Eu não vi nada do que aconteceu em seguida, não dentro da própria ilusão, Luna ficou imóvel, e Mefistófeles
rodou pela sala, em volta dela, rindo, e ela como estátua. O que ela via? Estava completamente capturada na
ilusão, a situação se manteve por muitos minutos, até que ela soltou, de repente, inúmeros flagelos, que
agarraram a Mefistófeles tão rápido e violentamente que ele sequer pode escapar, apenas gritou amedrontado:
- Pára, pára, você passou.
Luna se virou e viu que o estava segurando, foi apertando seu corpo com mais agressividade.
- Ai, pára! Você venceu! Isso não é uma ilusão!
- Não? - Soltou-o e sorriu. - Parece real, mas se tratando de você.
- O que aconteceu? - Perguntei, sem entender o que teria acontecido.
- Até o objetivo do teste me foi dado dentro da ilusão: "Me bata e será aprovada." Depois ele ficou brincando
comigo, criando ilusão dentro de ilusão, eu o atacava e era atacada prodigiosamente, e apanhava, e despertava,
e via que não havia saído do lugar, e o processo se repetia, e novamente via que não havia me movido. Nunca me
movia, não sabia o que era real, minha mente confusa tornava cada visão uma grande mentira, tudo era falso.
Não pude sequer saber se estava mesmo dentro de uma ilusão, ou se acreditava estar dentro de uma ilusão,
talvez estivesse realmente me movendo, atacando-o, sem perceber. Mas não, nada era real. Teria falhado se uma
ideia iluminada não me viesse a cabeça, eu adormeci minha consciência totalmente, e deixei que as outras
dominassem esse corpo, centenas de mentes confusas, sim, mas tantas, que nem Mefistófeles teve forças para
manter a todas em seu mundo imaginário, e foi atacado por aquelas que estavam na realidade! Depois que
Mefistófeles me liberou, voltei à consciência e evitei o que seria sua morte em alguns segundos.
Eu gargalhei, era genial. Agora sabia a vantagem de ser Composta por Vários, se a consciência dominante
falhar, as outras, mesmo que primitivas, podem ser de vital utilidade para sobrevivência do coletivo.
- Muito astuta. O treinamento começa agora. Mas não vale usar esse método de trocar de consciência durante
esse treino. Está de acordo? Caso contrário, você dependerá dos seus outros eus pra quebrar uma ilusão. Elas
são burras, e não é aceitável que só consiga desse modo.
- Concordo.
- Menino, como é seu nome mesmo?
- Artur.
- Agora começa.
Uma fumaça vermelha encheu todo o local e cobriu nossos corpos, tentei me movei, mas não consegui, já estava
na ilusão. E não havia nada que me tirasse de lá, foi então que vi que nós três estávamos em um novo local,
uma caverna iluminada à luz de velas.
- É uma situação que vai fortalecer o vínculo que vocês têm um com o outro. Afinal, qual é a relação entre
vocês?
- Amor não fraternal. - Respondi, sem entender o que ele pretendia.
- Assim que deve ser. Vejam com os olhos da pessoa que ama, e é isso que vão fazer, e sem mais explicações.
Boa sorte.
Tudo escureceu, era como entrar em coma, mas em um nível mais profundo, por um momento, não existi. Quando
pude ver qualquer coisa, estava jogado em um local escuro, caído entre um monte de corpos, o susto foi
arrasador, tentei me mover, falar, desviar meu olhar, mas não tinha controle sobre meu corpo. Eu estava no
piloto automático, me movia sem querer, e então me levantei e caminhei sobre alguns dos caídos, que se
lamentavam e praguejavam, sentia uma dor diferente de qualquer outro nas profundezas de minhas entranhas,
lembrava a sensação de frio doloroso que se sente quando se toca no gelo, porém incontavelmente maior. Um peso
que se retorcia no intestino, me puxava para baixo, e, de alguma forma, me contaminava com uma profunda
melancolia. Aquela gelidez foi diminuindo enquanto eu caminhava, grunhindo palavras aleatórias em italiano.
Italiano? Só então fui entender o que Mefistófeles queria dizer com "Vejam com os olhos da pessoa que ama", eu
estava vivendo no lugar de Luna, estava em suas memórias, um expectador em primeira pessoa de seu melancólico
passado. Eu era Luna. No lugar do frio doloroso, apenas fui tomado por um sentimento niilista exacerbado. Como
descrevê-lo? A mais profunda tristeza de que se tem memória, um ressentimento terrível contra alguém que eu
sequer saberia citar. Incrível como o tempo passou devagar. Dias, talvez. Estive vagando sem rumo naquele
local sem deus, esbarrando com outros que tinham o mesmo destino de condenado, e aquela tristeza terrível se
transformava, gota à gota, naquele sentimento malvado porém forte, a raiva.
