro e me sentei, História Política do Círculo da Inveja, dei uma folheada até achar o que queria, era grosso e eu tinha pressa, apressar. 500 anos antes de Cristo, chegava ao poder Nyx, o mais perfeito ícone da inveja que se podia ter, expulsou Lilith, a antiga governadora, e envolveu o círculo inteiro com sua existência coletiva, que permite que saiba, veja, e ouça tudo que acontece a todo momento em seu reino.
Ora! Que imenso controle ela devia ter! Nyx, eu precisava achá-la a qualquer custo. Para o meu infortúnio, não havia qualquer indicação de frequência e localização do Círculo da Inveja, pensei em voltar ao desagradável exercício de perguntar. Seria indiscreto demais, mesmo pra mim: "Como chego ao Inferno?". Sentir inveja não seria o meio de chegar ao Círculo da Inveja? Não era difícil sentir, com todo aquele sentimento amargo dentro de mim, a maldição de meu dom, bastava sair e ver as pessoas sorrindo, relaxadas, tranquilas. Voltei para a rua, e observava com especial atenção a quem demonstrava especial satisfação. Tranquilidade! Como seria bom tê-la, eu me prendi a esse pensamento, almejando a tranquilidade que eu não tinha, invejando, cobiçando, sendo baixa, vil, uma invejosa recalcada e nojenta. Mas afinal, por que eles podiam ter essa paz e eu não? Por que raios meu dom é tão pesado e angustiante? E o veneno da inveja se espalhava lentamente pelo meu organismo, frio, mal cheiroso, então já contaminada com esse sentimento odioso, me teletranportei de olhso fechados sem pensar em mais nada, muito menos no meu destino.
O ar se tornou muito pesado, denso, desagrádavel, estava em um local subterrâneo com paredes de pedra, como um castelo medieval, o teto parecia estar a um quilômetro de nossas cabeças, teto de caverna cheia de estalactites, a luz do local era fria e azulada. Do resto, parecia uma cidade como qualquer outra, casas, barracas, lojas, mesas nas ruas, pessoas comendo, conversando, andando, a natureza de suas energias era especialmente baixa, negativa, mas o que tornava a cidade tão ruim para se estar não eram as pessoas, era o próprio lugar, que parecia completamente infestado por uma energia viva e naturalmente má.
- Esse é o Círculo da Inveja? - Perguntei a uma jovem que tomava sopa em uma mesinha.
-Sim. É nova por aqui?
- Sou, vim aqui procurando por Nyx.
- Nyx? Ela sabe tudo que acontece por aqui, se ela quiser vê-la, virá até aqui, se não, é bom ir embora, desafiar as ordens dela é impossível.
- Entendi, mas como faço para que eu mesma vá até ela e não o contrário?
- Não sei.
Agradeci e fui dar uma volta pelo círculo, a cidade se desenvolvia em um uma pequena curva da caverna, creio que o espaço realmente formasse um círculo, mas muito grande, demoraria dias para passar por tudo. Não perguntei mais nada a ninguém, se visse Nyx, eu saberia, os semelhantes se reconhecessem e isso é inegável. Ansiosa e impaciente observava os transeuntes, todos cheiravam a inveja, a maioria tinha a energia intensa e possivelmente seriam boas presas, almejando tudo que é dos outros, alguns pareciam difíceis de abater, quanto mais difícil, maior o benefício da absorção. Que tentação! Deveria me segurar, aquele era o reino de uma usuária muito mais experiente de meus dons, não seria idiota o bastante para provocá-la dessa forma.
- Senhorita, por favor, venha cá. - Uma voz fraca me chamou, olhei e vi uma mulher encolhida no chão, loira e feia, vestida com um vestido branco comum com um monte de manchas. Fui.
- O que você quer? - Perguntei próxima a ela, e só então fiquei de boca aberta, a energia dela era atraente. Como descrevê-la? Estava tão indefesa, absorvê-la teria sido uma excelente aquisição, mas não, se Nyx não o fazia, não seria eu que faria, não lá.
- Não ache estranho, mas a senhorita poderia me responder a uma singular questão de natureza existencial?
Estranhei o tom da pergunta, mas me coloquei em seu lugar: - Sim, mas quero que responda umas minhas também.
- Vale a pena viver honestamente e no caminho do bem?
- Bem, desde que eu decidi seguir o caminho do bem a minha vida está melhor, mas não sei se é assim para todo mundo, creio que cada pessoa tenha seu caminho correto.
- Senhorita, como poderias ter seguido o caminho do mal? Pareces uma pessoa tão bondosa.
- Não sou, só pareço. Não acredite nas aparências, senhora. Agora minha vez de perguntar.
Ela me interrompeu antes de eu perguntar: - Como não? A senhorita não percebe que a aparência é a única forma razoável de se julgar uma pessoa?
- O que? - Aumentei o tom diante do absurdo. - Você é louca? É claro que não!
- Como não? Diga-me, qual é a primeira coisa que a senhorita vê quando olha para uma pessoa?
- A aparência, mas é só sentir um pouco da energia dela que essa primeira perde a importância.
- Bem, eu vejo que a senhorita está bem vestida e arrumada. - Apontou para minhas roupas, de fato, meu cabelo estava cortadinho, meu rosto limpo, boa aparência geral.
- E daí? Não quer dizer que a aparência seja mais importante que o resto!
- Veja, senhorita, as pessoas sempre dizem que o coração a personalidade influenciam na forma física, o que em parte é verdade. Mas ninguem ousa falar da verdadeira influência, que é da aparência sobre o interior, a forma como a feiúra de uma pessoa pode tornar o seu coração amargo, invejoso, mau. Sabe por que chamam isso aqui de Círculo da Inveja? Sabe por que há inveja? Porque há pessoas que nascem com tudo, e outras que nascem com nada, e quem nada tem deseja tomar o que é de daquel que tudo tem. Porém, se esse "tudo" fosse dinheiro, bens materiais, títulos, e outros bens que podem ser adquiridos, comprados, perdidos, trocados, então esse tudo e esse nada sempre mudariam de lugar, e uma pessoa que nasce com tudo poderia acabar com nada. Mas existe um bem que não se pode adquirir tão simplesmente, um bem que vem com a nascença, que não é imutável, mas é o mais duro de se modifiar, e esse bem é a beleza. Uma pessoa nasce bela, outra nasce feia. No mundo material não existe a possibilidade de se sentir a energia de alguém para julgá-lo, portanto, só resta a aparência, ou a pessoa é bonita, ou você não irá gostar dela na primeira vez. O feio sofre com esse problema, pois ele tem uma desvantagem terrível em relação aos outros, esse mal prejudica na atividade mais satisfatória e querida pelo ser humana, que são as relações de homem para mulher, sexo, romance. Se uma pesso não tem sexo ou romance, ela está sendo privada do maior prazer sua espécie, assim como a pessoa que sente fome, o feio sentirá raiva, revolta, só que ao contrário do faminto, ele não poderá roubar beleza ou ganhar uma esmola de alguém, não, ele é eternamente condenado ao estado de feiúra, e portanto, não tem nenhuma esperança de alcançar uma condição melhor.E ssa desesperança o torna amargo, e o faz se ver como um condenado, alguém que é submetido a uma maldição sem nenhuma razão, vítima do destino, e uma vez que se veja como vítima, ele passa a culpar os outros. Quando ele vê alguém belo, atraente, e assiste ao modo como todas as mulheres se encantam por ele, jogam-se aos seus pés, é inevitável que sinta raiva daquela pessoa, e se pergunte com demasiada inveja no coração: "Por que ele é belo e eu não?" Por que? Essa é a pergunta que o feio e todos os outros desafortunados se fazem toda vez que veem os possuidores das qualidades que lhes faltam. A falta de beleza física, portanto, gera raiva, revolta e inveja, e esses sentimentos, quando guardados por muito tempo, podem corromper mesmo o coração mais puro. Portanto, quando eu vejo uma pessoa muito feia, também espero que ela provavelmente seja feia por dentro, já que os infortúnios da feiúra com certeza já a enveneneram. Alguns nem são tão afetados assim, têm maior temperança, mas tenho certeza de que mesmo os bons feios seriam pessoas de coração melhor caso fossem belas, alegria gera bondade, privação gera inveja. Entende?
- Entendo, até faz sentido. Não esperava que fosse falar tanto, mas agora é minha vez de expôr minha opinião, então ainda prolongaremos muito a discussão. Mas, antes, qual é seu nome?
- Sou Justine. E a senhorita?
- Luna. Diga-me, Justine, e quanto à inteligência, ao talento? Pessoas nascem burras, nascem incapazes, e isso as torna bem mais miseráveis que se fossem feias, elas não podem comprar inteligência, e muito menos capacidade. E essa sua teoria exigiria que considerássemos 0s donos da habilidade de transformação do corpo, afinal, esses podem ser tão bonitos quantos imaginarem, não é?
- Óbvio que não! Mas para que você se preocupa com a vida mortal? Aquilo é passageiro, estamos mortas, estamos na verdadeira e definitiva vida, não há porque nos guiarmos por ideias daquele plano inferior!
- Ah, você diz isso porque não teve uma vida boa lá, assim como eu. Sabe, pretendo reencarnar, você, certamente não, deve ter tido algum trauma, está claro nos seus olhos, e teme retornar para lá para sofrer mais. Eu não, eu não temo nada que possa me esperar na terra, eu espero apenas ter uma vida excelente e um corpo lindo que possa usufruir de todos os prazeres.
- Você é burra? Como vai saber que não vai reencarnar em um corpo feio, doente e mal feito?
- Eu apenas sei, não tente entender, uma alma jovem não poderia entender como você pode influenciar a encarnação seguinte através dos seus pensamentos, desejos e ações nesse mundo.
- Mesmo, como se pode fazer isso?
- As pessoas reencarnam aleatoriamente, mas existem alguns fatores que influenciam, o primeiro é baseado no sexo da pessoa, há maior chances de encarnar no mesmo sexo da vida anterior, em uma proporção de uns sessenta e seis por cento de ser igual. Esse é o único fator físico que influencia a encarnação, porque mulheres e homens têm características muito distintas. As outras se baseiam na mentalidade, nos sentimentos, na natureza da energia pessoa, seu desenvolvimento espiritual, moral, suas escolhas individuais de como se viver. E nas ações praticadas que ela leva na memória, que costumamos chamar de Karma, o Karma nada mais é do que o registro de tudo que fazemos e sofremos na vida, nesse caso, na vida espiritual. Tudo isso influencia na encarnação, mas não muito, a pessoa pode nasce em qualquer lugar ou qualquer pessoa, mas ela terá maior chances chances de ter o nascimento em uma vida que seja útil para o perfil espiritual da pessoa, que possa fazê-la se desenvolver mais no que é boa ou no que tem deficiência. Mas como existem vários fatores, qual dos fatores irá influenciar na vida seguinte é praticamente impossível, pode ser em função do seu egoísmo, da sua inteligência, da sua tranquilidade, do seu alto nível de energia, de qualquer coisa! Mas eu desenvolvo tudo de forma que seja bom para mim, e por menores que sejam as chances, tenho confiança na minha felicidade.
- Sofisma. Até agora você não quebrou meu argumento sobre a inteligência e o talento. Admite que eles são muito mais importantes que a beleza, que é passageira? Mesmo na vida material, quem tem sucesso é quem raciocina, não quem é lindo, e o lindo que vence na vida não pode fazê-lo sem um pouco de inteligência.
- Quem é mais feliz, o papa que tem o poder de um grande rei mas nunca faz sexo, ou o vaqueiro que tem relações sexuais todos os dias com mulheres lindas e não tem nem onde cair morto?
- Não sei, sou virgem tanto de poder quanto de sexo. Mas se eu fosse pela suposição, diria que é o poder, por mais que as pessoas pareçam gostar de sexo.
- Não, é melhor você ser um pobre diabo e ter prazer físico, do que ter todas as riquezas e não tê-los.
- Isso não responde a minha questão.
- Então deixemos para lá, você não é a mente iluminada que eu imaginei, adeus Luna. - Seu corpo evaporou e logo desapareceu. Senti-me terrivelmente irritada.
-Idiota, não vai me responder? Você é burra, some mesmo, covarde!
Como alguém te chama assim do nada, discute com você, debate intensamente, te faz refletir profundamente sobre assuntos de relevância e depois some sem dar uma resposta final? Sem satisfação! Me deixou curiosa e frustrada, gastou meu tempo e minha paciência, me deu uma sugestão absurda e não a explicou até o fim! Mulher estranha, sei que sou a última pessoa que pode chamar alguém de estranho, afinal, saio na rua perguntando "Onde acho o Inferno?". Mas por que maldita razão uma pessoa aborda para um debate filosófico e some do nada antes do fim? E ainda me chamou de burra! Aliás, será que sou burra? Oras, outra forma de pensar... Que detestável, talvez aquela loira fosse uma verdadeira sábia e estivesse tentando me ensinar conceitos superiores e inteligentes, e eu, muito burra para entendê-los, os rejeitei sem raciocinar direito, burrinha, estúpida, ligada a valores fracos e inferiores, incapaz de enxergar o pensamento evoluído de Justine. Será? Não, tolice, me enoja sequer ter pensado nessa possibilidade, ela era uma tola presa a valores idiotas, muito idiotas, muito burra, muito prepotente por se achar a filósofa, a sábia, fugiu porque não tinha argumentos. Ela é a burra, não eu!
Chega! Tinha que voltar para meu fim, ter foco, achar Nyx. Voltei à minha caminhada.
A Rainha de Toda Inveja
Já estava cansada, havia andado por muitas horas, sente-me em um banco público e fiquei olhando as pessoas que passavam. Teve um momento em que a rua se esvaziou, todo mundo saiu como se um perigo terrível se aproximasse, só sobraram uns três desorientados que estavam deitados no chão como mendigos. Olhei na direção contrária a que as pessoas correram, sentia uma sensação de que o ar estava se tornando pesado, denso, ainda mais do que já era, engrossando, tornando-se areia, lama, terra, me enterrando, me sufocando, impossível respirar, esmagada por todos os lados por aquela atmosfera monstruosa, e foi aí que percebi o que estava acontencendo. Ela devia ter por volta de um um metro e setenta e cinco, vestida com um vestido preto que se arrastava pelo chão, tão preto quanto seu cabelo, muito magra, dedos compridos, naris comprido e pontiagudo, uma mulher de meia idade muito bem conservada, elegante. Mas seus olhos eram fora do comum, a esclera era negra, e não branca, e a íris amarela, ao invés de qualquer cor dentro dos padrões humanos, vê-los me arrepiou, senti como se mergulhasse em um profundo Inferno quando os fitei atenta, mesmo de longe, a presença dela era angustiante.
Nyx veio até mim, e sorri falsamente ao vê-la, meu coração palpitava de temor.
- Luna, parece que o destino finalmente permitiu que nos conhecessemos.
- Deusa Nyx, admito, estou um pouco assustada, você é muito poderosa, não imaginava tanto. Não vim aqui com más intenções, parece que somos semelhantes, isso está claro há muito tempo. Tenho dúvidas, e quem melhor para responder sobre o Dom do que a única pessoa do universo que também o tem?
- Assustada? Por que? Me chamam de monstro, de demônio, de abominação, mas não sou diferente de ninguém, o fato de termos milhares de personalidades não nos faz anormal, faz? - Riu mostrando seus dentes levemente amarelados.
- Não sei, sinceramente não sei. Como você consegue lidar com eles? Como você os aguenta gritando no seu subconsciente? Não te angustia? Não te desespera sentir o tormento de cada um daqueles que você matou?
- Você está falando daquela incômoda sensação dos espíritos tentando te dominar a todo instante, sempre em conflito, loucos e angustiados, te proporcionando todas as formas de desprazer?
- Sim, é exatamente isso. Como você lida? Não te incomoda?
- Sim, me incomodou por mais de quinhentos anos, mas com o tempo você aprende a dominar, então não há mais sofrimento. No começo, eu era insana, enlouquecida. Criança, você deve saber que eu matei desenfreadamente quando era mais jovem, não sabe? Assim como você.
- Você consegue ler minha mente para saber de tudo isso?
