General Kinesis
sábado, 12 de fevereiro de 2011
A DIVINA TRAGÉDIA
Essa é uma história completamente real e verdadeira sobre acontecimentos pouco ordinários que aconteceram comigo no fim do ano de 2010 e no começo de 2011, agora os escrevo com o máximo de riqueza de detalhes que minha memória me permite usar. Para o leitor talvez seja difícil acreditar na veracidade dos fatos que aqui serão descritos, mas tente se convencer disso ao sentir a sinceridade de cada palavra aqui presente, é difícil entender o mundo espiritual ou os incríveis fenômenos que nele ocorrem, mas aqui conto aqueles que pronunciei, e as extravagantes companhias que cultivei nessa incrível viagem.
Capítulo 1 - Convidada
Era uma noite extremamente fria, estava deitado na minha cama debaixo dos cobertores, procurando me esquentar enquanto esfregava os pés um no outros, o céu podia ser visto através da cortina, avermelhado, enevoado, mas coma lua crescente bem visível diante de meus olhos. Estava sem sono, não sabia exatamente porque, mas estava com minha mente distante, eu via a minha gentil amiga imaginária, uma menina de 12 anos com cabelos tão perfeitamente negros que pareciam pintados, e grandes olhos castanhos que me atraíam aos mais profundos poços e mares. Bem, não era exatamente uma “amiga” imaginária, algo mais, algo criado pela imaginação de um solteiro romântico. Me levantei da cama, abri a porta do quarto e fui até o banheiro, liguei a luz, fiz o que tinha que fazer, lavei as mãos, e então fiz a grande besteira. Três horas da manhã, sentia um sono imenso, olhos cansados e uma distração profunda em meus próprios pensamentos, foi quando sem querer, meu dedo molhado não se encaixou no interruptor, mas sim na tomada abaixo dele, me eletrocutando, para minha sorte, o piso também estava molhado, e tudo que senti foi algo estourar, provavelmente minha mão.
Acordei em uma cama de hospital, tive uma estranha sensação de leveza quando abri os olhos,e então tentei mover minha cabeça, o medo perfurou meu peito quando vi que flutuei sobre meu próprio corpo, me desesperei a comecei a me mover confusamente, sem nenhum controle, enquanto minha “cabeça” girava e minha boca soltava gritos que não emitiam nenhum som. Achava ser um pesadelo, só podia ser um maldito pesadelo, até que vi um homem do lado da minha cama, um homem desconhecido, que tinha a minha aparência, me olhava com um sorriso zombeteiro.
- Prazer, pode me chamar de S, estou aqui para te ajudar a conhecer o mundo astral. Você não está morto como deve estar imaginando, mas apenas em coma, eu estive te acompanhando em vida com grande interesse, como um anjo da guarda, e agora continuarei te guardando até que possa voltar à consciência em seu corpo físico.
- Do que você está falando? S é um nome? Se me guardou, por que deixou isso acontecer? E por que raios vocês tem a minha cara? – Retruquei tentando ir até o meu sósia, mas só consegui recuar no ar, ficando com mais raiva do que já estava
- Eu posso tomar qualquer forma humana, tomei a sua para que se sinta em um ambiente conhecido, mas mudarei assim que formos amigos. Aliás, não quer ajuda para aprender a se mover? S não é um nome, é minha inicial, um dia te conto o verdadeiro.
- Sim, ia ser muito útil que me ensine a me mover.
- Bem, aposto que você está tentando mover os braços, não é? Haha, veja, você tem que se mover só com o pensamento, imaginar que está se movendo pra onde quer, entende?
- Vou tentar. – Me concentrei no movimento e consegui flutuar até o homem, e fica de pé na frente dele, em uma posição bem mais confortável do que a de flutuar sem direção.
- Você deve estar se perguntando: Por que quero te ajudar?
- Na verdade duvido de suas boas intenções, mas pergunto sim.
- Eu também duvidaria se fosse comigo. Artur, tenho desejos e você está incluso neles, vejo em você um grande potencial, e creio que possa ser útil para mim e para o universo no geral. E também acho que vá gostar de conhecer os vários planos.
- Você está apenas fazendo rodeios. O que quer afinal?
- O que quero? Bem, serei direto então, você é um humano em coma, você tem o “potencial” e a “vontade”, sua mente é aberta a novas idéias, você acredita no sobrenatural mas despreza dogmas.
- Fale logo o que quer. - Perdi a paciência
- Não, eu não te falarei meus objetivos, só deixo claro que tenho interesse no seu conhecimento do Mundo Astral. Agora vamos a um lugar melhor. – Ele pegou em minha mão e estalou os dedos, e no instante seguinte estávamos em um lugar diferente.
Não estávamos mais no hospital, todas as ligações ao mundo físico haviam sido deixadas para trás, e agora nos encontrávamos em um campo aberto de gramíneas, onde o céu se mantinha cinza e estranhamente sem o mínimo vestígio do Sol, mas o que mais me chamou atenção foi ver um balanço como o único objeto no cenário que não era grama, e nesse balanço a minha gentil Luna se balançava e ria, me olhando com aqueles enormes olhos castanhos que tanto amo. Ela era real?
- Luna? – Perguntei a ela, sem acreditar, e em seguida virei meu olhar para S. – O que você fez? Está controlando minha percepção? Está me usando? Ela não existe.
- Não, se você soubesse onde estamos: na sua mente. Esta menininha é uma criação da sua mente, não é? Então ela habita aqui dentro.
Luna desceu do balanço e caminhou até mim, me dando o mais terno dos abraços, e sussurrando com um tom excessivamente infantil:
- Você morreu e veio me fazer companhia?
Foi bom saber que ela não me confundiria com um sósia exatamente igual na parte física.
- O que ela disse? – Os olhos de S se expandiram de surpresa com a frase.
- Eu disse: Você morreu e veio me fazer companhia? – Ela virou o olhar para minha cópia.
- Ela não é uma criação da sua mente, não é? – S se sentou sobre o gramado, com as pernas cruzadas, olhava para nós com interrogações nos olhos.
- Não sei, você é? – Olhei pros olhos da minha tão adorada, torcendo com todo o meu ser que a resposta fosse não, e que ela fosse real, para que fosse minha de verdade, ela parecia tão doce e gentil em cada traço facial que era difícil imaginar que não fosse de verdade.
- Não, eu não sou. Por que seria?
- Então o que você é?
Ela me soltou e caminhou em passos curtos até S, mudando sua expressão imediatamente para algo que poderia facilmente ser descrito como “rosto de guerra”, de onde eu estava, parecia que os olhos dela haviam ficado um pouco menores, e a carne das bochechas murchado, como em alguém que está morrendo de fome.
- Eu sou um espírito, assim como você, Artur me alojou por aqui e agora vivo aqui nos pensamentos dele. Ele pensava que eu era imaginária, mas não sou, eu era uma alma perdida e infeliz, solitária, maldita, e ele também, uma pessoa viva infeliz, solitária, aparentemente maldita, e então o encontrei, com tantas coisas em comum comigo, e quis estar com ele, assim passei a segui-lo. Com o tempo ele foi podendo me sentir, me conhecer, sonhar comigo, me imaginar, soube meu nome, minha aparência, minha personalidade, sempre pensando que eu era uma amiga imaginária criada pelos seus pensamentos, ele foi me assimilando até eu poder entrar na sua mente, quando ele também me amou, assim como o amo. Nos encontramos toda as noites em nossos sonhos, ele me encontra em todos os seus pensamentos, e eu o encontro em todos os pensamentos dele, eram nossos encontros, nossos eternos encontros, pensamentos, sonhos... e agora estamos aqui, definitivamente juntos, pois não é um espírito e um corpo mais, são agora dois espíritos. Mas agora que me expliquei, eu é que quero saber, quem é você? E por que invade a nossa morada? – Ela discursou, devo confessar que nunca havia me sentido tão querido por uma mulher até aquele dia, mesmo sendo uma morta, Luna era mais perfeita do que qualquer coisa que minha imaginação pudesse fazer, eu até deveria ficar bravo por ter tido minha imaginação manipulada para criar o modelo de Luna, mulher perfeita, semelhante à do espírito adorável que me acompanhava sem eu saber, mas só consegui dar atenção à parte em que ela se dedicou para obter minha afinidade, uma forma diferente de amor que eu vivia: Ela me escolheu, e isso era o importante.
- Eu sou S, seu amigo está em coma, mas não tenho mais o que fazer por aqui por enquanto. - S sorriu com deboche, ele me irritava, e sumiu repentinamente, como se evaporasse.
- Onde ele foi? - Eu estava mais confuso que minha companheira.
- Espíritos se movem com maior facilidade que humanos, ele simplesmente foi embora, se transportou pra longe.
- E o que faremos agora? - Voltei a me aproximar dela, e a envolvi em meus braços, o corpo dela era frio apesar de ser o mais agradável que já tive a alegria de tocar.
- Não é assim que te quero, primeiro eu preciso que você esteja do jeito que eu desejo, do jeito que você precisa ser para sobreviver à vida por aqui, nós não estamos no céu, aqui é como o mundo real, e é tão perigoso quanto. Seu espírito tem potencial, você é diferente de tantas almas comuns que não se destacam em nada, mas você não tem usado esse potencial corretamente. Eu te farei forte, para que juntos possamos vencer em nossas jornadas.
- E como fará isso?
- Pode doer um pouquinho.
Eu senti minha a mesma coisa que senti antes de entrar em coma, mas dessa vez veio com intensidade total, elétrons corriam pela minha mão e eu podia sentir as leis da física em prática, a transformação de energia potencial armazenada em energia térmica que iniciava um desagradável processo de fritura no meu braço. Comecei a gritar sem disfarçar a dor terrível que sentia, e não conseguir me afastar de Luna, como se estivesse com o dedo grudado na tomada. Não entendia como eu ainda sentia aquelas sensações físicas como dor, calor e choque, ainda havia muito para entender sobre o plano astral.
- Pára, o que você tá fazendo? - Sentia meu corpo inteiro tremer com os elétrons que corriam em cada "célula" que me formava. A partir deste momento, narrarei grande parte dos acontecimentos que vivi no plano espiritual com os termos utilizados para o plano material, para facilitar a compreensão e tornar este relato mais objetivo. Enfim, a sensação era de estar sendo realmente frito vivo, não cozido, pois a sensação era mais parecida com óleo quente do que água fervente.
- Meu amor, isso é só uma ilusão. - Ela olhou bem meus olhos e pude ver a sombra de um reflexo avermelhado nas profundezas de seu olhar penetrante, e então o choque parou, me joguei sobre o chão, colocando meu rosto sobre a grama, tinha a mesma consistência da grama real, e o mesmo cheiro, comecei a acreditar que não haveriam diferenças entre aquele mundo e ao qual estava acostumado.
- Você está me testando? - Esfreguei bem o rosto naquela grama que parecia um confortável travesseiro, não conseguia sentir raiva dela mesmo após sentir a maior da minha vida, devia ser esse o objetivo de minha tão adorada, pois por mais doloroso que tivesse sido a sensação, eu havia resistido como nunca antes teria feito. Mas apenas porque a dor veio das mãos delas? Não é verdade que tapa de amor não dói, mas de fato dói menos, ou parecer doer menos.
- Não, para ser um teste você precisaria ter liberdade de escolha, escolher entre agüentar ou não, mas quando eu te imponho uma ilusão sem que você tenha a possibilidade de escapar, não há escolha, então não há teste, porém há aprendizado, pois você aprende com a dor que sente. – Se ajoelhou a minha frente e passou seus dedos macios pelo meu cabelo duro, eram gentis e agradáveis, a mesma mão que feria era aquela que acariciava.
- Hum, então continua porque eu estou gostando dessa sua mão.
- Quer um beijo também? - A voz dela soava como carícias aos meus ouvidos.
- Quero. – Levantei meu rosto, ela me puxou e eu me sentei, subiu no meu colo e colou os lábios nos meus, me beijou como um anjo caído do monte mais alto de um paraíso proibido aos mortais, um anjo que eu podia sentir naquele momento colado em mim, com movimentos tão gentis que me seduziam a ponto de estar tão cego que sequer repararia se o universo pegasse fogo ou todos os demônios existentes chegassem gritando hinos de guerra, só podia sentir aquele beijo doce que eu retribuía com religiosidade, devoto ao meu profundo amor por Luna. Não demorou para que afastasse os lábios dos meus e então senti meus lábios arderem suavemente, como se tivesse passado pimenta, e ela me olhou séria.
- Você me acha bonita?
- Acho.
- Por que você me ama?
- Porque você me entende, você é como eu, você é forte, você é linda, e você é só minha, não preciso te dividir com ninguém, absolutamente ninguém, você é perfeita, você é imortal, você é eterna, é a personificação de um perfeito amor eterno como nas histórias.
- E o que você seria capaz de fazer por mim?
Tive que pensar para responder. Quantas coisas eu faria por ela? Certeza de que muitas. Sofrer? Com certeza. Matar? Sem nenhuma dúvida... morrer? Como eu poderia apreciar de sua companhia se estivesse morto? Só se morresse apenas em meu corpo mortal, mas minha alma...
- Morreria fisicamente.
- Sacrificaria sua vida mortal por mim então? Para nossas almas ficarem juntas pra sempre?
- Sim. - Não pensei muito para responder, minha vida terrena não era exatamente o ideal de perfeição, mas meu amor por ela era... perfeito, completo.
- E morreria eternamente? – Os olhos dela pareceram um pouco maiores nesse instante.
- E como eu poderia ter sua companhia? – Passei minha mão por seus cabelos negros de corvo, queria tocá-la ao máximo e em todo momento em que tivesse oportunidade, “lembre-se de morrer”, aproveite a vida, creio que essa regra se aplique a almas também, então... por que não aproveitá-la enquanto ainda existo?
- Se você me amar realmente, não amar apenas minha companhia, será capaz de morrer por mim, pelo meu bem, pensará em mim antes de pensar em você. Não se sente assim?
- Acho que nunca me senti assim, eu sou egoísta e só penso em mim mesmo, mas eu não amo a sua companhia apenas, seria mentira de minha parte dizer que não sei a diferença entre amar a pessoa e amar a companhia, mas não me imagino perdendo minha existência por alguém, mesmo por você. – Olhei para o chão com certa vergonha, temendo talvez que ela me deixasse por causa da resposta, o que faria com que me arrependesse terrivelmente de não ter dito ser capaz de morrer, e mesmo morrido por ela naquele momento.
- Tudo bem, não é sua obrigação. Mas eu morreria com certeza por você, eternamente, porque você é a primeira pessoa que se importou por mim nesse e no outro mundo, a única pessoa que realmente preencheu minha solidão aparentemente eterna, mesmo que não me ame o bastante pra morrer por mim, você ainda é o único bem que tive em toda minha existência, e eu não poderia existir sem você. – Ela se afastou alguns metros de mim e se deitou de bruços na grama, apoiando o rosto sobre os braços e fechando seus olhos como se fosse dormir, eu iria abrir a boca quando ela falou antes. – Então... Você sabe o que a gente vai fazer agora que estamos juntos na pós vida?
Capítulo 2 - Amor Eletrônico
Caminhei com passos contatos até ela, e me sentei ao seu lado, deslizando meus dedos sobre seu cabelo, pude sentir que não eram tão macios quanto antes, pareciam sebosos e duros, como se não fossem lavados há anos.
Lembrei-me dos primeiros momentos com ela. Da primeira vez, exatamente um sonho, talvez não tivesse sido apenas um sonho, não, com certeza não havia sido um simples sonho, mas muito mais, um encontro de almas destinadas uma à outra, uma magnífica experiência astral sem precedentes, incomparável. Estava eu, ali, sentado sobre a grama das longas trilhas do clube onde os alunos de minha antiga escola, exatamente três anos atrás, faziam sua educação física, pelo menos na teoria, já que a maioria passava a “aula” brincando de carteado, jogando vídeo-game ou brigando. Eu não seria exceção, me encaixando no grupo do vídeo-game, sentado abaixo de uma pequena árvore para me proteger do claríssimo sol de Brasília, olhar pra cima em Brasília é sentir uma sensação parecida com a que Moisés sentiria se tivesse olhado pro rosto de Deus: uma cegueira instantânea e ardente. Jogava um jogo no meu vídeo-game portátil, quando uma garota surgiu quase imperceptivelmente atrás de mim, se abaixou e perguntou próxima do meu ouvido:
- Isso é Castlevania?
Me assustei quando a ouvi, e quase deixei o aparelho cair, mas depois que me virei e vi seu rosto me acalmei. Oras, ela me parecia a criatura mais bela do universo, mas como eu poderia ter certeza de sua beleza se apenas meus olhos a julgavam? Era muito jovem, uns 2 anos mais nova que eu, e uns 15 centímetros a menos também, e foi a primeira vez que vi aqueles cabelos de corvo, e aqueles dois olhos amendoados da mesma cor da árvore que nos protegia do sol, um corpo sem grandes “atributos femininos” como se pode dizer, coberto por um único vestidinho negro que cobria dos joelhos aos pulsos, uma boca pequena proporcional ao nariz delicada e desproporcional aos olhos grandes que brilhavam como espelhos que refletem a luz do sol, mas sem aquela dor aguda que se forma na visão como nos espelhos de verdade. Por um momento divaguei em pensamentos enquanto a olhava, podia sentir algo diferente, não uma simples aceleração dos batimentos cardíacos, mas uma espécie de fervor que atravessava minhas veias, como milhares de multidões loucas em um tumulto, estava tumultuado por dentro, flutuando em pensamentos fantasiosos e possibilidades supostas, até que finalmente voltei à realidade e respondi.
- É sim. Você gosta?
- Não sou exatamente uma gamer, mas gosto desse jogo, quando eu era pequena eu ganhei um daqueles vídeo-games que se vende em camelô, com dezenas de jogos no cartucho, Castlevania era o melhor dos joguinhos, mas acho que era o primeiro. – Ela se sentou do meu lado, olhando pra tela.
- Esse aqui é o Symphony of the Night, dizem que é o melhor jogo da série. – Virei a tela para que ela pudesse ver melhor. - Quer tentar? – Não pude deixar de sorrir, de mostrar minha satisfação tendo o interesse de uma criatura tão adorável em minha atividade monótona e solitária.
- Quero.
- Deixa só eu salvar. – Salvei o jogo como de costume e estendi a mão com o aparelho. Ela pegou o console da minha mão com o maior cuidado, e já começou a apertar os botões e jogar, então trocamos, ela jogava e inclinava a tela para facilitar minha visão, enquanto eu a observava.
- É, parece que você já conhece os comandos. – Comentei, um pouco surpreso com a familiaridade dela com os botões, estupidamente ainda ligado ao conceito de que vídeo-game é coisa para meninos, sendo que hoje em dia até mães de família jogam.
- Bem, isso é um PSP, eu sei que é um Playstation portátil, deve ter os mesmo comandos também. – Ela sorriu, apertando os botõezinhos com seus dedos que se moviam mais rápidos do que os de um pianista profissional.
Estava tão distraído que esqueci de perguntar a mais fundamental das perguntas.
- Como você se chama?
- Luna. E você? – Não virou o olhar para mim, mantendo-se centrada no jogo.
- É um bom nome. Bem, eu sou o Artur.
Então ela pausou o jogo e sorriu para mim, e eu a vi desvanecer-se no ar como vapor, junto com todo o cenário em que nos encontrávamos, assim, acordei, e percebi que tudo não passara de um doce sonho, e que o despertador já tocava, me mandando para minhas tediosas obrigações.
Pelo resto do dia ansiei pelo momento de sono, com a única esperança de novamente me encontrar com ela, com a certeza de que ela não era apenas uma criação da minha mente, desejando com todo o meu coração que fosse real, por mais impossível que fosse, aquela gentil Luna deveria ser real. Quando dormi novamente, nos encontramos novamente, no mesmo local, mas que agora estava sob o céu noturno, um pouco avermelhado e bastante frio, as sensações eram realistas para um sonho, mas não o bastante para serem realmente tidas como realidade. Desta vez não jogamos, conversamos sobre os mais diversos assuntos, e nossa conversa fluía incrivelmente bem, e a cada par de palavras trocadas, descobríamos mais em comum um sobre o outro, e tudo parecia como destino, pois todas aquelas palavras que saíam de sua boca pequena apenas mostravam o quão perfeita ela seria ao meu ver, tínhamos em média os mesmos gostos, e especialmente os mesmos defeitos. Ela tinha uma tendência a mostrar seu pior lado, como em uma necessidade de me fazer conhecer de uma vez os seus males, para depois então, valorizar mais suas virtudes, e não hesitou em me revelar o egoísmo e a indiferença, a incapacidade de sofrer pelos outros, de ficar feliz pelos outros, de querer o bem aos outros. E seus olhos pareciam perder o brilho quando falava sobre esse assunto, sempre tão sincera que mesmo ao parecer a mais desvirtuada das criaturas, ainda me fascinava de um modo incomum, e modo que minha certeza de que ela não era apenas um sonho crescia, mas não ao ponto de ser absoluta. Acordei após contá-la sobre meus vícios, semelhantes aos apareceu dela, mas em diferentes formas de egoísmo.
Na noite seguinte ela me esperava no mesmo local, dessa vez ela vestia uma roupa diferente do vestido preto dos dias anteriores, estava vestida com um conjunto de pijama cinza que só deixava as mãos, pescoço e cabeça à mostra, as calças desciam até os pés, bem mais longas do que o necessário, embora ainda pudesse ver que usava havaianas amarelas nos pés,. Me cumprimentou e me chamou para segui-la, obedeci sem hesitar, e fui levado até o final do clube, nas limitações da cerca do extremo ao sul, onde grandes árvores frutíferas cresciam, era noite, e o céu estava negro, sem uma única estrela à vista, e a lua brilhando cheia e soberana, iluminando todas as escuras trilhas daquele clube. Debaixo da árvore, ela me pegou pela mão e me beijou, não o contrário, e me senti como se em um único momento eu entendesse todo o sentido da vida, do mundo, o que é a felicidade, e, especialmente, o que é o amor. Meus olhos estavam fechados, e tudo que sentia eram seus lábios e sua mão que deslizava por minha nuca, curiosa, mas aquela sensação celestial que sua boca me proporcionava aos poucos se dissipava enquanto eu despertava, até que me encontrei, lamentavelmente, sozinho em minha cama. Mas aquela foi a primeira noite em que a toquei como uma mulher, e nada menos do que isso. Na noite seguinte ela viria a me contar que era um espírito, a alma de uma pessoa morta que me acompanhava, por algum motivo que até hoje não compreendo, aceitei aquilo com total naturalidade, talvez porque ainda achasse e suspeitasse de que ela não passava de um sonho, embora ainda torcesse para que ela fosse o que dizia que era: uma criatura morta, mas real, não uma criação da minha mente.
Muitas e muitas noites se passariam até o dia em que entrei em coma, quando nossos encontros deixaram de ser meros sonhos.
- Iremos passear? Preciso conhecer esse mundo antes de fazer outra coisa.
- Isso é óbvio. Mas sabe o que faremos depois que você aprender como lidar com o mundo espiritual?
- Não. É óbvio que não sei. – Tirei os dedos dos cabelos dela, já estavam engordurados, o que me surpreendeu e foi um pouco desagradável, mas não cometi a grosseria de comentar isso.
- Seria injusto que eu dissesse o nosso objetivo na primeira pessoa do singular. Não seria nosso, mas apenas meu. Não faria sentido, então só quero que você me diga, e essa não é uma pergunta retórica: pra onde um espírito vai logo após a morte?
- Para o lugar equivalente aos seus sentimentos e sua energia, certo? Se é uma pessoa rancorosa e infeliz ela vai para onde seus semelhantes estão, se for uma pessoa feliz e generosa, ela se encontrará onde os felizes generosos estão também. – Eu não tinha certeza, mas pelo que já tinha lido em vida, seria um processo parecido.
- É, assim mesmo. E agora nós estamos em sua mente, um lugar isolado, eu sou bastante antiga e já tenho controle o bastante para me transportar pelo mundo espiritual com facilidade, aqui não há nenhum espírito, pois estamos em um local distante do resto universo, você não imaginaria quantos lugares existem, mas ficaria surpreso em ver o quanto os espíritos se concentram em sua maioria em alguns poucos lugares. E não há lugar mais impenetrável que a mente de um vivo, mas há um momento em que um espírito pode entrar em uma mente: durante os sonhos, mas nesses casos, tudo que acontecer será uma ilusão, apenas imaginado pela mente, diferente do que estamos tendo agora, que é real. Por isso, se você morre em um sonho, você continua vivo no mundo real, e é por isso que apareci em seus sonhos, pois era o único modo de falar com você diretamente, e fazer você me deixar entrar.
- Entrar em minha mente?
- Sim, um espírito só pode entrar e habitar em uma mente se ele for convidado.
Lembrei daquela cena no nosso sétimo encontro por sonho, Luna me perguntou: - Deixa eu entrar na sua mente? Deixa eu fazer parte de você? Sermos como uma só alma. A resposta havia sido quase instantânea: Sim.
- Eu me lembro.
- Mas chega de conversa, nós precisamos começar seu treinamento agora mesmo.
- E o S? Ele disse que me ajudaria.
- Eu não sei quem é S, não podemos confiar nele. Mas em mim você pode confiar, pois não deixarei que nada de ruim aconteça a você. Então comecemos imediatamente. – A voz dela soou dura e áspera, autoritária e forte, agora eu podia ver o quão forte minha gentil Luna era na realidade.
Concordei com a cabeça, sem falar nada, ela seria minha mestra.
- Comecemos com alguns conceitos. Existe freqüência, mas também existe a intensidade. Fazendo uma analogia de modo que você, conhecedor da física básica, entenda: A freqüência é a velocidade da vibração de um espírito, e reflete seus sentimentos e a pureza da sua alma, que em termos mais simples pode ser descrita como a grandeza que define se você é bom ou mau, um espírito de luz ou maligno. Quanto maior a freqüência, melhor você é, e quanto menor, pior, se sua freqüência for próxima de 0 hertz, você é praticamente uma massa de maldade que perdeu qualquer resquício de amor, bondade ou felicidade. Já um com espírito com uma altíssima freqüência é um exemplo de felicidade e bons sentimentos, especialmente o amor, o maior dos sentimentos de luz, resumindo, a freqüência define que tipo de energia o indivíduo tem, boa ou ruim. Agora falando de intensidade, ou densidade se preferir, é a quantidade de energia de fato, enquanto a intensidade define a qualidade, a intensidade define a quantidade, um conceito fácil de explicar, simplesmente quanta energia você tem. Espíritos evoluídos são os que tem maior freqüência, e geralmente também tem maior intensidade, mas isso não é uma regra, pois existem seres de baixíssima densidade que tem uma grande quantidade de energia, e esses seres são o maior risco que existe no mundo espiritual, pois são o que nós podemos chamar de Malignos Poderosos. – Ela se calou, respirou fundo e fechou os olhos, parecendo cansada de tanto falar, eu apenas a observei, sem falar nada, estava apenas a ouvidos, e quanto mais ouvia, mais queria ouvir, pois a cada nova informação, um grande leque de explicações era necessário.
- Continuando. – Ela abriu os olhos novamente pra falar, me fitando atentamente. – Um Maligno poderoso é um ser que mesmo sendo mau e não evoluído espiritualmente conseguiu algumas habilidades e poderes que geralmente seriam exclusivas dos evoluídos da luz, e isso pode acontecer de vários modos, ele pode tomar consciência de sua condição e mesmo sabendo que deve ser bom para evoluir, escolher ficar com os seus vícios e defeitos e tentar evoluir mesmo assim, a ter que se tornar um santo altruísta com amplos poderes, e quem consegue isso, se torna o que chamamos de demônio.