Um ser humano que não havia se tornado nada além de uma sombra pálida e doente lançou-se sobre mim e me
mordeu, fiz o mesmo, joguei-me sobre ele, soquei, apanhei e fui espancado, ao mesmo tempo, espancava, e mordia
e arranhava, mordi-o com mais força no pescoço, e senti uma satisfação tão grande quando a carne se rompia em
meus dentes. O espírito recém-morto se esvaziava como um balão, e o ar que minha boca aspirava era sua própria
energia, sua própria alma, e era como o mais delicioso alimento, eu sentia um alívio completo daquela raiva
que me incomodava. Ela era como um veneno que me causava sofrimento constante, permanente e profundo, uma
forma completamente emocional, porém intensa de desgosto, aquele alívio era a melhor sensação que eu poderia
sentir naquele momento. Divina! O sabor era de vida, de aumentar a vida, de aumentar a vitalidade, a força, o poder, tudo, um êxtase momentâneo muito agradável, mas não demorou para que passasse, o outro espírito havia sido já completamente devorado.
Odiosa sensação me acompanhou em seguida, aquela raiva venenosa voltou para mim, e o único impulso que tive foi de reprimi-la. Lancei-me sobre outro espírito que estava caído, mordi e o devorei, rompenr a carne do pescoço usando o dente era o bastante. Novamente aquela sensação, e novamente o retorno da agonia, repeti, ataquei outro inocente, e buscando aquele alívio, fiz isso mais dez vezes. Apenas dois se defenderam, eram criaturas tão decaídas que sequer tinham consciência de ainda existirem, mas isso não os tornava menos satisfatórios, e a cada um que eu absorvia, devorava, a raiva crescia, e o anseio de diminuí-la, também. Matar mais e mais, era exatamente esse o meu desejo, era o que necessitava para me aliviar. Leitor, já sentiu raiva intensa o bastante para não poder contê-la? Ela é desconfortável, é como uma tristeza, só que ativa e agressiva, a raiva nada mais é que uma tristeza violenta e explosiva, mas tão incômoda quanto esta.
Um ser um pouco menos decaído lançou-se sobre mim com garras afiadas, tentei mordê-lo, mas agarrou meu pescoço com aquelas pontas afiadas, e senti a minha pele começar a ser arranhada. Estranhei o fato daquelas unhas imensas e afiadas apenas causarem pequenos arranhões, por mais que doessem, e senti um instinto que pareceu tão antinatural que deveria ser loucura. Mas o que não era loucura naquele abismo? Algo saiu de minhas costas, era um flagelo formado com a energia daqueles que me serviram de alimento, agarrei o meu adversário pela cabeça com esse pseudópode prânico, e o puxei para dentro de mim, absorvi. O prazer foi maior do quando eu os mordia, era como se houvesse um buraco negro no meu interior, um buraco negro ávido por puxar tudo para seu interior, sem fundo, incapaz de ser totalmente preenchido, incapaz de ser satisfeito, apenas infinito. Eu tinha o infinito dentro de mim, apenas esperando por almas que o pudessem ocupar, uma fome animalesca e doentia me inclinava a devorar mais pessoas, eu me tornava um canibal, ou melhor, uma canibal, pois parece que foi nessa hora que perdi completamente a consciência de ser eu, e afinal, tornei-me Luna. Até o momento, tudo que acontecia estava fora do meu controle, e eu era movido como um marionete consciente, a partir daquele momento, passei a ter domínio sobre o meu corpo (de Luna), mas a ilusão era tão perfeita que eu agia exatamente como ela havia agido, seguia os sentimentos, pensamentos e decisões que ela havia tido nos mesmos momentos passados que eu vivia, fui Luna.
E aquele sentimento perverso de raiva crescia continuamente, retorcendo-me as entranhas, ouvia os lamentos de muitos e muitos condenados, mas os odiava incondicionalmente, queria vê-los sofrer de todas as formas. Tudo por culpa daquela sensação que crescia ainda mais rápido, uma enchente interior, o fato é que não poderia chamar aquilo de tristeza, essa expressão é demasiado suave para descrever minha experiência. Não, não há palavras que descrevam! E nem todo o Inferno poderia entender, sentia como se aqueles que havia absorvido dividissem seus males comigos, e eu os meus, não pouco numerosos, com eles também, cada um amaldiçoando ao outro, praguejando, odiando de todas as formas, incondicionalmente. Eu sofria daquilo que eu poderia chamar de a "Minha Doença", eles, pedaços da minha consciência coletiva, também, e cada um de nós sentia o mais completo anseio em dividir esse sofrimento injusto e inimaginável mesmo para os de imaginação fertilmente diabólica. Por que não dividir aquilo que se tem? Essa seria realmente uma forma de generosidade, uma generosidade para comigo mesma, a generosidade que a ira de uma condenada me oferecia. Fui lançando-me aos espíritos caídos, absorvendo, o que eu sentia no momento da absorção não era apenas um alívio, que me livrava de toda a angústia que me matava a cada instante; mas também me oferecia um prazer intenso e extasiante. Como já disse, era como uma droga, a satisfação de miserável faminta era substuída pouquíssimo tempo depois, alguns segundos, por crises de abstinência, a vontade de me alimentar sempre crescia, pois cada espírito que se tornava minha vítima, se tornava mais um carrasco rancoroso dentro de mim, ávido por mais pessoas para serem adicionadas ao nosso Inferno Íntimo, quanto mais deles, mais difícil manter o alívio, e assim, mais alimentação necessária.