- Facilmente. - Mostrou de novo os dentes amarelados. - Esse é um das centenas de dons que tenho, você realmente veio sem más intenções, apenas que orientação. Eu matava porque queria que os outros sofressem como eu estava sofrendo, e a sensação de saciedade da absorção me aliviava do sofrimento. Foi apenas piorando, aí chegou um momento em que eu retomei meu bom senso e parei, e demorou quase quinhentos anos para eu conseguir dominar a mim mesma, eliminar aquela sensação horrorosa de vez, só que hoje, eu vivo normalmente, e mesmo quando eu absorvo novas almas, eu não sinto nada ruim, controlo facilmente, controlo totalmente, essas milhares de almas que moram dentro de mim e desejam me dominar e me atormentar não possuem força sequer para me provocar maus pensamentos.
- Incrível, então tudo que eu preciso é treinar o auto-controle? - Fiquei muito feliz.
- Sim, mas não pense que tenho bom coração, isso me ofenderia. Aliás, pretendo te colocar na minha lista de vítimas. Já sou tão extraordinária tendo apenas o meu dom, imagine tendo o meu, e o de alguém que é como eu.
Tremi, recuei e saí correndo na hora, só vi mais de dez flagelos enormes vindos na minha direção, faziam os meus, que coloquei para fora desesperadamente, parecerem cordas diante de um trem. A força era... indescritível, me sentia uma pulga sendo atacada por um leão, meu coração acelerava explosivamente, quase saindo do peito, não podia me mover, mas não estava paralisada, apenas estava presa, completamente presa. Segurou entre seus flagelos em forma de tentáculos na frente dos olhos, olhava séria com aquela íris amarela tenebrosa.
- Não te matarei agora, você merece viver por muito tempo, eu gosto do prazer da batalha, eu gosto do prazer da concorrência, quero que você se desenvolva muito mais e se torne poderosa a ponto de me enfrentar, quero que você venha até aqui e que lutemos para decidir afinal quem é a mais digna do Dom. Vai demorar, te dou o prazo de seiscentos anos, se até lá, você não vier aqui, eu irei a sua procura. Compreende meus termos?
- Isso é alguma forma de jogo? - Perguntei baixinho, assustadíssima.
- Sim, mas não veja como um jogo de gato e rato, é mais como um jogo de damas, e eu não espero te enfrentar até que todas as suas damas estejam em posição, e sabe, quanto mais forte você tiver, melhor refeição será pra mim, poder ver meu aparente ato de misericórdia como uma engorda do gado a ser abatido.
- Por que você faz questão de não querer parecer boa ou misericordiosa? Por que quer aparentar pura crueldade e interesse? - Perguntei ao perceber esse costume por parte da Deusa.
- Você acha que estou fingindo? Acha que sou menos má do que demonstro ser? - Desprezou-me.
- Não, mas não viria a ser útil parecer melhor do que realmente é?
- É útil para quem é fraco. É bom para o escravo parecer para seu senhor ser mais fiel, mais trabalhador e mais honesto do que realmente é. Mas qual é a utilidade do senhor parecer mais trabalhador e honesto do que realmente é, para o escravo? E por que ele deveria ser fiel ao escravo? O forte não precisa dever nada a ninguém, os outros devem dever a ele, o que os outros pensam sobre mim não é importante, pois eles não podem fazer nada contra mim, e nem ousariam, mas o que penso deles pode facilmente lhes custar a vida!
- Você é louca. Por que viver isolada? Acha que não ter nenhum amigo e não precisar deles é vantagem?
- Não preciso, se eu dependesse de outras pessoas, por mais que ajudassem, eu teria vários pontos fracos. Prefiro focar tudo em mim mesma. Preste atenção, se uma mãe que tem nove filhos e ama muito cada um deles, você terá dez maneiras diferentes de destruí-lo e destruir sua felicidade, se um filho morre, já é o bastante para mergulhá-la em desgraça e infelicidade. Cada um dos filhos corre o risco de morrer todos os dias e todas as horas, já que a morte não exige nenhum pré-requisito além do de se estar vivo, e o risco da mãe ter a vida destruída é muito alto, é nove vezes maior do que seria se ela tivesse apenas um filho. Se essa mulher sequer fosse mãe, se não tivesse filhos, então o risco de sofrer por eles seria reduzido a zero, e suas únicas dores seriam as próprias, assim como a própria morte, a única.
- Você perdeu alguém que fosse amava quando estava viva. Não é, Nyx?
- Não tente investigar a minha vida, ou eu acabo com nosso trato e te mato agora mesmo. - Disse brava, os olhos pareciam mais amarelos.
- Não falo mais disso então. Porém, Nyx, como você se esquece que a mãe que tem nove filhos também sinta os sucessos e alegrias de cada um deles, embora ela sofra por seus filhos e corra muitos riscos por causa disso, também se abrem caminhos para muitas felicidades e prazeres, pois ela regozijará-se cada vez que uma cria sua sorrir com sinceridade.
- Não minta para si mesmo, criança, dá pra sentir na sua voz que nem você acredita no que está falando. Você tenta ser otimista, mas não é, suas palavras de defesa à amizade, amor e companheirismo são vazios, estéreis como terra queimada. Não sou hipócrita pra negar que a mãe fica feliz quando os filhos estão felizes, mas responda com sinceridade, não com esse falso otimismo, essa tentativa desesperada de se convencer de algo em que você desejava acreditar, mas não acredita: É mais fácil ser feliz ou sofrer?
E ela tinha razão. A quem eu estava enganando ao defender visões tão sentimentalistas e ideais? Discordava da visão extremista dela, mas no fundo ria dos doces delírios românticos que saíam da minha boca. "A mãe fica feliz pelo filho", os filhos geralmente só dão despesas e desgosto, muitas vezes morrem ou fracassam, e dificilmente alcançam uma posição favorável, não, colocar a própria nos outros poderia ser bom em um mundo perfeito e ideal, mas não é na realidade. Estou sendo pessimista demais? Talvez ela fosse covarde por isso. Eu não tive nada além de solidão e uma raiva perversa, concordaria com ela e amaria usar minha força acima da média para dominar e me divertir com a sensação de não precisar de ninguém, de ver os outros como os enfeites do seu quintal, Astarte mudou um pouco minha visão, me mostrou amizade, Guido também, mas apesar de eu carregar o sobrenome dele, foi com ela que criei, de fato, um vínculo profundo e eterno, a mais verdadeira amizade de que se pode ter notícia. Se temos esse vínculo, como eu poderia acreditar que não pode haver esperança? Por mais que minha racionalidade e quase todas as minhas mentes me digam que o universo é cruel e que se deve ser cruel nele, ainda há algo aqui no fundo que fala: "Seja boa, tenha amor, tenha amizade", e essa a voz que eu quero ouvir, por mais que ela fale baixo, por mais que pareça sonhadora e ingênua Estou dividida entre o otimismo e o niilismo, o segundo grita aos milhares, mas o primeiro tem minha preferência. Estúpida! Sou um monstro, todas essas besteiras de amizade se esvanecem quando estou faminta pela vítima, quando estou rasgando a pele, devorando toda a energia que forma uma existência, absorvendo-os inteiros, não há um único pensamento que não seja egoísta, que não seja direcionado à saciedade de meu espírito sádico e faminto. Sádico! Como negar o prazer que sinto em compartilhar a minha dor, toda a minha dor, enquanto as mães estiverem felizes pelos filhos estarem felizes, eu estarei feliz por poder dividir toda a minha infelicidade com todos que estiverem à minha volta. Não, eu contenho esse desejo doentio, tento ao máximo, mas não, não posso negar que ele seja natural em mim, e que esse meu prazer esquisito é um dos meus impulsos mais pessoais e sinceros, e que minto para mim cada vez que o evito, mas devo evitá-lo, preciso ser boa, quero ser boa. Por que?
- Sofrer é mais fácil, toda pessoa busca o contrário, a felicidade, e as mais competentes a alcançam, e superam os sofrimentos, portanto só precisamos garantir que nossas pessoas próximas, nossos amigos, sejam pessoas competentes o bastante para garantir a própria felicidade, e que a compartilhem conosco. Nyx, escolha seus companheiros com todo o cuidado, devem ser fortes, inteligentes, talentosos, confiáveis, ter afinidades em comum, devem ser a agulha no palheiro, talvez encontre um ou dois durante a eternidade, de fato, raríssimos, mas esses amigos superiores e eternos serão mais do que o bastante para tornar a vida muito melhor, não apenas em se tirar vantagem deles, mas também no sentimento bom de não se estar sozinho. Nyx, estive só, era desesperador, consegui uma amiga, continuo desesperada, mas não se compara ao que era quando eu não tinha absolutamente ninguém para sequer contar minhas angústias. - Nisso eu fui sincera.
- Sim. - Ela sorriu. - Criança, talvez você tenha razão, e me deu uma ideia muito boa. Eu demorei quinhentos anos para me controlar estando sozinha, esse foi o caminho que escolhi, o caminho da solidão voluntário, e ela não me incomoda de forma alguma, eu não nasci nele, eu não fui obrigada, eu escolhi, e nele desenvolvi os meus poderes. Você é livre para escolher o seu caminho, criança Luna, você será útil para mim se fizer dessa maneira, procure alguém para te fazer companhia, um amigo, não, não apenas um amigo, um amante, um companheiro, sua alma gêmea! Procure por alguém que te complete por completo, que seja sem dúvidas a metade da sua alma, alguém cujos pensamentos você sinta, cujos sentimentos você ouve, alguém que sente a sua dor como se fosse dele realmente, não de forma figurada, mas literalmente, alguém com quem o seu coração possa se tornar um só, um amor tão forte e intenso quanto o mundo jamais viu! Encontre essa pessoa, encontre esse algo que vai milhares de vezes além da maior amizade, um amor, um amor ideal, torne-se um com seu coração unido por um amor incorruptível e, como você diz toda hora, eterno. E que você possa amá-lo de todas as formas, e que ele te ajude na sua jornada pelo controle do seu dom, se desenvolva acompanhada, e veja se obteve melhores resultados que os meus, se você estiver certa com suas palavras fofinhas, se desenvolverá tão melhor que poderá me matar e me absorver quando lutarmos. Vejamos se o companheirismo pode ser valioso mesmo para os fortes, pois você é forte, criança, só não teve tempo de alcançar seu verdadeiro potencial.
- Um amor? Não pode ser uma amizade? Não consigo me enxergar namorando.
- Não? Você morreu nova, não deve ter conhecido o amor ou os toques, uma virgem, procure alguém com quem você deseje abandonar essa castidade, se uma virgem casta e livre de desejo sexual deseja se entregar fisicamente a um rapaz, é porque ele tem algo de especial, se isso ocorre no Mundo dos Espíritos, deve ser mais especial ainda, você saberá quando encontrar quem te for ideal, você saberá, sua sensibilidade à energia será como um alarme sobre sua alma gêmea. Então, você se imaginará namorando, e tudo vai mudar.
- É impressão minha ou você está me aconselhando?
- Estou, quero você forte, quero ver no que dá. O que vai acontecer se uma pessoa que carrega o Dom em si viver de forma a compartilhar o próprio coração? O Dom é naturalmente puro egoísmo, o resultado deve ser no mínimo interessante, se não for positivo. Você estará indo totalmente contra o seu próprio dom, mas isso será útil, e como um analfabeto que aprende a ler.
- Então você quer me usar como a sua cobaia para ver se me amigando com uma possível alma gêmea eu posso desenvolver melhor meus poderes?
- Exatamente.
- E se eu não quiser? E se eu preferir um caminho egoísta e só como o seu?
Soltou-me e falou como uma velha amiga: - Faz o que você quiser, só tente não continuar fraquinha, preciso de um porco gordo para me alimentar, sou muito exigente.
Estiquei os braços para ver se eles ainda funcionavam, estava fisicamente bem, mas minha mente havia se transformado em um furacão de pensamentos aleatórios e sem controle.
- Posso ir embora?
- Pode sim, mas antes quero te dar um conselho, somos naturalmente inimigas, apenas uma de nós deve viver, mas minha competitividade exagerada me obriga a te deixar crescer, o prazer da luta é o maior que existe, e o de uma luta com alguém que tem o mesmo Dom e a mesma força que eu, isso seria o clímax de toda a minha vida, e me deixaria feliz mesmo se eu morresse. Por isso quero apenas o seu bem até a hora de sua morte em minhas mãos, e te aconselho a nunca ter vergonha de ser superior, se orgulhe. Chamar de aberração é a forma que os fracos arranjam para desvalorizar os fortes, tentam fazer parecer que o forte é errado por ser superior e raro, e eles melhores por serem inferiores e serem maioria, a maioria é lixo, quanto mais existe, mais se pode jogar fora. Não se envergonhe, criança, eles são os errados, nós somos as vencedoras da loteria da vida.
- Agora eu vou, adeus, Nyx, até que nossos destinos colidam para o fim de uma de nós. - Sumi, e não faço nem ideia do que ela fez depois.
Voltei direto para a montanha, lá, Astarte se transformava em correntes de ferro e se movimentava em quantas direções diferentes eu poderia contar, viu-me e voltou à forma humana.
- Luna, sua idiotinha, por que me deixou sozinha? - Falou brava e me puxou pela gola da roupa.
- Encontrei-me com a Deusa Nyx.
- O que? Como você chegou lá no Círculo da Inveja?
- Não tenho cara de invejosa?
- Cara não, mas você é, claro que inveja os que não têm o Dom, e que vivem com maior simplicidade e paz. Mas quando você tiver controle, eles que te invejarão.
- Sabe, Astarte, ser superior só serve pra uma coisa: Para que os outros te invejem. Eles pensam que é bom ser superior, mas não é, é um fardo terrível a se carregar, você não se encaixa em nenhum lugar, se sente uma estrangeira em um país de língua desconhecida, não importa aonde esteja.
- Isso é verdade, e você sabe bem melhor do que eu. Mas como foi com Nyx? Isso foi um perigo! Não conhece a fama dela?
- Conheço, os livros não mentiram sobre sua extrema crueldade, mas eu fui poupada, ela diz que precisa que eu chegue ao nível dela para poder me absorver mais apropriadamente. Ridículo, não é? Uma megalomaníaca psicótica, e ela é igualzinha a mim. Primeiro me falou que a amizade e os outros não servem para nada, e depois, como uma metamorfose ambulante, falou que eu deveria procurar minha alma gêmea, e que eu buscasse o autocontrole acompanhada dessa pessoa.
- Contraditório, mas ela tem razão quanto a você encontrar um alma gêmea. Mas isso seria exatamente um namorado?
- Sim, ela deixou claro que tem que ser alguém por quem eu sinta desejo físico além de tudo, portanto, um rapaz.
- Ah, você não seria uma lésbica então? Que pena, já ia me oferecer para ser sua alma gêmea. - Ela riu muito, e eu fiquei muito vermelha e sem graça.
- Não não, acho que não, eu não sei, nunca provei nem um nem outro, não Astarte, você não, somos mais que amigas, mas não amantes.
- Eu tô brincando, bobona. Não consigo ver nem eu e nem você com um rapaz. Somos meio castas, não somos? A menos que você esconda desejos ocultos por trás desse rostinho sério.
- Não, juro que não escondo nada, eu não penso nessas coisas.
- Então comece a pensar, a amizade te ajudou bastante, imagine o amor! Mas como procurar? Você vai sair por todas as dimensões do universo testando a energia de cada pessoa do sexo masculino para ver se é sua alma gêmea? Parece um pouquinho absurdo...
- Não sei como fazer, na verdade nem pretendo...
- Volte pra biblioteca para descobrir algo sobre essas coisas de romance, eu vou com você, também quero um namorado. Sabe?
- Mas eu realmente não me sinto à vontade com essa ideia.
- Imagino que não, eu muito menos, mas por que não podemos tentar? O que temos a perder?
- Nada.
E ela me pegou pela mão e nos teletransportamos para a Cidadela dos Leitores.
- Sou eu de novo? - Eu finalmente voltava a ser o Artur, e não estava mais em uma caverna e muito menos nas memórias de Luna, estava naquela salinha infantil, sentado em um bloco cúbico colorido idiota e enorme, ela estava sentada no chão, consciente, Mefistófeles se mantinha de pé entre nós.