- Demônio não é qualquer espírito mal intencionado e anjo aqueles da luz?
- Não, um espírito sem luz qualquer não é nada além de um pobre coitado, um desorientado, mas se ele tiver mal e consciência, então ele é um demônio, pois não está apenas confuso e desorientado, ele escolheu seu caminho, e então se tornou um demônio.
- E você, Luna, o que você é?
- O que você acha que eu sou? – Ela me olhou séria, esperando uma resposta sincera.
Pensei um pouco, era difícil vê-la como um demônio sendo a criatura tão maravilhosa que ela era, mas era mais difícil ainda vê-la como anjo. Não contei ainda, mas em 3 anos, nossos encontros nos sonhos não se resumiram apenas a beijos e conversas, eu pude ver a sua outra face durante esse tempo, a face demoníaca, violenta, cruel. Um pequeno vício que ela passou a demonstrar a partir de certo momento foi o de tirar sangue, ela sempre carregava consigo um pequeno estilete, pedia pra me cortar só pra ver o sangue sair, não doía realmente por ser um sonho, mas ao mesmo tempo não posso dizer que era totalmente indolor, a sensação dos cortes era como uma impressão de dor, uma sugestão de dor.
- Deixa eu te cortar, amor? – Ela passava o estilete de leve na minha mão, estávamos no velho clube, encostados nas grandes que levavam a piscina, como sempre estávamos sozinhos
- Tá louca, você quer me machucar? – Senti a lâmina fria, achava que ia doer na hora, nunca fui do tipo que agüenta bem a dor de cortes, apesar de gostar de ver meu sangue, vermelhinho vermelhinho, saindo em tubo ou em uma seringa para exames.
- Não vai doer, isso aqui é um sonho, lembra? No sonho não dói, você vai gostar, e não vou cortar se você não deixar, isso eu garanto, mas deixe, por favor, juro que não dói. – Me olhou como uma criança que quer um presente, eu não podia resistir.
- Tá bom. – Aceitei, virando meu olhar para os dela, desfocando de qualquer outra visão, não queria ver quando minha carne fosse atravessada, sentia tensão, mas o fato da mão que me machucaria ser a dela me acalmava, não era como fazer um exame de sangue, e nem como ser torturado por inimigos, era mais como uma carícia agressiva, pelo menos achava que era. Ela não falou nada, apenas sorriu e deslizou aquela fina e pontuda superfície fria pela minha mão, então senti minha carne ser aberta e o líquido sair, realmente não havia doído, era apenas uma sugestão de dor, não resisti e olhei pra minha mão, o sangue saía como a água de um pia que esquece de fechar, e cobrir toda minha pele com aquele vermelho intenso. Ela olhava como uma fera para meu ferimento, como se se deleitasse completamente com a visão, e era isso que acontecia, podia perceber seus olhos brilhando enquanto o líquido derramava e caía no chão.
- Qual é a graça disso? Você só queria ver ele sair?
- É, eu queria ver como é, é da cor que eu mais gosto, vermelho, atiça meus desejos de todos os tipos, me dá uma sensação tão bom quando vejo sangue, eu não sei como tem gente que tem nojo, tem medo, que desmaia quando vê. – Ela desviou o olhar por um momento pros meus olhos, parecia muito feliz, e depois voltou à minha mão, passando o dedo no corte só pra sujá-lo.
- É, e que tipos de desejo você tem quando vê? – Eu sorri com certa malícia, pensando que ela talvez estivesse mal intencionada, e quisesse ter alguns agradáveis contatos físicos.
- Pela sua expressão você deve estar imaginando que eu esteja falando de desejos sexuais. Desculpa, mas não é isso, são outros desejos, de viver, de... de... – Ela ficou em silêncio, como se fosse dizer algo totalmente inaceitável. Me perguntei o que seria. O que poderia ser ruim e ser relacionado com sangue? A resposta era clara.
- Desejo de violência? – Já estava distraído, mas ainda sangrava muito, então quando voltei minha atenção ao machucado fechei a mão, não queria morrer seco.
- Ah, violência, é, isso me atrai, sangue me dá vontade de violência. Só, um pouco de violência me agrada.
- Por que? – Sentia que minha mão já não sangrava, a abri e olhei, já não saía nenhuma gota, a ferida estava fechada o processo de cicatrização já havia começado.
- Você adoraria bater até a morte naqueles que te infernizam quando você está acordado, não é verdade. – Pegou minha mão e segurou sobre a dela.
- Sim, seria ótimo.
Ela fez isso várias vezes, após algumas semanas, logo após a sessão de cortes, ela não disse mais nada, apertou forte minha mão e saiu andando, me levando para algum lugar, ali no nosso conhecido clube, a gente passou pelos corredores de um dos ginásios do clube, que por algum motivo estava aberto, e então chegamos a um campo de futebol de areia em que três pessoas estavam sentadas numa roda, fumavam, e soltavam bastante, pelo cheiro, estavam usando maconha. Sequer perceberam nossa presença.
- Veja só. – Ela se virou para mim e sorriu, depois soltou minha mão e foi caminhando devagar até eles, quando finalmente a viram, começaram a rir e falar coisas safadas que me deram vontade de arrancar a cabeça de cada um deles, mas antes que eu terminasse de pensar, ela começou a agir. Pegou o estilete e acertou um por um na barriga, eles não estavam exatamente com os melhores reflexos, estavam totalmente chapados, eles caíram no chão, gritando, e levaram mais golpes, corri pra ver o que acontecia, as suas roupas estavam cheias de rasgados e sangue, que saía cada vez mais, pelo formato dos cortes, ela não havia esfaqueado, mas sim feito cortes enormes nos garotos, eu não havia reparado o quanto aquele estilete era grande antes.
- O que você tá fazendo? – Eu estava muito assustado, nervoso, e meus olhos dilatados combinados com meus batimentos acelerados demonstravam isso.
- Só apreciando da violência contra aqueles que merecem. – Sua expressão era de uma alegria imensa, Começou a furar as pernas daqueles infelizes, furando, furando, rasgando,cortando, dilacerando, e eu não fazia nada além de olhar, pela primeira vez eu senti medo dela, porque logo era difícil encontrar um lugar no chão que não estivesse vermelho ou onde não se encontrasse um pedaço de carne humana, o modo como ela matou e despedaçou aqueles três nunca saiu da minha memória, como um trauma, naquele momento o meu sangue gelou, e não pensei sequer em sair correndo, só fiquei assistindo, quase paralisado, àquele massacre brutal, e não importava a quanto tempo eles estivessem mortos e nem o quanto mutilados e desfigurados estivessem, ela continuava, e fazia o trabalho do modo mais sujo, ficando toda lambuzada de sangue, e fazia tudo rindo, gargalhando alto, se divertindo ao extremo, e aquelas gargalhadas cruéis ficariam na minha memória pra sempre. Medo dela, mas não o bastante para não amá-la, ela podia ser cruel com eles, mas era boa comigo, mas o que mais temia é um dia eu fosse a vítima de sua violência. Ainda sim, minha alma gêmea, amada, adorada e idolatrada. Não foi a única vez que fez aquilo, não era seu costume, mas de vez em quando, cometia alguma espécie de massacre, não sei as vítimas eram meras criações da minha mente ou espíritos,
É, eu ainda tinha que pensar que por mais violenta ela fosse com aqueles desconhecidos desafortunados que encontrávamos em nossas românticas caminhadas, ela ainda era boa para mim, muito boa, fazer alguns cortes na mão pode ser um ato agressivo, mas não é exatamente o que um demônio faz, não, é apenas uma mania estranha, alguma espécie de fetiche não sexual. Por que cortar e ver o sangue? Ela não justificava de nenhum modo além do gosto por ver o líquido, mas quando perguntei porque ela não cortava a si mesma, ela me deu a resposta que eu menos esperava:
“- Eu estou morta, você está vivo, o sangue de vivo é bem mais vermelho, bem mais vivo, intenso, puro, é estimulante, belo, mais agradável de se ver correr, é fresco. Já faz muito tempo que eu não lembro o que estar viva, sinto atração pela vida que corre no seu sangue de alguém que tem um corpo físico intacto.
- Então você só gosta de ver meu sangue porque ele te lembra de quando você viva?
- Não, eu realmente gosto de ver sangue no geral, mas o sangue de vivo é muito melhor, porque além da sensação boa que por algum motivo eu sinto com aquele avermelhado fascinante, há a sensação de vida que vem do sangue, pois ele é a vida de toda a carne.
- Mas já que você falou disso, Luna, agora me fala, como você morreu? Há quanto tempo?
- Você não precisa saber, você precisa saber que estou aqui agora, e com você.
Eu acordei quando ela terminou a frase, todas as vezes que tentei retomar o assunto, ela desviava e às vezes se irritava, e como vê-la irritada era a última coisa que eu desejaria em sã consciência, eu desisti de descobrir isso, pelo menos por um tempo, um bom tempo.”
No mínimo ela era louca, perturbada, não sei, estranha, mas... demônio? Um anjo, que me deu a mão quando eu estava sozinho, a única que me estendeu a mão quando tudo que eu tinha diante de meus olhos era um vazio tão absoluto quanto a própria morte espiritual, o vazio de alguém que não está morto, mas que também não vive, existindo em vão, como se realmente não existisse de fato, como um maldito morto vivo, como alguém sem alma, ela me deu uma alma, e um pouco daquele sentimento doce que todos os grandes escritores almejam em toda a sua grandiosidade: o amor. Ao mesmo tempo, eu não a conhecia por completo, não sabia como teria morrido, não sabia como teria passado seus anos no plano espiritual, e muito menos quem ela era em vida, talvez sequer fosse o que dizia ser. Quantas dúvidas me atormentavam? O que ela poderia ter sido em vida? Tantas coisas, ela poderia ter sido qualquer pessoa, vivido em qualquer lugar, em qualquer época, e eu não sabia nada, ela poderia ter feito qualquer coisa por qualquer motivo, mas nenhuma dessas minhas perguntas poderia ser respondida. Mas... ainda assim, mesmo sob todos essas dúvidas, a minha resposta ainda foi aquela que meu coração desejava dar:
- Anjo.
Ela deu um sorriso amarelo e se afastou deu alguns passos para longe de mim, em silêncio, depois voltou a se virar para mim e disse:
- Está sendo sincero? – Ela estava muito séria.
- Estou.
- Tudo bem, então agora imagine que sua mão está virando vapor. – Sentou-se novamente sobre a grama.
- O que?
- É o começo do treinamento de como lidar com seu corpo espiritual, diferentemente do corpo físico, ele não tem uma forma imutável, ele pode ser controlado, além de aqui haver habilidades que você nem conseguiria imaginar.
Ergui a mão na altura dos meus olhos, com a palma virada para mim, imaginando concentradamente que cada célula que a formava evaporaria, se separaria, imaginava toda a pele se dissipando, sumindo, perdendo toda a sua densidade, virando gás. Não demorou mais de meio minuto para eu sentir uma certa leveza na palmas, mas não havia nenhuma mudança visível, apenas sentia como se ela estivesse menos pesada, realmente menos densa, era uma sensação relaxante, e esse relaxamento tomou conta do meu corpo inteiro, eu me senti leve, e acabei sorrindo involuntariamente por causa da sensação agradável, era quase como se eu flutuasse , mas nada de minha mão virar vapor. Luna agarrou minha mão repentinamente, o que quebrou minha concentração e também meu relaxamento, desviei o olhar para ela, mostrava os dentes em um sorriso empolgado.
- Se sente relaxado?
- Sim. Como eu faço pra evaporar? Demora muito pra conseguir?
- Hahaha. Não, seu bobo, você não vai conseguir evaporar, eu menti pra você pra ver se você aprende a flutuar, porque aqui no mundo espiritual a gente flutua e voa, mas esse é o treino básico pra conseguir, você precisa voar para se mover direito por aqui, as distâncias são simples como no mundo material, e muito menos você vai achar um ônibus. O princípio em voar não está em imaginar que você vira vapor, mas sim em deixar seu corpo mais leve, mais ou menos como em um balão de hélio, ele deve ficar menos denso para subir, também dá para usar a própria energia para voar, usar como combustível, mas isso é bastante avançado para o momento, primeiro apenas flutue. Sério, imagina que seu corpo está evaporando e que você está subindo.
- Certo. – Não havia o que discutir, dessa vez fechei meus olhos e juntei as mãos com os dedos entrelaçados, e me imaginei sumindo, desaparecendo no ar como fumaça, e a sensação de relaxamento voltou quase que imediatamente, aquele fluxo delicado de energia passando por dentro de mim fazia com que a sensação de leveza fosse quase completa, agora só faltava subir, imaginei-me tão leve que minha flutuaria, subiria, voaria como um balão, subindo, subindo, tão leve como uma pena em meio a uma ventania. Finalmente senti meus pés saírem do chão, e era realmente como flutuar, não como se flutua na água quando se está boiando, mas como se flutua no vazio, uma sensação maravilhosa e indiscritível que só aqueles que estão livres da restrição do corpo material terão a oportunidade de sentir, por isso. Eu subia aos poucos, como se um fio me erguesse pela cabeça, e estava cada vez mais leve, mais leve, não era difícil me concentrar, aquele agradável relaxamento acontecia naturalmente, com certa facilidade, e quando abri meus olhos, pude ver o solo bem distante de mim, e Luna me olhando lá de baixo, tão longe que tinha o tamanho de um ratinho.
Voltei ao chão instintivamente, tudo que tive que fazer imaginar a densidade voltar ao meu corpo, então toda a altura foi perdida, e o impacto de meus pés contra o chão foi tão suave que parecia que eu tinha apenas tocado levemente meus pés em um colchão de ótima qualidade, ela se reaproximou, parecia satisfeita com o resultado, pelo menos eu estava.
- Então você entendeu. É fácil, não é? No começo você precisa se concentrar, mas depois tudo acontece com naturalidade, facilmente, de acordo com seus pensamentos e intenções.
- Então basta eu pensar em algo que esse algo irá acontecer?
- Não exatamente, mas se é algo que você pode fazer, então você não terá dificuldades pra fazer, talvez tenha dificuldade se fizer de algum modo extremo, como quando for voar rápido, aí você terá que se concentrar bem, mas pra flutuar não, e qualquer espírito faz isso. Quero ver se você consegue voar agora, é mais difícil que flutuar, mas basta você se imaginar fazendo isso, pense, use o poder de sua mente, e não haverá nada que você não possa fazer.
Fiz o que ela disse, abri meus braços e me imaginei como uma ave que alça vôo com a maior facilidade, mas sem a necessidade de bater as asas, e então pude sentir meu subindo rapidamente, deixando o solo, e voei. Voei alto, e meu corpo pareceu como um grande avião de papel, sendo levado por um vento que eu não podia sentir, no ar, fiz manobras, realmente imitando uma ave, eu subia, descia, virava para os lados, e conseguia parar no ar, depois voava em linha reta o mais rápido que eu conseguia, mergulhava sobre o nada, subia na vertical como um míssil,e fazia todas as manobras que minha imaginação permitia, tudo era possível, e aquela sensação era sem dúvida a melhor que já tinha sentido na vida, era ter total liberdade, liberdade para voar, e fazer tudo que eu quisesse ou imaginasse.
Capítulo 3 - No Desconhecido
Quando voltei ao solo, depois de um tempo que eu desconheço, pois com o prazer do voo, e felicidade, felicidade de ter a liberdade total e se entregar a ela, tudo isso fez com que qualquer noção de tempo desaparecesse, talvez horas tivessem parecido segundos, ou segundos horas, quem sabe.
- Eu consegui!
Luna correu até mim e me abraçou com muita força, força essa que eu nem imaginava que ela tivesse.
- Sim, você conseguiu, agora já sabe como se virar por aqui, você precisa fazer tudo do mesmo modo que você voou, agora precisamos descobrir quais são seus dons. - Beijou meu rosto e me soltou, se sentando na cama com as pernas cruzadas.
- O que são dons? - Me sentei de frente pra ela.
- Veja isso, e não fale nada, apenas veja. - Ela me estendeu a palma da mão, devíamos estar a meio metro de distância um do outro. Olhei para a mão, sem compreender o que ela queria, curioso, ansioso, foi então que vi algumas pequenas bolhas se formando na sua pele, como pequenas inflamações, me senti tentado a perguntar o que estava acontecendo, mas queria seguir seus comandos de silêncio, talvez fossem realmente importantes para aquilo que ela intencionava. As bolhas foram crescendo na vertical, subindo sem parar de um modo realmente assustador, não pareciam feitas de água ou pus, mas de carne maciça, o que eu vi se formar eram como tentáculos, exatamente cinco saindo da mão dela, eles se tornaram brancos e de aparência gasosa assim que superaram o comprimento de 10 centímetros, eu observava com espanto, eles cresceram mais, e muito rapidamente, e logo cada um deles tinha o comprimento de um corpo adulto, aqueles apêndices bizarros se enrolaram em volta do meu corpo, mas sem me encostar, e o que eu senti foi medo. Ainda assim, só observei, olhando para os lados, enquanto eles se moviam em volta de mim como fios de marionete, eles eram absolutamente brancos e tinham uma aparência um pouco transparente, dissipada, gasosa, como se tivessem uma densidade baixíssima, mas não o bastante para serem chamados de gás realmente.
- Isso é um dom, eu tenho o controle sobre a energia e posso convertê-la nesse material que você está vendo agora, ele é basicamente energia espiritual com formato, por isso essa aparência que você certamente não consegue distinguir. - Ela me disse, com um sorriso desdenhoso que demonstrava o quanto ela estava rindo por dentro do meu receio, os tentáculos engrossaram de uma vez, ficando com a espessura de seis braços humanos que dançavam em volta de mim, o meu medo diminuiu ao invés de aumentar, eu sabia que ela não me faria nenhum mal, mas aquilo era totalmente desconhecido para mim, e o ser humano tem naturalmente medo do desconhecido.
- Não fique assustado, é sério, esses braços que você tá vendo não são nada mais do que extensões do meu corpo espiritual. - Ela recolheu todos de volta para seu corpo, e colocou a na cintura, achei que ela não faria mais nenhuma demonstração dos seus assustadores poderes, mas o que vi em seguida foi realmente incomum e surpreendente, ela abriu a boca e uma grande mão são de lá dentro, vinha como vapor, fino por dentro, e crescendo depois de conseguir espaço além dos lábios, posso descrever aquela mão perfeitamente como fantasmagórica, exatamente do modo como as pessoas que ainda vivem imaginam os fantasmas, criaturas brancas, de aparência gasosa. Ela mantinha a boca aberta, a boca fez alguns gestos, movendo os dedos, abrindo e fechando, ela fez um movimento de sugada com a boca e a mão voltou para dentro dela, quando voltava, a mão de energia espiritual apresentou uma aparência absolutamente gasosa, como de vapor de água, diferentemente de antes, quando só sugeria uma certa textura gasosa. A essa altura eu já tinha me acostumado com aquela habilidade, habilidade visualmente assustadora, mas sem dúvidas realmente fascinante.
- Seu dom é muito assustador, eu estou com medo de você agora.
- Ah, espere até conhecer o seu, nós iremos descobri-lo agora mesmo, depois que se aprende a voar, todo o resto fica bem mais fácil. – Luna agarrou-se em minha mão esquerda e apertou com muita força, tentei puxar de voltar e dei um grito de dor, ela iria quebrar meus ossos como se fosse de plástico barato, por mais que tentasse tirar minha mão, eu não tinha força para me soltar, era como uma prensa.
- Tá doendo, pára!
- Fique calmo, isso é necessário. - Ela continuou apertando, meus ossos começaram a se partir, então sim eu dei um verdadeiro grito de dor, digno da dor pungente que senti, como se meus ossos fossem de galinha e perfurassem minha carne, ainda assim aquela mão pequena e forte me apertava. A soquei com a mão direita, livre, exatamente no rosto, não esperava agredir minha amada, mas o instinto de sobrevivência sempre fala mais alto, Luna não reagiu, e continuou apertando, e eu continuei soltando mais gritos e a atacando como podia, batendo em seu rosto, dando murros mal feitos e cotoveladas. O rosto dela ruborizava, mas por mais que eu batesse, parecia que eu estava socando uma parede de concreto, foi nas pancadas que lhe dei que percebi que sua pele não era tão macia e frágil como imaginava, se eu acariciasse seu rosto e seus lábios, era como tocar em uma macia seda viva e delicada, fina e feminina, mas batendo eu podia sentir a rigidez que havia além da pele, uma carne resistente, um corpo forte, rígido, não exatamente carne humana, parecia mais como terra, solo, ela era totalmente sólida. E a dor apenas aumentava, os ossos se quebravam em partes menores, e a sensação era de que minha mão seria reduzida a algum tipo de “papinha”, doía demais, e ela não demonstrou de nenhum modo que pararia, nem sequer em seu olhar, que parecia indiferente e seco. Meu desespero tomou uma forma sobre minha mão direita, pude sentir como se houvesse um grande peso em minha palma, um peso maior do que o do meu próprio corpo físico, e estranhamente eu tinha forças para segurar aquilo, lancei minha mão livre contra o peito de Luna, me aproveitando daquela força aparente, e no impacto ela deu um gritinho, me soltou e foi lançada para trás, empurrada energicamente a uns 2 metros de onde estava, quase caiu no chão, mas se equilibrou e se manteve de pé. Olhei para minha pobre mão esquerda, abri e fechei para testar seu estado, parecia tudo normal, e não havia mais nenhuma dor, como se os ossos quebrados não tivessem passado de um estranho delírio.
- Luna, o que foi isso?
Ela sorriu: - Você acabou de revelar sua habilidade, você me bateu com algo, e o algo que você usou é o seu dom, era energia pura, uma forte massa de energia, é uma habilidade excelente, nós descobriremos se você tem outras, mas depois, ainda temos tempo. Por que você acha que te machuquei? Evoluímos por necessidade, e a necessidade que você acabou de ter foi de se defender.
- Não isso, estou falando da minha mão. Você não a quebrou?
- Não, apenas usei uma habilidade que desenvolvi durante meus vários anos de vida, eu posso criar a ilusão de uma dor intensa em alguém através do contato físico, por isso você achou que estava com a mão quebrada, mas foi apenas dor. E mesmo se não fosse ilusão, aqui no mundo espiritual a cura é bem mais simples, só é necessária energia e habilidade, na verdade, irei te explicar sobre a sobrevivência do corpo espiritual agora. – Ela se sentou na grama com as pernas cruzadas, por um momento seus olhos pareceram maiores que de costume.
- Conte, estou aqui para te ouvir. – Me sentei de frente para ela, pus minha mão esquerda sobre a dela, e segurei suavemente, não queria sentir ossos quebrando de novo, mas apenas o toque daquele pele aveludada, o delicado revestimento de um interior rígido e forte.
- Espíritos são formados basicamente por energia em vibração conjunta, formando uma unidade, essa unidade define o que é um espírito, se essa energia for separada, a unidade se rompe e há a morte espiritual. corpo espiritual tem uma forma original, muitos tem a habilidade de modificá-lo, assim como eu tenho a habilidade de causar dor com o toque, e muitos acabam sendo modificados involuntariamente por vários fatores, mas há aqueles que não podem mudar sua forma, então tem sempre a mesma aparência, mas o natural é a forma humana. E a unidade de que falei pode ser rompida de vários modos, se você é agredido, seu corpo espiritual é deformado do mesmo modo que seria no mundo material, basicamente o comportamento do corpo aqui é o mesmo do corpo lá, se você leva um soco, seu rosto fica vermelho, se você é esfaqueado, você sangra, mas o sangue daqui, nada mais é do que energia concentrada em uma forma avermelhada , se você perde sangue, você perde energia, se você perder uma certa quantidade de energia,a unidade é destruída e você morre. Ao mesmo tempo, se você for ferido em alguma parte específica do seu corpo espiritual por algum tipo de força muito grande, a unidade já é rompida automaticamente, você nem precisa perder a energia, ela se separa e você morre pra sempre na hora.
- Me dê um exemplo. Qual parte específica é essa? E que grande força?
- Bem, geralmente vai ser no centro do seu corpo, se você for um humano na forma normal, não deformado, o que é seu caso, então geralmente será coração e cérebro, respectivamente no peito e na cabeça, e a grande força pode ser uma investida de um espírito mau que tenha uma grande quantidade de energia, por exemplo. E ainda não terminei minha explicação, apenas ouça. Aqui sangramos, nos arranhamos, e também quebramos ossos, o dano que temos aqui causa os mesmo problemas que causam no mundo real, se você quebrar um osso, você vai sentir dor e não vai poder mover a parte quebrada, mas em compensação, tudo se resolve facilmente, pois a capacidade de regeneração espiritual é muito maior do que a material. Por exemplo, se eu fizer um corte no seu braço, o ferimento se regenerará rapidamente de modo involuntário, isso porque a sua energia irá tratar de substituir a parte que foi danificada, mas se o ferimento for maior, você precisa fazer isso conscientemente, e não será exatamente rápido. Por exemplo, se eu cortar sua mão, você precisará concentrar sua energia para regenerar a parte arrancada, e isso exige muita energia e esforço, mas basta imaginar, aqui no mundo espiritual, tudo se baseia em imaginar e desejar, assim como você se imaginou voando, assim como imaginou aquela pancada forte que você me deu com sua energia, algumas pessoas tem maior capacidade de regeneração, como eu, e podem demorar segundos para regenerar algo que outra pessoa demoraria dias pra consertar. Mas claro que há limite, como há um grande gasto de energia para haver regeneração, se você estiver fraco, com poucas reservas energéticas, você não será capaz de reparar nenhum dano, e por exemplo, se você estiver sendo atacado por um espírito mau, e estiver se regenerando aos poucos de cada dano, chegará um ponto que em que não terá mais condição de se curar, e todos os golpes seguintes serão definitivos, chegando ao ponto da sua morte espiritual, ou por ficar sem energia o bastante pra existir, ou por ter um ponto vital para a unidade rompido. Entendeu o que eu falei?
- Sim. – Concordei com a cabeça, não falei mais nada, ainda não havia me acostumado com o mundo espiritual. Podia ainda no mundo material acreditar em uma vida não material como a que tinha agora, mas me adaptar à ela seria uma provação, uma dura provação, mas uma provação facilitada pelo meu amor por aquela cujos olhos encantavam todos os meus sonhos mais doces e felizes, mas essa facilidade não seria a simplificação do processo de adaptação, mas sim, um intenso estímulo que me daria forças para me esforçar e aprender a viver no mundo espiritual. Assim, eu poderia viver com ela, e viver para sempre. Não seria perfeito? Seria, mas talvez não fosse tão simples, geralmente não é, mas se fosse, que pessoa de sorte eu seria, teria a sorte que milhões de pessoas não tiveram: a graça do conhecimento do próprio estado, e a graça de conhecer um amor realizado porém puro e verdadeiro, que faria inveja à forma de amor idealizada por Platão.
- Bem, mas vamos desenvolver seu dom. Tente agora mesmo, vamos, levante sua mão e imaginei que há uma esfera de energia girando nela.
Soltei sua mão e posicionei a minha em forma de concha, imaginando como se uma pequena bola de sinuca feita de uma energia pura e imaterial girasse sobre ela, parecia um pensamento tão simples e natural, logo pude não apenas sentir aquela esfera praticamente sólida rodando sobre minha palma, mas também pude vê-la, parecia uma espécie de gelatina transparente, mas visível, eu podia ver além dela, mas a luz se refratava ao atravessá-la, confirmando sua existência.