Esse ciclo demoníaco se repetiu muita vezes, e o tempo de prazer e paz diminuía para tão poucos segundos, que eu mal podia respirar bem antes se novamente tomada pela "Minha Doença". Eu não via nada com clareza, não pensava com nenhuma lógica... Não, sequer posso dizer que pensava de alguma forma, tornara-me não um animal, nem um monstro, mas algo um pouco além desse segundo, na "escala da decadência". Imagens, sons, pensamentos dos outros, tudo se misturava na minha cabeça como um furacão devastador e doloroso, e eu ia absorvendo e mordendo mais pessoas, insana, perdi tudo o que me fazia o que eu era antes, a humana que havia sido enquanto viva. Não sabia quem eu era, que vida havia vivido, ou como morrera, tornei-me uma pssoa completamente diferente da anterior, pois agora era apenas um demônio caçando presas indefesas em troca de alguns segundos de... descanso em paz.
Tudo que me guiava era instinto, um instinto de sobrevivência disvirtuado e torto, maculado com uma imundície única e rara, que mesmo nos abismos mais grotescos, seria difícil de encontrar. A absorção compulsiva era obviamente um mal pior do que as crises de abstinência, que vinham de forma muito além daquela "tristeza"(não há palavra) combinada com raiva explosiva, venenos da alma, mas se manisfetavam também sob a forma de delírios mais intensos; quando as imagens e sons alheios tomavam-me mais por completo, um frio de quem não tem um leve reflexo de calor ou vida, o frio mais absoluto que envolvia-me dos pés à cabeça, da pele às entranhas; e também dores fortes parecidas com as dos problemas intestinais, porém em uma intensidade incontavelmente maior. Mesmo com esses sintomas, ainda era preferível tentar resistir a eles, pois o alívio era curto e diminuía à cada vítima, tudo piorava, haveria uma hora em que eu não poderia mais absorver ninguém, ou porque não haveria mais pessoas, ou porque esse crime já não teria nenhum efeito anestésico, então eu sofreria de forma tão mais intensa, que os tormentos experimentados até o momento pareceriam o sono mais doce e agradável. Um destino pior que a morte. Infelizmente, um monstro enlouquecido não consegue cogitar, racicionar e pensar na melhor opção, ele apenas segue seu instinto violento. Foi isso que fiz, matei, matei, e por muito tempo continuei, até que senti que minha visão começasse a escurer, mesmo que minha força e poder aumentassem rapidamente, senti a fraqueza de uma entorpecida, e desmaiei, perdi a consciência, para ser mais precisa.
Tive um horrendo pesadelo durante a minha inconsciência, vi-me caindo em um abismo sem fundo, entre duas paredes formadas por amontoados de corpos humanos nus que esticavam os braços para me pegar, mas não me alcançavam. Eles faziam pedidos, insultos, falavam em línguas que eu não conheci, mas entendia perfeitamente, eram palavras de ameaça e hostilidade. Tremia de medo do desconhecido que me esperava nas profundezas, o cenário começava a escurecer, e aqueles corpos acinzentados e doentes começavam a ter suas feições lentamente ocultas na escuridão na qual eu mergulhava decadente, e ia cobrindo o meu corpo, e se elevando como lençóis. As trevas tomaram conta, contudo, continuei caindo, ainda mais rápido que antes, e meu terror cresceu, pois não adiantava tentar me mexer, gritar, usar aquela minha habilidade estranha, nada me permitia me segurar aos infelizes concretados e deixar de cair. Já não podia ouvir, já não também não podia sentir, não sabia mais se eu ainda existia, embora tivesse a certeza de estar morta, morta mais ainda real. O que faltava para minha existência terminar? Só a confirmação formal de uma testemunha qualquer. Perdi a consciência novamente, dessa vez não como um desmaio, mas como se eu definitivamente deixasse de existir temporariamente, com confirmação formal anônima e tudo que se tem direito.
Minha existência retornou junto com a consciência, estava jogada no chão super-populoso daquele trágico espaço, levantei o meu rosto enfiado no chão para olhar o que acontecia, e vi um homem de chapéu andando de costas para mim, segurava uma bengala de madeira cara e tinha um cabelo castanho-escuro curto. Tentei me erguer de pé e ir atrás dele, as o sujeito desapareceu como se evaporasse, então deixei meu corpo cair novamente no chão.