- Você viu tudo? Você ainda gosta de mim? - Luna me perguntou com os olhos úmidos.
- Acho que tudo não, a última imagem que vi foi de 1861, quando você e Astarte decidiram procurar por suas almas gêmeas. - Corri e a abracei, agora conhecia parte de suas angústias, pelo menos setenta anos delas, e para mim, ela apenas parecia mais forte, fascinante, profunda.
- Então você não viu minha longa busca que terminou em você?
- Não, mas você, o que viu? - Beijei-a na boca diversas vezes, sem deixá-la responder tão cedo, senti falta daquele gosto de ferrugem. Não se costuma sentir o gosto da própria boca, mas se sente perfeitamente o da de quem se está beijando, um beijo comum tem um sabor parecido com o de potássio, ou algum material quimicamente básico, o dela não, era de ferro ou ferrugem. Ela deixou eu aproveitar aquele gosto e chupar a língua dela por um tempo que talvez tenha sido longo, mas que passou feliz e rápido, terminado, respondeu:
- Uma vida humana comum e vazia, tão sem alegrias quanto a minha, e o mesmo problema que eu tinha de me sentir pior que os outros por ser superior aos outros. Um dia um espírito poderoso me disse que eu não deveria ter vergonha ter vergonha de ser diferente, que o que me torna diferente também me torna superior, e que os comuns e sem brilho nos excluem apenas como forma de tentarem parecer superiores, quando na verdade, é o contrário.
- Certo, já conversaram demais, agora vamos ao treino. Aliás, Astarte te falou que eu sou a alma gêmea dela, Luna?
- Você? - Ela se virou para o ilusionista.
- Sim. Ela veio até nossa cidade, enfrentou a Imperatriz Safo, e tomou o seu lugar, reinvindicando o título de Imperatriz Astarte do Reino das Crianças, embora chamemos nossa dimensão apenas de cidade. Eu era um habitante comum aqui, e não me importei com a mudança, mas quando conheci a nossa nova imperatriz... me apaixonei à primeira vista, fiz de tudo para conquistá-la, e era foi receptiva, foi correspondendo, e acabamos como o casal que somos hoje.
- Você é um pedófilo bem romântico, não é? - Perguntei, ria e achava estranho, por mais que devesse ser natural que dois espíritos eternos pudessem se amar dessa forma independente da aparência de idade, seria difícil me acostumar com a ideia de um casal de oito e uns quarenta anos.
- Sem piadas, rapaz. Você não está em situação para criticar qualquer romance. - Respondeu seco.
De fato eu não estava. Luna, na prática, era velha, nova, homem, mulher, alta, baixa, bela, feia, era de tudo ao mesmo tempo, ou melhor, não era, mas tinha de tudo, porque a Luna de verdade, a garota que guarda os outros seres que nela habitam, essa é menina, baixa, linda, nova. Não amo Lady Blood, o ser composto, amo a menininha, e ainda não descobri se ela é realmente bonita ou se penso assim baseado no meu gosto e no meu amor.
- Me desculpa, senhor Mefistófeles. Você bem que podia me esclarecer uma dúvida. De acordo com as memórias e as palavras da Luna, Belzebu pode dominá-la sem nenhum esforço, mas ela conseguiu te vencer. O senhor é tão mais fraco que Belzebu? Porque a ilusão que você criou agora era inacreditavelmente poderosa e profunda, e eu tremo de pensar que vamos ter que enfrentar alguém que as supere.
- Explicação rápida, eu tenho o dom do ilusionismo muito mais desenvolvido que o de Belzebu, mas os outros dons que tenho para auto-defesa são relativamente fracos, ele possui outras habilidades bem desenvolvidas que o tornam mortífero mesmo sem as ilusões. E segundo, meus outros poderes relativamente fracos ainda são equivalentes aos de Belzebu, eu poderia ter parado e derrotado Luna quando quisesse, mas queria fazê-la voltar ao normal sem violência, ela já havia passado no teste quando teve a ideia de adormecer, não faria diferença se apanhasse de mim depois.
- Você se arriscou, eu poderia te absorver mesmo você sendo superior, se você se descuidasse.
- É verdade, mas não costumo me descuidar, gosto de ver o que as pessoas podem fazer, e vi o que você é capaz até agora. Agora veremos muito mais, pois esse auto-conhecimento não chegou nem a ser a introdução de nosso curso.
E então começou nosso treinamento, eu não devo descrevê-lo com detalhes, pois seria cansativo, repetitivo, massante e irritante, além de redundante e desestimulante. Tudo que ocorria era dentro de ilusões, e na maioria das vezes, em ilusões dentro de outras ilusões, pois em cada uma delas, Mefistófeles tinha o controle sobre o passar do tempo, e assim como vivi parte da vida de Luna em uma apenas uma hora do mundo real, ele podia nos treinar durante anos em apenas um dia real, isso nos dava muito tempo. Não havíamos dito nada sobre minha corrida pela sobrevivência, contra o tempo de minha morte, mas ele com certeza já sabia, pois, mergulhando em nossas mentes e memórias, não havia um único segredo que pudesse ser oculto, aquele era um espírito muito superior.
A primeira parte consistia em contarmos os segundos junto de um cronômetro, primeiro tínhamos que contar olhando para ele, e depois tínhamos que contar tentando reproduzir mentalmente o rítmo do tempo, tínhamos que contar sessenta segundos quando o cronômetro desse sessenta segundos. E à medida que íamos conseguindo, o tempo ia aumentando, e se um de nós errasse, tínhamos que contar novamente, nós dois deveríamos contar perfeitamente igual ao tempo real, na última prova dessa fase tivemos que contar cinco horas, vinte minutos e quarenta e quatro segundos, repetimos dez vezes só essa, a paciência era estritamente necessária, ficávamos muito nervosos, ansiosos, e também furiosos por ter que começar tudo de novo por causa de um segundo de imprecisão. Mefistófeles nos explicou que precisávamos ter uma noção perfeita da passagem de tempo, pois essa se modifica nas ilusões, e portanto essa noção se torna um ótimo meio de se identificar o que é real e o que não é.
A segunda parte consistia no treino do controle do pensamento, Mefistófeles criou um mundo falso em que tudo que imaginássemos se tornasse realidade. A diferença era que lá, qualquer imagem ou ideia que nos viesse à cabeça se concretizaria, isso nos forçaria a controlar todos os pensamentos completamente, um único desvio indevido e poderíamos passar por experiências terríveis. Claro que o professor garantiu de manter as outras consciências de Luna fora desse mundo, isso nos mataria. Deveríamos imaginar situações e objetos pré-definidos porMefistófeles, ele colocava detalhes mínimos a cada um deles, isso tornava o dever extremamente árduo e trabalhoso, se tivéssemos que criar um muro, por exemplo, ele teria que ter certo número de ranhuras, tijolos, rachaduras, falhas, manchas de poeira. Só para que eu conseguisse manter controlar minha mente para evitar criar dezenas de coisas indesejadas, levei vinte dias naquele local de tempo estranho, Luna demorou catorze. Devo deixar claro que minha mente é uma tempestade de devaneios, pensamentos e loucuras desordenadas, um esquizofrênico tem cerca de quase duas vezes o número de pensamentos que uma pessoa comum tem em um minuto, creio que eu passe do triplo, meu cérebro é como uma feira livre, todos andam para todos os lados, não há lógica, ordem, e muito menos pausa. Meus devaneios nunca passam, não sou capaz de manter a mente em branco, esta sempre foi minha maior dificuldade, com o tempo comecei a ter, às vezes, dificuldades para ler ou para qualquer atividade que exigisse o mínimo de esforço intelectual, porque não podia me concentrar, uma vez que meus excessivos pensamentos me levavam para longe, muito longe. Sou um viciado em pensar, em refletir, lembrar, recordar, inventar, pensar sem parar, compulsivamente, impossível meditar, impossível meditar, precisava mais e mais de mais pensamentos, uma enxurrada deles, fazendo sentido ou não, às vezes, seguindo uma velocidade tão rápida que perdiam o sentido e se tornavam como delírios de um esquizofrênico. Vinte dias de esforço sobrehumano, superei meus limites, não tenho dúvida disso, não consegui de fato manter minha mente em branco por muito tempo, mas já conseguia pelo menos controlar o que surgiria nela, não mais haveria imagens nascidas do nada, memórias insistentes, pensamentos obsessivos, fragmentos de divagações involuntárias... Creio que esse tenha sido o passo mais importante do treinamento, me libertou de algo que havia sido como uma doença para mim a vida inteira, uma doença que não me parecia um incômodo ou um problema, mas que era um pesado fardo sendo carregado através dos anos, inimigo da paz, inimigo da tranquilidade que só a mente controlada, sadia e calma tem. Tivemos que criar estátuas, muros, cenas em que pessoas corriam, conversavam, faziam obcenidades, aquilo tudo tinha alguma semelhança com um dos treinos que tive com Bruce Lee, mas posso afirmar com certeza que estes com Mefistófeles eram pelo menos centenas de vezes mais difícil, pois o objeto seria criado da forma que fosse imaginado da primeira vez, e não moldado detalhe por detalhe, à vontade, como antes, então exigia velocidade e precisão de pensamento. Treze dias se passaram com essa parte, a última tarefa era recriar o Coliseu de Roma, não sei como, mas a gente pôde fazer essa tarefa impossível em quatro dias, cada pedra, cada manchinha, cada poeira visível era necessário ser criado com completa perfeição, e o menor dos erros nos obrigava a refazer tudo. Exaustivo, mas útil, o passar lento do tempo nos permitia demorar o quanto quiséssemos, não existia pressa naquele universo alternativo à parte de tudo que existe.
Acho que exagerei no tamanho do último parágrafo e repeti vezes demais a palavra "pensamento" e "mente", mas o fato é que não existem palavras que sejam realmente sinônimo para essas duas, existem algumas de significado parecido, mas não igual, não realmente. Devo também esclarecer o que quero dizer quando falo "nós fizemos" nesse processo de desenvolvimento das faculdades espirituais: Cada um de nós deveria criar o que era pedido individualmente, mas se um dos dois errasse, os dois deveriam repetir a tarefa até os dois fazerem corretamente.
Apenas o começo, depois veio a terceira parte do treinamento, devo admitir que essa era mais fácil que a anterior, ainda que muito difícil. Mefistófeles criava chapas finas paredes de vidro, e devíamos, com pancadas de contato, ou através do dons, rachar de tal maneira, de certa maneira, de forma a gerar rachaduras em formas pré-definidas pelo professor, isso no começo, pois à medida que íamos avançando, precisámos fazer imagens cada vez mais complexas, verdadeiros desenhos, obras de arte de rachadura. Para isso necessita-se um controle absoluto sobre a própria força, intensidade, direção, Mefistófeles exigia exercícios em vidros de todas as grossuras, alguns muito grossos e difíceis de rachar, e outros muito finos, que exigiam demasiado cuidado para serem rachados sem se quebrarem totalmente. Muito cuidado, extrema atenção, controle total, era esses os requisitos necessários para passar por esta prova, e demoramos nove dias para conseguir cumpri-la corretamente, pelo menos não precisámos repetir tudo se nosso companheiro errasse, fase individual.
Quarta fase, assustadora, absurdamente árdua de se enfrentar, eu diria que até o momento foi a maior dificuldade pelo qual passei tanto na vida espiritual, quanto na física. Prova individual como a anterior, cada um de nós tinha os olhos vendados e os ouvidos tampados, assim, perdíamos completamente a visão e a audição, e então tínhamos que atravessar um labirinto cheio de perigos e armadilhas. Eu tinha que me mover apenas sentindo os obstáculos e tudo que lá havia, precisava alcançar um nível altíssimo de sensibilidade, pois no caminho haviam serpentes venenosas, pêndulos cortantes, espinhos perfurantes, fogo, lava, prensas que vinham do nada e esmagavam qualquer coisa, e cada vez que uma dessas coisas me matava, eu sentia a sensação de morrer e era "reiniciado", a ilusão voltava ao início e eu tinha que seguir o caminho inteiro novamente. Na verdade eu não cheguei a ver as ameaças que lá existiam, mas creio ter sentido cada uma na pele: cortes, picadas, queimaduras, perfurações, esmagamentos, pancadas de todo tipo, explosões, envenenamentos... Morri centenas de vezes, era quase impossível sentir todos os obstáculos, na verdade, até o mais simples eram difíceis de se sentir, e mesmo se sentidos, difíceis de serem evitado. Mas... quanto mais eu eu era morto, mais sensível e me tornava, e a cada morte, eu aprendia algo novo, e conseguia perceber melhor aquilo que me havia matado, eu começava aos poucos a enxergar com os olhos do espírito, isto é, ver sem abrir os olhos, ver sem ter visão, sentir no local de ver, uma espécie de sexto sentido muito difícil de se explicar. Afinal, conseguia aos poucos essa visão especial, e começava a poder "enxergar"(sentir) muitas das ameaças que se encontravam no meu caminho, com o tempo, eu conseguia sentir tudo e pude sair do labirinto. Em troca, morri mil e sete vezes, e passei trinta e dois dias tentando, a sensação de morrer é horrível, e senti-la mais de mil vezes é uma provação que não pode ser enfrentada sem recompensas à altura, eu as tive, agora meus olhos dos espírito estavam abertos. Não sei como Luna se saiu exatamente, só sei que ela terminou oito dias antes de mim, tão sensível.
Como pode ser de se imaginar, a última fase, que foi a quinta, seria uma prova prática contra a ilusão. Coletiva, eu e Luna éramos lançados dentro de ilusões e mais ilusões, precisámos a quaquer custo perceber o que era real, e o que não era. Às vezes afundávamos em até dez níveis de distância da realidade, despertando de uma ilusão e indo para outra, não sabíamos onde estávamos, se havíamos conseguido, se quem nos acompanhava era de verdade ou não. Era um labirinto de mundos semelhantes ao verdadeiro, mas sempre havia algo, um detalhe ridículo que podíamos perceber para identificar a ilusão, uma linha a mais na roupa de Mefistófeles, por exemplo. Mas elas não só nos prendiam, mas nos confundiam, e como era conjunto, as falsas impressões dela me atrapalhavam, e vice-versa, um vórtice de delírios e mentiras, muitas mentiras, compartilhadas uma a uma, todas com todas, tempestade de loucura e insanidade. Era um complexo quebra-cabeça, cada mundo uma peça a ser montada, e uma vez que você encaixasse algo errado, tudo se desfazia para ser feito novamente. Não havia a mínima noção de tempo, quanto conseguimos identificar as ilusões com maestria e passar pelo teste, Mefistófeles disse:
- Dois meses e sete dias, ótimo tempo.
Apenas me joguei no chão, exausto, completamente exausto, foram meses de treinamento incessante, de sofrimento, provação, que exigia o mais absoluto empenho e esforço, e destilava as forças da forma mais austera, mas devo admitir, eficaz. Luna se sentou ao meu lado e acariciou o meu rosto, falou com voz doce:
- Muito bom, meu amor, parece que conseguimos. - Me encheu de beijinhos na nuca, tão gostosinhos. Ah, os lábios delas pareciam bem mais macios agora, me virei e puxei o rosto para poder beijá-la apropriadamente, enRoscar nossas línguas da forma mais agradável.
- Que indiscretos, levantem-se, temos assuntos importantes a tratar. - Mefistófeles encostou em mim com a ponto do pé, me soltei de Luna e me levantei, ela fez o mesmo, parecia tão bem humorada.
- Ainda não estamos prontos, senhor? - Perguntei.
- Sim, estão, os últimos meses foram dedicados à certificação de que vocês de fato estão prontos. Mas tem só uma coisa que eu gostaria que vocês me desse em trocar dessas lições.
- O que?
- Matem Belzebu e sua horda por mim, irá me deixar muito feliz ver aquele cretino abandonar o nosso mundo de uma vez por todas.
- Pode ter certeza de que iremos fazer isso. Nada como ler a mente de alguém, não é?
Eu me sentia tão mais confiante, era como se fosse outra pessoa, uma pessoa forte, decidida, não era mais o Artur passivo do início do relato, não, aquela experiência me transformou, tanto me tornar Luna, quanto passar pelos testes de Mefistófeles.