- Acho que está dando certo. – Falei enquanto tentava fazer a esfera crescer, do mesmo modo que ma bola de neve cresce quando rola de um lugar alto, e fui bem sucedido, pois aquela esfera crescia à medida que eu imaginava, ganhando uma aparência cada vez mais sólida, deixando a cada instante que menos luz passasse por ela, perdendo sua transparência, sua leveza, e pesando.
- É fácil, não é? Agora imagine que essa esfera se torna uma extensão do seu braço e me toca no rosto. – Luna vigiava atentamente minha atividade, seus olhos eram como os de uma águia que sobrevoa sua presa, prevendo qualquer possibilidade de fuga, calculando todos os movimentos que deverão ser feitos, a angulação, velocidade, com hermética precisão, mas suponho que a intenção dela não fosse me caçar, mas apenas inspecionar na nova tarefa. Imaginei que aquele globo, que já tinha as dimensões de uma bola de queimada, como aquelas que as crianças usam para atingir umas nas outras nos horários de intervalo na escola, descontando a violência que não podem aplicar no dia a dia em um “jogo saudável” onde a mesma é permitida, se estendia como um tentáculo, algo com textura orgânica e comprido, uma serpente, um cipó ou um longo braço sem mão, e esse atento pensamento gerou exatamente um longo e fino tentáculo que saiu da esfera e se moveu de acordo com minha vontade, foi até o rosto de Luna, e a acariciou gentilmente, ela fechou os olhos e sorriu, estava gostando do toque. Para explicar melhor o que era aquela material que agora a agradava, eu poderia descrevê-lo como algo uma massinha de modelar cuja quantidade não era limitada, ela era sólida mas maleável, modelável, poderia ser moldada em qualquer forma, esticada, e objetos separados deste material, que era a minha forma de energia, se tornariam um só se fossem juntados pelo contato, assim como se junta a massinha vermelha com a massinha amarela para se formar a de coloração alaranjada.
- Hum, você está indo bem, mas é fácil. A imaginação e o desejo são a chave, nada além de nossa vontade impera sobre nossas habilidades, e é desejando e imaginando que podemos fazer desse mundo o nosso paraíso, onde nada é impossível, onde nada é limitado. O princípio básico é esse, agora que você, meu querido, o controla, todo o resto será fácil, por si só, não haverá nada que seja possível para alguém como você e que você não saiba exatamente como fazer, aprenderá naturalmente todos as habilidades que seu corpo espiritual lhe permite ter, e não será necessário auxílio meu ou de qualquer outro. Mas ainda assim, agora praticaremos mais, e embora você não precise de auxílio, minha orientação não te atrapalhará, apenas acelerará um processo que ocorreria de qualquer maneira. – Abriu os olhos novamente, brilhavam totalmente, eram a recompensa pelo sucesso da minha tentativa: vê-la com aquela agradável expressão, observá-la feliz me fazia feliz, de um modo altruísta que eu não poderia compreender estando preso a um corpo físico. Ainda assim, uma parte de seu discurso me plantou uma dúvida.
- Mas o que você quer dizer com “alguém como você”?
- Alguns espíritos tem algumas habilidades naturais que outros não tem, habilidades que só eles tem, talentos, fraquezas, e é isso que faz cada um de nós diferente.
- E eu tenho muitas habilidades?
- Não sei, iremos descobrir com o tempo, mas de uma coisa eu sei: Sua energia me atrai naturalmente, como a luz de lâmpada que seduz os insetos noturnos, então suponho que tenha algum dom realmente interessante a desenvolver, um bom potencial, no mínimo.
- Pelo menos faz idéia de que dom seja esse, e de por que eu o tenho?
- Não. Mas agora se concentre em liberar sua energia, se liberte, abra sua imaginação e faça tudo aquilo que for capaz de fazer, não se limite, tente, se for possível, conseguirá.
Segui seu conselho, criei alguns objetos simples, moldei a energia em forma de mangueiras, tacos, longas barras, e era muito mais fácil do que eu imaginava, bastava, de fato, imaginar com atenção. Me dediquei a essa atividade por cerca de uma hora, e então Luna, que me observava, chamou-me com uma leve cutucada.
- Bem, agora que você já tem um pouco de controle das suas habilidades como espírito, nós estamos prontos para partir para o verdadeiro mundo espiritual, além da sua mente.
- Como fazemos para sair daqui e ir para o exterior?
- Me abrace, vou mostrar como é se teletransportar.
Eu a agarrei entre meus braços, seu corpo parecia muito frio na hora.
- Imagine seu corpo virando luz, partículas sem massa, e imagine essa luz desaparecendo, e depois reaparecendo em outro lugar.
- Mas que lugar é para eu imaginar?
- Nesse momento vamos nos transportar juntos, quer dizer que iremos para o local que eu imaginar, você apenas irá me seguir. Mas bem, pra se teletransportar basta fazer o que eu disse e imaginar o lugar para onde você deseja ir, mas é isso que limita esse dom, pois não se pode ir a nenhum lugar aonde nunca se esteve, porque senão, é impossível mentalizar o local, e mesmo se tiver visto por foto, não adianta, pois do mesmo modo, você não esteve lá. Além disso, uma pessoa normal não consegue se teletransportar para um local próximo que esteja no alcance do seu campo de visão, além de certas regiões do universo terem acesso limitado, por possuírem várias barreiras ou limitações do gênero, como é o caso do Inferno, onde o único modo de chegar é entrando passo à passo, ou morrendo com a baixa frequência de espírito.
- Entendi. - Fechei os olhos e imaginei o que ela falou, senti por um momento como se tivesse morrido, e quando os abri novamente, me vi em um local que parecia uma grande escola, universidade, e onde vários espíritos vagavam, conversavam, bebiam, comiam.
- Incrível, onde estamos? - Me soltei do abraço, podendo sentir um leve cheiro de ferrugem no ar.
- No mundo espiritual, eu preciso terminar de explicar ainda. – Me pegou pela mão e fomos andando para a saída daquela escola, chegando à rua, onde caminhamos juntos, com ela no comando.
- Explique.
- Existem frequências altas e baixas em espíritos, os de frequência semelhantes se reunem em regiões semelhantes, pois a lei deste mundo é: semelhante atrai semelhante. Quando você se teletransporta, você precisa se concentrar em emoções da mesma natureza do local para onde deseja ir, tentar, e conseguir sentir um intensa alegria pode te trazer um local razoável como estamos, a menos que alguém te leve, como fizemos, Se sentir tristeza, vai para algum lugar ruim, dependendo do tanto dessa tristeza, para algum lugar realmente perturbador, mas se sentir amor, muito amor, se concentrar bem, pode ir a um lugar como o céu, onde os espíritos de luz habitam, já se experimentar sentir do mais profundo ódio, sua destinação será de fazer o Inferno parecer um parquinho de crianças. Ah, e naturalmente, dependendo da sua natureza: depressivo, festeiro, egoísta, altruísta, não há como ir a certas áreas, pois a natureza delas é totalmente contrária à sua, por isso eu não posso ir pro céu.
- Pode me dizer que lugares terríveis são esses para onde se vai com a tristeza e o ódio?
- Não, você descobrirá do modo certo, só contar não mostra a complexidade desse universo, meu amor, você precisa ver e sentir de tudo para realmente entender o que é a vida dos que já morreram.
- Esses espíritos. - Olhei em volta, era como uma cidade normal, pessoas de todas as idades, sexos, aparências, estilos de vestimenta, tamanhos, uma diversidade completa, complementado com praças, restaurantes, barracas, casas de todos os estilos, uma sociedade espiritual feita à imagem e semelhança do mundo físico. Ou teria sido o contrário? Vi um homem de óculos redondos com a aparência de uns 50 anos que me chamou a atenção, ele tinha uma expressão triste e um enorme bigode debaixo do nariz, seu cabelo estava desgrenhado e seus olhos fundos, ele escrevia alguma coisa em um caderno, sentado sobre o banco de uma espécie de um barzinho, tinha um copo sobre a mesa que parecia de cerveja. Aquele homem não me era estranho, um rosto já visto antes, mas onde? Só tinha que pensar um pouco, usar minha memória e recordar daquelas feições que eram definitivamente marcantes... sim, lembrei, e para me assegurar de minha certeza, fui até ele, pedindo licença a Lina, que esperaria meu breve retorno, mas não falaria com o senhor.
- Olá senhor, como se chama? Estou nesse mundo faz pouco tempo, mas sei que já vi seu rosto antes, só não me lembro de onde.
Ele se virou para mim, e com a expressão bastante séria respondeu, a língua que disse não era nem de longe português, mas sim alemão, mas eu entendi cada uma de suas palavras, como se falasse a minha língua mãe, e pelo jeito, ele também havia entendido o que eu havia perguntado. E a resposta para minha pergunta foi como uma luz, a luz que um mero tolo recebe diante de um grande sábio:
- Sou Friedrich Nietzsche.
- Oh, Nietzsche, sabia que era o senhor, mas diante da morte, a certeza se evanesce como névoa, não me arriscaria a confundir estas feições com alguém parecido, não sei afinal quantos espíritos de rosto parecido podem existir.
- E tu, jovem que falas, como é teu nome? E de onde vens?
- Meu nome é Artur Leon, e vim de Brasília, capital do país Brasil, que vem ascendendo na hierarquia mundial e tomando um lugar entre as maiores potências mundiais.
- Bom, e que assunto desejar tu tratar comigo? - A voz dele soava sempre extremamente formal.
- Eu só gostaria de conversar, sou um grande admirador se sua obra, especialmente de "Assim Falou Zaratustra". Mas quem diria que encontraria o senhor logo aqui? Na vida eterna! E peço com toda a humildade que tenho que me conte se há um Deus vivo e onipotente nesse mundo, como o que o senhor negou em vida. Existe?
- Sim, existe um Deus, mas não sei se ele é onipotente, nunca o vi, nunca o ouvi, nunca o senti, apenas ouvi falar, ele mora no paraíso, o local onde as almas mais evoluídas, mais iluminadas estão, um lugar de luz e felicidade, pelo menos pelo que dizem. Já nós, estamos na cidade de Sofia, uma das inúmeras cidades espirituais que estão entre o Céu e o Inferno, reservadas para aqueles que não são negativos o bastante para os locais mais baixos, mas também não são o bastante virtuosos para o Céu, nós que temos a frequência mediana vamos para essas cidades espirituais, esta aqui, cidade de Sofia, é o lar dos pensadores, aqueles cuja mente tem a frequência de um filósofo.
Nesse momento me virei para Lina. Ela não era uma filósofa, era? Besteira, ela poderia muito bem controlar a própria frequência para nos enviar ao local aonde estávamos, ou a qualquer outro lugar pelas cidades espirituais, certamente todas, ou pelo menos quase todas, ao alcance da frequência dela. Gesticulei para que viesse até mim, e ela entendeu, se aproximando, Nietzsche a cumprimentou.
- E tu, senhorita, quem és e onde vens?
- Sou Luna, eu já não me lembro de que país eu vim, morri faz muito tempo.
- Senhor Nietzsche, o que acontece é que minha amada companheira foi quem me trouxe até aqui, e gostaria que me desse sua sincera opinião sobre que país acha dela. Olhando a primeira vista, e sentindo tudo o que ela emana, diria que é um anjo ou um demônio?
- Bem. - Ele segurou o queixo e pensou um pouco, respondendo em seguida. - Olhos de loba, é o tipo de pessoa que eu admirava quando viva, forte de desejo, capaz de controlar seu próprio destino e quebrar os obstáculos, mas pelos olhos, diria que é um demônio, mas não daqueles seres rastejantes e bestiais, mas sim dos que são inteligentes e racionais, racionais ao ponto da indiferença cruel, de não usarem o coração. Ela não tem muita esperança em seu coração.
- É por isso que te chamam de filósofo? Sábio? Como um homem que duvidou da vida após a morte, após a própria morte pode julgar outra morta? Acha que está certo? Como pode saber? Você realmente se acha um sábio? Você não é Deus, e nem melhor que ele! - Lina o interrompeu, estava claramente irritada, seus olhos se dilataram, sua pupila castanha brilhou com mais intensidade diante da explosão de humor. Nietzsche estava certo? Só sei que ele recuou o rosto, levando um susto, talvez estivesse com medo dela.
- Me perdoe, menina, apenas respondi o que ele perguntou-me, mas esse é apenas o meu julgamento, minha visão, e não define o que és em realidade, não me considero um sábio, mas me considero um filósofo, um homem que não sabe tudo, mas que busca conhecer o máximo que pode, mas que anda assim pode errar em seus julgamentos, apenas julguei tais coisas pois teu olhar e o tipo de energia que de ti emana é muito semelhante ao das almas mais desgostosas e más, mas devo estar enganado, sou apenas um filósofo, nada mais. - O tom de voz dele mudou totalmente, inseguro, estava, sem dúvidas, com muito medo, sua boca falava uma coisa, mas sua atitude provava no que realmente acreditava: seu julgamento estava certo, ela devia ser um demônio. Me senti profundamente incomodado em vê-la aterrorizando Friedrich Nietzsche, o homem que não te ve medo nem sequer de Deus.
- Vamos para outro lugar, temos mais pessoas para conhecer. - Ela me puxou com força pela mão, me despedi do bom sábio e fui com ela, o alemão voltou a se concentrar em seus escritos pude ver que quando nos afastávamos, adquiriu uma expressão de alívio no rosto. Ela e eu caminhamos por entre vários espíritos, a maioria com idade avançada, provavelmente os filósofos tendem a morrer mais tarde que os guerreiros, astros do rock e poetas boêmios, fomos até uma biblioteca, e lá, Lina soltou minha mão e abordou um homem que lia uma cópia do Alcorão, tinha uma enorme barba, e passava uma imagem de severidade e força na sua postura, olhar e aparência.
- Senhor Marx, é o senhor? - Ela sorriu gentilmente, uma simpatia claramente falsa, ainda estava irritada pela conversa com o outro filósofo. Aquele era Karl Marx, o pai teórico do socialismo, divisor de mundos, um revolucionário sem fronteiras, pra mim, o melhor de estar em coma, depois de ser estar com Lina, era poder encontrar aqueles grandes homens que fizeram tanto pela humanidade, fui atrás dela.
- Sim, sou eu, e você, quem é, garotinha?
- Sou Lina, não conheço o seu trabalho, pois morri antes do senhor e nunca reencarnei, mas pelo conhecimento que tive ao acompanhar um mortal, então conheci vários pensadores que sequer eram nascidos quando eu vivi, e outros que, graças a minha condição precária, eu nunca ouvi falar, na verdade, nunca ouvi falar de nenhum pensador quando estava viva, a morte acabou por ser a melhor coisa que me aconteceu.
- Então você era uma escrava do capitalismo? Uma explorada da burguesia? E você, menino, quem é? - Se virou para mim, Marx estava interessado em conversar com Lina, agora eu já sabia algo que não sabia antes sobre sua vida mortal: ela era pobre.
- Sou Artur César, um brasileiro filho de professora e sem pai, estudante.
- Bem, não gostaria de dar muitos detalhes, mas eu trabalhei minha infância toda para sobreviver com péssimas condições, e como o senhor vê, eu morri bem cedo, com esse corpo jovem que o senhor vê agora.
- É lamentável que o capitalismo faça tanto mal à humanidade, ele não perdoa crianças e nem adultos, velhos, mulheres, ninguém, todos são escravos, todos são ferramentas. E você, garoto, tem sorte de ter tido as condições de estudar, poucos a têm, pena que tenha morrido. Eu já deveria ter reencarnado, mas aqui há muito aprendizado, coisas que eu nunca veria na terra, eu nunca imaginaria que haveria uma vida além da matéria, mas é ótima, aqui estou entre semelhantes, pensadores incríveis de todos os tipos, é a melhor universidade que já existiu.
- Marx, eu não acredito no socialismo, mas também não acredito em uma sociedade em que alguns nascem com tudo e outros com nada, em que alguns passam fome e outros comem ostras e caviar.
- Se não é a favor do socialismo, que opção acredita ser melhor para essa humanidade desigual?
- Eu não sei, essa é uma das grandes questões da humanidade.
- E realmente é, não posso culpá-lo, mas quando essa resposta for obtida, todo o esforço de todos os cientistas políticos da história será recompensada.
- Sim. - Lina concordou por mim, ela estava gostando da conversa. Me afastei por um momento, e eles continuaram falando, não sei o que diziam, mas logo ela o deixou e veio até mim, chamando para outro lugar, Nós descemos uma íngreme ladeira, e à medida que descia, podíamos ouvir uma suave canção de... lira? Algum instrumento muito antigo de cordas, uma melodia deliciosamente bela, perfeita aos ouvidos mais exigentes, quando chegamos ao fim da descida, encontramos um grupo de oito homens que jogavam um jogo de tabuleiro que desconheço, riam e se divertiam como boêmios em um bar. Um deles me chamou atenção, era um idoso de boa aparência, que dentre todos eles era o que mais ria. Minha amada o olhava com interesse, e eles todos ignoravam nossa presença, embora ela fosse perceptível, Lina sussurrou em meu ouvido com um tom que chegava a ser sarcástico, como se contasse uma piada, talvez por tanto que aquilo parecia incrível:
- Aquele do meio é Aristóteles, o sábio que fundamentou toda a sabedoria de nossa cultura ocidental.
- Podemos falar com ele, ou está muito ocupado? - Olhei para ela receoso, aqueles homens pareciam muito ocupados, e nada interessados em serem incomodados por duas crianças curiosas.
- Não, só queria que visse que ele pode ser um grande gênio, mas é um homem como qualquer outro, ele está lá, jogando e rindo com outras pessoas, como um adolescente, como um bêbado. Você não precisa ser sempre e abrir mão de todas as suas alegrias para ser um sábio, pra conseguir conhecimento e pensamento crítico, você pode muito bem rir de piadas infantis, sem por isso, ser chamado de infantil. Ah, e só pra completar, esse filósofo pode reduzir a nada sem nenhuma dificuldade, Aristóteles é o espírito mais poderoso da Cidade dos Filósofos, é o líder e também aquele que protege a cidade contra invasões de espíritos mal intencionados, embora permita visitas pacíficas como a nossa.
Observei Aristóteles por mais um tempo, de fato parecia um homem normal, nada além de um ser humano, podia ser um sábio, podia ser o pai da filosofia moderna e precursor de várias ciências, mas ainda assim, um homem.
- Sócrates e Platão também estão aqui?
- Não, sei que Sócrates já está no céu, e Platão eu não sei, deve ter reencarnado. Mas segure minha mão, já vimos o bastante nessa cidade, quero agora que vejamos a cidade dos cientistas, faça como antes, para se teletransportar. - Ela pegou em minha mão e fechou os olhos, fiz o mesmo, e imaginei meu corpo se desfazendo, se movendo como luz, logo que abri os olhos, estávamos em uma biblioteca muito maior do que em que Marx estava, haviam milhares, senão milhões de livros nas estantes, as mesas cheias de leitores atentos, eu podia sentir o conhecimento, a sabedoria que emanava no ar daquele local, era como respirar ciência. Reconheci Isaac Newton, que estava sentado em um local próximo de onde estávamos, ele lia o livro de literatura "Cândido"de Voltaire, um dos filósofos que eu ainda desejava conhecer. Me aproximei do físico, e o cumprimentei.
- Newton, o grande físico! Sou um grande admirador de seu trabalho, as leis naturais que o senhor definiu mudaram o rumo do mundo. - Falava com empolgação, aquele ela era sem dúvida um dos homens mais importante para a ciência em toda a história, ele estava com sua conhecida peruca branca, mas usava uma roupa diferente das vistas em fotos: um terno tipo smoking.
- Prazer, quem é você? - Ele sorriu, devia se sentir bem pelo reconhecimento e admiração de um total estranho.
- Sou Artur, do Brasil, morri faz pouco tempo. - Omiti o fato de não estar morto, mas em coma, mas isso não seria importante para a conversa. - E vim aqui para conhecer as pessoas que mais fizeram diferença no mundo, o senhor com certeza é uma delas, leis de Newton, leis naturais. Que outra lei científica ilustrou melhor a visão iluminista? A racionalidade acima de tudo! O pensamento é a lei!
- O pensamento é a lei! Sim, jovem! É exatamente esse o espírito, e trate de reencarnar, pois você morreu muito cedo, e alguém com esse pensamento não pode ficar muito tempo aqui, precisa ir pra terra, fazer diferença. - Isaac também estava animado, era a conversa de dois apaixonados pela ciência, o mestre, e seu modesto aprendiz, mesmo que um aprendiz através de escritos póstumos do mestre.
- Então por que o senhor não volta? Sua vida fará diferença nas gerações atuais, assim como fez nas anteriores!
Lina observava tudo de longe, ria baixinho, como se assistisse a dois tolos discutindo assuntos sem futuro.
- Eu já voltei duas vezes desde minha morte, acho que agora posso descansar um pouco,não tive muita sorte nessas duas vidas, na primeira eu nasci na França em plena guerra Franco-Prussiana, e fui morto ainda criança pelos alemães, no mesmo país em que fui Newton, depois nasci em Serra Leoa, e fui morto com 18 anos por um grupo de rebeldes, eles cortaram meus braços antes de me degolarem, foi horrível. Felizmente, consegui superar o rancor aqui no mundo espiritual, e retomar o conhecimento que tinha como Newton, sem sair do caminho do bem e do conhecimento, sem me entregar à violência e ao ódio, mas ainda sim, estou bastante temeroso de voltar para a terra, minha última morte foi pior que traumática, se eu não fosse um espírito já antigo e relativamente sábio, acho que eu me tornaria um daqueles demônios violentos que se vêem lá em baixo, como o odioso Malbas.
Ainda não tinha visto nenhum demônio, mas pelas descrições, deveriam ser terríveis. Mesmo se Lina fosse um, ela não contaria como um, pois para mim, ela era um anjo gentil e doce, a alegria mais pura para minha existência.
- Então, Isaac Newton, o senhor já viveu várias vezes antes de ser Isaac Newton?
- Sim, por isso eu tinha uma facilidade muito grande de aprendizado, pois já tinha aprendido muito em outras vidas. A gente não tem um nome só, mas todo espírito gosta e ser chamado pelo nome da sua encarnação que mais fez diferença na Terra, embora os espíritos menos evoluídos, sem luz, geralmente só consigam se lembrar de sua última vida, e estejam limitados, esses se chamam pelo último nome, ou às vezes, quando, apesar do mal, se tornam poderosos, os demônios, adotam nomes diferentes, como Leviatã e o odioso Malbas.
- O senhor é de fato muito sábio. Mas quem é Malbas? E por que é tão odioso?
- Bem, Malbas é um demônio bastante poderoso que quase destruiu esse lugar, mas foi expulso por nosso líder, o espírito de Albert Eistein, um dos homens mais admiráveis da história da ciência, Malbas é um grande controlado da mentira e da ilusão, por isso ele sempre consegue fugir quando será destruído por alguém mais poderoso, ele cria de todo tipo de ilusão para escapar quando vê que não têm condições de sobreviver. Como Einstein não é estúpido de sair de nossa cidade para ir caçá-lo na dele, e também não tem estômago para descer a um local tão baixo e imundo, ele o poupou, mas nunca esquecemos do mal que aquele monstro nos provocou.
- Então Einstein é o líder dessa cidade, desse mundo?
- Sim, exatamente, ele é o mais iluminado de todos nós, um homem justo e sábio, que nos protege com sua vida, com sua força, com sua inteligência, e com sua imensa sabedoria principalmente, o quem faz com que nos sintamos sempre seguros.
Luna me puxou pela gola da minha roupa e chamou impacientemente:
- Não acha que já conheceu espíritos admiráveis o bastante por hoje? Devemos nos concentrar em nos preparar para salvar sua vida, mas não faremos isso aqui.
- Gostaria muito de conhecer mais, estar entre sábios faz com que se adquira parte da luz de sua ciência e sabedoria, como o calor que fica na pedra que é submetida à luz do Sol, uma marca de que aquela luz maravilhosa esteve realmente lá. Mas temos pressa, não desejo morrer ainda, a gente realmente precisa descobrir quem foi o criador da barreira no meu corpo, e descobrir se temos condições de vencê-lo.
- Vejo que sua companheira o quer levar embora, me despeço então, Artur, foi bom conhecê-lo.
- Adeus Newton, a honra de conhecê-lo foi uma das maiores que já tive em minha vida, espiritual ou não. – Dei-lhe um aperto de mão e me afastei junto de Luna, logo direcionando minhas palavras ela: - Por que realmente temos que partir? Não está boa esta excursão? Não estou conhecendo o que antes ignorava e tendo acesso a sabedorias que já não estão vivas no mundo material?
- Você está adquirindo conhecimento sobre territórios e pessoas, o que quero que façamos agora é que treinemos seu controle sobre o espírito.
- Mas você não tinha dito que com a noção que tenho eu já estou pronto? Que basta imaginar e concentrar? Pois bem, então não foi o bastante?
- Pode até ser, mas devemos garantir, entende? Quero ter certeza de que você não terá problemas no caso de um imprevisto.
- Que tipo de imprevisto é esse com que você tanto se preocupa? Algum espírito ruim?
- Também, nunca se sabe.
Capítulo 4 - Os Dons.
Ela se agarrou a minha mão, não questionei mais, fechei os olhos, e quando os abri, já não sabia aonde estava. Era um campo aberto onde havia plantações de arroz, algodão, batata, o alimento do século, entre outros vegetais, elas eram desorganizadas e as plantas quase se misturavam, estávamos na entrada de um celeiro, de onde saía um fétido odor de fezes de animais, que me infestavam as narinas como as correntes de um rio. O celeiro era todo feito em madeira de má qualidade, dentro se encontravam apenas dois animais, por trás de portinhas para que não fugissem, eram duas ovelhas, ou carneiros, não podia ver exatamente o gênero, não de onde eu estava, mas pareciam magras, e o pêlo de ambas era de um amarelo escuro e encardido, já sabia de onde vinha o mau cheiro.
- Que lugar é esse?
-Cada pessoa tem seu lugar no Universo, quando você está vivo, esse lugar é impenetrável sem a permissão do dono: sua mente, uma diferente dimensão, mas quando você morre, tudo muda, esse lugar particular continua no mesmo local, mas deixa de ser impenetrável. Cada espírito tem sua mente, seu mundo, mas ela passa a ser um local como qualquer outro no universo, e por isso pode ser encontrada e penetrada, um lugar de livre circulação, embora seja meio difícil se encontrar um ponto como esse em um mundo espiritual de tamanho infinito, as chances de se encontrar uma mente são de zero, mas se você seguir um espírito, rastrear, se teletransportar seguindo sua freqüência, então essa mente alheia se torna acessível mesmo sem permissão.
- Por que você está deixando tudo isso tão claro? Acha que alguém pode invadir sua mente?Por acaso está sendo perseguida por alguém? Desde que nos encontramos que ela vinha demonstrando uma intensa paranóia, sempre preocupada em me preparar, com imprevistos, riscos, com o fato de ume mente pode ser invadida. Estava a sua segunda morte jurada por alguém?
- Há as mentes que são particulares, e os planos, que são coletivos, onde espíritos de freqüência parecida e mesma natureza são reunidos. – Ela manteve sua expressão, simplesmente ignorou a minha pergunta.
- Responda a minha pergunta agora. – Pela primeira vez soei grosseiro com Luna.
- Não, eu não estou jurada de morte, eu só vi o pior lado que esse mundo pode apresentar, então confie em mim, você deve estar preparado para o pior, nós devemos, se morrermos aqui não teremos uma segunda chance, nenhum tipo de chance. – Tinha a voz chateada, acabei me arrependendo pelo meu tom de voz, ela devia ter razão.
- Desculpe. – A abracei, seu rosto colado no meu parecia mais macio que da primeira vez.