Eu estava machucada e dolorida, não tinha lembranças do que havia acontecido, exceto alguns clarões de memória que ainda guardava, algumas imagens, sensações e sons. As imagens era de várias espíritos sendo absorvidos por mim, vários ao mesmo tempo, e também cenas em que aquele homem me cortava com uma espada; As sensações e sons eram semelhantes, sabia que havia sido uma euforia descontrolada absorvendo espíritos, dores implacáveis com o homem de chapéu que me atacara e, o mais estranho, me sentia muito maior do que eu realmente era, como se eu tivesse o tamanho de um elefante africano. Meu corpo ainda doía demais como após uma surra, mas minha mente se clareava um pouco, eu conseguia pensar de forma deficiente, mas pensava algo, faculdade da qual estava desprovido desde... minha morte. Caí em mim, entendendo afinal que estava morta. Como tinha morrido? Conseguia recordar de uma sensação de febre ardente misturada com um profundo nojo, o local fedia a fezes e estava extremamente sujo, mas não lembra onde. Um estado tão febril, também não podia lembrar da minha vida. A gelidez de dentro pra fora continuava me atormentando, por causa dele tremi, rangendo os dentes como se estivesse congelada, começava a ficar muito tempo sem me "alimentar". Sentia aquela ira vulcânica, ansiando explodir com todas as vontade, absorver todos como se não fossem vivos, agir com a mais completa crueldade. Era a crise de abstinência, não podia explicar, não podia entender mesmo com a capacidade de pensar, os meus outros "eus" insistiam nos próprios, gritando na cabeça, tentando me dominar. Meu pensamento era confuso e obscuro, totalmente desorientado e desesperado, eu me sentia tão assustada que mal podia sair do lugar. Eles pareciam crianças mal-criadas em grande número, do tipo que faz birra, grita, mordem uns aos outros e também aos adultos, seres estúpidos e inocentes, porém destrutivos. A travessura infantil era substituída pela mais completa perversidade, a necessidade absoluta e bem definida de se ver os outros em situação de desgraça e infortúnio, sentimento que eu criei para cada um deles ao absorvê-los, submetendo-os à mesma doença que eu, e que, agora, eles também submetiam a mim, que me tornava uma doente de estado cada vez mais grave. Eu tremia de frio, e de certa forma as animosidades exaltadas de meu espírito rancoroso me esquentavam, ainda que não literalmente. O auto-controle seria minha única arma, se eu tivesse algum. Minha doença me entristecia tanto, com aquele tristeza que já descrevi e que não consegui descrever, ela era uma angústia ainda maior do que as outras, porém mais passiva e serena, o tipo de sofrimento que se sente sem se exaltar, o veneno que se engole sem a necessidade de qualquer outra cogitação. Não sei se o frio me causava tristeza ou a tristeza causava frio, mas ambos estavam ligados de algum forma, e por mais que eu contivesse aquele turbilhão de emoções, me joguei no chão, de joelhos a chorar. As lágrimas saíam quentes, mais quentes que meu corpo de espírito, uma percepção enganosa dos sentidos, mas não me enganava com meu estado desesperado, esse era definitivamente real. Enfiei o rosto entre as mãos apoiadas no chão, me encolhendo, evitando olhar para qualquer um, sofria uma crise de abstinência, era a causa da gelidez trêmulas, os sintomas acentuados de minha doença. Não pude ficar assim por muito tempo, já estava fisicamente recuperada do que o homem de chapéu havia feito contra mim, minha mente não foi forte o bastante para dominar todo aquele anseio doentio e raivoso, e, mesmo sem perder a consciência, me joguei novamente contra outros espíritos.
Havia em mim um sentimento de ódio a mim mesma gerado pelos meus componentes, eles não me odiavam à toa, nada é mais natural do que odiar a pessoa que priva da vida, por pior que esta seja, para te submeter a um estado de deformidade espiritual, a ser a parte de um monstro que sofre constantemente as piores emoções de que se tem conhecimento, sem motivo e sem explicação. Eu era uma grande massa de ódio, era culpada de cometer aquele crime imperdoável contra todos que faziam parte de mim. Apenas fiz o que os instintos sanguinários pediam, e fui absorvendo as pessoas, tentando satisfazer minha fome, ao mesmo tempo que os meus pensamentos caóticos turbilhavam pela minha cabeça junto com os dos outros. Havia apenas uma sombra de inteligência e mim, inteligência do meu Eu real. Esse pequeno pedaço de inteligência dizia para eu parar, me controlar, abandonar a raiva e ser racional para tentar sair de lá. Os crimes continuavam, eu sabia o que fazia, mas estava totalmente estúpida e pensava com a habilidade de um animal selvagem, esse era o grande problema. A torrente descontrolada de violência que atirei aos espíritos do abismo ia sendo compensada com um lento despertar daquela minha mente inteligente, como se ela tivesse tempo para se recuperar e ganhasse energia para se recompor quando as vítimas aumentavam. Isso deve ser verdade, já que quando acabava de morrer, mal podia pensar, no sentido comum da palavra, não podia chamar de pensamento aquele estado anterior. Em certo ponto daquele passar atemporal e não-linear do tempo, acho que tornei me novamente humana, e não parecia ser nenhuma vantagem. Creio que minha vontade possa ser considerada muito forte, porque nessa hora eu parei com o massacre voraz, contendo aquele meu desejo furioso. Eu olhava para todas os espíritos decadentes que me rodeavam por todos os cantos, talvez piores que eu, um pouco consciente dessa minha estranha situação de existência coletiva, tentava calá-los.
Tinha meus pensamentos funcionando quase bem a essa altura, contudo isso não me deixava menos confusa e assustada, eu ainda estava em um espaço assustador, dominada por sede de sangue, perdida, sozinha, sem saber de nada. Mas uma coisa eu já sabia, havia muitas consciências em mim, elas tentavam dominar-me e guiar minha ações, então eu deveria combatê-las
Fiquei me segurando para não voltar à caçada, difícil, mesmo minha consciência de "eu", sem os outros, era dividida em dois, o fraco lado racional que queria parar e descobrir como sair daquele lugar, e o lado assassino, que só queria se saciar e aumentar seus poderes através da absorção de mais espíritos, e que jamais pararia por si só.