- É uma habilidade muito útil, Luna tem, mas só consegue ler os pensamentos imediatos dos mais fracos, tipo você. - Denunciou.
Virei-me para ela: - Por que nunca me falou?
- Eu não leio, prometo. - Cruzou os dedos.
- Não?
Eu não estava bravo, apenas incomodado com o fato dela ler minha mente e eu não saber. Mas afinal, que pensamento meu poderia ser vergonhoso para ela? Não éramos como um só, mesmo? "Na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe".
- Não, não faz muito sentido ler a sua mente, só leio se eu precisar saber de algo que a pessoa esconde. Você não esconde nada de mim, tenho certeza. Como poderia?
- Não poderia. Podemos ir embora, vamos. - Esqueci o assunto, sem importância, que se danasse. Nos despedimos respeitosamente de Mefistófeles, eu até o abracei, me senti um pouco idiota, mas não incomodou, Luna só deu um aperto de mão, mesmo sendo uma menina, eu era mais amigável. Onde está escrito que homens não podem abraçar outros homens sem serem gays? Acho isso uma intolerável tolice, se estou seguro de que não sou gay, não estarei sendo por causa de um abraço, mais parece que os machões acham que vão se sentir tentados ao abraçar outro macho e então se tornarão homossexuais. Fomos embora para minha mente, onde estaríamos refugiados e protegidos, me sentei com ela naquela grama que parecia mais verde e viva do que das outras vezes, talvez fosse o resultado de minha evolução, possivelmente, também da dela.
- Eu vi o que ele te fez, agora que estamos treinados, já podemos ir matá-lo. - Falei determinado.
- Está falando de Belzebu? Não podemos ir direto nele, primeiro os escritores devem morrer.
- Claro, para ele eu reservarei algo especial, mas não é dele que estou falando, falo do Marquês de Sade, ele te... - Não pude falar, o sangue subiu aos meus olhos só de pensar. -Você sabe, ele deve sofrer da forma mais lenta e dolorosa que pudermos pôr em prática, sejamos sádicos, e que ele sinta a ironia do nome na própria carne.
Um novo eu, tinha um novo eu, tornei-me uma pessoa completamente diferente depois da temporada anacrônica com Mefistófeles, eu era tão fraco, agora me sentia tão forte, tão corajoso, como se nada no mundo pudesse me impedir, me amedrontar, o temor à morte espiritual não fazia mais parte do meu espírito, pelo menos não por enquanto. O terror de uma existência como Sade poderia causar tremores até no coração de Luna, perder nas mãos dele seria muito pior do que ser derrotado por qualquer outro, resultaria em incontáveis sofrimentos que só uma imaginação completamente monstruosa poderia conceber. Dor, eu não devia temer a dor.
- Não! Ele é o mais forte dos Sete Escritores, muito mais forte que os outros, precisamos ir atrás de Marcos Rey e Eurípedes antes, mas estou um pouco ansiosa para matar Eurípedes, pois eu preciso perguntar pra ele como ele me conheceu. Eu preciso saber, Artur, preciso saber o que ele viu quando me viu na forma monstruosa, se é que ele viu, e o que acontecia. Rey e Sade ficam para depois.
- Sade é tão forte assim? Tá bom, Luna, vamos até Eurípedes. Sabe onde achá-lo? Em qual lugar daquela lista?
- Não, acho que é no Abismo dos Condenados, mas não serei imbecil de ir lá sem ter certeza. Cadê o Samael? Não devíamos chamá-lo para nos dar uma ajuda?
- Devíamos. - Chamei-o mentalmente, alguns segundos depois ele estava sentado próximo a nós.
- Então, como foi, minhas crianças queridas?
- Foi ótimo, agora nos ajude a encontrar o poeta Eurípedes.
- Vocês irão até Marcos Rey primeiro, quanto a esse eu tenho certeza, está no Grande Templo Subterrâneo, eu consegui informações confiáveis com meu amigo Bertrand Russel.
- Bertrand Russel? Você é amigo desse gênio?
- Sou sim, eu o considero o segundo melhor intelecto da história ocidental, um dos poucos britânicos que respeito. É um espírito muito evoluído, tão poderoso quanto Aristóteles, tem o dom de ver em vários lugares ao mesmo tempo, como é meu amigo, me ajudou a vigiar esse Marcos Rey, que morreu faz pouquíssimo tempo. Ele era um escritor policial brasileiro, escreveu muita coisa pra jovens. Já leu, Artur?
- Já, muitos livros dele, é meu autor favorito, O Rapto do Garoto de Ouro, O Mistério do Sete Estrelas, Quem Manda Já Morreu, Dinheiro do Céu, Um Gato no Triângulo.
- Leu, não precisa falar a bibliografia completa , e daqui em diante eu só me comunicarei por vocês via telepatia, não aparecerei pessoalmente.
- O que? Por que? Você não devia me proteger, “guardião Samael”? – Perguntei surpreso, não temia nada, mas ele era útil, era um anjo, era um apoio muito forte e necessário.
- Não deixaria de proteger você. Sou seu anjo da guarda, Luna vem de brinde. Eu irei informá-los, estarei mentalmente acessível quando quiserem, o sistema de antes ainda está de pé.
- Mas e se Belzebu vier até nós em um local de desvantagem e antes de estarmos prontos? O que fazemos?
- Respire fundo e sorria, criança, só disse que não aparecerei, mas vocês nem me deram tempo de falar que caso estejam em perigo de vida iminente, eu apareço e ajudo. Em emergências, exceções são abertas, vocês sabem como é em qualquer sistema do mundo físico, e aqui não é diferente. Essa é só uma medida de segurança para fazer com que pareçam mais inofensivos, embora seja difícil crer que a Luna possa ser vista como inofensiva, e você, Artur, está se desenvolvendo, e já não é aquele menino confuso que obedecia tudo que ela dizia, agora você pode quebrar os obstáculos por si só, mas ainda assim, é ela que tem o dom, então não se superestime demais.
- Ela é a Luna, eu sei que ela é superior a mim por natureza. O que fazer?
- Bobagem, você tem mais potencial do que imagina, a diferença é que ela não tem limites, pois pode até mesmo te absorver e roubar todo o seu potencial para ela. Tchau para vocês, corram para o Grande Templo Subterrâneo para pegarem Rey.
- Não vai, estive calada o tempo todo, mas já disse que quero Eurípedes, e você vai nos levar primeiro até ele! – Ela gritou e avançou para ele, olhando-o de baixo para cima, tão pequena diante do árabe imenso. Ele encarou de volta com típico desprezo e sumiu, deixando um papel com instruções para chegar ao Grande Templo Subterrâneo. Luna gritou um xingamento qualquer na língua dela e voltou para mim. – Eurípedes primeiro, por favor. – Seus olhinhos castanhos brilharam com mais luz que de costume, estava se submetendo, implorando, se fazendo o mais frágil que podia, ainda que não o fosse realmente.
- Não. Quanto tempo você acha que a gente demora com o Marcos Rey?
- Mas eu estou ansiosa, muito ansiosa. – Me abraço na altura da cintura, inclinada e meio caída, apoiando seu rosto na minha barriga, me olhando com aquele castanho pidão.
- Não. – E ergui para poder beijá-la, mas resisti a tentação, sem tempo. – Vamos para o Templo, me afastei e fui pegar o papel. Ela me seguiu e tomou-o de minhas mãos, o castanho brilhante já estava ficando levemente avermelhado. Raiva? Sim.
- Eu... tenho que... ter paciência, não é? Certo, estive bem controlada até agora. Por que jogar tudo no lixo? Desperdiçar o esforço já feito? – Segurou minha mão e fechou os olhos. – Só confie em mim, vamos.
Obedeci, eu não duvidava de sua palavra, fechei os olhos e, logo, nos teletransportamos
Estávamos em um deserto sem areia, extensões ilimitadas de terra dura e seca, uniforme, com apenas um detalhe que não tornava o local um mero vazio completo, e esse detalhe era uma grande pirâmide com aparência semelhante às das egípcias. Tinha a altura de um prédio de pelo menos vinte andares, um grande portal enfeitado come esculturas de deuses na pedra era a única entrada. Arte grandiosa e surpreendente, as imagens pareciam ter vida, diversas situações que gritavam em formidáveis expressões, Tupã mandava seus relâmpagos para a terra, Manitou soprava seus ventos eThor ia buscar seu martelo de volta vestido de mulher e acompanhado do irmão Loki. Deuses do Ocidente! Esquecidos em todos os países com o advento do cristianismo, no entanto, tão reais quanto sempre foram, espíritos antigos, poderosos, diversos. Fiquei impressionado com o ar divino que as esculturas tinham, demorei a entrar, mas ela me puxou para dentro, apressada. Descemos uma longa rampa diagonal, chão de terra batida e vermelha , iluminação feita por algumas lâmpadas fluorescentes no teto. Que local moderno! Depois da descida chegamos no que seria a cidade daquele plano, dezenas de construções e pessoas dentro de um mundo subterrâneo, tudo iluminado com aquele mesmo tipo de lâmpada que parecia ter vida útil ilimitado! O povo subterrâneo era exatamente como os da superfície, ao contrário do que alguns autores famosos já afirmaram no passado e ainda o fazem no presente.
- Aldo, o reconheceria?
- Sim, nunca esquecerei o rosto dele.
Saímos pedindo informação, não conseguimos nada, Marcos Rey não era famoso ou conhecido no local, isso se ele realmente estivesse lá. Questionei Samael telepaticamente sobre aquele ser o local correto, ele confirmou, e me disse para procurar nos bares. Mais informações pedidas aos cidadãos, nos orientaram a localização da maior concentração de bares da cidade, ao norte, lá, ficamos procurando face à face, mas o fato é que só eu procurava de fato, só eu conhecia as feições de Marcos Rey. E se ele tivesse mudado? Morrera há menos treze anos, dificilmente teria mudado tanto em pouco tempo, se eu me enganasse, a busca seria demasiadamente difícil e demorada.
Alguém pegou no ombro de Luna, ela se virou, e eu fiz o mesmo ao perceber sua reação, e vimos um jovem com vestes medievais, longos cabelos loiros, um nariz enorme e horrível, queixo pontudo, alto e de olhos azuis que expressam uma certa insânia.
- Quem é você? – Perguntei antes de minha companheira abrir a boca.
- Sou o Deus Thor, não moro aqui, mas não pude deixar de perceber o poder formidável que você tem, menina do oeste. O que faz no Grande Templo Subterrâneo?
- Você é algum guarda e está achando que arranjarei encrenca, é isso, Thor? - Ela perguntou.
- Eu? Estou só de férias, só gostaria de falar com você, que parece uma pessoa curiosa. Por que não me conta o que está procurando aqui?
- Isso importa? O mundo espiritual não é como um país ditatorial, eu não deveria precisar de permissão para andar onde quer que eu ande!
- E você nem é Thor, cadê seu martelo? – Provoquei-o.
- Sua energia é estranha, incomum, é normal que espíritos superiores, deuses como eu abordem espíritos como você, é um meio de saber como está aqui no meio, pois lá em cima, não há nada que possa servir de parâmetro para pensar nesse plano. Deixei meu martelo lá em cima, é inútil nesse andar inferior.
- Não entendi nada que você disse.
- Artur, ele está dizendo que gosta de falar com espíritos especiais do plano do meio, já que ele, um espírito do Céu, não pode saber como está aqui tendo apenas os conhecimentos do céu. Basicamente, ele quer me usar como o parâmetro para o mundo impuro. É isso, Thor?
- Acertou. Qual é seu nome?
- Respondo se você me levar até Marcos Rey. Sabe quem é?
- Não, não sei, mas posso descobrir, só que seu nome não é pagamento o bastante pelo serviço.
- Vocês, deuses do paraíso, negociam com ralé como a gente? Isso frustra meus velhos princípios cristãos – Ela suspirou sarcasticamente. – O que quer?
- Sabe, se um Deus Superior se corrompe com pecados como o assassínio ilegítimo, a pureza que há nele é maculada, mas se ele mandar alguém matar no lugar dele, for apenas o mandante, a mancha é muito menor. Vocês sabem que quanto mais um deus do Paraíso comete pecados contra A Lei, mais chances ele tem de perder seu poder de Deus do Paraíso e virar um espírito comum ou demônio.
- O que é A Lei? – Perguntei.
- Artur, A Lei é o que os cristãos chamam de Deus, os egípcios de Neter e os materialistas de Leis Naturais. A Lei é o princípio de todo o universo, é um conjunto de leis que não podem ser quebrados, é ele que rege o Contrato, que define que corpo um espírito irá reencarnar, que define quais são os dons que um espírito terá quando sua existência se iniciar, é ele que impede que demônios e Deuses do Inferno subam aos céus e anjos e Deuses do Céu ao Inferno. Só para que não me pergunte, a diferença entre Anjo e Deus do Céu é apenas a hierarquia, o mesmo como Demônio e Deus do Inferno, mas essa definição não é por poder real, mas sim por poder político, geralmente quem tem um Domínio, um local onde governa, é chamado deus. Ninguém nunca compreendeu a lei, e é impossível compreendê-la, pesquisá-la, ela é apenas o princípio de todas as coisas, nem se sabe se ela tem vontade própria ou é apenas a definição natural e estática de tudo que existe já existiu.
- Ela definiu muito bem, não há porque se aprofundar mais na explicação de um assunto que ninguém sabe explicar. Mas nada disso importa, o importante é que entrego Marcos Rey para vocês em troca da morte do espírito de George Bush, presidente americano que morreu faz alguns dias.
Sorri com todo o meu coração e comecei a rir. Aquele chimpanzé cretino que se dizia político tinha morrido? Que felicidade para os vivos, que tristeza para os mortos! - Do que ele morreu?
-Olha, foi bem engraçado. - Ele também riu. -Parece que ele foi na zona escondido para se prostituir com travestis, ele escolheu um bem negro e alto, foi com ele até um motel, com sigilo total, mas morreu na hora do sexo, parece que foi uma hemorragia à qual ele não sobreviveu, vocês devem imaginar porque. - Soltou a gargalhada quanto terminou de contar, e eu fiz o mesmo, era completamente hilário. Morte digna de um cretino!
- Mas é sério essa história? Ele realmente morreu assim? - Mal conseguia falar de tanto rir.
- Sim, a melhor parte é que é verdade. Bem, a verdade é que ele foi um espírito imundo e irritante antes de encarnar, ele me incomodou muito antes de ir para a Terra, já me agrediu, insultou dezenas de vezes, guardava rancor, mas me conteria, mas depois de ver as porcarias que ele fez na Terra, aí não. Ele tem que morrer! Não é mais só pessoal, é um bem pra humanidade! Esse primata balbuciador não pode continuar existindo.
- Tem mesmo. Vamos fazer um contrato. - Adicionei, estava feliz pela chance de matar o George W Bush filho, o pior presidente da história dos Estados Unidos da América.
Eurípedes
- E olha que eu não queria fazer o contrato com você, queria com a garota, foi por isso que a chamei, ela parece a pessoa mais forte por aqui, mas você pode fazer o serviço ao invés dela, o Bush não exige tanto poder.
- Cretino, você está me chamando de fraco?
- Perdoe. Dá pra interpretar assim né? Só que eu não te chamei de fraco, apenas falei que a menina é muito mais forte, mas que isso não faz diferença, pois tanta força não é necessária para dar uma lição no macaquinho Bush.
- Olha, Artur, vá fazer isso sozinho. Não quero assinar contrato com esse rapaz, vamos nos separar, eu vou atrás do Marcos Rey sozinha, e você vai matar o Bush. Se eu não conseguir achá-lo antes de você matar o ex-presidente, nos reencontramos com Thor para que ele nos guie.
- Muito razoável, então vá logo, devemos economizar tempo.
Nos despedimos com um daqueles beijos que tanto aprecio, e ela foi andar pelo resto da cidade. Thor criou o contrato com dois locais para assinatura, me entregou para ler. Justo, eu tinha que matar Bush após ele me indicar a sua localização, então ele teria que me levar até Marcos Rey assim que exigisse, caso contrário, ele literalmente viraria pó. A dura Lei me dava a liberdade de matar Bush ou não, caso não o fizesse, não seria punido, mas não receberia nada de bom em troca.