- Vamos ver como estão seus reflexos. – Sorriu e se separou de mim, se afastando alguns metros e esticando o braço.
- Vam... – Não pude terminar a frase, nem sequer a primeira palavra que diria, pois aquela imensa mão me atingiu na forma de um punho, saído como uma extensão de seu braço esquerdo, fui lançado no chão e rolei como uma bola de futebol, ralando meu corpo todo e sentindo dor. A dor espiritual, de fato, não é como a dor física, não dói realmente, é uma impressão de dor que causa um forte desconforto, uma impressão tão forte que chega a ser como a dor física, mais suave, diferente, mas também muito desagradável.
- Não estão bons. – Ela recolheu sua falsa mão. Eu não imaginava que o material que ela controlava fosse tão rígido, parecia que eu tinha sido soterrado por um deslizamento de terra, mas que com um corpo espiritual mais resistente que o físico, não teria sido isso o bastante para me matar. A dor passou em poucos segundos, a capacidade de regeneração da alma entrava em ação, me levantei, hesitando com medo de levar outro daqueles, então gritei:
- Por que você fez isso?
- Doeu muito? – E tinha.
- Sim!
- Então da próxima vez que eu fizer você estará atento, quando uma criança se queima no fogão, ela passa a ter cuidado com fogo, a mesma regra se aplica a você. Use sua energia para criar uma proteção, a forma da barreira só dependerá da sua imaginação, claro, mas esteja atento, pois não terei piedade na violência com que te atacarei.
- Você só quer dizer que acha que me machucando vai fazer com que eu... – Não pude terminar a frase novamente, a mão veio novamente, mas a tempo me concentrei em uma espátula de energia de mesmas proporções, e rebati a agressão, que não me atingiu, mas por pouco. Havia dado certo, embora a minha criatividade não estivesse muito alta no momento, de fato não era hora para fazer omelete ou panqueca.
- Vê? Funciona! Tente me atingir agora. – Recolheu novamente o apêndice, colocou as mãos dentro da calça como se fosse se coçar em alguma parte indevida, não era boa hora, mas não pude evitar imaginar o percurso daquelas mãos, tocando constantemente naqueles segredos e maravilhas que se ocultavam em sua roupa e... enfim, fiquei com os pensamentos um distante nessas idéias, até voltar a me atentar a realidade.
- Devo te bater?
- Sim. – Ela continuava com as mãos lá, dava para ver pelos movimentos dos braços que realmente se coçava ou esfregava ou alisava.
- Mas por que você ta coçando dentro da roupa?
- Roupas espirituais são ornamentos com baixíssima quantidade de energia, mas complexos de se criar, aqui inicialmente usamos a roupa que tínhamos no corpo antes de morrer, mas geralmente podemos mudá-la com apenas um pensamento, desde que tenhamos a lembrança de que usamos essa roupa em vida. Só estou escondendo a mão, para mostrar que não reagirei, não estou coçando, só passando a mão, nem é por nada de especial, só por passar. E por favor, me bata logo, quero ver a intensidade desta sua energia
Não falei mais nada, me concentrei bem para poder moldar uma marreta de energia, que joguei contra o rosto dela, mas não pude fazer isso com muita força, não porque não tivesse, mas porque não teria coragem de machucá-la realmente, a marreta se chocou no meio do rosto dela, que nem sequer se moveu, apenas a arma recuou, e ela se manteve parada, como uma estátua, com muita decepção nos olhos. Eu explicar o porque do golpe fraco, mas ela lançou aquela já conhecida mão em mim, pude bater a marreta na frente, e ela repetiu o movimento, e nos encontramos em um duelo, golpeando e defendendo mutuamente, agora eu usava força, pois se não usasse, quem se machucaria seria eu. O estrondo das pancadas dos objetos por nós criados era como os sons graves e agudos de uma construção, havia um certo ressoar metálico naquela falsa mão, um som agudo em cada batida, estridente e agônico, enquanto minha marreta tinha som de madeira, bastante grave e abafada. Eu colocava toda a minha força nos movimentos defensivos. Mas como eu poderia explicar o que é a força que você pôe em um objeto controlado pelo pensamento? Nada mais do que concentração, esforço, foco, e claro, pensamento, imaginar que realmente há força naquele movimento, acreditar e se concentrar nessa idéia, é isso que faz a força espiritual. Aquilo parecia um duelo de espadas medieval, e eu começava a perceber que Luna não estava de fato tentando me acertar, mas só me induzindo ao movimento, na verdade, já começava a me divertir, me sentindo Romeu em combate ao primo de Julieta, embora meu adversário fosse a minha própria Julieta. Todo esse entretenimento ingênuo se quebrou quando a mão atravessou minha marreta como uma enxada atravessa uma folha de papel, e me esmagou. O que senti foi a sensação de morrer, o corpo todo bateu e rebateu no chão, os ossos, por um momento, pareceram virar pequenas lascas, músculos se distenderem, sangue parou de correr, um sufoco terrível, uma agonia pontiaguda que me apresentou ao Inferno por um momento, um único momento de sofrimento extremo que acabou assim que a batida acabou, um único maldito momento, a dor foi forte, embora fosse totalmente diferente da dor de física, mas a sensação era de ser exterminado, uma sensação cruel de agonia, podia não sentir a dor de ossos quebrados, mas ainda assim sentia os ossos quebrados. Fiquei jogado no chão, nem sequer podia imaginar que poderia haver algo tão ruim, minha arma se recolheu a meu corpo imediatamente, inconscientemente, e fechei meus olhos, tentando esquecer aquela sensação, que parecia se repetir centenas de vezes.
- Isso sim doeu, não é? – Ela foi até mim e passou a mão no meu pescoço, senti vontade de correr, mas não tinha disposição para isso.
- O que você fez?
- Doeu?
- Muito.
- Nunca mais farei isso, eu sei o quanto é ruim sofrer, meu amor. –Beijou meu rosto. - Eu só queria que tivesse uma noção de como é, eu te bati com força mesmo dessa vez, então o que você sentiu não foi diferente do que você sentiria se fosse atacado por um demônio de grande poder, então se sinta forte, pois você resistiu ao sofrimento, e isso me deixa orgulhosa.
- Não tinha como simplesmente continuarmos a brincadeira, eu estava aprendendo!
- Brincadeira? O fato de eu não estar usando toda a minha capacidade não significa que era uma brincadeira, se você deixasse eu te acertar, eu acertaria do mesmo jeito que fiz, mas como não deixou, tive que acertar à força mesmo, e peço desculpas por isso.- Subiu as carícias até meu pescoço, Luna teria que me agradar muito mais que aquilo se quisesse compensar aquele segundo horrendo.
- Você é cruel.
- Eu posso mudar, se você realmente quiser muito.
- Muda? Então não seja mais cruel comigo, seja boa e carinhosa.
- Tudo bem, eu serei um anjo para você. Mas que tal irmos a outro lugar agora? Acho que você iria gostar de conhecer mais alguns dos maiores cientistas da história.
- Sim, eu gostaria de voltar ao lugar onde estávamos, conheci Newton, e seria muito agradável conhecer outros grandes, compartilhar de várias sabedorias de várias épocas e culturas.
- Então iremos. – Pegou em minha mão e gesticulou com a cabeça, eu sabia o que fazer, fechei meus olhos, e quando abri, estava de volta à Cidade dos Cientistas, no mesmo ponto de onde havíamos voltado, trocamos algumas palavras sem importância e começamos a caminhar pelas ruas cheias de gente, olhando rosto por rosto para ver se reconhecíamos alguém dos livros de ciências, estávamos entre centenas de sábios anônimos, de homens que em parte contribuíram para a evolução da humanidade, mas que não foram reconhecidos ou premiados por isso, pessoas que dedicaram suas vidas ao bem, a trazer luz aonde havia trevas. Ciência! Reconheci um homem com roupa de nobre na moda européia do século XVIII, com um grande peruca branca na cabeça, escrevia em um bloco de notas usando pena e tinteiro. Me aproximei, e tive certeza de que era ele: o pai da química moderna.
- Senhor Lavoisier, sou Artur, um verdadeiro admirador de seu trabalho. – O cumprimentei como um estagiário cumprimentaria um provável patrão.
- Olá, o que quer? É que estou meio ocupado, estou escrevendo um livro chamado A Química dos Espíritos, com pesquisas minhas sobre a composição do mundo espiritual, de que tipos de partículas ele é formado, como elas se comportam, e como se agrupam.
- É impressionante, senhor, espero que haja alguém para psicografá-lo e tornar esse conhecimento acessível aos vivos. Mas então me despeço, só gostaria de tê-lo conhecido, e acho que já o fiz, então devo deixá-lo continuar seu trabalho. – Fiz uma reverência e me virei, dando o primeiro passo da minha ida, mas parei quando senti a mão dele em meu ombro:
- Pare, eu posso sentir algo muito incomum em você. Você está vivo?
- Sim, estou. Como sabe disso? – Me virei novamente para o grande químico.
- Dá pra sentir, a energia de um vivo é diferente da de um morto, mas a sua é realmente diferente até da daqueles que estiveram por aqui antes, é como se você estivesse vivo e morto ao mesmo tempo, e não vivo no mundo mortos, como qualquer pessoa normal.
- Como assim, o que isso significa? O que eu tenho?
- Se acalme, eu não sei o que você tem, mas é estranho, eu te aconselharia a ir me encontrar com Einstein, o nosso líder, ele pode ser o maior de todos os espíritos da ciência, mas sempre encontra tempo para ajudar aqueles que buscam ajuda, além do mais, tem muito conhecimento e é sábio, saberá dizer o que você tem.
- Oh, eu agradeço, senhor Lavoisier. E onde posso encontrá-lo?
Ele me deu as orientações de por onde ir para me encontrar com Einstein, era um longo caminho, mas simples, ele estaria, após muitas andanças, na sala número 720 de um longo corredor, pelo qual deveríamos passar, e deixou claro que deveríamos bater em sua porta e chamá-lo por “mestre”, para deixar claro o nosso respeito e não permitir que o líder achasse que éramos invasores ou baderneiros. Me despedi do bom cientista, agradecendo mais vezes, em nenhum momento de nossa conversa ele deu atenção a minha companheira, simplesmente ignorando sua presença silenciosa, talvez não tivesse realmente nenhum possível assunto um com o outro.
Capítulo 5 - O Sábio
Seguimos o caminho indicado, entramos em um longo e estreito corredor cheio de portas,cada porta tinha um número, as portas da esquerda eram números pares, e as da direita ímpares,: 00, 01, 02... Sala 720, teríamos que andar bastante para chegar, mas encontrar
era necessário, com ele não seria apenas uma conversa agradável, ele também poderia nos orientar, e me ajudar no que eu mais precisava. No caminho, Lina e eu conversamos sobre vários assuntos cotidianos e comuns, coisas de nossa vida, sobre encontros passados, planos futuros, brincadeiras sobre quantos filhos teríamos juntos. Chegando na porta 720, bati à porta e chamei.
- Mestre Einstein, sou novo nessa cidade, morri faz pouco tempo, gostaria de falar com o senhor, pois tenho uma grande dúvida, e sei que o senhor em sua grande sabedoria pode me aconselhar.
A porta logo se abriu, o velho homem vestia roupas humildes de operário, sua presença era mais forte do que todas as outras que eu havia sentido, ele era um ser iluminado, e eu podia sentir facilmente sua luz e sabedoria e emanando.
- Você não está morto, apenas está com o corpo incapacitado, não dormindo, está em coma ou estado semelhante. Que conselho quer?
- Eu quero saber exatamente isso, Lavoisier conseguiu perceber que eu estou vivo, mas disse que ainda me pareço com um morto, como se eu estivesse ao mesmo tempo vivo e morto. Isso é um problema apenas físico? Irei de fato morrer?
- Não sei, deixe-me pegar em sua mão.
Dei a mão para ele, que a segurou e apertou, ele fechou os olhos por um momento, pensativo, e logo em seguida abriu novamente. - Você está vivo, não há dúvidas disso, e seu corpo já está em condições de receber seu corpo de volta, mas algo que te impede, um problema espiritual, há uma espécie de barreira no seu corpo que impede que sua alma volte... Sim, seu corpo realmente poderia recebê-lo de volta se não fosse essa barreira, e essa barreira parece que foi criada por alguém, alguém que não quer que você volte a viver no mundo físico.
Quando ouvi aquilo, lembrei-me na hora de S. Era ele quem havia colocado esta barreira em mim? - Por que alguém faria isso? Que vantagem teriam em me manter morto?
-É possível que queiram que você faça alguma coisa aqui no mundo espiritual, algo que não poderia ser feito no mundo físico. Você tem que descobrir quem a fez, vou te dizer como funciona essa barreira e as condições para ser criada e destruída, com essas informações você poderá partir em buscar da solução desse seu problema. Chamamos isso de “Cápsula Antifísica”, é uma barreira poderosa criada por um espírito em volta de um corpo físico que está sem alma, mas não morto, que é o estado em que estão os corpos cujas almas estão em projeção astral, o que inclui o seu. Mas aquele que cria uma barreira dessa deve ser muito poderoso, pois precisará ser capaz de transitar livremente entre os planos espirituais, a freqüência dos espíritos que vagam pelo mundo físico é muito baixa, e geralmente eles são confusos e fracos,por estarem ligados à matéria mesmo após mortos, mas nem sempre. Essa barreira foi criada por um espírito antigo e poderoso chamado Hades, que queria garantir que nenhum vivo que fosse ao mundo dos mortos voltasse para contar a história, então ao detectar a presença de um vivo, rastreava a localização de seu corpo no mundo físico e o envolvia com essa barreira, assim a pessoa não poderia acordar de sua projeção e morreria posteriormente. – Ele parou de falar, apenas uma pausa, era realmente muita informação para ser digerida de uma vez, mas ainda vinha mais, mas logo continuou, eu o observava e ouvia atentamente. – Todo corpo com uma alma dentro tem sua aura, que é uma forma especial de energia que protege e envolve o espírito e o corpo, quando a pessoa sai em projeção astral, a aura vai junto, e o corpo fica totalmente indefeso aos males espirituais, de modo parecido acontece quando se dorme, a alma e a aura se distanciam parcialmente do corpo nesse período, se distanciam nos sonhos e na inconsciência, por isso que é o período em que o ser humano fica mais vulnerável, tirando claro, o momento de projeção astral, quando a vulnerabilidade é total. É por isso que a Cápsula Antifísica só pode ser usada em que está em projeção astral, e uma vez fez feita, só pode ser destruída de dois modos: Pode ser desfeita conscientemente pela vontade do criador, ou pode se desfazer com a morte do mesmo.
- Nada mesmo pode destruir essa barreira além dessas duas possibilidades?
- Nada mesmo, e isso foi comprovado quando Hades criou uma barreira dessa no corpo do espírito de Bruce Lee, um forte lutador do mundo real que entrou em coma, e espírito muito evoluído e igualmente poderoso, também podemos chamá-lo de Exu, que era o nome dele antes, mas mesmo ele, que está entre os espíritos mais poderoso do universo, não conseguiu quebrar a Cápsula, e então forçou Hades a desfazê-la usando seus punhos, então voltou ao corpo, mas era tarde demais e ele morreu.
- Espera aí, o senhor está querendo dizer que Bruce Lee é o Exu da Umbanda? – Estava lá uma possibilidade que provavelmente ninguém que ainda conheceu a morte poderia imaginar.
- Sim, eu não conhecia nada de Umbanda até morrer, aqui a informação gira mais rápido que no mundo físico. Mas deixe-me terminar de contar, Exu pegou Hades e bateu muito, ele só não o matou por causa de Leviatã, um demônio poderoso que é amigo de Hades, mas que também tem boas relações com Exu, que é um espírito que está entre o Céu e o Inferno, e se mete tanto com anjos quanto com o demônio, mas que nunca faz o bem ou o mal de graça, ele é muito justo.
- Mas então eu tenho que pegar quem me colocou essa barreira e bater ou matar?
- Sim, você deve obrigar à força que ele desfaça a Cápsula, se ele desfizer uma vez, ele nunca poderá fazê-la de novo em você, será como uma vacina, na verdade, ninguém nunca mais conseguirá, você está totalmente imune. Mas se você não encontrar logo o cara e não solucionar esse problema, a morte será certa, e o tempo corre contra você, pois nenhum espírito com uma Cápsula Antifísica tem seu corpo mantido vivo por muito tempo, mesmo os em coma sob o cuidado de aparelhos.
- Então eu morrerei se não me apressar! Mas sábio Einstein, sou apenas um garoto em coma, o espírito que fez isso em mim provavelmente é muito poderoso. Como poderia convencê-lo usando de um força que não tenho?
- Bem, essa parte é com você, eu até me ofereceria pra te ajudar, mas não sou de me meter em assuntos que não me dizem respeito, aqui no mundo espiritual há uma regra de boa convivência bem simples que a maioria dos espíritos antigos segue para poderem viver por muito tempo: Não mexa com quem não mexeu com você. Nem todos seguem essa regra, claro, mas entre nós que estamos mais na luz do que nas trevas, isso é uma lei, mas claro, se mexerem com a gente, as coisas mudam, e passa a ser justo revidar. Por isso, se for pedir ajuda a alguém, peça a alguém que seja muito próximo de você, alguém que está tão próximo que um tapa no seu rosto seja como um tapa no rosto dela. – Ele virou o olhar para Luna e sorriu como se quisesse dizer “Peça pra ela”, então direcionou sua palavra a ela também. – Garota que o acompanha, você é forte, posso sentir sua energia facilmente, há muita, muita energia em você, ela não é exatamente do melhor tipo, mas para uma situação como essa, ela serve.
- Hum, eu sei, farei qualquer coisa para protegê-lo, mas fico em dúvida, pois vivo ele estará longe de mim, e isso seria muito ruim pra mim, mas ao mesmo tempo, eu quero que ele viva novamente, Artur ainda tem muito o que fazer no mundo material, e não me satisfaria vê-lo morto sem fazer nada do que devia ter feito na vida, assim como aconteceu comigo. Uma morte frustrante, um destino de misericórdia!
-Independente do que queira, sua energia é intensa, mas dependendo do inimigo que vocês vão enfrentar, essa energia não será o bastante, e se vocês não tiverem condições de o enfrentarem, é melhor esperar a morte física, pois ela é melhor do que uma cruel morte espiritual nas mãos de um espírito poderoso e impiedoso, capaz de criar uma cápsula daquela apenas para cumprir algum objetivo pessoal.
- Quanto tempo você acha que eu tenho de vida no estado em que estou? E quais podem ser os motivos para alguém me querer nesse plano, longe da matéria, morto?
- Você pergunta demais, meu jovem, o motivo pode ser qualquer um, não pergunte pra mim, mas acho que você tenha umas... duas semanas, três, no máximo, até que é bastante tempo, mas ainda assim, se apressem, e agora me despeço, pois preciso voltar à minha leitura, e já tirei todas as dúvidas importantes que poderiam ter.
Agradeci ao cientista, Nos despedimos e deixamos Einstein, fomos até o fim do corredor, além da porta 1000, e chegamos a um novo salão de leitura, caminhamos por entre algumas fileiras de mesas de leitura de formato circular,a grande virtude da leitura era o principal hábito de todos aqueles sábios espíritos, um deles chamou especialmente a minha atenção, um cavalheiro bem vestido de terno e chapéu, com a estatura apenas um pouco menor que a minha, e que lia Filosofia na Alcova do Marquês de Sade, uma bíblia para os libertinos mais lascivos e impuros.
- Agora vamos voltar, precisamos treinar mais seu controle, não há tempo para descansar! É sua vida que está em jogo! – Ela se agarrou em minha mão como se sempre fazia para nos transportar, fechei os olhos e falei baixinho: - Tudo bem. Quando abri os olhos, já estávamos ao lado do celeiro, naquela plantação onde ela “morava”, debaixo daquele céu cinza que nunca clareava nem escurecia, como um afresco feito no céu, e imutável.
Capítulo 6 - Tortura ou Morte
Trocamos algumas carícias e logo o severo treino começou, ela me atacava com mais violência que da outra vez, e eu precisava agir com muita agilidade para não ser atingido. Cada pancada me causava a sensação de ser partido em dois, não consegui sequer tocá-la por um único instante, mesmo quando revidava com todo o meu esforço. Luna não estava brincando, não estava pegando leve, me esfolava vivo e me levava ao limite, sem nenhuma dó, e por mais cruel que estivesse sendo, eu sabia que era meu bem, pois agora sabia que deveria ser forte para poder manter meu corpo físico vivo, para vencer o adversário desconhecido que me impedia de voltar ao mundo material. O treinamento acabou quando fui esmagado por uma mão controlada por Luna que devia ter vinte vezes o tamanho do corpo dela, o que me deixou esgotado demais para reagir, ela foi até mim e acariciou minha nuca, enquanto sussurrava palavras gentis que não combinavam com suas últimas ações: - Eu te amo, eu não queria te machucar. – Não respondi, mas levantei meus olhos para o dela, fitando como um raio de luz do Sol, e sorri. A expressão dela mudou de uma hora para outra, pareceu transtornada, ela se levantou, olhou em volta procurando algo, e então gritou bem alto com sua voz estridente: - Onde você está? Apareça!
Uma luz surgiu próxima a nós, e essa luz aos poucos foi se tornando matéria, se transformando em um homem de longos cabelos castanho-avermelhados, com feições e vestimentas de árabe, de um rico comerciante árabe da antiguidade ou algo do gênero.
- Quem é você? – A voz estridente de Luna cortou o ar como uma lâmina de fio afiado, irritada.
- Pergunto o mesmo. – Eu podia sentir uma energia intensa vindo daquela pessoa, mais intensa do que o que senti em qualquer outro espírito antes, ele não parecia ser um espírito de trevas, mau, mas também não parecia de luz, era difícil saber quem era ele.
- Não se lembra de mim? Vocês já me conhecem, fico triste por não lembrarem de quem sou.
- Fale logo, quem é você? Como e por que chegou aqui? – Luna o agarrou na gola de sua túnica, para isso ela tinha que ficar na ponta dos pés e esticar muito os braços, mas era admirável a presença de espírito que tinha para fazer essa ação.
- Criança, me solta agora. – Ele a olhava com um sorriso descaradamente sarcástico, sem parecer se importar realmente com as mãos tão petulantes que o seguravam.
- Responda as minhas perguntas, ou eu te matarei.
Quando eu a ouvi dizer isso, percebi o quão precipitada, estúpida, emocional e impulsiva a minha Luna podia ser. Só a vi a ser erguida a uns cinco metros do chão, e depois lançada com toda a força contra ele, tudo foi muito rápido. Não podia aceitar aquilo, e fui tolo, criei uma mão gigante de energia para agarrar o ruivo, mas antes sequer dela se aproximar dele, senti meu corpo envolvidos por uma força invisível que me apertava em todas as partes, como a pressão da água do mar a milhares de metros de profundidade, uma força que me paralisou, ergueu, e me lançou contra o chão do mesmo modo , e eu tentei dar um grito de dor, mas tudo que consegui foi falar: - Ali. A energia invisível que me envolvia era tão intensa que impedia até a maioria dos movimentos da minha língua e boca. Mesmo assim, meu coração acelerou como uma chuva de balas de metralhadora, depois de tanta paranóia de Luna, as piores possibilidades se tornavam reais, um espírito muito poderoso nos atacava e nos dominava, e o medo da morte eterna era uma constante em cada um dos meus pensamentos e sentimentos, o que me envolvia com o mais profundo desespero, e o desejo de chorar, reprimido pela paralisia forçada.
Então crianças, espero que agora se comportem, não vim para machucá-los, só quero conversar. – Ele falou, se agachando, nos moveu com seus poderes até estarmos um de cada lado do seu corpo de grande porte, então por um breve momento apertou nossas mãos. Eu senti a pressão na minha boca suavizar e gritei, Luna começou a xingá-lo de todos os nomes que conhecia. – Parem de gritar ou fecho suas bocas de novo. – Parei de gritar, e minha amada também, talvez ela também estivesse com medo. – Então, vocês têm certeza de quem nãos e lembram de mim? Nos vimos ainda hoje, só que eu estava com uma aparência diferente.
- Qual? – Tentei me lembrar: Nietzsche, Newton, Einstein, Marx... ou seria...
- O desconhecido que estava na mente de meu Artur quando ele entrou em coma, só pode, é o único jeito de alguém entrar aqui tão facilmente. – Luna juntou as peças antes de mim, sua voz soava como a de uma morta, a humilhação a qual estava submetida parecia pior que uma segunda morte.
- Acertaram, eu estava usando um corpo espiritual igual ao de Artur, que é quem tem a mente ligada à minha, só que agora estou usando meu corpo verdadeiro.
- Como você se tornou vinculado a mim? Quando te convidei?
- Bem, foi uma noite de lua cheia... Não. Foi uma música, suas palavras e pensamentos podem funcionar como convite, e em uma das músicas que você cantou mentalmente na vida havia um convite exatamente para mim, então eu entrei. Mas aposto que isso não é o bastante para saber quem eu sou.
- Que música? Conte-me e eu saberei o seu nome, e se temos as mentes vinculados, você não deveria me tratar assim, você devia me ajudar, me solte, não tentarei te atacar se o caso é que não haja más intenções de sua parte, se bem que...
- Mesmo que tiver, você não poderá fazer nada, sei, sei. Mas não importa. – Estalou os dedos e nós dois caímos no chão, livres do terrível sufocamento ao qual estávamos submetidos.
Em um único momento tudo mudou, o céu cinza foi se tornando cada mais negro até se tornar a escuridão absoluta, enquanto o mesmo acontecia com o chão, o celeiro, as plantas, e tudo que havia na paisagem, que desaparecia em trevas, e a única que havia para ser vista eram nossos próprios corpos, meu, de Luna, e do invasor, e não pisávamos em nada, mas não flutuávamos, era como estar em um solo absolutamente regular, indestrutível e invisível, era como estar suspenso sobre a eternidade! Senti um terrível terror, aquele podia ser meu eterno sepulcro, e estava sozinho, sem nada nem ninguém a vista, estava distante de minha adorada Luna. Onde estava? Tentei correr, sem me preocupar com a direção, mas não saí do lugar, ao mesmo tempo que não podia sentir o chão nos meus pés, era como estar no vácuo absoluto, incapaz de fazer qualquer movimento, o meu medo apenas cresceu, se transformando em um profundo desespero, uma sensação cruel de impotência, tentei gritar, mas não consegui, pois era como se minha boca estivesse costurada, o que apenas me provocou mais angústia. Até que aquela voz ecoou.