"Menina, menina, pára, pára com isso, pára, se controla, aguente firme!" Eu falava para mim mordia minhas próprias mãos para doer, distrair-me de alguma forma dos anseios vis. Sentia-me tão impotente, parecia que sequer eu poderia controlar minha própria vontade, ainda tinha muito de animal em mim, mesmo que pudesse pensar como humano.Tentei resistir com minha própria vontade, lutava com unhas e dentes para que meu desejo prevalecesse, para que eu mandasse em mim, e não os outros espíritos componentes, com todo o seu ódio rancoroso, me controlassem à bel-prazer. As memórias e conhecimentos de todos os outros espíritos se misturavam aos meus, era difícil saber o que era meu e o que era deles, mas aquele grande número de informação, ao mesmo tempo que me enlouquecia, me enriquecia de vivências, conhecimentos, habilidades intelectuais, e até mesmo racionalidade, mas eram os desejos violentos deles que vinham à tona com toda a força, a raiva era o único sentimento que se manifestava por completo, tornando toda aquela parte construtiva da consciência coletiva impotente diante de seus males incomensuráveis. Além do mais, os conhecimentos de todos eles eram apenas sobre o mundo material, em se tratando do mundo espiritual, sabiam o mesmo tanto que eu: nada. Não se estranha que estivéssemos todos atirados como animais naquele lugar. Usei de toa a minha força de vontade para me dominar mesmo sob o peso de toneladas que se colocavam em minhas costas devido ao meu dom, e às minhas próprias vítimas. Eles abaixaram a barulheira e os pensamentos caóticos, consegui dominar aquela consciência coletiva parcialmente com a minha vontade. Eu queria que apenas a minha vontade fosse a minha guia, guia da minha assustadora existência coletiva, e que de mais ninguém interferisse. A raiva diminuiu muito após essa vitória, de que, admito, tenho muito orgulho, então se tornou controlável, o frio também foi bem suavizado, já o sentimento de tristeza apenas cresceu na mesma proporção que os outros incômodos desvaneceram.
Há males que vem para bens, a tristeza era insuportável, quis me matar imediatamente para me livrar dela, todo o sofrimento se concentrou naquele sentimento infernal, que, se já não podia descrever antes, muito menos agora. Talvez se dissesse que dentro de mim estava o coração do Inferno Cristã, o Círculo da Traição, onde Lúcifer e o maior mal de toda a criação habita, abismo dos abismos, tormento dos tormentos, essa comparação é apropriada tamanha era a força daquela “Tristeza”.
Me esvaí em lágrimas, não estavam mais tão frias, só que a tristeza que carregavam para o chão, sem no entanto, diminuir a do meu interior, era imensamente maior. Talvez quem veja essa palavras as considere demasiado melodramáticas, mas não são, nada é melodramático se condiz com a realidade, mesmo que pareça um exagero estúpido. Sentia-me estúpida, fraca e condenada, sem esperança, destinada a uma morte trágica ou a uma vida ainda pior, só queria sair de lá. Mas não importa, o desejo de absorver tornou-se controlável, eu já não precisa me matar de tanto esforço para não voar no pescoço de cada espírito que via, então, ainda que pelo preço de um sofrimento imensurável. Questão de sobrevivência, seria melhor sentir aquilo e não piorar mais, do que não sentir e alimentar minha fome, entretanto eu não tinha essa noção, eu não tinha decidido assumir o controle para parar de caçar, e sim para simplesmente estar no domínio de mim mesma; Da mesma forma, não tinha parado de caçar apenas porque a vontade e raiva haviam diminuído, e realmente haviam, mais se devia à tristeza que distraía os seus desejos de predadora, enfraquecendo-os ainda mais. Pensei como sairia dali, nenhuma boa idéia, fiquei de pé e fiquei andando naquele lugar escuro e infeliz, chorando por muito tempo até as minhas lágrimas acabarem, e então apenas dando os passos sem direção, me esforçando para conter a Tristeza, e também a raiva, reduzida mas ainda presente. Vaguei por tempo indeterminado, talvez até muito, e caí no chão entre aqueles tantos espíritos rastejantes, achei que talvez fosse me tornar um deles, mas voltei-me a me erguer, e decidida segui um estranho instinto, fechei os olhos e me imaginei em qualquer outro lugar. Quando abri os olhos não estava mais lá.
Estava em uma sala pequena e luxuosa, sem nenhuma janela ou móvel, apenas uma porta, ouvia-se vozes estrangeiras e risonhas dela, eu entendia cada palavra que eles falavam e também reconheci que era francês, ainda que nunca tivesse ouvido uma única palavra naquela língua ou sequer ouvido falar dela. Não fazia idéia de onde estivesse, contudo isso não tinha a mínima importância, tudo que importava era estar bem longe de... lá, entrei pela porta aberta e vi seis pessoas sentadas em volta de uma mesa jogando dominó, três homens vestidos com roupas de nobre, trajes extremamente finos, um de vermelho, um de azul, um de preto, todos de peruca; as mulheres com longos vestidos de festa de mesma nobreza, um verde claro e outro branco com detalhes vermelhos. Um dos homens, o mais velho e elegante, que estava sentado na borda mais distante de mim, com a roupa vermelha e a peruca mais longa de todas olhou para mim e perguntou grosseiramente:
- Quem é você, garota imunda?
- Eu não sei meu nome. E o senhor, quem é? – Não sabia o que falar ou fazer, era a primeira que falava com alguém depois de morta.