Ele assinou com o nome de Loki, e foi aí que percebi que ele realmente não era Thor, assim como eu supunha. Loki, enganador e mentiroso, se não fosse o funcionamento infalível do Contrato, eu teria certeza de estar sendo passado para trás como o mais perfeito idiota.
- É, eu realmente não sou Thor, mas isso não faz diferença.
Levou-me até Bush, ataquei, naturalmente, com meu dom, aqueles tantas formas de energia que serviam para bater nele. Bati, soquei, soquei, não eram exatamente socos, mas porretadas, marteladas, algo assim, e ele gritava indefeso, achei um tanto arriscado a forma como fazia isso na frente de todo mundo, mas porém a multidão apenas olhava. Pude ouvir alguns risinhos, não era só eu que desprezava Bush, eles sabiam que ele era. O ex-presidente gritava e se debatia, falava tolices sobre perdão, sobre ser inocente, ter sido fraco e apenas cedido aos interesses da maioria. Maioria o diabo! Fiz questão de bater pelo maior tempo possível, fazê-lo sofrer o máximo antes que morresse,bati, bati, e bati até seu rosto e membros ficassem esmagados, com ele ainda vivo, e então terminei, batendo no peito até que o coração fosse destruído. Creio que Bush tenha sentido muita dor durante sua execução, o fato é que agora ele está morto, e sinto que fiz um grande serviço pela humanidade.
Chamei Luna mentalmente, e fui falar com Loki, era a vez dele cumprir sua parte.
- Vai esperar a menina ou devo falar logo?
- Fale, mas assim que ela chegar, leve-nos até ele.
- Ele está em restaurante dessa cidade, o “Rest In Paece”, o dono é um famoso político americano por quem tenho muito respeito: Abraham Lincoln.
Luna chegou correndo, pegou na minha mão e já perguntou: - Onde?
Loki riu e chamou-nos para que o seguíssemos, dentro do restaurante, vi algumas figuras conhecidas entre a multidão de desconhecidos que matava sua fome com culinária de fast-food. Muanmar Kadafi, ditador da Líbia que ainda estava vivo quando entrei em coma, Marlon Brando, grande ator, Milton Friedman, o liberal. Fora esses, o único conhecido era Marcos Rey, que se enchia com algum suco de coloração amarelada, certamente de maracujá, pela pressa com a qual bebi, imaginei que estivesse muito saboroso. Sentado na mesma mesa que ele havia um jovem que chorava com o rosto metido na mesa, fazia muito barulho e se lamentava de forma de difícil compreensão, pareciam as lamúrias de um amante frustrado.
- Olá, Marcos Rey. – Luna o cumprimentou, pegando em seu ombro, sorrisinho falso e cínico no rosto.
- Estamos todos querendo desistir, eu te dou a informação que você quiser, no fundo, Eurípedes e Sade sempre foram os únicos completamente fiéis a Belzebu.
- Está dizendo que não fará nada contra mim? Que apenas irá entregar seu chefe?
Eu ouvia a conversa atentamente, com certa suspeita. Ele não temia o que uma traição a Belzebu poderia significar? Não, em um instante vi que Marcos Rey estava de pé a alguns metros do local onde eu acreditava que estivesse, e Luna o absorvia o meu escritor favorito implacavelmente. As pessoas no bar fugiram todas, exceto o garoto que chorava, levantou os olhos, olhando curioso para Luna.
- Demorei para ver a ilusão, só percebi quando você o atacou. Ele nos mataria enquanto pensávamos que ele estava se rendendo.
- Sim, os escritores só são fortes quando usam ilusões, se as quebramos, se tornam inúteis. A verdade é que o grupo de Belzebu é fraco, mas são covardes, e atacam onde há vítimas indefesas e frágeis, uma vez que não possam lidar com uma “Lady Blood”.
- Me magoa ver meu escritor favorito se tornar isso.
- Tá, agora vamos atrás do velho Eurípedes. – Deu alguns passos na direção da porta, mas, antes de sair, virou-se para o lamentador. – Por que você não fugiu?
- Eu não tenho o que temer, não tenho o que perder! Me mate de uma vez, acabe com minha dor!
- Por que não? Você é idiota? O que acha que vale mais que a própria vida? É isso que você tem a perder.
Acompanhei-a, observando silenciosamente a conversa que se desenrolava.
- Por que eu iria querer viver sem a mulher que amo?
- Oras, ela sofreu morte espiritual?
- Não, ele ainda vive, eu me matei por ela.
- Não me faça rir, idiota. – O castanho se manchava com uma expressão forte de nojo. – Conte-me como, agora fiquei curiosa.
-
- Poesia na forma de falar, sintoma infalível de amor, o mal de todos os tempos que todo ser vivo deseja sentir, o mal sem o qual a vida parece vazia e sem sentido. Antes que eu vá embora. Qual é o nome dela?
- O mais estranho é que eu não me lembro.
- Está de brincadeira comigo, rapaz? Já perdi muito tempo, fale.
- Não sei. – Respondeu novamente, voltando a esconder o rosto. Luna deu um intervalo e pegou na minha mão.
- Vamos embora, ele não está mentindo.
De volta à grama macia da minha mente, sentados de mãos dadas, apenas uma pausa.
- Luna, você ainda sente aquilo? – Perguntei, havia muito tempo que queria ter feito isso, seria muito desagradável para ela falar, mas tinha que saber, necessitava a qualquer custo saber se aquele sofrimento indescritível por palavras latinas ainda a acompanhava
- Sim, tão ruim quanto sempre foi. A diferença é que agora eu tenho você, e a alegria de ter comigo é um peso contrário na balança do sofrimento, que diminui o peso absurdo que meu dom me obriga a carregar, esse fardo maldito.
Desesperei-me, ainda não descrevi a tristeza que essa dúvida estava me provocando desde que havia vivido a vida dela, agora, a certeza era pior, era um prego no meio da testa com as palavras “Como ser feliz sabendo da infelicidade absoluta de quem você ama?” Nessa hora as palavras de Nyx para Luna vieram de brinde, tão bem coladas quanto o pensamento anterior, sem dúvidas, quanto mais pessoas você amar, mais rico você corre, e pior se esse amor for muito intenso e verdadeiro. Tão verdadeiro a ponto de dividirmos com maestria aquele sentimento trágico.
- Que droga. – Tive que abraçá-la com todas as minhas forças, beijá-la com todas as minhas paixões e acariciá-la como se não o pudesse fazer nunca mais. Não estava macia, às vezes sua pele era áspera, rígida, às vezes delicada e suave, mas mudanças são tão naturais!
Felizes agarramentos interrompidos pela necessidade de pressa:
- Eurípedes está no Abismo dos Condenados, vamos agora, prepare seu espírito, não será uma experiência agradável para nenhum de nós. Você precisa ter certeza de que esses serão os piores momentos da sua vida até agora, lá é o Inferno que a cultura ocidental imaginou, é o local mais baixo do universo.
Consultei o meu anjo da guarda mentalmente, ele respondeu: “Vão para o Abismo dos Condenados, Eurípedes está lá caçando almas com dons extraordinários, procurem a energia menos densa, porém mais intensa, o detentor dessa natureza será o alvo.”
- É comigo, você sabe que eu conheço bem o Abismo dos Condenados, você aprendeu isso na pele.
Entrelaçamos nossos dedos um nos dos outros, e ela me levou para lá.
Minha respiração e circulação diminuíram, todos os sentidos foram enfraquecidos, exceto o tato, senti-me entorpecido, enfraquecido e envenenado, aquela atmosfera densa e visível infestava tudo, flutuando por cima dos condenados que se arrastavam, dos que, de pé, procuravam desorientados e em vão por qualquer esperança para se agarrarem, não havia esperança, apenas luzes fraquíssimas que tornavam o Abismo dos Condenados o perfeito cenário para uma tragédia das mais trágicas e infelizes.
- É difícil respirar aqui. Quando estive no seu papel, o lugar em si não parecia tão ruim.
- Quem prefere mergulhar no esgoto? O mendigo que nunca tomou banho ou o higiênico burguês que tem uma banheira com pétalas de rosa?
- Você agüenta imundícies melhor que eu, é só o que você quer dizer.
- É. Vamos procurando.
Tropeçava em pessoas, agora eu percebia o verdadeiro horror daquela dimensão decadente, não estava na pele de um espírito para quem tudo aquilo pareceria um lar razoável, estava na minha própria, era pesado, não senti medo, mas me senti fraco, fraco por reagir tão mal àquele ar contaminado dos mais detestáveis sentimentos: ira, inveja e tristeza. Luna rastreava pelo tipo de energia que seria raro naquele lixão de vidas, o tipo intenso não denso, o leve e superior. Tenho certeza de que o melancólico Eurípedes não viria a ter natureza leve e superior, só que não é de se duvidar que mesmo um mortal no seu mais profundo estado depressivo pareceria uma balão de leveza e felicidade naquele lugar. Nenhum pecado levava àquele Inferno, apenas a fraqueza, os maus sentimentos, a estupidez, ignorância, aquele mar de angústia não havia sido construído a partir dos que mais cometeram atos cruéis e imorais, os verdadeiros vilões estavam nos outros planos. Bem, Hitler estava na Luna, e esse pensamento me assustou um pouco no momento em que o lembrei. De certa forma, quando a beijava... não estaria beijando Hitler também? Não, a boca era dela, ainda que ele fizesse parte da sua consciência, e quando o corpo de minha companheira deixava de ser completamente dela, porque a criatura passaria a ser Lady Blood, e eu, sem dúvidas, não a beijaria, uma vez que Lady Blood não é a minha Luna que amo Devaneios estúpidos vindos em uma mente temporariamente ociosa, ela guiava tudo nessa ocasião, não havia nada para que eu fizesse, não sou o sensível a energia, não sou eu o rastreador, a pequena buscava como um cão policial, cheirando as pistas e busca dos odores que denunciam o crime e a culpa. Euripedes seria culpado, a sensibilidade era o principal sentido de Luna, uma das vantagens de seu dom, não faria a mínima diferença se todos os outros sentidos estivessem debilitados, mas ainda assim, creio que só eu estivesse nesse estado inferior de percepção, eu que ainda não tinha a resistência necessária para andar pelo Abismo dos Condenados como quem anda em uma praça pública em uma manhã qualquer.
- Estamos chegando perto, não fale nada, ele nos sentirá, mas é preferível que não nos ouça.
Acelerou os passos curtos, finalmente vi o vulto em meio àquela névoa esquisita, ela se afastou de mim e vi tantos flagelos quanto meus olhos podiam distinguir. Eurípedes atirou algo contra os flagelos, algo escuro e grande, e não faço idéia do que era, esse algo se converteu em sombras que tomaram tudo, tudo ficou escuro, e nos encontramos lado a lado naquela absoluta escuridão, os três no meio do absoluto nada, não era vácuo e nem vazio, era realmente nada.
- Eurípedes, esse é o seu jogo?
- Não, isso não é uma ilusão, eu nos teletransportei à força para a Dimensão do Nada, aqui não existe a noção do tempo ou do espaço, não quero que nossos demorados assuntos alterem o tempo lá fora. Aqui é tão especial, que se ficarmos mil anos aqui, não terá se passado um segundo nos outros mundos, mas se eu criar uma ilusão aqui, o tempo da ilusão irá se passar equivalente ao tempo do resto do universo, e não em relação ao daqui, pois o tempo da Dimensão do Nada simplesmente não existe.
- Me fala porque você escreveu aquilo sobre mim! Por que Lady Blood? O que você viu, covarde? – Luna agarrou o pulso esquerdo com a mão direita, os olhos já estavam com uma coloração próxima da do sangue, mas ainda mantinha traços do castanho original, estava furiosa.
- Luna de Arezzo. Vou contar a minha história completa para que entenda o meu lado e não me julgue dessa forma preconceituosa e grosseira que está fazendo agora.
- Então conte, vergonha da cultura clássica! - Ela não foi em tudo sincera, lera algumas tragédias do poeta grego, e as havia apreciado absolutamente, e eu tinha essa memória viva em mim após viver como ela por tantos inexistentes tempos. De certa forma, era honroso e lisongiador ter um artista tão completo como adversário, Que outro homem seria digno de ser chamado "O Mestre da Tragédia"* Fala-se de Sófocles como o supremo expoente da tragédia grega, mas o que é o seu Édipo Rei diante da grandiosidade da Medeia de Eurípedes* O que representaria o assassínio do pai e o coito com a mãe, se tais delitos são cometidos por um grande engano, quando comparados ao homicídio deliberado de uma mãe ciumenta contra os filhos por pura e egoística vingança* Diante de um artista tão valoroso, tanto ela, quanto eu, sentíamos uma espécie de orgulho. Inimigos fortes são sinal de semelhante força! Ouvimos a sua história, seu tom grave e trágico contagiava com uma melancolia desagradável.
- Fui o melhor poeta de minha época, fui o primeiro a perceber o quanto o teatro se limitava abaixo das reais possibilidades que poderia alcançar, se prendendo à nossa arcaica religião, aos padrões sociais e morais aristocráticos, ao ponto de vista cristalizado e tradicional. Eu percebi que a situação estava incorreta, como até hoje está em muitos outros pontos, eu escrevi mais do que qualquer outro contemporâneo meu, pois implantei uma profundidade nunca antes vista, em minhas obras, muito menos caricato, simplório, muito mais sincero, verdadeiro, sentimental. Por minha coragem, não fui realmente reconhecido com o devido valor que merecia, e ainda fui ridicularizado por tolos que se achavam donos da razão, na verdade, a maior parte da sociedade era muito limitada, por isso não tive muitos amigo e preferi falar pouco a ter que conversar com gente que não valia a pena. Azar o meu não ter nascido na época de Sócrates, quando esse sábio iluminava a mente dos de mente pequena. Quando morri, fui direto para o Abismo dos Condenados, e lá sofri muito, devo admitir que minha exacerbada melancolia me lançou diretamente a este recinto infeliz, no começo estive profundamente desesperado, manchado em todo o éter de uma amargura desperançosa. Esse triste sentimento era irracional e me tornava cego diante de atitudes que seriam as mais naturais e corretas, de procurar uma saída, tentar entender a minha situação e como eu poderia resolvê-la, eu acredito piamente que esse seja o sentimento de toda alma que após a morte física é enviada para o Abismo dos Condenados, ninguém lá raciocina, são meros animais. Mas acabei tomando caindo em mim, estava morto, no Hades, que nem os mitos teriam dito, mas eu não queria acreditar nos mitos e na religião do povo, e me forcei a sair de lá, consegui me teletransportar o primeiro local encontrável, a Cidade das Encenações. Cidade maravilhosa onde a maior parte da população era, e ainda é composta de artistas dramáticos, atores, estudiosos e poetas. Lá conheci Pandora, a criatura que provocou todos os males do mundo naquele conhecido mito, mulher trágica, mulher maravilhosa, difamada por essa história de doutrinação, tudo que Pandora fez foi pregar a esperança aos que sofrem, e dizem que esse foi o único mal que ela não trouxe à humanidade quando abriu sua caixa. A caixa sempre esteve aberta, mas a esperança não é um mal, é o bem mais precioso que existe na vida, e Pandora deu-me essa dádiva, devo a ela a minha persistência que me levou a superar as antigas dificuldades. Para a minha infelicidade, me apaixonei por ela, só que a linda Pandora, com seus ondulados cabelos castanho escuros, seus olhos verdes que evocam toda a beleza das florestas e da natureza, minha rainha não correspondeu às minhas expectativas, nem às minhas declarações públicas de amor, e muito menos às poesias que escrevi em sua homenagem, Pandora queria apenas um amigo.
- Você é uma pessoa muito fracassada, Eurípedes. - Ri dele, uma companheira eu tinha.
- Cale-se! Deixe que eu termine de contar a minha tragédia pessoal! Pandora amou Ícaro, amou-o pela forma como ele morreu, com a mais alta esperança de liberdade, de realizar o sonho de voar, e não apenas voar, voar alto como o Sol. Ela deveria perceber que essa esperança exacerbada foi uma tolice infantil, mortal, mas não, Pandora amava essa ingenuidade de Ícaro, ele era o contrário de mim, niilista, infeliz e melancólico! Desejei matá-lo, mas Ícaro é protegido pelo Deus Apolo, e para eu realizar esse desejo, devo fortalecer-me, e é isso que está acontecendo desde que Belzebu me encontrou. Vendo em mim um potencial considerável, convidou-me para sua organização, oferendo mais poder e dezenas de vantagens, prometeu-me que eu poderia matar Ícaro e Apolo, e não só isso, produzir uma ilusão capaz de fazer Pandora se apaixonar por mim.