- Senhores, estamos aqui reunidos para fazer uma pequena competição que testará suas habilidades e caráter. Vocês estão suspensos no que se pode chamar de Prisão de Vazio, um plano de maior profundidade que uma mente criado por um espírito para aprisionar outro junto de si mesmo. Aqui as regras do resto do universo não se aplicam, elas são definidas pelo criador, e eu aprisionei vocês dois, pois uma vez subjugados, podem ser capturados neste plano, e agora tenho total controle sobre vocês, e posso fazer qualquer coisa que minha imaginação permitir, afinal, é assim que funciona por aqui. Agora vamos às regras, cada um de vocês está impossibilitado de se locomover e a uma distância inimaginável do outro, os dois irão receber três cartas cada um, e escolherão cada um uma carta para jogar, então quando os dois tiverem escolhido, as duas cartas serão colocadas lado a lado e comparadas, dependendo da combinação da escolha dos dois, teremos diferentes resultados para essa competição. É um jogo parecido com Sete e Meio, mas um pouco mais complexo, se chama Vida, Tortura ou vida, naturalmente existem as cartas de Vida. – Surgiu na minha frente uma mesa de madeira barata, em cima dela haviam três cartas, uma tinha o desenho de um bebê sorrindo, e tinha escrito “vida”, outra tinha a imagem de uma donzela de ferro aberta, deixando todos os espinhos metálicos à mostra, ameaçadora, escrito “tortura” e a última que tinha uma pintura muito bem feita do ceifador, da morte, que mostrava sua conhecida face de caveira, escrito “morte”. – que tem a ilustração de um bebê, a da tortura, que tem um caixão de ferro com espinhos, uma donzela de ferro, e o da morte, que tem a própria na ilustração, a carta que for escolhida representa o desejo de sua alma. É um jogo pela vida, o vencedor deve morrer, e o perdedor deve morrer, e é isso que acontecerá, e eu adoraria ver até que ponto irá o amor entre vocês quando ele custar suas vidas. – A risada seguida ecoou por todo o ambiente, meu coração gelou ao zero absoluto. Eu teria que matar Luna? O mínimo pensamento nessa possibilidade me aterrorizava tão horrivelmente que me fazia querer cometer suicídio espiritual na mesma hora, quis chorar, mas também não podia, pois não existiam lágrimas no mundo de regras criadas por aquele louco que se autodenominava S, me restaria apenas perder e morrer, o que seria melhor do que ter que lidar com a culpa pelo resto da minha existência, duradoura ou não. Foi nesse momento que percebi a resposta da pergunta que ela havia me feito antes, se eu morreria por ela, se abriria mão de minha existência e de sua companhia apenas pela vida dela, por ela, por amor a ela. Sim, era essa a resposta, por mais que me desesperasse também a idéia de morrer, um destino não misericordioso. Mas eu ainda nem sabia quais era as regras, e ele continuou falando: - Quanto às possibilidades , se um jogar Vida e o outro Morte ou Tortura, quem jogou Vida irá continuar vivo, e o outro irá morrer, pois o sacrifício deste irá pagar o preço do egoísmo do outro, mas se dois jogarem Vida, ambos morrerão, pois ambos estarão sendo egoístas e não terão valor para continuarem de fato vivos, e ninguém para pagar o preço de suas vidas. Se ambos jogarem Morte, seus desejos serão realizados e então morrerão, perecerão como a semente que é lançada na areia mais estéril, se os dois jogarem a Tortura, o mesmo destino de morrer será dado a ambos, pois estarão sendo covardes por não decidirem entre a vida e o sacrifício da morte, sendo então punidos com uma morte em vão, não em sacrifício, a única possibilidade dos dois continuarem vivos é que um jogue Tortura e o outro jogue Morte, aquele que jogar tortura irá naturalmente passar por momento da mais brutal dor e angústia, por uma tortura, mas não morrerá, e pagará com seu sofrimento o preço da vida do outro que escolher o próprio sacrifício, a morte, assim, o sacrifício de ambos será equilibrado e terão suas vidas preservadas.
Senti um profundo alívio quando ele terminou, se essas eram as regras, então podíamos continuar juntos, bastaria combinar qual de nós iria ser o torturado, e qual sairia intacto, e... mas...? Queria gritar uma certa pergunta, mas minha voz não saía, estava mudo.
- E só para terminar, vocês não vão ter comunicação um com o outro, então não tem como vocês combinarem a jogada para terem o resultado desejado, então boa sorte, vocês tem cinco minutos para se decidir, basta pegar a carta que desejam jogar no momento que a contagem chegar a zero, se nenhuma for escolhida, quem não escolheu morrerá automaticamente, pois estará quebrando as regras. .
A angústia tomou novamente conta de mim. O que queríamos era Morte e Tortura, mas como saber qual dos dois ela jogaria? Um relógio surgiu na mesa, e a contagem já começou, 5:00, 4:59.4:58... Confiava religiosamente em Luna, e tinha certeza que ela não pensaria em jogar Vida para garantir sua sobrevivência, mas mesmo se eu estivesse enganado, algo impossível, pelo menos ela viveria, enquanto o sono eterno fecharia de vez os meus olhos. Morte ou Tortura? Quem escolhesse Tortura teria que sofrer, enquanto o outro não teria que fazer nada, então esse seria o que realmente é capaz de se sacrificar pelo outro. Mas seria realmente isso? Se eu escolhesse morte, eu saberia que aquela que amo está sofrendo, e isso me faria sofrer, sofrer profundamente, não sabia que tipo de brutalidade seria imposta ao torturada, mas pelos níveis de crueldade daquela disputa sádica, devia ser algo além da minha imaginação. Eu deveria sofrer por ela, era o mais justo,eu estava querendo me sacrificar por outro, por ela, mas como eu saberia que Luna não pensaria o mesmo? Se nós dois escolhêssemos o mesmo sacrifício, nós dois morreríamos, eu tinha que raciocinar, mas o nervosismo da pressão doentia na qual estava não ajudava muito, ela talvez imaginasse que eu fosse querer me sacrificar por ela, e escolhesse Morte, ou talvez imaginasse que eu imaginei que ela iria querer se sacrificar, e então ela escolheria Tortura... ou? Era enlouquecedor! Quantas possibilidades? Era uma corrente infinita de possibilidades, causas, conseqüências, suposições, idéias, e não importava no que eu pensasse, havia sempre duas possibilidades que pareciam totalmente indiferentes ao meu raciocínio: Morte e Tortura. O tempo passava ao mesmo tempo rápido e devagar, rápido porque eu precisava pensar muito em pouco tempo, e lento por causa da agonia da sensação de estar a um fio de proximidade de uma morte coletiva impiedosa. Pensei mais, tentei sentir o que ela pensaria, tentei me ligar espiritualmente a Luna, mas a realidade criada pelo controlador me impedia de fazer isso também. Ele tinha pensado em tudo! Maldito! Me lembrei novamente daquela pergunta: “Você morreria por mim?”Minha resposta havia sido não, e depois ela me disse que também não morreria por ninguém, nem por mim... Então talvez fosse essa a resposta? Ela não escolheria morte, seu sacrifício seria a tortura, enquanto eu deveria me submeter à possibilidade de morrer para que ela vivesse, não dependia mais de mim, sim, ela escolheria Tortura, e eu deveria decidir a Morte, só Morte poderia realmente provar meu amor por ela, para que depois eu morresse por dentro vendo a dor que ela sentiria. 1:32, Escolhi Tortura e a segurei até o contador dar zero, então as cartas, a mesa, e o relógio sumiram, e duas cartas da minha altura surgiram no escuro:
Tortura e Morte.
Nós tínhamos vencido! E não demorou para que ambas as cartas sumissem novamente e um som batida metálica ecoasse por todo o ambiente, seguido de gritos alucinantes que me assombraram como a alma de um condenado! A alma de Luna, que agora era torturada na donzela de ferro, eram os gritos dela, agonizante, vítima de atrocidades que eu não podia ver, mas podia sentir, quase como se fossem em mim. Sim, eu sabia, ela estava preso naquele caixão de ferro cheio de pregos, perfurada, atravessada, espetada, eu sabia que aqueles gritos não eram o bastante para expressar toda a dor que sentia, e sabia que aquela dor era mais próxima do real do que as outras dores espirituais, e eu sabia de tudo isso, porque, de algum modo, eu sentia também, estava interligado a ela. A angústia foi a mais profunda que já havia sentido em minha vida mortal ou não, lágrimas saíram de meus olhos como uma tempestade amargurada, e a cada grito que eu ouvia, eu sentia vontade de me colocar no lugar dela. Tentei me mover, vê-la, buscá-la, mas nada acontecia, não podia sequer mover minhas pernas, como se paralisadas, ou como se simplesmente não existissem, e aquela voz amaldiçoada soou novamente, como uma assombração das profundezas do Inferno:
- Mais cinco minutos e vocês estão livres, Artur, você não poderá ver a tortura da garota, mas você deve saber o que está acontecendo com ela.
- Maldito! Como pode fazer isso? E por que? O que ela fez contra você, desgraçado, covarde! – Gritava com todo meu ódio, mas sem fazer nenhum som, pois nada saía, apenas os meus pensamentos podiam ouvir minha voz, eu estava mergulhado em desespero, raiva, e uma sede terrível de vingança, que me envenenavam e faziam com que me sentisse cada vez pior, era como eu havia imaginado, meu coração morria cada vez que a dor dela surgia na sua voz estridente, ela estava pagando o preço da tortura, e eu o preço da morte! Como queria estar em seu lugar.
- Não me insulte, ela escolheu esse destino, e você concordou! – Ele me zombava;
- Então esqueça isso! Deixe-me sofrer no lugar dela!
- Luna não pode te ouvir, e você não pode substituí-la, o jogo tem regras e elas são inquebráveis, por isso, aceite isso, e espere que acabe, não vai demorar muito.
Tentei me jogar no chão de joelhos para lamentar e prantear, mas não pude, pois o movimento de me ajoelhar também era impossibilitado por aquela dimensão amaldiçoada, a única possibilidade era continuar de pé, e de mover da cintura para cima. E Luna gritava mais e mais, sofria muito, era uma dor brutal e pungente, profunda e cruel, tampei meus ouvidos para não ter que ouvir mais, com os olhos muito bem lubrificados de lágrimas, mas de anda adiantou, pois a voz estridente e aguda dela era como uma afiada espada, e ela perfurava qualquer tentativa de não ouvir, ela não dizia nenhuma palavra, apenas gritava monossílabos de agonia, e essa foi minha tortura pelo tempo seguinte, até que finalmente ouvi sua voz cessar, e senti alívio. A escuridão absoluta evaporou devagar como se acordasse de um sonho, e finalmente me vi novamente na mente de Luna, naquele campo aberto, ela estava caída no chão de joelhos, ofegante, suas roupas estavam cheias de furos, e havia manchas de sangue fresco por todo o seu corpo, corri até ela e a abracei tão forte que não poderia descrever o quanto, ela estava viva e me fez feliz por um momento, não prestei atenção em onde estava S.
- Me perdoa, me perdoa. – Chorava agarrado nela, enchendo seus lábios de beijos desesperados e devotos, senti o gosto amargo do seu sangue, mas não importava.
- Me desculpa, eu não queria gritar tanto, mas eu não pude me controlar. – Ela retribuiu o abraço, me olhava com culpa, como se tivesse feito algo terrível, como se fosse uma criminosa, uma traidora, uma fraca, não podia entender como depois daquilo ela ainda podia se sentir assim.
- O que aquele desgraçado fez com você?
- Ele me colocou em um caixão de pregos e fechou, doía, eles não eram muito longos, deviam ter o comprimento de um unha cortada, mas eram muitos, muitos mesmo, a grossura era apenas um pouco maior do que a ponta de uma caneta. Eu não devia ter gritado, eu realmente não consegui me controlar, era como se eu não tivesse comando da minha própria boca, me desculpa. – Ela fechou os olhos e apoiou a cabeça no meu ombro, a recebi, e ainda não pensei em encontrar quem havia feito aquilo a ela.
- Ora ora, que bonito casal. Vocês se saíram muito bem na competição, podem viver agora. Ah, menininha, você não devia ter gritado tanto por causa dos pregos, eu te controlei para que fizesse isso e assustasse o jovem Artur, se bem que a dor que deve ter sentido não deva ter sido pequena, mas aposto que não o bastante para aquele escândalo. – O ruivo apareceu atrás dela, a soltei e o ataquei com algo parecido com uma espada de energia, fui lançado longe e nem vi pelo que, e não acertei. – E não tentem fazer nada contra mim, a partir de agora estou do lado de vocês, e de qualquer modo vocês vão morrer se eu realmente quiser, já viram o quanto sou poderoso. – O modo como ele soava zombador me preenchia da mais pura ira, mas ele tinha razão, era poderoso demais para podermos fazer qualquer coisa, nos vingarmos.
- Quem é você? Por que não responde? – Luna se aproximou dele, estava quase com o corpo encostado nele, olhava séria, parecia estar controlando sua raiva, assim como eu fazia.
- Já falei antes, meu nome é S, mas não falarei mais nada agora, já consegui o queria. - Ele mostrou seus dentes amarelados mas muito retos, e se transformou em luz, sumindo de uma só vez logo em seguida. O maldito havia fugido!
- Droga, quem era ele? – Perguntei, deitando de bruços no chão.
Capítulo 7 - Mapa
- Eu não sei, precisamos descobrir, mas não agora. – Ela se deitou ao meu lado na mesma posição e sorriu gentilmente como se nada tivesse acontecido. – Vamos esquecer disso e relaxar, eu ia te treinar mais, só que isso foi bem mais efetivo que qualquer treino, doeu, foi horrível, mas te fortaleceu, nós passamos por essa provação e merecemos um pouco de paz.
Fechei os olhos e pensei, estava desanimado, assustado até agora, aquele homem poderia voltar a qualquer momento, e quando ele voltasse... Tentei esquecer assim como minha amada sugeriu, e pensei em um novo assunto, que veio comum um flash na minha cabeça.
- Por que sua mente é uma plantação?
- É que foi aqui que eu vivi na minha vida toda, é o lugar que está na minha memória, incrustado na minha própria alma, é o que eu fui, e é onde eu me imagino se penso no que sou e onde sou, por mais que isso seja desagradável pra mim, é aqui o meu lugar.
- O que aconteceu de desagradável aqui? Como foi sua vida? Conte-me, não esconda nada de mim nunca mais.
- Eu não quero falar disso agora, um dia eu te conto, é sério, não me pede isso.
- Mas então você se lembra da sua vida?
- Sim, lembro, mas preferia não lembrar. É só esperar, eu te conto um dia, controle sua curiosidade, não pense no passado, mas viva bem no presente, aproveite o dia.
Não insisti, ela estava de mau humor, não me destratava por isso, mas ainda assim soava seca, como alguém que não está com vontade de conversar, mas apenas de ter um pouco de paz. Não houve mais nenhum ruído, esperei um pouco, nada, abri os olhos e olhei para ela, estava repousando como um anjo sobre sua nuvem, apreciando seu repouso de paz e inocência, não dormia de fato, espíritos não dormem naturalmente, mas estava ali, serena e tranqüila por um momento, era de fato um bebê indefeso no seu berço, que não espera por nada, mas também não teme nada. Fechei meus olhos novamente e coloquei minhas mãos em baixo do rosto de modo que ficasse confortável, para descansar apropriadamente, e nós dois ficamos assim por horas, horas que eu não saberia contar, em uma total e confortável inércia adormecida debaixo daquele admirável e inspirador céu cinza. Um casal de eternos amantes isolados e em repouso sobre o leito verde da mente de uma criança morta! A mesma criança que era a mulher desse casal: Luna. Não faço idéia do tempo que se passou quando ela me despertou de minha feliz e confortável distração:
- Agora sim é hora de descobrirmos quem era. Quem era ele?
- Eu não sei. Será que é ele que me colocou a Cápsula Antifísica?
- Foi ele quem te trouxe até mim quando você veio pro mundo espiritual, ele tem acesso a você, ele disse que você deixou que entrasse em sua mente. Pense um pouco, tente se lembrar. E o que ele te disse antes de você me encontrar?
- Disse que tinha interesse em mim, que eu seria útil, que eu tenho potencial e vontade, e que ele é como se fosse meu anjo da guarda, que era útil eu ser um vivo com conhecimento do mundo espiritual, ele se chama S.
- Anjo da guarda? Se ele fosse seu anjo da guarda não teria tentado te matar, nos matar. - Por que é impossível? Se é assim, então é impossível que tenha sido ele a te colocar na cápsula!
- Por que? Só por que ele disse que me quer vivo? Podia estar mentindo!
Ele teve acesso à sua mente e à minha usando você como chave, quero dizer, ele está ligado a você, e um espírito não pode criar uma Cápsula Antifísica em algum vivo a quem está ligado, pois isso os separaria, pois assim como o vivo não teria acesso ao corpo, o morto a ele vinculado também não poderia entrar, e julgando pelo suposto interesse dele, sua morte seria péssima, e de qualquer modo, se ele quisesse sua morte física, ele poderia fazer utilizar outros métodos mais rápidos diretamente no seu espírito quando nos pegou.
- Que tipo de métodos você se refere?
- Não é muito difícil destruir a ligação do espírito com o corpo em uma ataque direto à alma, seria preferível se fosse a intenção, mas quem te prendeu não o fez por um único motivo: Ele não encontrou sua alma, não pôde penetrar ou rastrear sua mente, ele apenas conseguiu encontrar seu corpo vazio, então o lacrou, mas não pôde achar seu interior, seu espírito. Portanto, é impossível que S seja o responsável pela cápsula, mas ainda assim devemos eliminá-lo. Ele te falou por que estava com a sua aparência da primeira vez que o vimos? Ele disse que você o deixou entrar cantando uma música mentalmente, por favor, pense em todas as músicas e todos os nomes cantados em músicas que você conhece, nos convites, invocações, tente se lembrar, você precisa se lembrar, precisamos descobrir quem ou o que é o tal S.
- Eu não sei. Eu realmente não sei!
- Você sabe sim. Que tipo de música você ouvia? Não era aquele tal de metal? Isso não existia na minha época, não me faça ter que lembrar pra você.
- Eu vou pensar nisso, não me pressione, só te peço isso, assim como você pediu para eu não insistir em perguntar sobre sua morte.
- Está bem. Acha que repousamos o bastante?
-Sim. Preciso ir investigar e procurar quem me atrapalha, eu já comecei a listar na minha memória possíveis suspeitos, mas acho que vagando em algum lugar novo eu possa me lembrar melhor, juntando informações com estranhos, pessoas que tenham informação, pelo o que eu vi lá na cidade dos cientistas, há muita informação registrada em escritos aqui no mundo espiritual.
- Sim, é verdade, espíritos gostam de registrar seus conhecimentos para gerações futuras, há uma grande divulgação de ciência, conhecimento, informação e notícias nesse plano, mas ainda há os assuntos que ficam ocultos por debaixo de negros véus, longe dos olhos e do conhecimento da maioria das pessoas.
- Sempre há, mas então, vamos sair daqui e procurar. Mas aliás, não teria como você me informar sobre os lugares existentes no mundo espiritual?
- São muitos, você dá para conhecer todos, mas há um lugar onde podemos descobrir isso.
- Onde?
-Há vários, na verdade, mas acho que o local mais confiável para ir é na Cidade dos Governantes, onde se encontram os políticos, inclusive o malignos, é um lugar perigoso, não é como as cidades dos filósofos e cientistas, onde a paz reina quase absoluta, lá há conflitos e egoísmo, naturais na vida de um político, lá estão os melhores mapas do mundo espiritual, e alguns demônios muito poderosos. É um bom lugar para testarmos nossa capacidade de sobreviver. – Cada palavra saía com empolgação, estava claríssimo o quanto Luna pretendia ir àquele lugar comigo, e não apenas pelo tal mapa. Senti um pouco de medo com tal descrição, mas ao mesmo tempo uma profunda curiosidade, e realmente quis ir, estar entre os homens que controlaram a Terra pelo passar dos anos, sábios ou loucos, estúpidos ou bondosos, cruéis ou gananciosos, todos os temíveis ou respeitáveis poderosos que reinaram sobre as pessoas comuns, e com meia dúzia de palavras, puderam decidir o destino de milhares.
- Vamos agora mesmo. – Peguei na mão dela e fechei os olhos, ouvi a frase:
- Da próxima vez, você vai se teletransportar sozinho, já está na hora de aprender.
Mas mesmo assim, senti que ela nos transportou, e quando abri os olhos, me vi em um lugar barulhento, era uma espécie de castelo imenso,muralhas e torres altíssimas, a uns cem metros do chão, estávamos em uma parte a céu aberto, do tamanho de quatro quarteirões, mas havia várias entradas, com cerca de quinze metros de altura e largura cada uma, para dentro da construção de pedras frias, e dava para se ver o início dos luxuosos salões que haviam no interior, com tapetes vermelhos e mobílias ostentadoras, de onde o som de música clássica, creio que Beethoven, ecoava com arrogância. A área externa onde estávamos tinha o chão feito em mármore, era cheia de mesas onde pessoas comiam dos melhores pratos de várias nações, pude reconhecer o foie grãs francês, as esfirras árabes, o hambúrguer americano, o chilli mexicano, o sushi japonês, o arroz chinês,o capeletti italiano, que claramente chamou atenção de Luna, que observou o homem que o comia com bastante interesse, e reconheci a feijoada brasileira, símbolo máximo da culinária de minha pátria, essa era comida por um homem que eu conhecia, e o abordei, sendo seguido por minha adorada.
- Prazer, Marechal Deodoro da Fonseca, primeiro presidente de minha pátria, Brasil?
- O que quer, moleque? Você com certeza não é um político. – Sua voz era tão bruta quanto se espera de um militar de alta patente, cujas ordens são sempre cumpridas, não importando quais.
- Bem, eu vim buscar um mapa que me guie pelo mundo espiritual, e gostaria que me ajudasse a arranjar um. – Sorri com o máximo de simpatia, mas não convenci, a grosseria dele não me deixava muito confortável.
- Entre naquele salão, procure pelas paredes, e não me amole, preciso comer. – Aponto o dedo para a entrada faraônica à esquerda e senti uma força me empurrar dali, o marechal não me queria lá. Agradeci de mau grado e entrei no local indicado junto com Luna, era realmente grandioso, o mais magnífico de todos os palácios já vistos! Ouro, brilho, glória, veludo vermelho, mobílias feitas em puro marfim, jóias para todos os lados, era como o paraíso! Tudo feito de modo tão luxuoso e exibicionista que seria impossível para o mundo real, mesmo para o mais rico dos imperadores, mesmo para o governador de um mundo inteiro, nem Salomão e nem Midas poderiam ter visto tamanha beleza arquitetônica, tamanha ostentação!
- Esses desgraçados sem acham. – Luna balbuciou ao meu ouvido, andávamos de mãos dadas, próximos às paredes, procurando algum mapa, mas tudo que víamos eram retratos e escritos que falavam das glórias passadas das nações, de feitos grandiosos de governantes, e guerras que mudaram o mundo. Não encontrando nada inicialmente, fui até um homem que bebi energético com vinho em uma poltrona de veludo com fios de ouro, minha companheira ficou para trás, mas ainda estava em meu campo de visão.
- Senhor Benito Mussolini? Sabe onde eu, um humilde adolescente, posso encontrar um mapa do mundo espiritual? – Perguntei, receoso de uma provável reação agressiva do ditador, não sabia como ele reagiria a abordagem, Luna observava de longe, parecia que queria rir.
- Saia daqui, não vê que estou ocupado aproveitando a eternidade? Saia ou acabarei com você. – Ele não poderia ter sido mais ameaçador, nem respondi nada e voltei para onde Luna estava.
- Deixa que eu falo com ele, mas fique longe. – Ela me disse e foi até ele, fiquei espiando, ela disse algo ao político, não pude ouvir, mas ele levantou um pouco o corpo e sorriu, terminou de beber e falou alguma coisa com empolgação, ela fez uma reverência e voltou até onde eu estava, enquanto o ditador fechava os olhos e apreciava mais do seu eterno ócio.
- Bem, ele me falou que temos que ir andando pela parede esquerda até encontrarmos umas escadas, subimos, e então procuramos pelo corredor até encontrarmos uma entrada com portal de diamantes, lá dentro estarão os mapas e os seus estudiosos.
- O que você fez para ele te falar o que você queria?
- Quando eu te contar sobre como morri, eu te explico o que fiz, agora vamos. – Se colocou com os braços nos meus e fomos pela trilha, andamos bastante para chegar na primeira escada, e pude reconhecer Joseph Stálin, Dom Pedro I, Theodore Roosevelt, Hirohito e Pompeu César, depois de subirmos a longa escada, passamos por um corredor que contava a história de Roma no lado esquerdo da parede, através de fotos, mapas e escritos, e a história do Egito, do lado direito, talvez mais à frente falassem de mais nações. Entramos no portão dourado assim que o vimos, e então nos encontramos em uma sala muito bem iluminadas por velas que nunca derretiam ou se apagavam, onde havia apenas uma grande mesa onde quatro homens escreviam, duas estantes cheias de livros, e as paredes, envolvidas por um mapa tão grande que por si só funcionava como um papel de parede. Era o tão procurado mapa do mundo espiritual! Os quatro homens levantaram o olhar para nós com fúria,tremi na hora, três deles voltaram seus olhares a suas atividades, e o outro se levantou e foi até nós, o reconheci na hora que vi, o que me gelou de terror da cabeça aos pés, era Adolf Hitler.
- Camaradas, vocês não tem assuntos aqui, saiam daqui. – Ele falou o autoritarismo de um ditador, não estava usando a franja tradicional nas fotos históricas, seu cabelo estava quase raspado, bastante baixo.
- Ah, isso não é verdade, estamos querendo um bom mapa do mundo espiritual, com indicação da freqüência e localização, detalhes e tudo mais, e não sairemos sem ele. Mas claro, não queremos encrenca, então iremos negociar com você por ele. – A tranqüilidade de Luna me impressionava, falava como se estivesse falando com um colega de escola com quem se pretende trocar figurinhas, ou talvez ela não soubesse quem era ele, por ter nascido antes.
- Você é muito ousada! O que me oferece em troca de um mapa como esse?
- Vamos ver, quem são seus amigos por aqui? Minha resposta dependerá disso. – Ela se arriscava, mas sua firmeza e segurança eram uma base forte para sua tentativa.
-São Mao Tse Tung, ditador comunista chinês, Robespierre, o ditador jacobino francês extremista, e Joseph Stálin, o ditador comunista russo. Sabem, eu me enganei na vida quanto a esses povos não arianos, eles são tão bons quanto arianos como eu, espero que não me veja como um genocida, eu realmente fui, mas agora estou muito arrependido, e devo deixar isso bem claro para vocês, pequenos latinos. Mas e a proposta?
- Me diga, Hitler, qual é a coisa que você mais deseja na sua vida espiritual?
- Gostaria de poder compensar pelos meus crimes, nunca deixei de ser severo, mas nunca mais fui cruel, gostaria de abandonar a culpa que sinto, e então, ir ao céu, ser verdadeiramente feliz.
- Ah, nisso eu não posso ajudar, pois também estou muito distante de alcançar o céu, paraíso, mas você, com todos esses mapas, não pode alcançá-lo também. Talvez eles não adiantem de nada, mas ainda assim os desejo, não viso o céu, mas o conhecimento. Eu posso te oferecer algo melhor do que o que me sugere: minha amizade e gratidão eternas!
- Não me serve de nada, se não tem mais nada a oferecer, peço que vá embora, não devo mais ser mau, mas esse local não deve ser de acesso para qualquer um.
- E por que não? O conhecimento não deveria ser livre para todos os espíritos viventes?
- Os mapas que são guias para o mundo espiritual não devem cair nas mãos de qualquer um, um demônio com acesso a toda essa informação poderia atacar e causar confusão em qualquer um dos diversos mundos! Esses mapas devem existir, mas só devem estar acessíveis a poucos espíritos, espíritos de luz ou sábios, que não irão fazer mal algum! Por isso os guardamos.
- Então por que aceitou ouvir minha proposta, se não há condição de mostrar os benditos mapas a uma pessoa que não se adequa aos seus padrões de santidade?
- Devemos sempre ouvir o que os outros têm a falar, eu não perderia nada em ouvir sua proposta, e talvez fosse realmente interessante, se eu também pudesse me assegurar de que você é confiável, eu não sou sensível a energia, por isso não posso identificar suas intenções, mas meu bom amigo Mao Tsé Tung pode. – Hitler foi até o chinês, que ergueu seu austero olhar, e respondeu:
- Essa garota é maligna, nem pense em dar qualquer coisa para ela, ao contrário, faça com que ela e o menino saiam, pois ele não apresenta mal algum, mas tem rancor em seu coração e não é confiável, e ande logo com isso, Hitler.