- Prazer, sou Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade, descendo de linhagem nobre e honro o título através de meus livros, em que prego a verdadeira liberdade de expressão e ação. O que você está fazendo aqui e sem roupa?
- Não sei, eu só saí de onde eu estava e vim parar aqui. Que lugar é esse? – Eu perguntava inocentemente, não importava o quanto ele parecesse hostil e grosseiro, era um ser humano que falava como humano, portanto, vê-lo era um alívio. Ignorei o comentário da roupa, parecia realmente que sequer havia sido falado.
- Está na minha dimensão casa, as chances de você vir parar aqui por acaso são praticamente nulas, mas sei que não está a mentir, eu perceberia. Como você não tem nome, gostaria de chamá-la de alguma coisa, usarei Justine, que é meu nome favorito, e poderia combinar com você. – Riu. – Já que está aqui, por que não aproveita para se arrumar? Você é incrivelmente feia, mesmo para uma criança, quem vai da miséria geralmente é assim, feia, rude, pele grosseira, roupas sujas, e a miséria continua mesmo após a morte.
- Eu não sei como é aminha aparência, senhor. –Abaixei a cabeça, a humilhação que sentia combinava com a minha tristeza de uma forma impotente, não vingativa.
- Antonin. – Gesticulou para o de verde e bigode. – Pegue um espelho para a nossa hóspede.
- Sim, marquês. – Saiu por uma porta que estava fechada, mas não trancada, volto com um espelho de corpo inteiro que era quase do tamanho dele, colocou-o na minha frente.
– Aqui, senhorita. – Ria baixo, mas percebia. Eu era tão ridícula assim? Tirei a dúvida me olhando no espelho:
Só aí percebi que eu estava nua o tempo inteiro. Um corpo pequeno, pernas e braços magríssimos que mostravam muito dos ossos, até pareciam compridos por causa da finura, mas não eram; o tronco tão seco quanto, mostrando todas as costelas, e seios pequenos e murchos que davam um pequeno toque de feminilidade mal-feita ao me corpinho de miserável. Meu rosto era de um redondo corroído, a carne afundava nas bochecha como em uma velha, os olhos grandes e castanhos que se escondiam nas covas de caveira onde deveria haver um pouco mais de carne, o nariz era afinalado e um pouco comprido e a boca pálida, seca e nada carnuda; cabelos cinza que pareciam um arbusto de espinhos, fios pretos sujos com imundície que os deixava daquela cor decadente. Nada em mim era carnudo, aproveitei para sorrir e ver que meus dentes eram de um amarelo bem escuro, beirando o marrom. Odiei a minha imagem no espelho! Tão feia, tão suja, nojenta! Por que eu tinha que ter aquela aparência? Eu era daquele jeito quando estava viva? E por que não tinha nenhuma roupa? Ah, um pensamento se sugeriu em minha mente, no entanto no o desenvolvi, dei passos para trás e olhe para o marquês, sentindo-me um animalzinho imundo e desprezível.
- Eu estava errado, donzela? –Riu.
- Não. – A tristeza me corroia, minha auto-estima nunca poderia estar menor do naquele momento, era insuportável, desejava morrer, desaparecer, me esconder a qualquer custo.
Todos olhavam para mim em silêncio, então Sade estalou os dedos e todos começaram a rir como se vissem o melhor palhaço do mundo. Rindo de mim, não comigo, a vergonha era máxima, era humilhante, uma humilhação desumana e degradante, eu era tratada como o lixo mais vagabundo, queria morrer ainda mais do que antes, só que não saía do lugar, paralisada diante de tal zombaria. A tristeza começou a diminuir, se convertendo em raiva como muito antes havia acontecido, e eu sequer quis conter meu instinto assassino, e aqueles tentáculos estranhos saíram de mim para absorver todos eles, ao todo, seis, um a mais do que o necessário. Fui tão rápida que acertei quatro dos cretinos, um escapou, o Marquês, ataquei-o novamente mas do nada o tentáculo voltou para o meu corpo, e minha vista escureceu, minha consciência adormeceu por um momento, um desmaio. Acordei amarrada em uma maca de hospício, o Marquês de Sade estava de pé ao meu lado, olhando sério.
- Menina, você matou os meus amigos, eu deveria te matar por isso, mas agora vejo o quão monstruosa você é, no entanto aqueles bajuladores estúpidos eram completamente substituíveis, por isso não lhe guardo nenhum rancor. Não sei se sabe, mas sou um escritor bastante sádico e nada me dá mais prazer do que ver outras pessoas sofrendo, é inspirador, eu vejo nos seus olhos que você é um tipo como eu, tem olhos de uma assassina, que se delicia em fazer o mal, é de má índole. Não apenas isso, você é um monstro, um demônio da pior espécie, cheira a podridão moral e espiritual, de uma energia pesada, densa, perversa, talvez você até seja pior que eu. E mais, sinto um poder imenso que você pode desenvolver, que te tornará muito poderosa. Isso significa que enquanto você viver, espalhará morte e sofrimento pelo universo, e seria um crime contra a natureza eu matar uma máquina tão boa para seus propósitos. Sabe, menina, a vida humana não tem nenhum valor para a natureza, ao contrário, quando se tira a vida de um homem, se está fazendo um favor a seus divinos propósitos, pois todo ser vivo carrega matéria prima emprestada da natureza, e quando matamos um deles, devolvemos essa matéria, e com esse material de volta, ela pode fazer mais de suas maravilhosas obras. É muita arrogância do homem pensar que vale mais que outro animal, se é natural caçar para comer, também é natural que matemos uns aos outros por qualquer motivo que convir, a vida humana não vale nada! então, garota, continue com esses olhos vermelhos de assassina. – Olhou fundo nos meus olhos, eu não sabia que estavam dessa cor, mas não tinha motivo nenhum para não acreditar na afirmação. – Você é uma dádiva da natureza, como eu, e é só por isso que não te matarei, estarei fazendo maior favor aos propósitos divinos de nosso universo te deixando viva, do que tirando sua vida. Pode agradecer da forma que quiser, sou assim, justo. – Terminou com ironia.