- E você conseguiu criá-la, Eurípedes*
- Não, Pandora é muito resistente a ilusões, e evoluída também, ainda não tenho o bastante para envolvê-la com tamanha intensidade, Ícaro poderia ser morto, mas Apolo é um dos deuses de nível superior, foi ele que chutou Samael do céu.
- O que* O que Apolo tem a ver com Samael. O que esse tem a ver com o céu*
- Samael era um anjo de luz, mas tornou-se muito ambicioso e foi expulso do céu por Apolo, isso acontece com maior frequência do que vocês pensam. Todo dia devem cair pelo menos dois anjos que se corrompem, eu imagino. Sabe-se que os principais anjos ou deuses encarregados dos exílios são Rá, Anu, Miguel, Apolo, Inana Thor, Alá e Brahma, na ordem de forças. Seth é o único deus superior celestial da história a ser expulso pela divindade suprema de nosso universo, Atem, o onipotente Deus dos egípcios. Portanto, Apolo é poderoso demais, e é meio impossível eu me meter com Ícaro, é preferível tirá-la dele do que contrário.
- Você não falou como me viu! Eu li o maldito jornal em que você cita o meu nome e me descreve como um monstro, como Lady Blood! Agora fale na minha cara, poeta miserável! - Luna se exaltou, mostrava aquela sombra avermelhada nas escleras dos olhos, que surgia sempre que era tomada pela ira.
- Não se exalte, eu já ia continuar contando. Eu sou um amante da tragédia, você já sabe, amo essa arte a tal ponto que chego a sentir certo prazer com meu próprio infortúnio, sinto, porém, preferência pela posição de expectador, gosto de ver as vidas trágicas de outrém, seus dramas, seus problemas e conflitos. Espero que não me confundam com um sádico grosseiro, Marquês de Sade é o Sete Escritor mais talentoso, para a arta da ilusão, e também o mais cruel, mas enquanto ele se delicia vendo as pessoas passando pelas mais terríveis dores físicas e psicológicas, como um animal sanguinário e sem bom gosto, eu aprecio assistir ao teatro da vida. E quem iria ao teatro se não houvesse conflitos para serem testemunhados* A força da luta, do conflito e das provações é o que ainda dá sentido à vida, é a força real da Tragédia. Tendo essa ideia pregada à mente, transformei o Abismo dos Condenados no meu teatro pessoal, e frequentei o local frequentemente como expectador da tragédia da vida dos caídos, é um espetáculo fantástico, toda a desesperança, a tentativa de se erguer, os lamentos, tentativas confusas de libertação. Nada se comparou a essa obra prima teatral, o conflito entre seres rastejantes, as lágrimas apoiadas em passados longíquos. Só que nenhuma visão foi tão extraordinária quanto o ser mais trágico de todos, no sentido mais profundo dessa palavra que amo e venero, e esse ser era você, um monstro. - Apontou para Luna, com os olhos sorrindo fascinados. - Lady Blood, nome que inventei me inspirando no idioma do meu escritor moderno favorito, Lord Byron, que aliás, você matou. Não lamento a morte de meu amigo, a vida é assim. Você matava e demonstrava tanto conflito, um conflito inigualável contra si mesma, foi essa luta interior, que se expandia aos horizontes exterior, fazendo tantas e tantas vítimas, que assisti por acaso. A verdade é que nunca corri perigo com você, era irracional, eu estava distante e sou ágil, mas de fato, eu te vi, não sei se por acaso ou destino, e então te denunciei a Belzebu, que te capturou logo em seguida. E pensar que vocês fugiram! O chefe teve tanto trabalho te procurando, a forma como você se escondeu e fugiu foi excelente, mas agora que dá a cara a tapa, você encontrará seu destino: Tragédia.
- Veja, velho, se repetir mais uma vez as palavras Trágico ou Tragédia, eu vou te matar de forma tão lenta e dolorosa que você vai implorar por um pouco de comédia na sua vida. - Luna atirou seus flagelos contra ele, e então começou aquele combate selvagem. Entrei em um estado febril e senti a cabeça doer, ele escapava como uma mosca, das investidas de minha companheira, cujos olhos se mantinham no mesmo tom avermelhado.
- Não estou só, Medeia! - O grego gritou e uma espécie de claro lhe saiu pelo olhar, uma criatura, mulher de beleza estonteante, cabelos castanhos e longos, nua com as formas deliciosas à disposição dos olhos menos ou mais curiosos. - Um bom ilusionista não cria apenas ilusões, mas também vida.
Ele se transformou em em um monstro imenso que mais parecia a mistura de uma mulher com um anfíbio com tentaculos viscosos e longos, a criatura se atirou a Luna, em uma luta brutal. Eurípedes avançou contra mim, assim, seríamos dois pares em combate. O poeta controlava descargas elétricas violentas e dolorosas, e as lançava em mim sem dó, que tinha muita dificuldade em me defender, especialmente porque precisava me preocupar em escapar das ilusões em que tentava me prender, cada segundo necessitava a mais extrema atenção, qualquer poeira poderia se falsa, tudo poderia ser falso, eu poderia estar morrendo sem perceber, Ter atenção e atacar com toda as minhas forças, minha psicocinese, essas eram as regras.
Medeia era uma criatura asquerosa e muito forte, Luna lutava de igual para igual, tentáculo contra tentáculo, ou mais especificamente, flagelos contra tentáculos, que além de tudo, pareciam soltar alguma espécie de substância tóxica. Não deveria prestar atenção nelas, ela se viraria, eu mais sentia pena da tal Medeia do que medo, já eu não tinha a mesma confiança quanto ao meu embate diante de Eurípedes, que me atingia de raspão com seus rápidos relâmpagos, e por mais que não me causasse dano, causava dor, desconcentração, me obrigando a me manter no limite o tempo todo, entre a ilusão e uma morte rápida. Só que ainda possuía muita determinação dentro de mim, esforço ou morte, diante de tais opções, qualquer capacidade se eleva muito acima da média, e era isso que vinha acontencendo comigo, agora tudo se tornava mais claro. Tão claro, tão rápido, passei pelo raio em um desvio ligeiro, e caí com as mãos de energia no pescoço de Eurípedes, que gemeu mas conseguiu se soltar, percebi então que minha obra já estava perfeitamente azulada, como uma espécie de luz sólida e artificial. Porém, chamar aqueles objetos de luz talvez seja uma ironia inaceitável, mais parecia sombras, e parecia que quanto mais eu concentrava, mais escuro a massa se tornava. Ataquei-o com marteladas, socos, defendendo-me habilidosamente dos raios, mas se conseguir me aproximar novamente, pois lutar contra as imagens irreais que entavam na minha cabeça com descagar era uma tarefa árdua, um empecilho insuportável. Vi-me em uma situação em que perdi a atenção, e ele havia sumido, só voltei à consciência quando uma daquelas descargas me atingiu em cheio, uma dor terrível, e tudo se escureceu. Em compensação ao dano aparentemente grave, retomei completamente a razão, e me defendi dos outros raios com todas as possibilidades de meu dom, rastejando no chão, torrado vivo. Lutei enquanto ainda conseguia manter os olhos abertos, estava machucado de verdade, mais um daqueles e eu encontraria o indesejado sono eterno, estive em dificuldades inimagináveis até ver Medeia ser atirada na frente do raio que Eurípedes atirou na minha direção, ela o levou no lugar dela, e ele, furioso e dominado pela emoção, se virou para atacar Luna, enquanto Medeia tentava se recompor do choque que acabava de receber. Aproveitando a situação, bati na cabeça dele, por trás, com toda a força que tive em meu martelo, e ele caiu para cima da menina, que já o esperava de flagelos abertos, o infeliz não teve chances de fazer qualquer coisa e foi absorvido. Ri triunfante, vendo que Medeia morria com a destruição do seu criador, desaparecendo e se reduzindo a um pó escuro que se dissipou pelo ar, a felicidade precedeu o desmaio. Que forte raio!
Despertei na minha mente, Luna, como sempre faz, acariciava-me os cabelos e cantava para mim uma velha canção de meu país, cujo nome não precisava realmente ser citado,
- Dessa vez eu fui bem, não fui* Levantei a cabeça, olhando nos olhinhos que voltavam a ser perfeitamen castanhos, nenhuma vil lembrança vermelha manchava aquela beleza infantil.
- Foi, eu teria morrido se o enfrentasse sozinha. Medeia, nunca imaginei que ele tivesse algo como aquilo, era muito forte, menos que eu, mas exigiu muito esforço. O próximo da lista é o bom Marquês de Sade, tendo absorvido Eurípedes, minha força deve estar além dos velhos limites, mas se nosso oponente é o mais prodigioso entre os Escritores, e esse que acabamos de matar já era capaz de produzir Medeia... Eu me pergunto que tipo de horror nos espera ao lado de Sade. Levando em conta a personalidade dele, é possível até mesmo que seja algo mais horrendo que eu na minha forma monstro.
- Nós já iremos*
- Naturalmente não, precisamos descansar. - Pegou-me pela mão e voltamos para o conforto de minha mente.
Luna preparou uma batatas assadas em fogueira para que comêssemos, ela estava com ótimo apetite, pegava os tubérculos na mão e abocanhava com a boca inteira cerca de metade de cada batata à cada mordida.
- Luna, qual você considerou o pior momento que você viveu quando passou pela minha vida?
- Um dia de doença e desamparo, vivendo a sua vida percebi que você passou pela mesma situação que eu, mas para a sua sorte, a estrutura do local onde você estava e também o clima foram mais favoráveis. Você podia ter morrido naquele dia.
Fiquei pensativo, agarrando-me a pedaços de tristes lembranças do referido dia, como eu havia sentido medo e cansaço, desejado morrer apenas para poder descansar por um instante, submetido à mais violenta exaustão febril. Muita febre naquele dia, queria podê-lo esquecer.
- Está certo. O Marquês de Sade será encontrado na tal Galeria do Suicídio, de acordo com as informações que tivemos, não é? Onde é isso?
- Artur, precisamos descansar bastante, você não faz ideia do que é a Galeria do Suicídio.
- E o que é? Explique, realmente não faço ideia. - Fiquei curioso.
- Melhor que veja com os próprios olhos, não falarei nada antes.
Comemos mais batata, depois nos tocamos, beijamos e agarramos, e após esse prazeroso contato físico, deitamos para descansar e chegamos a dormir. Eu acordei antes dela, então a despertei também, a pequenina se levantou e pegou na minha mão, e só disse uma frase antes de nos teletransportar.
- Não tenha medo.
Entramos pelo grande portão que tinha inscrições nas mais diversas línguas orientais, em vários alfabetos, representando culturas diferentes, mas todas diziam a mesma coisa: Galeria do Suicídio. Senti um arrepio intenso atravessar meu corpo, não era como nada que tivesse sentido antes, era muito mais agudo e frio, como se minha coluna fosse preenchida com gelo, um gelo doloroso e torturante. Talvez lembrasse aquela sensação que Luna sentia.
- A Galeria do Suicídio, um dos três lugares mais repulsivos de todo o universo. Aqui habitam os que são seus próprios assassinos, e que sem nenhuma forma de arrependimento de tirarem suas próprias vidas, vivem em neste local de tormento, violência, vício, crueldade e sofrimento. Essa é a morada de Judas Iscariotes, o traidor, ele é o mais conhecido suicida da história, e seu crime se fez famoso através dos séculos, odiado por milhões de almas, aqui ele e sua culpa, o maior de todos os remorsos já sentidos por uma pessoa viva, formam uma atmosfera de profundo niilismo, tristeza e depressão, um desespero tão profundo que leva as almas aqui a tentarem se suicidar novamente, alimentadas pelo mal desse local repulsivo, tendo todas as suas dores e remorsos alimentados. – Luna abriu o portão, que rangeu sonoramente, e deu finalmente visão para uma paisagem digna do pior dos pesadelos. Uma enorme galeria fechada com paredes imundas de sangue e mofo, um teto baixo que não passava de 5 metros de altura, dezenas de pessoas penduradas pelo pescoço em cordas, agonizando, chorando, enforcadas vivas, outras abriam as próprias entranhas com objetos cortantes: facas, espadas e as próprias unhas, gemendo em uma medonha agonia masoquista. Alguns espíritos pareciam ainda manter sua consciência, embora não demonstrassem um único sinal de misericórdia, no chão encontrava-se algo que nunca antes havia visto, pedaços de espíritos mortos, como em um campo de batalha, um açougue pintado de vermelho, assombroso. Gritos cortantes penetravam-me pelos ouvidos, eram de uma agonia, um desespero tão profundo, que infestavam meu coração com os piores sentimentos possíveis, um profundo niilismo, a total ausência de esperança, era pior, muito do que olhar para os olhos vermelhos de Luna quando ela estava descontrolada, era como se eles dividissem aquele tormento, um tormento suicida egoístico doentio, de almas doentes, sem salvação, condenadas para sempre à danação quase eterna e à morte.
- Luna, como é possível? Como é possível que existam cadáveres de espíritos? Eles não deveriam se transformar em energia pura e se dissiparem, voltarem ao universo após terem suas mortes espirituais?
- Esse lugar maldito é de uma energia de tão baixa freqüência, de tamanha perversidade, que as almas aqui sofrem com características semelhantes às do mundo material, físico, de baixa freqüência, impuro, a Galeria do Suicídio é um antro de altíssima densidade, pesado, negativo, a energia espiritual aqui é suprimida de tal forma, que os corpos astrais recebem as propriedades de corpos físicos, propriedades físicas, e isso torna impossível que haja a dissipação após a morte, e torna possível essa carnificina repugnante que você assiste agora. Mas apesar de receberem tais características, eles ainda mantém parte da resistência espiritual, que é superior à física, então os suicídios se tornam difíceis e lentos, sendo portanto extremamente dolorosos, eles se cortam dezenas de vezes, e o pior de tudo é que nesse local, devido aos fatores que já citei, a dor é semelhante a que se sente no mundo real, então esse inferno de dores auto-infligidas se torna como uma câmara de torturas do mundo real, com a diferença que os torturados demoram bem mais para ceder e morrer.
Eu podia acreditar completamente naquelas palavras ásperas, estávamos às portas da Galeria do Suicídio quando uma voz em latim interrompeu meu choque:
- Olá, visitantes. O que vos trás a esse local funesto e melancólico?
Uma mulher lindíssima estava sentada sobre um amontoado de corpos, de uma beleza fora do comum, tão bela que devo descrevê-la, e talvez encontra dificuldades nesse esforço. Pouco maior que eu, daria-lhe uns trinta anos, cabelos loiros até a altura do queixo, o rosto de pele uniforme era enfeitado por um nariz redondo alongado, olhos grandes, amendoados e verdes, e uma boca longa e rosada que dava um ar jovial no conjunto, evito descrever o que havia do pescoço até seus pés, curvas redondas, atraentes, perfeitas, tudo na proporção certa que só um artista renascentista poderia reproduzir.
- Como uma pessoa pode viver aqui? – Perguntei para ela, com um pé atrás, tentei identificar uma ilusão com os métodos que sabia, mas por eles, aquilo era real, não uma armadilha do Marquês de Sade.
- Ah, eu não vivo aqui, apenas estou passeando, um escritor famoso costuma freqüentar esta pocilga, então estou esperando que ele venha até aqui para discutirmos.
- Que escritor? Maquês de Sade? – A voz Luna saiu em um grito ansioso.
- Sim. E vocês, o que estão fazendo na Galeria do Suicídio? Apenas mentes fortes suportam esse clima. – Mostrou os dentes branquíssimos, combinava com o vestido de prostituta que usava, aquele lilás sensual tão bem decorado de preto felpudo.
E ela tinha razão, aquela sensação terrível não me abandonara, e os meus sentidos se enfraqueciam lentamente, como em um torpor forçado. Luna pareceu analisá-la bem antes de responder, parece que conseguia ler a mente dela.