O alemão balançou a cabeça positivamente e voltou até nós, apontando para a saída : - Ouviram o bom homem, vão embora, senão terão que ser retirados à força.
Luna sorriu com uma maldade incomum, e logo em seguida o seu corpo todo se transformou em uma forma diferente, era a silhueta ilusiva que desafiava toda a lógica da razão humana, seus olhos castanhos como cedro demonstravam uma firmeza inabalável, nas seu corpo era como névoa, esperando para se dissipar, e por trás da linda máscara de seu rosto, eu podia enxergar centenas de faces cujos olhos cheios de ira me assombravam até o mais íntimo do meu ser. E pude ver que ela era vários, e que cada existência lutava para dominar aquela massa macabra, mas à frente de tudo havia dois olhos azul-avermelhados, tão naturalmente rancorosos que me envenenavam com uma sensação que poderia facilmente ser descrita como a morte da esperança. Hitler percebeu a ameaça e tentou envolver minha Luna com sua energia, mais foi agarrado por um dos tentáculos que saíram do “corpo” dela, Mao, Stálin e Robespierre a atacaram também, e eu entrei na peleja, investindo contra eles, mas não foi preciso, pois três outros tentáculos os agarraram, e logo estavam imobilizados, sequer podiam se mover ou controlar a energia que possuíam, eu estava amedrontado. O que ela era?
- Bem, se vocês deviam ser os guardas desse recinto sagrado, não deveriam ser tão fracos, vocês realmente deveriam arranjar protetores melhores para seus dados, quatro de vocês não puderam lidar com uma menininha virgem e doente, o que é uma pena. Agora vocês estão sob o efeito de uma das minhas habilidades favoritas: energia venenosa, com o toque de meus amáveis tentáculos, injetei energia destrutiva e má em seus corpos, o que os deixa paralisados e à mercê dos meus caprichos, portanto, se eu quiser fazer de vocês o meu divertido festival de violência e crueldade, assim eu farei, mas não é essa a minha intenção. Vocês, ditadores, déspotas não merecem minha piedade ou minha compaixão, quando estavam vivos, não demonstraram piedade contra aqueles que se opuseram aos seus regimes, portanto morrerão agora, estarei fazendo um favor à humanidade, limpando o universo dessas almas arrogantes. – Os olhos dela se tornavam cada vez mais vermelhos, e seus dentes, à mostra em um sorriso ensandecido, se amarelavam, era um monstro pálido e enevoado, recuei alguns passos, observando, sem ousar e sequer desejar interferir, a violência dela me assustava, mas acreditava ser algo necessário, os tentáculos cresceram e envolveram os ditadores como casulos, ouviu-se um som estridente de ossos quebrando, e de líquido escorrendo e depois evaporando, imaginei que fosse do sangue dos derrotados, os tentáculos logo se recolheram no corpo de Luna, e ela voltou a sua aparência normal, me olhando séria e envergonhada, enquanto eu a fitava com temor.
- Me desculpe, não queria te assustar, eu preciso do tal mapa.
- O-o que era aquilo dentro de você? O que você é?
- Eu explicarei assim que voltarmos a minha mente, mas agora vamos pegar os mapas, eu prometo que te contarei tudo, desde a minha morte, até a situação em que nos encontramos.
Concordei, apesar de estar totalmente insatisfeito, mas antes de ir pegar os mapas, me joguei sobre ela e a abracei, era agora a minha Luna, não a monstruosidade que havia surgido segundos antes, não a queria perder, queria que continuasse daquele jeito, com os olhos castanhos que sempre me olhavam com ternura, e não os olhos vermelhos sedentos por morte, senti vontade de chorar, mas me segurei, não queria mais parecer tão fraco, eu precisava ser forte, muito forte se quiser continuar na jornada em que nos encontrávamos, e precisava de toda a força possível para evitar a minha própria morte física, e talvez, problemas ainda maiores que talvez ainda vissem, terríveis e inesperados imprevistos. Ela sorriu e me beijou brevemente, senti um leve gosto de... ferrugem. Depois se soltou e foi fuçando pelo local, fiz o mesmo, encontrei um livro, na verdade, um atlas, com a capa como Atlas do Mundo Espiritual, versão 2005, mostrei para ela, para visse se era o que procurávamos.
- Sim, ótimo, pegue e vamos embora daqui, se perceberem o que aconteceu aqui, podemos morrer. – Pegou em minha mão, fechei os olhos, e nos teletranportamos. Estávamos na mente dela, mas dentro do celeiro, deitados em um monte de feno, e eu tinha o livro na mão, devia ter umas 2000 páginas, a julgar pela grossura, mas logo o soltei sobre o chão.
Capítulo 8 - A Miserável
- Agora me conte tudo, o que foi aquilo? O que foi? – Perguntei tomado por ansiedade, e enchendo-lhe de beijos nos lábios, sem me incomodar com o estranho gosto de ferrugem.
- Eu vou te contar de onde eu vim, e por que te escolhi, mas só o que eu lembro, pois não me lembro de tudo. – Afastou os lábios dos meus para falar, então parei, ficando atentamente à sua escuta. -Meus pais eram camponeses nos arredores de Roma, eu era a única filha menina deles, junto com outros dois irmãos mais velhos e um mais novo. Por algum motivo, eu era sempre a excluída, minha mãe não gostava de mim, eu era a menos favorita do meu pai, e meus irmãos não me tratavam como se fosse um deles, nunca soube por que, nunca soube mesmo. Nós vivíamos em uma casinha miserável em uma zona rural, comíamos muito pouco, e tínhamos que trabalhar muito pro dono das terras, em um sistema feudal não oficial, a gente trabalhava no campo e ficava com uma pequena parte da produção, não me pergunte que parte porque matemática não era meu forte. Na verdade, trabalho braçal também não era, e nem nada, eu era uma incompetente, produzia pouco, ficava doente por ter saúde fraca, e era a mais frágil de toda família, porque mesmo meus irmãos mais novos tinham um porte físico geneticamente melhor do que o meu, tão pequena e tão frágil como um filhote de pombo, uma criaturinha muito fácil de se quebrar e morrer. Não era uma vida boa, eu odiava minha vida, trabalhava o dia inteiro e só parava para comer, e carne era um luxo que só tínhamos no natal, quando o senhor das terras fazia um agrado para os colonos, mas no resto dos dias a gente comia restos de verduras de má qualidade e em pequena quantidade, já que a maior e a melhor parte ficavam pro patrão. Não sabíamos o significado da palavra banho, todos nós fedíamos como porcos, especialmente eu... sabe, você me imagina tão bela, com o cabelo liso, a pele limpa, dentes brancos e roupas combinando, mas eu não era assim, eu nunca fui assim. Eu não era bela, a pele do meu rosto estava sempre cheia de marca de sujeira e picadas de inseto, e os membros cheios de cicatrizes dos comuns acidentes de trabalho, a minha maior facilidade era cair e ralar o joelho, meus dentes eram amarelo escuros, quase marrons, pois não tínhamos escova de dentes, e eu sei que eu fedia, fedia muito mesmo, mais do que o resto da família. Ah, meu cabelo era negro como a noite, mas por causa da sujeira e da gordura que ficavam grudados nele ele fica quase que totalmente cinza, e era todo espetado e bagunçado para os lados, com os fios grudados uns nos outros, imundo. E eu só sei disso porque às vezes podia me ver refletida em laguinho que tinha por perto.
- Seus dentes eram podres?
- Não, ainda não eram, só bem sujos, mas creio que se eu não tivesse morrido com doze anos eles não teriam demorado para cair. Bem, vale ressaltar que naquela vida não havia muitas opções de companhia, então tenho o direito de dizer que por mais solitária que sua vida tenha sido, a minha foi mais, pois você teve uma mãe que te amava mesmo quando o resto do mundo te odiou, mas eu não, ninguém, nem sequer pai ou mãe, me estendeu a mão ou me deu amor.
- Me conta da sua morte. – A abracei e fechei os olhos, como se quisesse dizer “eu te amo, eu te darei todo o amor que você precisar”, ela se ajeitou em meus braços e continuou a contar sua história:
- Eu morri de febre, ou seja lá o termo técnico pra isso. Em um dia de trabalho eu comecei a passar mal, me sentir febril, e os sintomas foram aumentado até que desmaiei, era um dia gelado de inverno e nevava. Quando acordei eu tava jogada no celeiro onde a gente guardava as ferramentas, deitada em um monte de palha, não tinha ninguém comigo, estava totalmente sozinha e já era noite, tinha passado um tempo desmaiada, não faça idéia do quanto, e me sentia bem pior do que antes, acordei com uma febre imensa. Eu tossia jogada na palha do pequeno celeiro, ardia em febre e queimava como se meu corpo estivesse em chamas, era como se pudesse ver anjinhos voando sobre a minha cabeça, anjinhos que riam da minha situação infeliz. Sim, eu estava vendo coisas, podia estar com mais de quarenta graus de febre, mas como uma família pobre de camponeses teria uma ferramenta tão moderna como o termômetro para medir minha temperatura como as família de hoje em dia fazem? Mesmo se tivessem algo moderno não ligariam, tinham muitos filhos para cuidar se eu morresse talvez achassem bom, "um a menos para cuidar". Seria assim que eles pensariam? Talvez? Teriam compaixão? Não, se eu morresse seria melhor para todos. Eu me sentia tão mal que me confundia quanto ao motivo da doença. Tinha tomado chuva? Ou comido alguma coisa estragada? Provavelmente os dois, comida estragada na mesa de uma quase morta de fome é um prato conhecido, já que não há a mínima condição de se jogar o pão fora porque mofou, a carne que criou bicho ou a maçã que ficou preta, tudo deve ser aproveitado, e além disso, nos terrenos do grande senhor das terras de... bem, até hoje não me lembro o nome do dono da terra, mas o fato é que todo dia era dia de trabalho, com ou sem chuva, com ou sem sol. Mas por mais que mergulhasse em pensamentos, realmente não me lembrava, e meu cérebro funcionava defeituoso, não apenas gerando estranhos delírios com coisas que realmente pareciam anjos, mas também confundindo a minha memória. Ah, aí sim, estava delirando, e o pior é que já sabia disso, era como ver a vida passar diante dos olhos antes da morte, mas se eu realmente fosse morrer, queria que fosse logo, pois estar sendo cozinhada pela febre mortal não era a visão exata que eu tinha sobre 'estar viva', não, aquilo era mais parecido com um Inferno, e estava fraca demais pra me mover, se não morresse com o corpo destruído pela doença, morreria de fome, e não teria a feliz oportunidade de me suicidar, como os antigos generais romanos, que diante de um destino pior que a morte, tiravam suas próprias vidas. O tempo passava devagar comigo sem controle do meu corpo, meu nariz escorria enquanto o resto do corpo queimava, meus olhos lacrimejavam como duas cachoeiras, e uma sensação profunda de enjôo tomava contava de mim, vomitei sobre minha própria roupa, um pano barato e largo que de longe lembraria um vestido, que era amarrado na cintura para não cair. O tempo continuava se arrastando, e eu nem sequer podia gritar, porque não tinha forças pra isso, e muito menos chorar, mas consegui urinar, na verdade, não consegui segurar, pois já não tinha controle dessas funções voluntárias básicas do organismo, e algum tempo depois, imensa naquele fedor, tive diarréia, meu intestino se retorcia como uma lombriga bêbada, e botava tudo pra fora, sem que eu tivesse a mínima chance de me segurar, e enquanto a minha roupa se enchia de fezes amolecidas e água, eu ficava com muito, muito nojo de mim mesma, torturada com o meu próprio cheiro. Estava de olhos fechados, e não queria abrir, eu queria morrer o mais rápido possível, assim eu poderia ficar finalmente limpa, e por mais que eu pensasse nisso, a sujeira imunda continuava saindo, o que me fez pensar que o motivo da doença mortal era algum alimento estragado, muito estragado, mas realmente eu não poderia saber porque... por que? Naquela época não dava pra saber, nem sequer imaginar, não na ignorância em que vivíamos, mas hoje imagino que tenha sido alguma infecção alimentar combinada com saúde fraca, trabalho pesado em más condições e um tempo muito frio, e sem nenhuma dúvida, a gripe da qual eu já estava sofrendo, e que combinada com a outra enfermidade, foi fatal. Pelo menos depois que morri, pude me instruir um pouco nos livros e conhecimentos do mundo espiritual, mas isso foi mais tarde. Eu caminhava em direção a um lago, já não sabia se era um delírio ou uma ilusão, mas sabia que ainda sentia aquela sensação de queimar, estava quente e poderia me refrescar na água gelada, me joguei no lago, então vi meus olhos se abrirem, e tudo que vi em seguida foi o teto de madeira, antes de tudo começar a escurecer, escurecer... até não ver mais nada, não sentir mais nada. Morta? Morta. Finalmente o meu desejo havia sido realizado, sem sofrimento, sem trabalhar, o que estava acontecendo? Estava em outro lugar, em algum lugar do plano astral, onde por alguns segundos eu senti paz. Mas logo fui tomada por uma ira tirânica que fez meu corpo inteiro arder de rancor e ódio, e pude ver outras presenças ao meu redor, era um local pouco iluminado, e várias vozes gritavam ameaças, maldições e xingavam em várias línguas, e eu podia entender todas elas. Quando se está no plano astral nós conseguimos falar e entender qualquer língua, não importa se é inglês ou aramaico arcaico, por isso, apesar de eu ser italiana e só saber falar italiano em vida, agora eu posso falar e compreender o seu português com a total naturalidade, e prefiro falar na sua língua para que se sinta mais à vontade, então você nem perceberia que seria capaz de entender qualquer idioma, pois só teria ouvido português, allora parlerò in italiano per dimostrare. – Ela começou a falar em sua língua original a partir desta frase, e claro, eu podia compreender muito bem o que significava cada palavra: “então falarei em italiano para demonstrar”, mas irei narrar suas falas no nosso conhecido português, para facilitar o entendimento. – Mas o sotaque de sua língua mãe continua presente após a morte, por isso Mussolini me atendeu e te maltratou, ele tem amor pela Itália, e estava disposto a ajudar uma italiana como eu, e pude ser facilmente reconhecida pelo sotaque, sotaque esse que você nunca reparou, pois só pode ser de fato percebido por um falador original da língua em questão. Mas voltando à minha história trágica: naquele local, chamado de Abismo dos Esquecidos, que é onde os espíritos mais miseráveis, infelizes, rancorosos, perdidos, confusos e amaldiçoados se encontram, um deles se lançou contra mim, mordendo meu rosto e meu pescoço e me arranhando com suas unhas que se assemelhavam às das feras selvagens que davam problemas às criações de ovelhas que tínhamos nos pastos, a dor que senti foi imensa, voltei ao estado ao qual estava acostumada quando viva, voltava a sentir dor, mas a raiva que me envenenava me dava forças, e naquele momento eu não conseguia raciocinar de modo algum, revidei com mordidas e arranhões ainda mais forte, e pude sentir um intenso fluxo de energia dentro de mim, uma energia que implorava pra sair, pra ser usada, então eu usei: Aquela energia saiu de mim como uma grande mão e engoliu o espírito perturbado que me atacava, ele foi esmagado e parou de se mover, sua energia se soltou e foi absorvida pela mão que criei, que nada mais era do que uma extensão do meu corpo astral. Aquela sensação foi deliciosa, me senti tão poderosa, aquela energia densa fluindo por mim, e aquele outro espírito gritando dentro da minha consciência, chorando, implorando para ser livre, eu o tornei parte de mim, e então desejei mais. Desejando mais, saí por aquele lugar, mesmo sem fazer a mínima idéia de onde estava, e fui agarrando um a um dos que via, e os incorporando ao meu corpo astral, eles emanavam raiva e rancor, seres furiosos, mas fracos, e eu era a mais furiosa de todas, mas não era fraca. Era tão, mas tão fácil absorvê-los, bastava envolvê-los com qualquer extensão do meu corpo e então puxar para mim, mas eu fui entender exatamente o que acontecia e porque algum tempo depois. Bem, eu matei e absorvi todos que encontrei, exatamente noventa e oito almas, todas gritando dentro de mim, tentando dominar o ser composto que eu me tornei, mas nenhuma conseguia, pois eram todos fracos, os rancorosos, aqueles que têm ódio mas não tem força para expô-lo e acabam pro afundar no próprio sentimento, tão fracos. Eu tenho um dom, meu querido, o meu é dom é absorver outras almas e adicioná-las ao meu corpo astral como se fosse extensões e parte dele, mas eu só consigo isso dependendo da freqüência. A freqüência de um espírito é o que define se ele é evoluído ou pouco evoluído, se ele é bondoso ou maligno, e a minha é baixíssima, o que me faz uma criatura nada evoluída, cheia de rancores, mágoas, crueldade e outros sentimentos baixos, mas meu dom me permite absorver outros espíritos que tenha uma freqüência próxima a minha ou menor, que também compartilhem de meus males, com apenas um toque. Ao mesmo tempo, posso também absorver espíritos mais evoluídos, a freqüência espiritual pode ser abaixada se o corpo astral for gravemente danificado até alcançar um estado de “quase morte eterna”, quando por exemplo, um demônio poderoso caçar um menor e o encher de ataques, a cada um, o menor se tornará mais fraco a cada ataque, e sua freqüência também abaixará, e chegará a um ponto em que o espírito estará indefeso, com a freqüência tão baixa e enfraquecido que não poderá sequer se mover ou controlar a própria energia. Portanto, se eu atacar um espírito até ele ficar nesse estado, eu poderei absorvê-lo, que é o que você me viu fazer com aqueles ditadores. Passei um tempo vivendo como um animal desprezível, irracional e canibal naquele local infernal, mas depois, com toda a energia que juntei de devorar outras almas, tomei consciência, e continuei com meu vício impiedoso, mas conscientemente, raciocinando. Como poderia eu, uma filha da dor, conhecer da compaixão? Tomei consciência da minha humanidade e recuperei meus pensamentos, podendo finalmente enxergar através da ira que bloqueava a minha mente e me fazia agir como uma fera sedenta por sangue e demente. E minha ira exteriorizada me deu forças para consumir os rancorosos que me cercavam naquele abismo, aqueles que odeiam, mas por medo e fraqueza, envenenam a si mesmos e não demonstram sua verdadeira face de cólera! São merecedores da morte eterna implacável, e as presas ideais para mim, caçadora, são indignos de qualquer sombra de misericórdia, desprezíveis por natureza, alvos fáceis de minha ambição tirânica, e ferramentas sem vontade própria, que sob um domínio forte se tornam um só, cujo rancor se transforma em poder, poder esse que me tornou o que sou. O contrário da inútil que fui em vida! Continuei agindo com violência, mas minha maldade já não podia ser mascarada pelo pretexto da ignorância! Mas pela ambição de absorver mais almas e me tornar mais poderosa, pelo prazer de causar dor e morte àqueles objetos de meu desprezo. Não era mais uma perdida, era um demônio.- Luna confessava seus crimes, fitando-me nos olhos como uma pecadora que se confessa, como se desejasse redenção, e fosse eu o único responsável por um possível perdão dos seus pecados.
- Você ainda é assim?
- Você vai ficar muito bravo se eu for?
- Não, eu sou egoísta e não ligo em como você age com os outros, desde que seja boa para mim, boa como sempre foi. O que aconteceu depois? – Por mais horrores que ela me contasse, não podia sentir qualquer aversão a ela, mesmo que a temesse mais do que à pior das dores, ainda a amava religiosamente, platonicamente, completamente, e isso não acabaria nunca, eu era egoísta demais para pensar na humanidade, só poderia pensar no que ela significa para mim: tudo.
- Eu vivi como um demônio, roubei centenas de vidas, me tornei cada vez mais poderosa utilizando de meu dom maldito, e quando quis reencarnar, não pude, pois aqueles que têm a alma composta por várias, como eu, que têm esse meu dom, não podem voltar à vida material. Só existe uma outra pessoa conhecida no universo que tem a minha habilidade, é Nyx, a deusa, ou o demônio, que governa o Domínio da Inveja no Inferno. Assim como ela, eu sou vários, mas ainda assim, sou uma: eu.
- Me explique direito isso de você ser vários. O que isso de fato significa? É complicado.
- Sim, é. Pode demorar, mas colocarei de modo que você entenda, apesar de ser dificílimo entender essa capacidade sem senti-la, apenas por palavras.Cada espírito que eu acrescento ao meu corpo astral tem seus conhecimentos adicionados aos meus, seus sentimentos, suas habilidades e sua energia, e eles continuam vivos, embora de modo incompleto, e os pensamentos deles se unem aos meus, e tentam me dominar, cada um deles tenta controlar esse corpo que sou eu, mas eu, Luna, já estou tão acostumada a isso, que já consigo ter o controle total, fazer com que todos eles se calem quando eu quiser, ignorar suas forças e vontades, eu sou muito mais forte, e além disso, se eles foram absorvidos, já foram enfraquecidos durante o processo. Mas ainda assim, há a consciência coletiva, e cada um deles faz parte de mim, e juntos eles e eu formamos um conjunto, aquelas extensões do meu corpo que você vê quando luto, nada mais são do que a energia daqueles que me formam moldada de acordo com minha vontade, os corpos astrais, as almas deles se tornam meros membros, meras armas, e suas consciências enlouquecedoras não têm nenhum domínio. No começo, quando eu ainda não estava acostumada, era insano, todos aqueles gritos, todas aqueles vontades lutando para prevalecer e lutando contra mim! Mas agora, dominá-los é fácil, eles gritam dentro de mim e sofrem com uma total falta de paz por fazerem parte de um corpo coletivo formado quase que totalmente por almas atormentadas, mas eu não os escuto mais, mas também não poderei voltar ao mundo material nunca mais, estou condenada a viver no mundo espiritual, e também nunca terei acesso ao Céu, pois com minha composição, seria ridículo que pudesse pisar por um único momento naquele lugar.
- Então basicamente eles são parte de você, e não você? – Estava um tanto horrorizado, mas o relato era tão fantástico que me fascinava, quebrando qualquer visão de moral ou piedade que eu tivesse em minha cabeça, talvez ela estivesse me corrompendo sem eu perceber, mas naquele momento, eu não daria a mínima, mesmo se fosse um fato.
- Sim, nós formamos um todo, eles fazem parte de mim, mas eles não são Eu, eu sou Luna, eles são pedaços meus. Pedaços, e nada mais, não são a Luna. Mas então vivi como uma demônio, e matei muito, mas parei depois que conheci um demônio que ameaçou minha vida, seu nome era Belzebu, é o senhor do Domínio da Preguiça no Inferno, ele é muito poderoso, e queria o meu dom para ele, e me perseguiu e tentou me matar várias vezes, foi então que eu tentei sumir, me esconder.
- Ah é, e como me encontrou? – Nesse momento eu entendi, ela se escondeu em mim, e o motivo para toda aquela paranóia que ela sempre tinha era o tal Belzebu!
- Vagando pelo mundo material, que é de baixa freqüência, estando acima apenas do horrendo Abismo dos Esquecidos, local de desespero, pranto e tormento, procurei por um humano, um espírito que tivesse compatibilidade comigo, alguém que pudesse ser meus companheiro e protetor, alguém cuja mente pudesse ser meu refúgio impenetrável, onde o implacável Belzebu não poderia me alcançar, abandonei a Itália, cheguei até o Brasil, vi milhares de candidatos e candidatas, mas nenhuma me agradou até eu te encontrar, e então eu te escolhi, e você sabe o resto, como te influencie para que me convidasse a entrar, e agora, estamos juntos.
- Então, você só veio até mim por interesse? Para se proteger do tal Belzebu?
- Eu poderia ter buscado qualquer um, para ser apenas um refúgio, mas não com você, te escolhi porque achei que seria feliz em conviver o resto da eternidade com você! Somos tão perfeitos como um casal feito um pro outro que você nem protesta contra meu incomum dom, e me aceita, mesmo sabendo de todos os meus crimes e da minha imunda e grotesca constituição.- A aparência dela mudou, sua roupa mudou, não virava um monstro, apenas se tornou exatamente semelhante à descrição que havia me dado sobre como era antes de morrer, era a mesma menina, mas estava imunda, vestida com trapos e fedendo demais a urina, suor, gripe e poeira.Tampei o nariz com o cheiro, e ela me encarou com desaprovação. – Ou será que me enganei? Você não me amaria incondicionalmente?
Soltei meu nariz e colei meus lábios nos dela, sentindo novamente aquele gosto de aço, imaginei que seu hálito fosse terrível, mas não era, havia um sabor de podridão de leve no seu beijo, mas não deixava de ser delicioso. Estava eu me tornando um excêntrico? Talvez sim, o fedor já não me incomodava nesse instante, e a agarrei com força, acariciando seu corpo todo por cima das roupas. Sua língua se esfregava sobre a minha, duas serpentes serpenteando úmidas e quentes uma na outra, ardendo nos desejos de amantes prometidos desde o início da criação, trocamos carícias das mais gentis e puras, até algumas que desafiavam toda a inocência e nos envolviam com malícias lascivas, que logo nos estimulavam a nos tocar de outras formas, de formas mais íntimas e deliciosas, o que nos levava novamente a mais, e assim que comecei a subir sua roupa, quando meu corpo ardia com um violento incêndio, ávido em queimar tudo o que houver em seu caminho, em consumir tudo aquilo que é precioso apenas para se satisfazer egoisticamente, quando desejei acima de tudo consumir seu corpo sujo e delicioso, ela se soltou de mim e se levantou, dando uma risadinha de adolescente que acaba de descobrir sua sexualidade.
- Considerarei seu atrevimento como um sim, me amará incondicionalmente.
- Mas me conta, Belzebu não pode te rastrear aqui? Não era melhor estarmos dentro da minha mente? – Levantei-me, pegando antes o atlas na mão, e suspirei fortemente, frustrado por não ter... nós dois nos dirigimos para fora do celeiro, ao ar livre.
- Não. – Sorriu. – O melhor de você ainda estar vivo no mundo físico, é que como eu estou ligada ao seu corpo, minha mente também está, e portanto, ela está dentro dos domínios impenetráveis da sua mente. Resumindo: Minha mente está protegida dentro da sua a partir do momento em que você me convidou.
- Então o local íntimo e segredo que são as mentes pode mudar de lugar?
- Sim, pois a mente é um local totalmente relativo ao seu dono, e não absolutos como as cidades da Terra as grandes estrelas do céu. Mas agora que você sabe de tudo, deve estar satisfeito, não é?
- Sim, estou, mas quero saber mais sobre Belzebu, o nosso inimigo.
- Você saberá depois que treinarmos, ele é muito poderoso, e não teremos chances de sobreviver a uma investida dele se ele nos encontrar; então treinemos, treinemos até que nossos ossos se partam de exaustão. – Luna deu vários saltos e se preparou em posição de combate, e eu fiz o mesmo, mas ela não fez nada contra mim, só tomou o livro de minha mão, se sentou no gramado e disse: - Relaxe, não lutaremos, apenas quero que tente fazer o máximo de coisas diferentes que conseguir com sua energia, vários objetos, formas, ações, e voe, e aumente sua força, faça tudo que sua imaginação permitir! –E se deitou para olhar o Atlas, então me empenhei em fazer o que ela disse. Passei horas criando imensas esferas, lâminas, moldando energia em forma de mãos, porretes, casas, ursinhos, cantores de música pop, várias formas ameaçadoras, impressionantes,ridículas, grandiosas, de todos os tipos, de todos os tamanhos, tentava concentrar mais força em algum ponto, em outro, lançava contra o chão, que se abria em grandes fendas, mas logo se fechava. Eu corria, pulava, voava e formava asas artificiais, era ótimo! Voava, criava aves,borboletas, dragões, era incrível a facilidade com que eu podia criar qualquer objeto apenas imaginando, mas cada um deles antes tinha que sair de mim, e esse objetos eram criados como se houvesse um tubo de oxigênio ligado para dar vida a eles, vida essa que era a minha energia. A energia é a vida! Depois de horas de produtiva prática, me deitei na grama, cansado, ao lado de Luna, que ainda se ocupava com a leitura do Atlas.