- Me solta. – Pedi, assustada, não conseguia nem me mexer e nem soltar meus tentáculos, só consegui mover olhos e boca.
- Não, eu disse que não te mataria. Só que seria muita generosidade de minha parte te deixar ir sem nenhum castigo, afinal, você tentou tirar a minha vida, e a minha vida vale muito para mim mesmo, ainda que não tenha o mínimo valor para a natureza. – Desembanhou uma longa espada e me olhou com um olhar demoníaco assustador.
- Não, pára, pára. – Comecei a tremer, mesmo paralisada, e chorar desesperada.
- Relaxe, isso aqui não é real, estamos em uma ilusão, tudo que eu fizer com você será como em um sonho e seu corpo estará intacto quanto terminarmos. Só que, bem, vai doer como de verdade. – Riu e perfurou meu ombro com a ponta da espada. Dor aguda, gritei desesperadamente. Aquilo foi um carinho comparado ao que se passou depois, por uma hora ele furou meu corpo inteiro, e eu não morria, e agonizava, chorava, sangrava, sofrendo dores inimagináveis por mortais, porque qualquer vivo teria morrido com aqueles ferimentos. Não dava para contar os furos, não dava para medir a dor, os gritos não eram altos o bastante para fazerem honra ao sofrimento pelo qual passava nas mãos daquele maníaco, chorava tremendo de dor implorando pela morte que me libertasse daquela tortura lenta. Depois eu milagrosamente fui regenerada de todos os danos, e ele aqueceu a espada com tocha que veio do nada, e voltou a fazer furos pelo meu corpo, cortes cauterizantes, a dor era imensamente maior. Meia hora se passou, nenhum humano poderia agüentar aquilo. Nenhum! Todavia, quando não existe nem a escolha de desistir, nem de fugir e nem de morrer, quando se está preso e totalmente privado de liberdade, apenas suportamos a pena, e aquilo que nenhuma pessoa seria capaz de agüentar, o completamente suportável, se torna suportável à força. Foi quando percebi que a necessidade traz a evolução, eu tinha a necessidade suportar aquela dor imensurável, não para sobreviver, mas só porque não havia opção alguma de fuga.
- Artur. – Estava na caverna, Mefistófeles falava de pé na minha frente.
- Acabou? Eu pensei que era ela, esqueci de mim, mas me lembro de ter sido ela! – Falei bastante assustado, ainda sentia um pouco de dor por causa das lembranças recentes.
- A tortura de Luna dura mais umas três horas, ele vai fazer uma coisa que você não vai querer sentir na pele, é demais, então pularemos essa parte.
- Espera, ele? – Arregalei os olhos, ardendo de ódio com a ideia.
- É, isso mesmo, tadinha. Apenas se concentre, vocês poderão se vingar dele pelo que fez quando estiverem treinados. Vou só explicar, a vida de Luna, pelas memórias que li, tem mais de duzentos anos, você não precisa viver isso, então te colocarei para viver apenas as partes mais importantes, o resto será colocado na sua cabeça na forma de memória, vai achar que viveu, mas não terá realmente vivido, nem sequer saberá o que realmente viveu como uma ilusão vívida, e o que foi memória artificialmente introduzida.
- Para onde vou agora?
- Só espere. – Falou e tudo já ficou escuro.
Estava caída no chão na frente do espelho, o Marquês de Sade estava de pé do lado, eu chorava desesperadamente com o rosto enfiado no piso, ainda tremendo aterrorizada, tão aterrorizada que, todos a raiva e fome haviam sumido completamente, substituídos por aquele terror enlouquecido que me proibia até de ousar levantar o rosto.
- Adeus garota, espero que nos vejamos logo. – E ele sumiu, eu não vi, mas senti aquela presença amaldiçoada sumir. Certamente voltaria, era a casa dele. As lembranças vinham como imagens na minha mente, torturando ainda mais o meu espírito arrasado, eu só queria paz, um pouco de paz, não podia tê-la. O pior era saber que, de certa forma, todo aquele horror havia merecido, se eu fosse julgada pelo número imenso de vidas que eu havia destruído de forma perene e maldita. Senti-me culpada apesar de todos os sofrimentos, mas não o bastante para achar que merecia aquilo. Ninguém merecia! Depois de pelo menos meia hora chorando sem parar no chão, parei me recompus, ainda que eternamente marcada por aquela trauma diabólico, e voltei para o estado de raiva. Minha ávida era um ciclo das emoções raiva, tristeza e medo, uma história trágica sedenta por um final mais agradável que o desenvolvimento infeliz. Eu já imaginava mentalmente o que faria com Sade se pudesse colocar minhas mãos nele, o ódio era maior que qualquer coisa, a diferença é que esse não se baseava na minha doença, era real, um ódio nascido do ressentimento contra alguém te que te maltrata, o que ele fez não foi mal-trato, foi um crime sem perdão, uma tortura diabólica em todos os sentidos mais perversos. Não mais virgem, não mais virgem, isso era o que mais me enchia de repulsa e sede de vingança, velho nojento e miserável, e eu não mais virgem. Tomei coragem, impulsionada pelo ódio, e fiz como havia feito para sair do outro lugar, fechei os olhos e me teletransportei.