- Viemos matar o Marquês de Sade, ele é um mal-feitor e seus dias de crime devem acabar.
- Mas é claro que devem. Eu também odeio o Marquês de Sade, gostaria de ajudá-los no assassinato desse grande sofista, a filosofia dele é demasiadamente falsa e artificial, chamá-lo de filósofo é ofensivo, estúpido. A crítica que ele faz ao cristianismo poderia ser excelente, mas até isso ele transforma em um emaranhado de absurdos, contradições e perversões doentias disfarçadas de livre pensamento. Por que acham que estou aqui esperando por ele? Não quero que Sade viva para corromper a racionalidade humana, pois fiquei sabendo que ele tem começado a psicografar livros para os humanos fingindo ser o espírito de sábios de verdade, como Platão e Descartes.
- Você parece muito preocupado com filosofia. Como você 0se chama? – Me aproximei dela, de perto era ainda mais bonita. O que a fazia tão bela aos meus olhos? Não a amava como amava Luna, mas o equilíbrio e perfeição das formas não podia ser a única razão para ser tão linda, havia algo mais, algo que não podia identificar.
- Eu amo filosofia, e meu nome é Sofia. E o senhor? – Estendeu a mão para que eu a apertasse, fiz como queria e me apresentei: - Sou Artur, e minha companheira é a Luna.
- Sade não está aqui ainda, Sofia?
- Não, senhorita Luna. Por que não conversamos um pouco enquanto esperamos?
- O que te levou a ter certeza de que ele estaria aqui? – Luna se mantinha desconfiada.
- Sabe-se que ele costuma freqüentar esse local em todo dia por volta de meia noite, agora são onze e quarenta e quatro, então não demorará para que ele chegue.
- Onde olhou as horas?
- Não conhecem relógio biológico? É mais preciso do que se costuma dizer. Mas me digam, os senhores não gostam de filosofia?
- Eu gosto. – A voz dela se acalmou, também se aproximou da estranha. A mulher era muito simpática e agradável, tais características poderiam ser especialmente perigosas. E eu concordei: - Eu também, embora eu seja o mais inculto de nós três, certamente. Só li, sem ser resumido por livros gerais, obras de Platão, Voltaire, Nietzsche e Russel.
- Eu li bem mais que isso, vai demorar para falar, mas desses que o Artur citou, li um pouco de todos.
- Meu filósofo favorito é Nietzsche, mas não vamos falar de quem nós admiramos, vamos fazer como Bertrand Russel sugere que se faça e criar filosofia. Dialética é meu prazer maior. Digam-me o que acham do amor não fraternal.
Respondi: - O sentimento que torna a vida maravilhosa, mas que também pode torná-la um Inferno, mas mesmo quando se sofre por ele, ainda é melhor do que sentir o vazio de se não amar ninguém. Sentir esse tipo de amor de forma correspondida é a melhor sensação que existe, faz todos os males parecem insignificantes, é inebriante, enlouquecedor em um sentido positivo, de uma forma que entorpece as tristeza e faz com que a existência seja realmente prazerosa. O amor nos fortalece.
- Amor, é o princípio da vida civilizada, é contrário a todos os instintos duros e cruéis da natureza, é a capacidade de compartilhar sua felicidade com uma pessoa e compartilhar da felicidade dela, tornar-se, de certa forma, como um só, deixando o egoísmo de lado. Mas ao mesmo tempo, o amor é a mais egoísta das emoções, pois ela torna o seu alvo um desejo obsessivo do amante, que não desejará dividi-lo jamais com ninguém, faz com que quem ama tenha no amado o seu maior tesouro, e que, em sua vontade de protegê-lo e mantê-lo apenas seu, acaba sendo ciumento e egoísta. Só que ainda assim, é o que dá vontade para se viver apesar de todos os sofrimentos, como o Artur disse. Então é um vício maravilhoso, e malditos sejam aqueles que nunca o conheceram, pois conheci muitas emoções, mas o amor é mais gratificante, de fato.
- Os senhores acabaram de inventar para responder minha pergunta, não é? – Sophia sorriu, mas tivemos que concordar, mas ela não havia pedido uma definição, e sim nossa opinião, portanto não havia como dizer que estaríamos errado, opinião é opinião. Ela continuou, e seus olhos se cerraram como se estivesse séria ou até mesmo brava: - Minha vez, senhores. Ao meu ver, um homem arrastada pelas suas paixões perde toda a capacidade de raciocinar, assim, passa a ser encarado como um ébrio, um demente. Fraco aquele que se deixa levar por amores e relacionamentos, possíveis ou impossíveis, os quais o levam à loucura. Hoje em dia a ficção e suas mentiras nos deixam tão confiantes e iludidos que as paixões ideais, como nelas descritas, sejam possíveis, e isso é um crime contra a inteligência. Ora. Quem nunca se apaixonou desesperadamente a ponto de ser infeliz ao não poder satisfazer o vício do pensamento na pessoa amada? Nem eu poderia sequer falar que eu tive a sorte nunca sentir isso. O amor daquele que se ilude em uma paixão platônica só o deixa mais fraco, apreensível e inútil na sociedade em que vive, como um rato depressivo e choramingão, uma ovelha impotente e sem ação, um peso morto que só está vivo na teoria, mas que, por dentro, é estéril, vazio, cadavérico. Se não tivermos a consciência de que não vale a pena se apaixonar perdidamente por alguém, e que viver uma vida por outra pessoa que não seja o próprio eu é o maior dos erros, então seremos condenados ao fracasso e à completa infelicidade. Não vale à pena arriscar, pois é incrível ver como até o amor dito o mais intenso, o mais verdadeiro de todo, ainda assim desaparece rapidamente com o tempo se não lhe for dado atenção. Talvez não tão rápido em alguns casos, mas some, basta que desejemos e percebamos o quanto esse sentimento é enfraquecedor e descartável. Senhores, o amor que descrevem é apenas uma ilusão, como disseram, é uma forma de tornar os sofrimentos mais suportáveis, é, portanto, um entorpecente. O que é um entorpecente além de algo que se usa para fugir da realidade? Quem foge da realidade é porque é fraco demais para viver nela, por isso, se esconde dela, escapa de suas garras duras, essa é a característica do fraco, ele não suporta o mundo como é e precisa de um entorpecente para tornar sua existência menos angustiante, o entorpecente é uma ilusão, uma mentira à qual se prende para não cair de joelhos e desistir. Pode ser religião, pode ser o excesso de trabalho, uma ideologia estúpida, uma ficção, ou até mesmo o amor dito verdadeiro, mesmo se correspondido por ambos os lados, ele não deixa de ser uma forma de escapismo, pois é usado pelo fraco para disfarçar a suas outras frustrações. O forte, ao contrário, encara a realidade como ela realmente é, sem entorpecentes, sem ilusões, sem ídolos, esses ídolos do amor e do idealismo, o forte os destroça com o martelo da verdade, e na verdade vive, sentindo tudo como deve se sentir, usufruindo dos prazeres mais naturais que se pode sentir, e pisando em todos os obstáculos que fariam o fraco sofrer, mas que para esse indivíduo superior, não passam de degraus fáceis para se subir. E mesmo que não seja fácil subir, ainda assim subirá, com esforço e sem hesitar, sem uma única cogitação de fuga ou escapismo.
- Qual é seu problema? Se o amor é uma forma real de se obter felicidade, como eu poderia considerá-lo uma ilusão? Azar o seu se nunca foi amada por ninguém! – Luna não aceitou o discurso, eu fiquei calado e pensativo.
- Não vos censuraria por amarem, é um sentimento prazeroso e útil. Reparem, senhores, em momento algum disse que um amor correspondido deve ser evitado, falei que quem se leva por suas paixões estará fadado ao fracasso. Paixões que venham a destruir a racionalidade devem ser destroçadas antes que façam seu serviço sujo, os senhores não leram entre as entrelinhas de meu discurso, é uma pena. Os amores platônicos são inaceitáveis e imbecis, e o amor correspondido é uma forma de obtenção de prazer que deve ser considerada inferior, mas esse segundo tipo não precisa ser rejeitado, o fato de um prazer ser inferior não o torna inviável, a menos que ele seja destrutivo, e um amor correspondido equilibrado não é destrutivo, mas se for, elimine-o. É como ver filmes de comédia, é um estilo inferior ao drama, mas vê-lo não te torna menos inteligente do que quem assiste drama. Eu mesma amo alguém, a diferença entre eu e a grande maioria é que quando esse sentimento me parecer nocivo, irei destroçá-lo com meu martelo da verdade, e, se sentir vontade, procurarei por outro. Nada deve ficar na frente do meu conforto e da minha felicidade, acredito que se sacrificar por outros seja inútil.
- Então sua visão extremista anti-sentimental não rejeita o amor incondicionalmente?
- Ora, um sábio não pode ser extremista, a sabedoria consiste exatamente na possibilidade de adaptação. Do que adiantaria você ser a pessoa mais fria e racional em mundo onde apenas o sentimentalismo é recompesado? Racional de verdade seria acostumar-se ao pensamento sentimental, se adaptar.
- Entendo, mas paremos de discutir esse assunto. Quero fazer uma pergunta mais importante. O que pretende fazer quando Sade chegar? Artur e eu o enfrentaremos. Mas e você? Também se unirá a nós? Acabo de ler as suas intenções, utilizando de um de meus dons, e parece que suas intenções são realmente as que você falou, mas não consigo ler pensamentos, só intenções, então apesar de saber que você não é ameaça, não sei de nada do que você planeja.
- É muita grosseria de sua parte ler a minha mente, Luna. - Sofia ergue a sobrancelha de forma irônica e ficou balançando seus pés no ar. - Acha que eu precisaria de ajuda para matar Sade? Como minhas hostilidades contra ele não são pessoais, devo permitir que vocês tenham a honra do assassínio desse sacripanta.
- Eu sinto o poder das pessoas com facilidade, e você não tem quase nenhum, na verdade, é umas das criaturas mais fracas que já vi até hoje. É impressionante. Sendo tão fraca, como pode se manter tão confiante? - Dirigiu-se a ela e depois a mim. - Artur, eu a absorveria se fosse mais útil, mas não seria uma adição nada relevante. - E suspirou. Eu ficava calado o tempo inteiro, de certa forma, a voz de Sofia era uma doce melodia e muito agradável de se ouvir, não por eu gostar dela, mas por carregar uma inegável beleza.
- Mas eu sou inteligente. Não acha que uma profunda astúcia não seja de valor o bastante?
- Você poderia ser Einstein, mas sem poder prático, nem toda a inteligência adianta.
- Confiarei na sua palavra e prometo que não vou atrapalhá-los, assistirei a morte do sofista assim que ele chegar.
- Como você pode não ter nenhum interesse pessoal contra Sade? Ele é um canalha, um criminoso da pior espécie, você tem que estar mentindo. Há muita gente que espalha filosofias estúpidas pelo universo. Por que mataria logo o Marquês de Sade? E que coincidência é essa? Logo quando nós viemos! Não, você esconde demais. O que é que você quer afinal, Sofia?
- É apenas coincidência. Você não lê pode me ler? Sabe que não estou mentindo, não nessa parte, mas quanto a outra, certo, escondo mais ressentimentos que tenho contra esse homem.
O marquês entrou pelos portões, o momento pelo qual esperámos chegava. Senti um arrepio pior do que eu já sentia por estar na Galeria do Suicídio, o local mais doentio do universo, o sujeito trouxe uma sensação, um peso, um horror de tipo que se poderia comparar, pela natureza ruim, ao do próprio recinto, era de uma maldade palpável no ar, terrivelmente sádico, monstruoso, de uma crueldade incomparável. Era a primeira vez que o via, e precisava que fosse a última, os cabelos brancos eram escondidos pela longa peruca da mesma cor, orgulhoso, não deixava de usar as velhas roupas de nobre so século XIII.
- Luna, já sabia que acabaríamos por nos encontrar. Os outros são tão inúteis, não deviam ser Sete Escritores, devia ser apenas um. - Foi entrando calmamente, se aproximando de nós, até que grudou os olhos em Sofia, e deu um sorriso malicioso de pervertido. - Quem é essa loira que estimula tanto os meus sentidos? - Parecia devorá-la com os olhos, lambia os beiços como um animal.
- Sou Sofia, prazer, Sade. Já o conheço, e estou aqui para assistir o que esses meus novos amigos farão com o senhor. - Mostrou-nos com a mão. - Prometo que só vou ficar só olhando, mas por favor, não faça nada contra mim, sou inofensiva e curiosa.
- Luna e garoto, podem esperar? Eu realmente quero fornicar com essa senhorita que acaba de me responder. Sofia, a senhorita é de uma beleza fora do comum, e eu não poderia me concentrar em uma luta tendo você como expectadora, a excitação me manteria muito distraído. Trepe comigo agora.
- Vamos fazer assim, se você sobreviver a eles dois, eu aceito esse serviço deliberadamente.
- Se sabe quem sou, sabe que gosto mais de sexo forçado do que com consentimento. Sabe, eu até gostaria de contar minha história para você, que é loira e muito bonita. Minha morte foi lamentável! Oh ! Nem sei como a minha vida foi ceifada! Como uma flor que se seca sem água, sem o néctar da vida, estéril no sono frio da morte! A escuridão fechou minhas pálpebras e afundei no abismo dos perdidos, no hospício de lunáticos que é o umbral, Gritos, gritos e gritos! Loucura, e dor, e miséria, nenhuma piedade divina me iluminou, e uma languidez mórbida me envolveu a tez como um monte de vermes pulsantes, insano de insânia, assassinado mil vezes por mil punhais gélidos, por olhos ferozes e selvagens, rodeado de bestas famintas por carne, por espírito e por sangue! Mas eu saí de lá, meu mestre me salvou e me ofereceu uma vida, uma vida de rei, novamente experimentei dos prazres da vida, da carne, do corpo, do vinho e da gula! Caí nas volúpias trêmulas das divinas succubi, as prostitutas vulgares mais lânguidas e lascivas, bebi de suas delícias molhadas e pude novamente corromper meu amor na luz vermelha das meretrizes de meu mestre. Belzebu me deu a mão quando eu estava no abismo dos condenados, não e ra nada pessoal com você, Luna, eu só gosto de ver como as pessoas se retorcem de dor, seja quem for.
- Chega disso! - Luna atacou-o com seus flagelos, o nobre voou para trás, desviando com destreza, trouxe sua espada à tona, a mesma que usara para abusar da Luna há muitos anos, e foi repelindo os ataques com golpes rápidos da arma.
- Juliette, venha agora mesmo, vadia inútil!
O melhor escritor é aquele que consegue criar a realidade a partir de sua ficção, o que imagina como tamanha pronfundidade, cuidado, sentimento e habilidade, que torna vivas as suas personagens e palpável os seus mundos. Mais uma loira no recinto, quase tão bela quanto a já presente, mais alta e mais vistosa, abriu a boca e cuspiu uma fumaça escura e quente para cima de nós. Comecei a ter alucinações, via bebês voando, orgias terríveis, tentei me mover e não consegui. Completamente preso em uma ilusão, formigas subiam pelo meu corpo nu, e picavam tudo, coceira, dor e ardor, apliquei todas as técnicas possíveis para despertar, acabei conseguindo. Luna infestava tudo com flagelos imensos, que eram evitados com a fumaça de Juliette, que parecia sólida e pesada, Sade cortava-os, e eles se regeneravam, ao mesmo tempo, gritava nomes feios. Situação caótica, me enfiei no meio para ajudar a minha companheira, lancei as maiores mãos de energia que podia fazer. Luna parecia desorientada, deveria estar lutando contra muitas ilusões, perguntei:
- Você está bem?
E ela não respondeu, continuou movendo desesperadamente os flagelos, mas por maiores que fossem, não tocavam no nosso inimigo, e ela não se limitou, utilizando muitos dos dons de outros espíritos que tinha em si, fogo, raios, lâminas imensas, pedras esmagadoras, toda forma de ameaça à vida era lançada pela garota, que era soberana em força, mas não em mira. Já eu, sequer tinha força, e aquela fumaça bizarra detinha as minhas tentativas como um muro detém uma leve brisa, precisaria de um furacão, e os devaneios já voltavam a me afetar, borboletas voavam em toda a parte, cantando estranhas canções, e manter-me consciente se tornava uma tarefa cada vez mais difícil.