Capítulo 9 - Os Domínios
- Terminei. Não está bom por hoje? O que você descobriu de interessante nesse “livrinho”?
- Esse atlas não tem apenas mapas, mas também informações sobre os locais, alguns dados históricos, detalhes, localização, governadores atuais, é muito completo. Mas vamos ao que nos interessa. Mostrarei a você isso. – Ela mudou de página e me entregou o livro, estava em uma página uma lista de nomes com a freqüência escrita na frente, essa lista continuava nas vinte páginas seguintes: Cidade de Altaria, Paraíso, Cidade dos Filósofos, Cidade dos Cientistas, Cidade dos Religiosos, Cidade dos Políticos, Cidade dos Militares, Cidade das crianças, Cidade Asilo, Inferno, Abismo dos Perdidos, Reino de Hades e outros inúmeros nomes que li um a um até minhas vistas pedirem descanso.
- São muitos lugares! Como encontraremos ou descobriremos o cara que está querendo a minha morte física?
- Não seja limitado, veja. – Tomou-me o livro e abriu em uma página onde estava como título Inferno, e começou sua leitura com empolgação das inúmeras informações ali encontradas, sem mudar uma única vírgula, e eu lia junto, apesar de estar tudo escrito em aramaico, eu podia entender, e ela também:
Inferno é um local onde espíritos de baixa frequência habitam, espíritos egoístas, cruéis, maus, pouco evoluídos mas conscientes, os que se recusam a evoluir e se apegam a valores mesquinhos e terrenos, esses espíritos são chamados na cultura humana de demônios, aqueles que têm consciência do mal, mas ainda assim o escolhem. Ele é dividido em domínios, e cada parte é formada por demônios que possuem os mesmos vícios e males e é governada por um demônio muito poderoso.
O primeiro domínio é o dos Prazeres, aqui os espíritos deleitam-se com todas as formas de prazer carnal, sexo, gula, drogas, não estão fazendo mal a ninguém, mas se recusam a evoluir por estarem tão ligadas a tais deleites. Esse domínio é governado desde 1798 D.C por Ísis, principal deusa da mitologia egípcia, mas que na realidade era um anjo de classe média que se perdeu em rancor após ter seu marido Osíris morto, e foi expulsa do Céu, indo para o Inferno. Ela controla elementos da natureza.
O segundo domínio é o da Preguiça, governado desde 70 D.C por Belzebu, o demônio que governa as pragas e doenças na mitologia cristã, mas que na verdade é apenas um espírito poderoso e fanfarrão que se diverte em assistir ao caos e à desgraça alheia enquanto descansa tranquilamente, é famoso por prender espíritos em ilusões torturantes com o intuito de ensinar alguma lição do modo mais cruel possível. Ele tem o dom de criar as mais profunda ilusões.
O terceiro domínio é o do Egoísmo, governado desde 8 A.C por Leviathan, demônio bíblico sob a forma de uma enorme criatura marinha, na realidade ele é um espírito egoísta que carrega uma quantidade monstruosa de energia, o que o torna muito poderoso. Controla a água, e seu poder é tão grande que tudo fica alagado onde ele está próximo.
O quarto domínio é o do Orgulho, governado desde 200 D.C por Belial , um dos principais demônios da mitologia cristã e deus para os cananitas, na realidade ele era um poderoso guerreiro da luz que foi expulso do céu por ser extremamente arrogante e orgulhoso, e com sua força descomunal se tornou governador do Domínio do Orgulho. Domina uma energia extremamente densa que pode converter em uma força inacreditável.
O quinto domínio é o da Mentira, governado desde 1300 D.C por Malbas, um presidente do Inferno na demonologia, creio que com esse os humanos tenham acertado em cheio, ele é só um demônio que se tornou poderoso se energizando com a energia inferior que é liberada cada vez que alguém conta uma mentira. Ele tem o dom de controlar a energia inferior, que tem um grande poder destrutivo e venenoso, pode sugar toda a luz e controlar os sentimentos de outros espíritos, especialmente o medo e a tristeza, e tem a maior facilidade em enganar e manipular até causar a morte das vítimas. É mestre em criar ilusões profundas e quase impossíveis de serem identificadas como ilusões, foi mestre de Belzebu em tempos remotos.
O sexto domínio é o da Inveja, governado desde 500 A.C por Nyx, deusa grega da noite, na realidade, um demônio cruel que gosta de tomar o que é dos outros para si mesma, e consegue, através da força. Ela tem o poder de controlar a energia de outras vidas, e absorver almas para adicioná-las ao seu próprio corpo astral. – Ela fez um pausa e acrescentou palavras que não estavam escritas. - Exatamente como eu, Luna, a diferença é que ela tem total controle sobre suas vontades, ela toma as outras almas para si apenas para ter mais poder, eu posso controlá-las, mas se eu fico muito enfraquecida, eles podem tomar o controle, isso nunca aconteceria com Nyx.
O sétimo domínio é o da Ira, governado desde 1427 A.C por Ereshkgal, rainha e juíza do submundo na mitologia Suméria, basicamente ela é a mesma coisa no mundo real. Ela tem o poder do julgamento, consegue utilizar os crimes e pecados que pesam na consciência ou na memória de qualquer espírito para causar destruição no mesmo, e a menos que você leitor seja Jesus Cristo ou alguém de semelhante pureza, esse julgamento irá te matar de uma maneira extremamente lenta e dolorosa com apenas um pensamento.
E o oitavo domínio é o do Sadismo, governado desde 162 A.C por Seth, deus do deserto e traidor do deus Osíris para os Egípcios, que teria matado Osíris, na realidade ele nunca o matou, mas tentou matar Atem, que está no céu, e por não aceitar ser inferior a ele, e por isso foi jogado de lá, Osíris foi morto por Nyx. Este um conseguiu ser invejoso por querer o poder de Atem, irado por não aceitar não ser o primeiro e se enfurecer por isso, luxurioso por desejar todos os prazeres para si, egoísta por querer tudo para si, orgulhoso por querer ser tudo e acima de todos, mentiroso por ter se feito de amigo de Atem, e sádico, porque depois que ele foi expulso do céu, começou a torturar e destruir outros espíritos mais fracos apenas para aplacar sua ira, o único crime que não cometeu foi a preguiça, pois esse é o crime dos fracos, e um fraco não pode ser orgulhoso. Ele tem o poder do caos e da criação, pode criar qualquer coisa do nada, qualquer objeto, pode criar ilusões, pessoas artificiais, espíritos, monstros, e controlar tudo com o pensamento, além de poder criar qualquer outro elemento, como fogo ou água, dependendo apenas de sua vontade, pode criar sensações, incluindo dor, e inserir em alguém, e também pode distorcer e modificar o próprio espaço em que se encontra. Esse círculo era chamado de Domínio da Crueldade até a chegada do Marquês de Sade, que sugeriu uma mudança para Domínio do Sadismo, mostrou seus livros, e foi bem recebido por Seth.
O autor aconselha com toda a sinceridade que não cheguem perto dos últimos dois domínios a menos que desejem um destino muito pior que a morte, e também a morte. –Ela terminou a leitura e mordeu os lábios, rindo como se tivesse com um Almanaque da Turma da Mônica nas mãos, parecia vitoriosa, fitei meu olhar nela.
- Por que você tá rindo? Qual foi a grande sacada nesse texto sobre Inferno?
- Você ainda está muito limitado, meu querido, abra seus olhos e fecha o que não está claro, mas oculto, veja além do óbvio e poderemos encontrar o nossos inimigo.
Me sentia estúpido, me concentrei no assunto e tentei clarear minha mente, ainda estava confuso, podia ter voado e conhecido vários mundos, mas ainda não era simples lidar com o fato de estar no mundo espiritual. Pensei, busquei minha racionalidade enterrada por baixo do excesso de emoções que sentia, refleti sobre cada um dos domínios, sobre cada temível demônio descrito. Seria um deles o que procurávamos? De qualquer modo, se fosse, não teríamos poder para enfrentá-lo, e eu deveria aceitar a minha morte física, se Belzebu, o inimigo de Luna, era poderoso demais para ela, e governava o segundo domínio, o que se diria de Seth! Ora, minha mente começa a se alumiar, apaga-me das paixões e impressões cegas por um instante, para pensar como um verdadeiro pensador, e esclarecer as possibilidades mais realistas.
- E se a intenção em me matar fosse de acabar com seu refúgio? Você se escondia em minha mente, Belzebu te deseja, se ele destruísse seu refúgio, que é minha mente com vida, ele poderia te agarrar e nada a salvaria! Sim, faz total sentido, mas ele não conseguiu me encontrar, mesmo eu estando com você, por isso usou meu corpo para poder alcançar seus objetivos, me matar, e te capturar, e nós sabemos com certeza que ele pode criar uma Cápsula Antifísica, afinal, Einstein nos contou que ele a usou em Bruce Lee.
- Sim, imaginei de longe isso, é bem possível.Se for ele, acho que não teremos muita opção a não ser deixar seu corpo físico morrer, e tentarmos nos esconder muito bem.
- Ele é tão poderoso assim?
- Você se lembra do que eu fiz com aqueles quatro ditadores na sala dos mapas?
- Sim, os matou como se fossem baratas indefesas.
- Sim, agora imagine alguém que pode me matar sem ter que se levantar da cadeira, alguém que pode criar um pequeno universo alternativo e fazer você se perder nele, esquecer da realidade, morrer sem perceber, andar em círculos e achar que deu a volta ao mundo! É enlouquecedor, ele cria terror na sua cabeça, eu tenho treinado há tempos para tentar me tornar imune às ilusões dele, mas não creio que tenha sido o bastante.
- E tem como você me ensinar a adquirir essa imunidade?
- Sim, mas não agora, temos que sair daqui e ir para esse lugar. – Abriu o livro e apontou a página, li: - Cidade dos Lutadores: Frequência - 1090 Hz.
Um vilarejo campestre onde os maiores lutadores se reúnem, se diferenciando dos guerreiros e soldados, os lutadores não usaram de sua força para o combate real, mas para alcançar o equilíbrio e a paz. É governada por Bruce Lee desde 1982. – Parei nessa parte.
- O Bruce Lee vai nos ajudar?
- Termine de ler, por favor.
- Os habitantes dessa cidade são poucos numeroso mas estão entre os espíritos mais evoluídos e poderosos ainda longe do céu, defensores da justiça e do equilíbrio, são famosos no treinamento de auto-defesa espiritual, educando qualquer um que estiver disposto a seguir o caminho equilibrado entre o bem o mal, e não se entregar a um caminho de violência e crueldade com o que aprender, por isso, demônios e semelhantes não são bem recebidos por lá.
- Terminei de ler. – Então eles podem nos ajudar? Podem ajudar no meu treinamento?
- Sim, mas há uma trágica condição com o qual devemos lidar para que você treine lá.
- E que condição é essa?
- “Demônios e semelhantes”, bem, já te falei que sou um demônio, por isso, não poderei ir, você ficará sozinho lá. Se me virem, vão me expulsar a pontapés, e se me virem com você, te chutarão junto.
- Mas, se eu te deixar você ficará desprotegida e Belzebu poderá te encontrar, não poderá? Eu não posso te deixar sozinha!
- Fique tranqüilo, eu não vou ter problemas se eu ficar aqui dentro da minha mente, que é protegida pela sua mente de pessoa viva, exceto contra S, que tem permissão para entrar na sua, mas Belzebu não poderia entrar aqui, então estarei segura.Não seja tão sentimental. – Luna me olhou com tristeza e me abraçou. – São só alguns dias, não temos muito tempo de qualquer modo, acho que quatro dias serão o bastante, as coisas acontecem rapidamente por este mundo.
- Entendo. – A beijei com a mais ardente das paixões, querendo sentir meu sangue ferver por mais uma vez antes de nossa breve separação, mas que eu sabia que pareceria como a distância de anos de saudades e solidão.
- Tá bom, vai. – Ela terminou nosso beijo e deu um sorriso falso não convincente. – Tenta se teletransportar sozinho, mentalizei essa freqüência indicada no livro.
Olhei no livro: 1090 hertz , fechei meus olhos e tentei imaginar aquele número na minha cabeça, imaginei o nome do lugar para onde pretendia ir, imaginei-me sumindo e surgindo nele, de acordo com a descrição, imaginei como seria a energia e o estilo de vida dos moradores daquela cidade, e então me teletransportei, não havia sido tão difícil quando imaginava, e já estava lá.
Capítulo 10 - O Grande Mestre
Era um vilarejo com construções no estilo chinês antigo, e um grande templo abertopara todos, o local todo era cercado por uma densa floresta, e o céu era sempre azul e límpido, mas sem o Sol brilhando. A maioria dos habitantes era de fato asiática, talvez pelo fato deles terem as formas mais perfeitas de artes marciais, mas havia negros, brancos, latinos, índios em menor número. As placas estavam escritas em chinês, mas eu podia ler, a maioria das construções eram anunciadas como academias de artes marciais, com vários nomes de lutas das quais nunca havia ouvido falar: Caminho do Espírito, Pregos do Espírito, Punhos de Samsara, Força da Eternidade. Cada uma das academia tinha uma cor diferente na pintura externa, eram apenas quatro: verde, vermelha, amarela e negra, mas cada uma tinha um tamanho bastante avantajado, e poderia comportar muitos alunos. Espíritos lutavam nas ruas, nos tetos, havia arenas e ringues ao ar livre, eu podia ver habilidades que eu sequer imaginava que existissem, controle do fogo, controle da água, controle da terra, controle do vento, do corpo, do som, dos raios, da força, uma verdadeira tempestade de diversidade e poderes surpreendentes! Era incrível assistir àquilo tudo, e me distraí, esquecendo por alguns instantes do meu objetivo lá, que era me encontrar com Bruce Lee e pedir para que me treinasse. Minha distração foi rompida por um toque no meu ombro, me virei e vi velho careca de olhos austeros e intensos, vestido em um bizarro terno roxo, acompanhado de um outro velho, que usava um terno comum e parecia muito respeitável.
- Meu nome é Anton LaVey, este é meu amigo Milton Friedman, gostaríamos de chamá-lo para visitar a nossa academia. – O careca disse, então reconheci pelo nome e aparência, era o fundador da lendária Igreja Satanista da Califórnia, o outro eu não conhecia, mas devia ser alguém famoso em alguma área dos conhecimentos.
- LaVey, o senhor não era um lutador, por que tem uma academia aqui?
- Não não, está enganado, a academia é de nosso mestre, Bruce Lee, estávamos aqui caminhando quando percebemos que alguém novo chegava, e uma vez que esteja aqui, deve se encontrar com o chefe da cidade, ele julgará se você deve treinar aqui, ou se deverá ser expulso.De qualquer modo, você quer treinar ou está só de visita? Se estiver de visita, não há problema.
- Não, eu quero treinar, quero me encontrar com Bruce Lee e quero por ele ser treinado.
- Que confiante, então venha conosco. – LaVey pegou minha mão esquerda e Friedman a minha mão direita, e me levaram até a academia Punhos de Samsara, vermelha, e atravessamos um longo hall com tatame onde dezenas de espíritos lutavam à ordem de um líder que se sentava em uma mesa e tomava chá enquanto liderava os treinos, pude reconhecê-lo, era Ip Man, o mestre de Bruce Lee. Não passamos por ele, os dois idosos me levaram até uma entrada lateral, passamos por um corredor cheio de retratos de antigos mestres marciais de várias gerações, aqueles dois homens me seguravam com rudeza, mas não doía, embora fosse incômodo. Entramos finalmente em uma sala daquele corredor, era larga e longa, coberta por tatame, com vários móveis nos cantos, e lá estavam Bruce Lee e uma mulher que desconheço, chinesa de cabelos castanhos e longos, muito alta e esguia, vestida com modéstia, lembrando facilmente uma sem teto, mas se movia com incrível graciosidade, defendendo todos os socos deferidos pelo lendário lutador.
- Mestre, esse garoto quer ser treinado. – Anton LaVey fez uma reverência ao falar. Bruce Lee com a luta, gesticulou e a mulher se retirou da sala, fez o gesto de vem para mim, e então fui até ele, bem perto, os dois mensageiros deixaram o local em seguida.
- Então, criança, por que você quer aprender a arte dos Punhos de Samsara? E como se chama? – Ele me zombava até no modo de falar, estava sem camisa usava apenas bermudas de pano.
- Meu nome é Artur, preciso sobreviver e proteger quem é importante para mim, há um demônio ameaçando a vida da mulher que amo, o demônio se chama Belzebu, e também ameaça à minha própria vida.
- É um bom motivo, Artur, mas resta-me saber se você está dizendo a verdade. – Bruce colocou sua mão sobre minha cabeça, fechei meus olhos instintivamente, e senti uma forte e intensa tremedeira no meu crânio, como se o toque dele me eletrocutasse sem causar dor, logo ele me soltou, abri os olhos e o vi sorrir e fazer um sinal de “okay”.
- Tudo certo, garoto, você será treinado, qualquer inimigo de Belzebu é amigo meu.
- O senhor leu a minha mente? Sei de sua história com Belzebu, Einstein, o físico, me contou. Mas o senhor prefere ser chamado de Bruce Lee ou de Exu?
- Sim, li seus pensamentos e sentimentos, e não me chame de senhor, me chame apenas de você, ou Bruce, Exu é bom, mas Bruce é mais pop e descolado, fiquei mais famoso como ator do que como divindade, disso você pode ter certeza. Belzebu é um desgraçado que praticamente todo o mundo odeia, quando eu cheguei ao mundo dos mortos, ele criou uma Cápsula Antifísica e causou minha morte! Era pra ter sido uma merda de um simples desmaio, mas acabou que fiquei em coma e morri! Mas ele sofreu na minha mão, até hoje me arrependo de não o ter matado, mas espanquei brutalmente do modo mais violento que eu consegui! Um conselho pra você: nunca faça mal a um inocente, nunca machuque alguém que te faz bem, mas se um desgraçado te furar um olho, arranque os dois olhos dele e pise em cima.
- Gostei disso. Como começarei o treinamento, Bruce? – Já me imaginava fazendo o descrito com o demônio que eu já tanto detestava, mesmo sem nunca sequer ter visto.
- Agora, e prepare-se, porque vai doer muito.
Não pude me mexer muito nos momentos seguintes, eles vinham como raios, era uma pressão assustadora, uma força luminosa que me atingia de todas as direções, que me causava dor, e que antes de qualquer possível movimento de meu corpo, voltava a me atingir novamente, paralisando-me, incapacitando qualquer defesa, não demorou para cair no chão em profunda agonia e dor, como se meus ossos tivessem sido moídos em um grande moinho, eram os socos de Exu, suas mãos se transformavam em luz quando batia.
- Você está aprovado, agora levante-se.
Não conseguia sequer me levantar, mas ainda podia falar algo além de ais de dor.
- Cacete, isso dói. Não consigo levantar.
- Ah, vai ter que conseguir. Ou acha que vai vencer o demônio ficando caído no chão se lamentando? – Ele me puxou e me deixou de pé, quase caí, fiz muito esforço para me manter nas minha doloridas e enfraquecidas pernas, mas consegui agüentar meu próprio peso, fiquei reto, mesmo tremendo, logo os machucados se regenerariam e eu poderia me suportar dignamente, pelo menos era o esperado. Consegui me recompor.
- Agora me ataque. – Ele saltitava como em uma luta de boxe, provocando, chamando para lutar, o obedeci, mesmo sabendo que não teria a mínima chance de vitória, e lancei um garra gigante, como a de uma ave, sobre ele, que defendeu em socos e depois me acertou, que me jogou longe como uma bola de pingue-pongue, e ainda riu. – Ótimo, é assim mesmo que se treina com Bruce Lee.
Senti muitas saudades dos tempos de Kung fu e Sanshou na terra, na primeira meia-hora eu apanhei sem parar, de acordo com Exu, o primeiro passo para a força era a dor: -A dor é um pré-requisito para a sobrevivência neste ou no outro mundo. O mestre tinha muitas habilidades curativas, e me ajudava a me recompor dos golpes que me dava, ele não necessitava de criar qualquer elemento, mãos de energia, fogo ou aço, seus punhos faziam de qualquer grande habilidade uma grande inutilidade! O segundo passo era aprender a controlar minuciosamente a minha energia, ele me mandou copiar objetos que se encontravam na sala com total perfeição, e eu tinha que criar réplicas exatas com minha energia, e para cada pequeno erro de tamanho, de textura, de peso, de semelhança, eu levava mais uma dolorosa pancada! Tive que recriar um vaso cheio de detalhes vinte e duas vezes até sair certo, depois fiz doze vezes a mesma coisa com uma espada belíssima com a bainha decorada em alto relevo com imagens budistas, e ainda tive que construir uma batedeira, luvas de boxe, uma garrafa de vinho português, e o objeto que me custou quase cem socos,e foi quando quase pensei em desistir, mas resisti, pois era Luna o que estava em jogo diante de minha falha. Não, não podia falhar, recriei após as dezenas de tentativas uma estátua de ouro que representava um homem de dez braços segurando dez espadas, cada uma com detalhes diferentes, dificílima de ser copiada, muito detalhada, mas incrivelmente bela. Claro que os objetos que eu criava não tinham o mesmo material nem cor, por serem formados apenas pela minha energia, mas tinham que ter a forma igual, e a textura, peso e tamanho deviam imitar ao máximo os originais. Exu me deu um agrado após esse duro teste: um bolinho de arroz, não havia comido nada desde minha chegada no mundo espiritual, onde não é necessária a alimentação direta, mas ainda assim agradável.
- Muito bem, aprendiz, você é talentoso, não tanto quanto eu, mas se você quer vencer Belzebu, você vai precisar de uma coisa que ainda não tem.
- E o que é, meu mestre, Bruce Lee? – Me curvei diante dele, já o tinha como meu grande guia, um espírito poderoso e sábio que me ensinaria a vencer todas as minhas fraquezas, me mostraria como lutar pela minha vida e derrotar meu inimigo. O treinamento era rápido e efetivo, ele me mostraria em pouco tempo os principais princípios que seriam a boa base para tudo que eu desenvolvesse, e depois eu teria que continuar sozinho, mas com a possibilidade de evoluir muito e chegar longe, usando os sábios ensinamentos dados pelo lutador.
- Reflexos e velocidade, você precisa desenvolver reflexos para ataque, e principalmente para defesa, não adianta você ter controle sobre a energia se não puder acertar seu adversário, se defender e desviar dele.
Concordei e ele começou a primeira parte desse importante treino, primeiro eu tive que acertar cem vezes seguidas um alvo que estava na parede, eu precisava ficar a vinte metros dele e tinha que soltar minha energia, isto é, não podia manter os objetos lançados contra o alvo ligados a mim, assim, a mira era o único fator determinante. Consegui, moldando balas como as de arma e atirando-as contra o alvo, foi mais fácil do que eu esperava. O teste seguinte foi mais difícil, Bruce me lançava pequenas pedras com grande agilidade, e eu precisava agarrar todas , ele sempre mirava onde dói, no rosto, entre as pernas e no pescoço, só na primeira remessa, fui atingido pelo menos vinte vezes, e só consegui pegar duas pedras. Quanto mais eu me machucava, mais pedras o mestre atirava, e me motivava e me esforçar mais e conseguir agarrá-las, pois colocaria mais força nos lançamentos seguintes, assim, as dores causadas pelas pedradas só iriam piorar. Essa prova foi um total tormento, caí no chão, quase nocauteado de tantas pedradas que recebi,ele me ergueu e fez o processo de novo, começando sem pegar tão pesado, para que eu fosse me acostumando aos poucos com o ritmo, dessa vez me concentrei direito, e comecei a pegar algumas das pedras. Sim, comecei a ir bem, a necessidade e o medo da dor me deixavam mais rápido, eu sabia que quanto mais eu me esforçasse, menos sofreria, devia ser esse o princípio que Exu usava no seu método de treinamento: Ele vai aprender à força se não for pelo esforço natural. Exatamente, todos os seus passos me levavam a temer punição e dor, me forçavam a ultrapassar os limites para não ser espancado, apedrejado, torturado, era um treino feito na base do medo, e isso explicava bem o nome da arte marcial: Punhos de Samsara, já que Samsara é o nome que se dá ao ciclo do sofrimento dentro do budismo, e era exatamente o que eu tinha que viver para me fortalecer, precisava passar por Samsara, comprar minha resistência ao preço de meu próprio sangue, me tornar forte a custo de meu suor, de meu esforço e sofrimento! Seguindo essa lógica, meu corpo pareceu até naturalmente mais ágil, e comecei a agarrar as pedras mais facilmente, e Exu continuava aumentando a velocidade, algumas me atingiram, no rosto, no... mas a maioria ainda era agarrada, eu já tinha alguns reflexos minimamente bons. Um progresso rápido! Pelo menos era o que eu achava, até que as pedras começaram a vir tão rápidas que sequer podia vê-las, peguei algumas, mas a maioria me atingiu com uma força bastante bruta, e logo já estava no chão novamente.
- Não seja otimista, apenas seja esforçado. – Disse isso e me levantou, e quase não tive nem tempo para respirar antes que ele voltasse a atirar em mim, no começo podia agarrar as pedras, depois que acelerava, começavam a me atingir novamente, bater e bater até eu cair, e então Lee me levantar de novo. O processo se repetiu quinze vezes, e na décima sexta estava completamente determinado a conseguir, pois a cada tentativa, eu conseguia pegar mais pedras, e demorava mais para cair, exigindo cada vez uma velocidade maior de lançamento para falhar. Na décima sexta ele começou como de costume, lidei com facilidade com as primeiras pedras, com as mais rápidas também, mas depois de um tempo, ele as atirava como uma metralhadora, como borrões, mas de algum modo, minhas mãos conseguiam acompanhar todos aqueles movimentos ligeiros, e eu as pegava uma a uma, ignorando a dor da batida nas palmas, meus braços giravam e se esticavam como hélices, e cada um dos objetos que deveria me machucar, acabava agarrado, por mais rápido que fosse. Meus reflexos estavam bons e meu corpo rápido! Ficava cada vez mais impressionado com a velocidade com a qual eu evoluía.
- Muito bom. – Ele atirou a última pedra com toda a sua força, agarrei-a e senti uma forte dor, quando abri a mão, ela sangrava devido ao impacto, deixei-a cair no chão e limpei o ferimento na minha roupa. – Agora já podemos ir ao terceiro passo. – O mestre foi até mim, e pegou uma das centenas de pedras que estavam em volta no chão, constituindo uma verdadeira calçada de brita, lançou a para cima e a fez flutuar. – Seu objetivo é dar o máximo de tapas nessa pedra que já tentou te agredir. – Sorriu e logo o pequeno objeto rochoso começou a voar em volta da imensa sala como um beija-flor, mas muito mais veloz, só se via o vulto dela, e em alguns momentos, nem sequer isso.