Cheguei a uma pequena cidade que parecia muito com uma cidade pequena do mundo físico, não saberia dizer qual. Barracas de venda, lojinhas, casinhas, pessoas, vagabundos, crianças, a ruas largas e o chão de terra batida, nenhum área asfaltada, mas muitas áreas cobertas por gramas, o que dava um ar de simpatia à cidadezinha. Perguntei para uma mulher jovem que passava, muito bonita: -Onde estou, senhorita?
- Está em Enzolânia, aqui espíritos fracos convivem em paz e comem as batatas que são o símbolo de nossa cidade.
- Batatas? – Senti água na boca, lembrei de algo: gostava de batata. – Onde arranjo?
- Não tá vendo? – Apontou para a barraca mais próxima. – Tem por toda parte.
- Obrigada. – Agradeci e andei até banca, pedi para que me dessem uma batata assada. Aprendi que no mundo espiritual as pessoas não pagam produtos com dinheiro, mas com algo chamado Contrato, o dinheiro estipulado que é padrão em todo o universo é a “benção”, através de um contrato simples, que não exige papel, apenas palavras. A benção é um tipo de energia que aumenta a felicidade, se você entrega duas bênçãos a uma pessoa, a felicidade e a paz de espírito dela aumentam, mas essa benção acaba sendo consumida com o tempo, como qualquer tipo de energia. Toda pessoa a carrega naturalmente em si, gasta e regenera de acordo com as situações que vive, quanto mais se passa por momentos em que a felicidade tende a aumentar, a benção aumenta, se o contrário acontece, ela diminui, e ela acaba servindo como uma alegria temporária consumível mesmo nos piores momentos, ou um realce nos melhores. Com essa explicação, parece ficar claro que eu não tinha “dinheiro” para pagar, sorte que ela só cobrava depois da refeição, como em um restaurante.
- Se não tem dinheiro para pagar vai ter que pagar com trabalho, e assar batatas. – Ela brigou de forma bem humorada, todavia eu estava seriamente brava e nervosa. Em realidade, furiosa, todos podiam comprar uma batata assada com duas unidades de Benção, algo que até um infeliz qualquer teria. Eu não tinha nenhuma! Como podia ser tão infeliz? Tão malditamente infeliz... Tão... malditamente... infe... liz. Creio que meus olhos tenham se tornado vermelhos, a raiva era irresistível e incontrolável, absorvi a mulher com os flagelos, e faminta corri pela cidade absorvendo tudo e todos que via. Até lá, achava que minha supremacia no outro lugar, o escuro, se dava ao fato de lá só haver almas condenadas, agora sabia que não, meu poder, como o profeta maldizente Donatien de Sade havia dito, era imenso. Um poder egoísta e implacável que devastou a população da cidade, quem conseguiu se teletransportar para outro lugar, o fez, quem não pôde, se tornou uma de minha infelizes partes, e por mais que muitos me atacassem com dons dos mais diversos, eram todos tão fracos que não ultrapassavam meus imenso tentáculos, e mesmo quando me atingiam, os danos eram leves ou se regeneravam imediatamente. Não houve resistência à chacina, tudo supostamente iniciado com uma batata pelo qual não pude pagar. Nenhuma única viva alma restante, era uma cidade pequena, mas agora era uma cidade fantasma, peguei umas cinco batatas assadas e sentei para comer calmamente, o desejo louco por vítima estava temporariamente satisfeito, eu já conseguia controlar o meu desejo físico e a raiva com a minha força de vontade, no entanto não sentia mais o desejo de parar. Uma vez que eu já tinha controle sobre mim e não teria mais crises de abstinência, absorver outros espíritos apenas me tornaria mais forte, ao invés de me fazer sofrer muito mais, eu tinha que me tornar mais forte, o Marquês de Sade esperava, e eu não o decepcionaria. O prenderia, cortaria cada pedaço do seu corpo, e faria com que crescesse novamente, assim cortaria de novo, e faria ele sofrer tanto e por tanto tempo que ele viria em si mesmo apenas um piedoso, enquanto eu teria a sua reação consideração como uma pessoa verdadeiramente sádica. Eu seria sádica, mas antes precisa aumentar minha força já tão proeminente. E a Tristeza eterna restava, me teletransportei para... nem sei onde.
sabia disso, mas deixar a culpa superar a vontade de viver é tolice, e com tudo que tinha, acabei por dominar meu corpo e mente, e a minha vontade prevaleceu sobre todo o ódio que me habitava quase literalmente