- Tentem um pouco de masoquismo, amigos. - Sofia gritou, estava assistindo a tudo tranquilamente em um canto que, estranhamente, estava seguro.
- O que? - Perguntei, já vendo as borboletas virarem estrelinhas brilhantes e perturbadoras, uma forte dor de cabeça martelava como um martelo muito pesado.
- Juliette. - Sade disse com algum códio que desconhecíamos, e a mulher se transformou em uma fumaça mais escura que a que já nos atacava, negra e sólida, que se atirou contra nós, dilacerando os flagelos como sacos plásticos. Parecíamos sem saída, usei de meu máximo esforço com as mãos de energia, fracassadamente; Luna desmaiou, caiu no chão rapidamente, e eu entendi o que aconteceria. Despertou aquele ser, que não posso e nem consigo descrever, imenso, o cheiro de sangue contaminado invadiu o ar como em uma explosão
Tive que ter muita força de vontade para não sair correndo amedrontado: os amontoados de corpos putrefatos ergueram-se sobre ela, em uma coluna imensa que parecia unida por um cimento branco e viscoso, os cadáveres eram secos e não estavam totalmente mortos, gemiam em agonia enquanto moviam seus braços uns nos outros; Enroscavam-se, rastejavam, e, presos como gêmeos siameses uns aos outros, formavam o corpo gigantesco. Tinha a forma de um ser quadrúpede, o corpo de um elefante, com o tronco grosso e as pernas em forma de cilindro, pés com garras afiadas , um pescoço estranho que parecia de serpente e segurava uma cabeça que era crânio gigante e comprido, com duas esferas cor de sangue nos buracos onde se encaixariam olhos de um vivo; Aqueles desgraçados grudados se fundiam naquele monstro aterrorizante, esculpiam as formas sobrenaturais de cada uma de suas partes colossais, tão imenso. Ela exalava um cheiro intenso de sangue de ferimento, sangue fedido e contaminado com todo tipo de bactéria e fungo, apodrecido horrivelmente, e um líquido escuro escorria por entre alguns dos corpos que a formavam, os dentes da caveira gigante com pescoço de cobra se abriram, e um ruído metálico infernal e agudo.
A fumaça de Juliette atirou-se contra Lady Blood, Sade ia junto, brandando com sua espada:
- Que abominação maravilhosa! Juliette, nossa noite vai ser cheia!
A Luna possuída lançou flagelos por todos os lados, nove deles, que ocuparam o lugar todo novamente, mas eram maiores, mais pesados, densos, perigosos, ultrapassavam a fumaça como papel, e só não matavam os dois adversário porque estes eram muito ágeis.
Eu tinha que me conter, me esforçar, aquela era Luna, eu tinha que ajudá-la, mas meus pés tremiam e toda aquela confiança que havia adquirido caía abaixo da terra. Ela parou de atacar, foi então que percebi que estava em uma ilusão, mas logo recomeçou, mais uma das outras centenas de consciências tomava o controle e a criatura avançava com flagelos gigantes contra os inimigos. Tomei coragem e me preparei para avançar para ajudá-la, a voz Sofia interrompeu:
- Não é sua namorada, entra lá que é ela que vai te matar. – Estava sentada próxima a mim, lixando as unhas, chocou-me sua falta de senso de conveniência. Eram horas para isso?
- Sofia, minha obrigação é ajudar.
- Ela não precisa de ajuda, aqueles dois é que precisam, veja, eles não são especiais por força, mas por maldade, e maldade não serve para nada além de ser temido.
Olhei sem interferir, Sofia não estava errada, Luna os massacrava facilmente, Juliette usava de toda a sua fumaça, que ia como um desmoronamento de rochas rígidas e pesadas, e que, contudo, eram desfeitas em pó pelos flagelos, formados por uma energia muito superior. Acho que Sade deve ter tentado utilizar suas ilusões em Lady Blood, e deve ter conseguido, mas só o bastante para manter sua mente confusa, não para paralisá-la ou torná-la inofensiva. Ele precisaria ser um ilusionista muito melhor do que realmente era para sobreviver, só que não era, estaria perdido, pois mesmo que o monstro tivesse todas cem consciências dentro de ilusões, ainda haveria algumas que, não completadamente presas, se moveriam de maneira desordenada e imbecil, e tal movimento desordenado facilmente mataria Sade e sua serva. Luna e seu monstro interior agora revelado não era uma pessoa, era uma dinamite.
- Ela é muito interessante, gostaria de tê-la como amiga. – Sofia ria. E eu ficava só olhando, horrorizado. Aquela não era ela, era alguém dentro dela, não a Luna em sim...
Sade gritou alguma coisa e Juliette transformou-se em uma forma negra parecida com uma coberta, era muitas vezes maior que o monstro Lady Blood, lançou-se sobre os flagelos. Parece que foi muito difícil parar aquela coberta, os corpos gritavam mais alto do que antes, e era visível a força exercida para segurar aquela forma escura, os flagelos se contraíam como músculos forçados, era uma queda de braço de proporções anormais. Era o impacto de dois monstros irreais, um cheirava a sangue, o outro ainda não descrevi os odores, era um cheiro sensual e atraente, que me despertava uma certa volúpia, mesmo fora de hora, não o bastante para me atrapalhar os pensamentos,mas ainda forte o bastante para produzir certa simpatia sexual por Juliette. Luna fedia ainda mais, era como se ela suasse aquela substância grotesca que exalava do seu corpo, vermelha, talvez não fosse sangue realmente, seria um líquido análogo que as abominações carregariam em si. Odeio admitir o horror que tive a ela, um terror completo e definitivo, teria saído correndo se houvesse apenas uma gota a mais de medo em minha alma, Que traidor desprezível deixaria sua amada nas mãos da morte eterna apenas por temer seu monstro interior? Inaceitável, expulsei esses sentimentos baixos e lancei meus ataque contra as formas de Juliette, ajudando Luna com todas as minhas forças, empurrávamos aquela massa imensa, ainda que ela não pudesse me ver ou ouvir naquele estado de abominação, imaginei que talvez ela pudesse se sentir mais confiante vendo que eu a ajudaria independentemente da situação, sempre e sempre.
- Será que o amor prevalecerá? Será que o mal e sua forma seca de concupiscência perecerão diante da força de um sentimendo verdadeiro? - Sofia narrava como um locutor esportivo, pelo tom de voz parecia usar microfone.
Nós conseguimos empurrar a massa negra que por tudo tentava nos esmagar, que voltou ao estado de fumaça lançou-se para trás; Luna saltou sobre Juliette e atingiu um cheio com um flagelo imenso, absorvendo-a, Sade, em pânico, deslizou por debaixo das pernas dela e as cortou com suas espada, saindo antes que a gigante despencasse. Eu moldei e lancei lanças nele, que as defendeu e veio para me cortar com sua resistente espada, não dava tempo de desviar ou fugir, mas em um instante Sofia correu tão rápido e me puxo para longe do alcance de Sade, e ele continuou tentando se aproximar, superando todas as minhas defesas à golpes de sua lâmina. O monstro desapareceu e deu novamente forma a Luna, braços cortados, pernas também, se regenerou tão rápido que se ergueu e acertou o Marquês tão rápido que nem tive tempo de me preocupar, ele não podia me atacar e se defender dela ao mesmo tempo.
Ela bateu o corpo dele no chão com tanta força que fez um estrondo barulhento, guardou o flagelo e foi andando com um sorriso vitorioso até o derrotado, que gemia. Acompanhei também, Sofia ficou olhando de longe, conquistara minha confiança ao me tirar do perigo de morte, mas ainda assim eu não poderia dar real credibilidade a ela, suas intenções eram as mais nebulosas e desconhecidas. A pequena chutou o rosto de Sade e cuspiu, ele praguejou grosseiramente, só conseguia mover a cabeça e o pescoço, como um tetraplégico.
- O que você fez...(duas dúzias de insultos) ... com meus membros?
- O que você acha? Paralisei. Não acha que passei esses anos todos só lendo, né? Aprender métodos para paralisar as pessoas é verdadeiramente útil quando se tem uma vida como a minha, Donatien. Te chamo pelo primeiro nome porque, de certa forma, nós criamos um laço de intimidade nesses dois séculos tão trágicos, e você é a pessoa que conheço há mais tempo.
- Irá se vingar com muito da minha arte? Irá me mostrar o que é sadismo? - Ele riu, talvez devesse chorar, com certeza deveria chorar, se eu fosse o idealizador da punição pelos crimes dele, o nobre já deveria chorar, imagine o que Luna havia imaginado como a sua justiça pessoal, se fosse realmente justo e equitativo, seria mais que horrendo. Não pude deixar de chutar o rosto dele algumas vezes também, na verdade, o chutei umas trinta com toda a minha força, só parei quando ela pediu.
- Pára, não é você que tem que bater nele. É justo que o machuque de forma equivalente à ameaça que ele lhe impôs, você está sem nenhum arranhão, ileso, não tem direito de bater nele. Donatien François Alphonse de Sade e o meu objeto de vingança, guardo-lhe um natural ressentimento, é a lei da natureza: olho por olho, dente por dente. Você pode assistir ao que farei, mas talvez queira sair, mesmo Lady Blood não é tão ruim quando a Luna garotinha e seu ressentimento, meu amor, não há monstro nesse mundo que possa ter a maldade vil de uma pessoa que carregue um ressentimento esfriado pelo tempo. - Ela me olhou com olhos perfeitamente vermelhos, séria, assustadora, mas ainda era um alívio vê-la em forma humana e consciente.
- Sou uma intrometida, mas Luna, por favor me permita assistir ao espetáculo, eu odeio esse sofista, será um grande prazer para mim. - Sofia deu alguns passos em nossa direção, ainda longe, sorridente com dentes brancos e perfeitos.
- Saia daqui, você também, Artur poderá escolher se vai ficar aqui e ver a cena longa e grotesca que farei. - Gritou.
- Ah, mas eu queria tanto ver. Por favor, Luna, vamos ser amigas, você e Artur são tão interessantes, são seres profundamente filosóficos, gosto de como cheiram. Há um egoísmo fascinante em vocês dois, tão incomuns, raros, carregam aquele espírito trágico fascinante que me inspira até o fundo.
- Não gosto de bajuladores, suma daqui. Depois pode voltar e conversamos com mais calma, só que não agora, agora sou eu e Sade.
- Ah, está certo. - Sofia olhou com desgosto, chutou o ar e sumiu. Luna voltou a olhar para mim, aquelas pupilas perfeitamente vermelhas deixavam bem claro seu estado de espírito, eu não a temia, não temia o que viria a fazer, meu ódio por Sade era como dela, um ressentimento verdadeiro, porém não tão esfriado e antigo quanto o dela, sentimento da mesma natureza em quantidades diferentes.
- Vai ficar? Pode me esperar na sua mente, Sinto-me incomodada em você ver tanto o meu lado monstro, a Lady Blood, não quero que você veja o demônio consciente. Não existe mal sem inteligência, o mal do imbecil é apenas uma forma de ignorância, Sócrates já dizia que quando sabemos o que é certo e bom, nós o fazemos, mas se mesmo tendo conhecimento do que é bom, mesmo tendo inteligência, ainda assim fazemos o mal, então sim podemos ser chamados de maus. Essa visão maniqueísta de bem e mal é um tanto estúpida, mas para quem é viciada em violência, assumir essa visão e tentar seguir o "bem" é uma escolha muita razoável, a minha liberdade acaba onde o meu auto-controle acaba.
- Você não é um demônio por fazer mal a um demônio, isso é justiça, cada um deve ter o que merece. - Afirmei.
- Certo, só que corro o risco de sentir tal prazer em fazer essa justiça, que talvez o vício volte para mim e eu saia matando alguns aleatoriamente, enfim, creio que não estarei descontrolada a ponto de te atacar, mas não deixarei de satisfazer o meu vício por sua causa. Veja, demorei muito, muito tempo para aprender a me controlar, ainda assim me descontrolo às vezes, eu sou como nitroglicerina, só espero por um choque forte o bastante para explodir. E meu descontrole se manifesta em duas formas, a primeira é a Lady Blood, quando eu adormeço e os outros tomam conta, e quando eu, Luna, conscientemente, não controlo os meus instintos, e ajo com demasiada crueldade, pois o instinto é cruel, e o meu mais ainda, é o desejo de vingança, o ódio incondicional,
- Culhões! Não dá pra vir me torturar logo? Esse seu discurso moralista é pior do que se me enfiasse um ferro quente na bunda!
- Bem, começarei a seguir suas sugestões. Para sua sorte, não sei criar ilusões para te matar mil vezes e você continuar vivo, para o seu azar, eu posso arrancar metade do seu corpo na unha e regenerar com meu dom sem a mínima dificuldade. - Pisou no meio da cara dele e lançou-lhe um flagelo em forma de lança nas partes íntimas, os gritos foram muito altos, ela se ajoelhou na frente dele, que movia a cabeça de toda a forma, tentando mover o corpo, e segurando sobre seu peito, foi transferindo energia a fim de regenerar o ferimento. Regenerou, e ela foi abrindo novos, bem pequenos, bem devagar. Arrancou o escroto dele dez vezes para depois regenerar, e cansada dos gritos, arrancou a língua,
Ah, já tinha me acostumado à cor do sangue, ao cheiro, ele manchava o chão à medida que partes eram arrancadas, acho que acabei me tornando um pouco obcecado por essa cor, por esse cheiro, por essa palavra; elas exercem uma certa atração sobre mim, que, ao mesmo, é uma aversão intensa, aversão que tornou esse cheiro familiar uma idiossincrasia para mim em relação a Luna, desagrádavel porém necessário, como uma forma de má sensação que devo sentir com frequência, teste de força, de coragem. Amar aquele cheiro era amar o meu destino ao lado de Luna, odiá-lo seria suportar esse destino, sem realmente amá-lo. Enfim, a palavra "sangue" soa tão bem aos meus ouvidos, também na minha boca, em italiano se escreve e se fala exatamente da mesma forma, então mesmo se eu aderisse à língua de Luna, ainda soaria dessa forma tão agradável, tão artística que, de certa forma, compensaria o cheiro forte que me dá ânsias de vômito. As visões da violência excitam-me os sentidos mais primitivos, aquele lado selvagem do espírito humano, que só anseia alimento e sexo, violência é o meio, agora se tornava o próprio fim, os pedaços dele voavam, eram recompostos, ela regenerava a língua às vezes, para que pudesse ouvir os gritos, e a arrancava novamente quando se cansava de ouvi-los. Só não cansava de torturá-lo, depois de muito tempo eu já estava cansado de assistir, os impulsos vingativos contra ele já haviam sido satisfeitos há tempo, o prazer sádico desaparecia e dava lugar a um nojo horrorizado, o sentimento que uma pessoa sã deveria sentir diante de tão cena; Luna também parecia exausta, porém fisicamente, ela gastava energia excessivamente para mantê-lo vivo e regenerado dos danos, ela mesma já cambaleava, e ainda assim continuava, depois de pelo menos cinco horas, a perfurá-lo todo, com atenção especial nos órgãos dos sexo. O maior libertino da história tinha sua sexualidade literalmente arrancada, refeita, arrancada, ao mesmo tempo humilhante e muito mais que doloroso, nada menos justo. Ela não ria, estava séria, concentrada, não fazia por prazer, fazia por justiça, uma justiça pessoal sem nenhuma retribuição, continuou e continuou, e eu me sentei em um canto nojento daquele lugar horroroso fechei os olhos, não queria mais ver.
Devem ter se passado mais algumas horas comigo de olhos fechados e pensativo, não faço ideia de quantas, me levantei quando ouvi aquele barulho de
- Como diria Voltaire, posso não concordar com nada do que você diz, mas lutarei até a morte para que você o possa dizer.
O cara, legal o que vc escreve.
ResponderExcluirAinda não li tudo (pq é bastante coisa =X), mas ta mto bom!
Só tem algumas partes q precisa dar uma arrumada e editada ;)
Nem sei se o autor vai ler, mas não custa nada comentar né =p