- É muito rápido
- Eu sei, e você precisa ser mais, pequeno gafanhoto, e é claro que devem ser tapas com a mão, nada de usar seus bons dons. – Ele deu um tapa na minha nuca que doeu, e então comecei a correr desesperadamente em volta da sala, tentando alcançar a pedra, que se movia como um relâmpago, como na velocidade da luz. Corri e corri, mas não alcançava, em um momento ela foi contra mim, tentei apanhá-la, mas desvio, e se lançou contra minha nuca como um projétil de AK-47, me virei para bater, irritado, mas ela já havia mudado de posição, e me atingiu nas costas, dei um tapa para trás sem me virar, mas ela já acertava meu joelho pela frente à essa altura. Eu era feito de boba,parecendo um cachorro que tentar morder a mosca que lhe incomoda, era muito rápida, muito mais rápida do que as que haviam sido lançadas no teste anterior, e com uma grande diferença, ela não se movia em linha reta, não era previsível, ela era inteligente, e fazia de tudo para me enganar e humilhar. Continuei me esforçando para atingi-la, não podia me deixar ser enganado como estava sendo, sendo acertado nos lugares mais inusitados, tendo as revidadas evitadas sem mais dificuldades. Como ser rápido? Talvez não fosse esse o verdadeiro objetivo, talvez o mestre não quisesse me ver sendo rápido, mas apenas esperto. Sim, esperteza, aquele que é esperto e faz certo só precisa fazer uma vez e faz bem, mas aquele que é estúpido e faz errado, faz várias vezes e não consegue, sofre ou faz mal. Uma pedra voadora que me atacava onde eu estaria com guarda baixa, estava claro que eu nunca a alcançaria se a seguisse em vôo livre, mas poderia pegá-la quando me batesse, ou quando tentasse, ela estava sendo controlada por Bruce, e portanto havia uma inteligência humana ali, eu só tinha que vencer essa inteligência e prever onde ela chegaria, e então usar de minha máxima agilidade para bater nela. Simular, enganar os olhos de um profissional, ou pelo menos os pensamentos, o único jeito de passar por aquele teste, blefar, mostrar-se dono de uma inteligência superior. Levei mais um golpe na nuca, e então fiz o grande movimento, bati por onde ela estava usando a mão esquerda, e movi a mão direita como se fosse atingir minha barriga, então prevendo em um único milésimo de segundo todas as dezenas de possibilidades, movi aquela mesma mão contra minha bunda, senti a batida da pedra, mas logo senti o objeto voador voltar contra minha mão que se agarrou ali, e então segurou o detestável alvo, que não fez força, dei vários tapas com a mão esquerda sobre a direita fechada, como se quisesse punir aquela pedrinha por todo o desconforto que havia me causado. Bruce se aproximou rindo alto.
- Muito bom, você entendeu a lógica dessa arte. Agora vamos a um teste realmente prático, meu jovem aprendiz.Você deverá lutar contra outro aprendiz meu, que é mais forte e mais graduado, e vocês dois usarão apenas os punhos e os pés, é claro, nada de poderes.
- E quem é esse adversário?
- Espere aqui e voltarei com ele. – Ele deixou o local, e fiquei a esperar ansiosamente por alguns minutos, logo voltou com um homem barbudo que eu custei a reconhecer, mas reconheci, um grande cantor de música brasileira.
- Bem, jovem aprendiz Artur, esse aqui é Raul Seixas, um dos meus melhores aprendizes, ele é responsável em testar todos os que comigo treinam, e ele é muito forte, não irá pegar leve com você, então prepare seus ossos e seu coração, pois será a mais dura das provas.
- Raul Seixas, o rockeiro! Você é incrível, cara, o melhor cantor que meu país, Brasil já viu! Por favor, antes de lutarmos, me conte como se tornou um lutador depois de morrer.
- Aí maluco beleza, quando eu morri eu fui para a Cidade dos Cantores, mas depois eu vim para cá por conselho de um amigo meu, Elvis Presley, que disse que haveria muito para aprender aqui, Elvis treinou com o antigo líder dessa cidade, Shaolin, o maior lutador que o mundo já viu, mas ele cedeu sua posição a Bruce quando este chegou, e então pôde se desfazer do fardo de governar essa cidade, algo que fazia há séculos, e foi viver no Paraíso, onde as almas mais puras e superiores se encontram. Mestre Bruce também foi treinado por Shaolin, e como superou qualquer outro aprendiz de séculos em apenas um mês de treino, foi eleito como seu sucessor. Aqui maluco, o mestre me treinou e me ajudou a me tornar mais forte, agora me arrependo de ter me drogado tanto em vida, agora eu tenho um maior auto-controle sobre mim mesmo, o que não significa sacrificar meus desejos, mas controlá-los para não permitir que cheguem ao ponto de me escravizarem e me controlarem, eu devo controlar meus desejos, não o contrário. Mas então, vamos lutar logo, e você dará o primeiro golpe. – Ele tirou estralou as mãos, Exu se afastou, e ficou observando-nos de longe, eu tomei coragem, tinha que fazer aquilo, e então movi meus pés o mais rápido que pude, tentando enganar os sentidos de Raul, tentando desorientar, dei um soco com a mão esquerda para disfarçar um que daria com a direita na altura de sua barriga, mas só tive as duas agarradas pelos dele, mais fortes do que a aparência demonstravam, e fui jogado no chão, recebi cotoveladas no rosto e depois fui atirado do outro lado. Fui pisoteado, tentei me defender com os braços, o ataquei, fui repelido todas as vezes, me levantei, fui derrubado por rasteira antes mesmo de poder me recompor, fui chutado no chão, arrastado pelo cabelo, tive meus braços torcidos, gritava de dor e pânico, tentava revidar, mas não conseguia, usava de toda a velocidade que tinha adquirido, os movimentos do cantor, porém, eram muito mais ágeis, ele poderia ter agarrado todas aquelas pedras que me tiraram do sério estando com os olhos vendados! Mesmo quando por um golpe de sorte a minha velocidade ultrapassava a dele, parecia que minha força não fazia nenhum efeito, e então ele revidava com mais violência, e me amassava a cara com seus tapas e murros, e como doía. Tentei mais um pouco, na verdade, por muito tempo, mas depois de uns quinze minutos de fracassadas tentativas de revanche, não conseguia mais ficar de pé, depois de ser pisado mais vezes do que um homem que se encontra na frente de uma manada de búfalos ensandecidos.
- Aí maluco, você ta fazendo errado, você tem que sentir a energia fluir, você ta só me batendo. Acha que é só isso? Claro que não, você tem que controlar a energia dentro do seu corpo assim como controla fora para usar seus dons, vamos, concentre-se no soco, faça-o poderoso, faça com que o poder que flui dentro de você te torne ágil, porque eu não vou sair daqui enquanto você não tiver algum avanço.
Bruce se aproximou silencioso, me levantou, usou seus poderes curativos e falou no meu ouvido: - Faça desse jeito, use sua energia para aumentar sua força e velocidade.
- E me deixou. Só então entendi o que deveria fazer, pois até o momento eu apenas havia usado da agilidade dos movimentos, mas sem me aproveitar do real potencial de minha energia espiritual. A luta recomeçou, e dessa vez fiz com que essa energia fluísse, a senti intensamente em meu interior, e consegui acertar Raul mais vezes, logo voltei a ser brutalmente espancado, mas resistia melhor, como se a energia que fluía me protegesse como uma armadura. Uma luta justa, os golpes deles eram brutais, conseguia me desviar de alguns, e me defendia concentrando o máximo de força nas mãos, o que permitia a minha proteção, eu devolvia com socos e tapas, e já quase o acompanhava na velocidade, pelo menos era o que eu achava até ser derrubado de uma vez por uma sequência de golpes tão rápidos quanto as do mestre Bruce Lee.
- Melhorou, maluco, mas ainda não é o bastante, o mestre se envergonharia.
Novamente Bruce foi até mim, me curou, e me ergueu para repetir a luta, isso se repetiu oito vezes, e na nona vez que ele me levantou, fez um gesto de pare para Raul Seixas, e me falou com otimismo na voz:
- Não era pra você vencer o Raul Seixas, é impossível, ele está treinando há anos, você há um dia, mas você continuou insistindo em lutar, e creio que essas quase dez vezes que tentou lutar já mostram sua determinação, passou por esse teste, mas tem outro. – Gesticulou para o rockeiro sair, ele se despediu e nos deixou a sós. – Bem, infelizmente não tem descanso, você passará pela última prova agora.
- Qual? – Eu estava ofegante, exausto, e implorando por descanso, mas não podia desistir ou implorar por repouso, não podia de jeito nenhum.
- Uma queda de braço com um aprendiz qualquer que eu escolher, você terá quantas chances quiser para vencê-lo, mas terá que vencer pelo menos uma vez, nem que tenha que tentar mil vezes.
Concordei com a cabeça e me deitei sobre o chão para descansar, ele foi atrás do aprendiz e voltou dez minutos depois, um tempo que me serviu bem para descansar, seu acompanhante era uma pessoa que eu já tinha visto antes: Anton LaVey. Bruce não falou nada, mas o careca foi até mim e me levantou.
- Então garoto, nos encontramos de novo, o mestre queria alguém com uma mente forte, fez uma boa escolha, não sou tão veloz e habilidosos como Raul Seixas, mas sou tão bom quanto ele em questão da força bruta, ou talvez mais.
- LaVey, antes de lutarmos, gostaria de saber. Você acreditava em vida após a morte? Por que escreveu aquela Bíblia Satânica? Qual era sua real fé? Acreditava em magia?
- Bem garoto, eu não acreditava em Deus, mas acreditava no poder do ser humano, isto é, a magia, mas também não na alma e muito menos na vida após a morte, e o mais irônico de tudo é que depois de tudo que eu falei, não fui pro Inferno, mas estou tendo uma boa vida espiritual! Grande sorte, e não me arrependo da minha vida cheia de deliciosos pecados que tive na Terra!
Bruce imaginou e criou uma consistente mesa de pedra, e nos fez ficar um de cada lado, ali seria feita a prova.
- Aprendizes, é hora de queda de braço, enquanto o desafiante, Artur, não puder vencer o desafiado, Anton, ele não poderá continuar em sua dura estrada de treino.
Colocamos os braços em posição e agarramos a mão um do outro, começando o duelo. No primeiro momento pareceu-me que eu estava tentando empurrar um búfalo com uma mão, não demorou para perder a primeira partida e ter no meu braço a “leve” sensação de rompimento. Então como de costume, a cada derrota, o mestre me dava assistência, e me obrigava a pelejar novamente, me esforçando cada vez mais, travando, suportando a energia prodigiosa nas mãos de Lavey, não podia imaginar que ele fosse tão forte, eu era massacrado vez após a outra, gritando de dor quando meus tendões pareciam ser dilacerados, ossos moídos, sangue arrancado à força. E que força! Cada teste parecia muito mais doloroso e terrível que o anterior, e isso se mostrava com clareza nesta queda de braço, pois o meu já caía pela centésima sexta vez e meu adversário ainda demonstrava a mesma disposição que tinha no início, enquanto todo o meu esforço e sacrifício parecia em vão. Quis me lamentar, pedir para não ter que fazer mais aquilo, mas sabia que não podia, definitivamente tinha que vencer, mesmo que tivesse, assim como mestre havia dito no começo, mais de mil vezes! Concentrava com toda as minhas forças a minha energia para ter um desempenho melhor, mas por mais que o fizesse, LaVey fazia melhor, e me vencia, mesmo que às vezes conseguisse resistir por um bom tempo às suas investidas, e descer em alguns poucos centímetros o seu braço de aço. Dor! A constante prova a ser superada, mantinha meus olhos nos do meu rival, eram arrogantes e me zombavam em silêncio, pois enquanto eu gemia de agonia e esforço, ele se mantinha tranqüilo e sorridente, como se pudesse me vencer sem ter que gastar um grama de suas proteínas. Não podia ser tão fácil! Bruce não me faria enfrentá-lo se soubesse não haver nenhuma chance, e se havia alguma chance, ele estava tendo que se concentrar, mesmo que não demonstrasse! Sim, eu montava minha teoria enquanto tentava impedir a destruição de meu tão necessitado braço, o careca não devia sim estar se esforçando, mas talvez não estivesse sentindo dor, não por não estar sofrendo com a força que eu exercia sobre ele, mas por algum outro motivo. Relaxamento, tranqüilidade? Tentei fazer parecido e relaxar, sentir paz, esquecer a dor e gostar daquilo que eu estava fazendo, sem me parar de pôr força e lutar bravamente para derrubá-lo, então logo percebi que nossos membros se enfrentavam de igual para igual, sim, era isso. Foi um combate difícil, mas ainda assim ele conseguiu me superar e vencer novamente, fizemos isso mais cinco vezes em que perdi, e na sexta tentativa após perceber a grande sacada, consegui vencê-lo, relaxando ao máximo e concentrando toda a energia existente em mim naquele único local em atividade. Relaxar, era esse o segredo, depois da dor vem a paz, e a partir do momento que eu conseguisse lidar com a dor, quando eu conseguisse sentir prazer e relaxamento mesmo nos momentos do mais doloroso esforço, eu poderia usar a força com naturalidade, sim, eu seria mais poderoso quando relaxado, do que quando em agonia. Bastava lutar com prazer, e não com sacrifício, como obrigação para um fim de ser forte, quem gosta do que faz faz bem, eu só tive que gostar de participar daquela queda de braço para poder ir bem.
- Então você percebeu? Hahaha, demorou muito. O prazer é o único motivo para vivermos, nada mais natural que prazer na força, quando o mestre fez isso em mim, saquei na décima tentativa e o venci na vigésima. Não há nada mais gratificante do que uma queda de braço bem feita, garoto, mas agora que conseguiu, já posso ir. – Ele se despediu de nós dois e foi embora, antes falou alguma coisa sobre ir ao bordel, mas não entendi muito bem.
- Muito bem, bom aprendiz, você passou em todos os testes, agora já poderá treinar coletivamente com os outros, lá você poderá ficar o tempo que quiser, e sempre será bem vindo por essa região, desde que não se corrompa até virar um desprezível demônio. – O lutador fez uma reverência em sinal de humildade, e me guiou ao primeiro local que eu havia visto dentro da academia, onde vários espíritos lutavam e treinavam de vários modos diferentes. Me apresentou ao mestre que coordenava aquela área, Gengis Khan, o grande conquistador mongol, que agora exercia o trabalho de professor de auto-defesa espiritual na academia Punhos de Samsara, demonstrou ser quase tão poderoso quanto Bruce, que logo nos deixou, mas tinha uma grande desvantagem, que era não ter uma velocidade tão fantástica.
Vivi lá por quatro dias treinando a maior parte do tempo, e descansando em uma menor, lá conheci outros espíritos conhecidos que buscavam o mesmo que eu, lá estavam Dercy Gonçalves, a atriz que foi dita imortal mas morreu, e que me recebeu com uma torrente de palavrões impublicáveis, Elvis Presley, o rei do rock americano, que apresentava movimentos de dança em suas performances marciais, mas se mostrava muito eficaz ainda sim, vi Bussunda, o comediante, que me contou várias piadas enquanto treinávamos o vigor de nossos dons, e também conheci e cheguei perto de ficar amigo de Tom Jobim, que possuía como dom o controle de ondas sonoras, e que era o melhor parceiro que eu poderia ter para treino prático de combate. Foram dias longos, mas fascinantes, incríveis, de um incrível aprendizado, de um aproveitamento fantástico, em que talvez eu tenha evoluído mais do que em toda a minha vida, além de tudo, Raul Seixas me ensinou algumas técnicas básicas de imunização contra ilusões, que eu teria que treinar sozinho após pegar a base. Foi tudo como deveria ser, as horas, dias de treinamento eram duras, mas agradáveis, gratificantes, eu gostei verdadeiramente de estar lá, tinha bons progressos, boas companhias, e boa comida, pois lá eram servidos os melhores bolinhos de arroz do mundo espiritual, mas por melhor que fosse, Luna me fazia falta como um pedaço retirado à violência, e eu sabia que ela não deveria ficar só, por mais que tivesse assegurado não ter problema, ainda não podia estar confiante de sua segurança a menos que a tivesse ao alcance de meus olhos e mãos. Eu precisava voltar, quatro dias haviam sido a quantidade sugerida por minha adorada, e eu a respeitaria, então no fim do quarto dia, me despedi de todos com quem construí alguma forma de relacionamento na Academias dos Punhos de Samsara: Exu, Gengis Khanm Raul Seixas, Anton LaVey e Tom Jobim, e então me teletransportei de volta para minha mente, e de lá, tentei buscar a presença de Luna, e logo que a senti, me teletransportei até a mente dela, um lugar onde eu já havia estado, e naturalmente vinculado a mim, por causa da ligação que nós dois tínhamos.
Capítulo 11 - Dom Juan
Luna corria e flutuava pela grama, lançando vários e numeroso tentáculos de seu corpo, muito maiores dos que eu havia visto antes, cada um tinha pelo menos cinco vezes o tamanho dela, ela saltava, dava cambalhotas, colhia os vegetais com suas extensões, quando me viu chegar, se deixou de pé com chão, guardou os vegetais em uma tigela e a deixou no chão, guardou seus tentáculos, e correu para me abraçar. Se jogou em meus braços como se me visse pela última vez, e me encheu de beijos, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, a apertei contra meu corpo, retribui seus beijos calorosos, não havia nenhum sabor de ferrugem ou mal cheiro nela. Suas mãos pequenas me acariciaram na nuca, e toquei em sua barriga delicadamente, podendo sua pele quase infantil, estava com um vestidinho cinza de aparência grosseira, mas ainda assim um vestido. Alguns minutos depois de toques calorosos de saudade, muito mais necessários do que palavras, ela soltou meus lábios dos seus.
- Então, como foi? – Falava tão feliz quanto nunca a havia visto antes, e eu estava no mesmo estado, estava doente de saudades dela, e não desejava nunca mais ficar um dia que fosse distante dela, e muito menos sem ter notícias como havia sido.
- Foi ótimo, eles são muito fortes, Bruce Lee é uma boa pessoa e me treinou sem questionar muito, depois fui treinado sobre a supervisão de Gengis Khan, conheci várias pessoas, aprendi várias técnicas, descobri segredos, me fortaleci muito, lutei contra Raul Seixas e Anton LaVey, desafiei a dor, entre todos outros aprendizados. E ainda me foi ensinada uma técnica contra ilusões. – Falei com empolgação, sem tirá-la dos meus braços.
-Bem, tirando Bruce Lee, eu não faço idéia de quem sejam, mas fico feliz em saber, e quero que me mostre essa técnica. Ela é boa mesmo?
- Sim, foi testada com o Raul, que sabe criá-las, mas não sei se ela é párea para ilusões mais poderosas.
- Me mostra.
- Não tem muito segredo, é assim, quando você suspeitar que está sob o efeito de uma ilusão, você tem que imaginar que tudo aquilo é falso e está sendo criado pela imaginação do ilusionista, e que não tem nada a ver com sua realidade, mas você também tem que manter seu fluxo de energia fechado quando for quebrar a ilusão, pois qualquer quantidade de energia do criador que entrar em contato com você poderá servir para manter a mentira como realidade, o segredo é duvidar e se fechar.
- Então a energia do meu adversário não pode entrar dentro de mim ou em contato comigo?
- Não pode entrar em contato, por isso é mais difícil repelir a ilusão de seres mais poderosos, a energia deles é intensa e penetra fácil em nós.
- Bem, eu já sabia disso, mas é bom saber que você aprende sem minha ajuda.
- Isso não é o bastante para vencermos Belzebu?
- Não, mas não esperávamos avanços tão instantâneos.
- Você também sabe sobre o segredo de se mover com gosto e prazer, e fazer o mesmo com sua manipulação de energia, de manter o fluxo de força naturalmente e tudo mais?
- Sim, nem todos sabem disso, mas os espíritos conscientes sempre acabam descobrindo essas coisas com o tempo, o treinamento na Cidade da Luta só é necessário para acelerar esse processo que poderia ser de anos para algumas horas ou dias.
- Entendo, isso me decepciona.
- Não se decepcione, lá é de fato um lugar excelente para se evoluir rapidamente, só não quero que pense que ficou invencível apenas por causa disso, nem Bruce é invencível. Me diga, você está cansado nesse momento?
- Não, não estou, estou ótimo e disposto.
- Vamos comer umas batatas assadas juntos, como em um jantar para dois. – Ela ingenuamente pegou a tigela, estava cheia de pequenas batatas recém catadas, não pareciam de boa qualidade, mas ainda assim eram batatas.
- Claro.- Dei nela um selinho e fomos juntos para perto do celeiro, ela pegou palha lá de dentro, alguns gravetos de uns pequenos arbustos por perto e esfregou para fazer uma fogueira, enquanto eu descascava os tubérculos de um modo bem inusitado e rápido, usando a minha energia, que atuava como um descascador automático veloz e limpo. Colocamos as batatas nos espeto e colocamos para assar, de repente a pós vida pareceu tão simples e tranqüila quanto uma vida material feliz, e eu definitivamente estava feliz, não porque ia comer meu vegetal favorito, mas porque ia comer com minha pessoa favorita. Comemos juntos, conversamos sobre minha estadia na Cidade da Luta, contei sobre os famoso que eu havia encontrado, mas que ela não conhecia nem de nome, contei sobre a história da Academia Punhos de Samsara, fundada por Shaolin, falei sobre o fundador, falei sobre minha amizade com Tom Jobim, falei sobre suas músicas, falei sobre Raul Seixas, cantei Sociedade Alternativa do mesmo artista para ela, que riu e cantou junto, gostando da música. Demoramos pra comer, não porque tivesse muito alimento, mas porque não queríamos abandonar nosso alegre repouso na companhia um do outro, depois teríamos que treinar, procurar por Belzebu, descobrir a identidade de S, entre outras coisas tão cansativas e preocupantes, mas naquele momento, só queríamos ficar um com o outro, sem nos preocuparmos com nada, no máximo, em errar a letra do Raul Seixas. Mas terminamos, ela foi pegar o Atlas e me mostrou uma página:
Cidade dos Poetas – Frequência: 400 Hz
Cidade onde poetas e escritores se encontram, são, em sua maioria, espíritos altamente emocionais, inconstantes e sentimentais, muitos são poderosos e perigosos, outros fracos e inofensivos, é uma cidade de contrastes, com muitos dos espíritos mais perturbados e confusos, mas também alguns dos mais sábios e iluminados, é governada por Dante Alighieri desde 1650 D.C, o homem que conheceu as fraquezas de todos os governantes do Inferno ainda antes de sua morte.
- Parece um lugar interessante, não parece?
- Então Dante sabe segredos que podem nos ajudar a matar Belzebu? É isso? – Sorri, gostava muito da idéia de conhecer o homem que fez a melhor epopéia já escrita por mãos humanas, e que em muito se assemelhava com essa minha jornada real, mas gostava muito, mas muito mais da idéia de matar o demônio.
- É o que está escrito aqui, ele deve poder nos ajudar. Eu lembro que o patrão gostava desse autor, uma vez, no fim do ano, o patrão chamou todos os seus servos para o seu castelo e leu um trecho de um livro desse autor, eu não lembro o nome do filme, mas lembro do trecho: “Deixai de fora toda a esperança vós que entrai.”
- Ah, eu li esse livro, A Divina Comédia, ele fala que foi pro Inferno, pro Purgatório e pro Céu, se esse Atlas estiver certo, ele realmente foi, mas contou diferente do que realmente viu, provavelmente para não acabar queimado pela Igreja.
- Como assim?
Luna não entendia de história ou literatura, assim como eu não conhecia bem o mundo espiritual.
- Bem, tipo a Igreja, se ele contasse que o Além é diferente do que a Igreja Católica diz, sem um Inferno punitivo, com chances de redenção após a morte, com cidades de espíritos que não são nem bons nem ruins, sem um Deus onipotente controlando tudo, ah, ele com certeza seria queimado, então ele escreveu um livro adaptando tudo que ele viu à visão mais católica possível, assim ele ao invés de ser queimado, seria exaltado como um grande poeta.
- Entendi, me desculpa pela ignorância, eu não leio muito sobre esses assuntos, só leio coisas práticas que eu vá usar, geralmente livros sobre o próprio mundo espiritual, e alguns sobre medicina, para tentar entender ao que se deveu a minha trágica morte.
- Bem, e esse poeta foi o responsável pela criação da língua que você falava na Terra.
- Como? Ele criou o italiano?
- É, tipo isso, o italiano era formado por vários dialetos, então unificaram a língua utilizando Dante Alighieri como base, o estilo de dialeto utilizado por ele foi definido como a língua oficial unificada.
- Que legal, é tão bom que você fique me ensinando essas coisas complicadas. – Luna parecia uma criança que lê um livro infantil pela primeira vez, empolgada com figuras as, fascinada com a fantasia, com a possibilidade de viajar pelas letras e palavras.
- Vamos logo?
-- Claro. – Me abraçou ao invés de pegar em minha mão como de costume, deixou o Atlas no chão, fechei meus olhos, e logo estávamos na Cidade dos Poetas.
Parecia um bairro suburbano francês do século XIX, pessoas e mais pessoas bebendo, fumando, algumas fazendo sexo ao ar livre, homens, mulheres, homens e homens, gente lendo, escrevendo, discutindo em mesas de bares, cabarés com letreiros luminosos, um céu eternamente noturno e negro sem Lua, bancas distribuindo folhetins e revistas, cheio de vício para todos os lados.
- Cacete, eu não sabia que escritores eram tão problemáticos.
- Nem todos devem ser, vamos procurar por Dante. – De mãos dadas chamou a primeira pessoa que viu, uma mulher que fumava charuto e bebia whisky sozinha em uma mesa.
- Senhora, por favor, meu nome é Luna e eu gostaria de saber como faço para me encontrar com Dante Alighieri, o líder dessa cidade?
- Mas o que você deseja com Dante?
- Preciso muito da ajuda dele para descobrir as fraquezas de um demônio chamado Belzebu. – Foi direta, os olhos da mulher chega se esbugalharam quando ouviu o nome, não dava para saber se era de medo, de surpresa, ou de ridicularização.
- Você é louca? Você sabe com quem está se metendo? Não peça minha ajuda no seu suicídio. – Virou a cara e não deu mais para conversa. Um homem de chapéu pegou no ombro de Luna e a cumprimentou logo em seguida.
- Prazer, belíssima senhorita, sou Lord Byron, e não pude deixar de ouvir tua conversa. Falavas sobre Belzebu, o espírito mais odiado do universo. Não gostarias de ajuda?
Puxei-a para que se afastasse do galanteador assim que ela se virou para ele, entrei na conversa.
- Lord Byron, grande poeta! Esta aqui já é minha, não conseguirá nenhum beijo de volúpia deste anjo de pele de mármore aveludado.
- Oras, então também és um poeta? Não desejo nenhum beijo dessa linda Vênus infantil cujos olhos despertam a languidez dos corações mais puros, e que tira da castidade aqueles que se guardam, para então se entregarem aos vícios deliciosos e úmidos do amor e dos prazeres e voluptuosidades ardentes da paixão enlouquecida. Esta jovem me transformaria em Dom Juan apenas para lhe roubar um doce beijo de mel, mas não poderia eu, quebrar os laços já feitos entre dois corações que se amam, por mais que isto custe a minha própria dor! O sangramento cruel de meu coração recém apaixonado!
- Cara, do que você ta falando? – Estava tentado a agredi-lo, podia ter dito uma lindíssima poesia, mas o fato é que estava cortejando, ou pior, dando em cima, da minha amada, adorada, Luna.
- Eu não te quero, eu amo o meu Artur e não preferiria nem você caso não o amasse. – Curta e grossa Luna quebrou o clima poético que estava no ar, mas em compensação, acabou com aquela ridícula e odiosa tentativa de sedução que não havia dado certo, talvez funcionasse em todas as tolas mulheres românticas idealistas, que acreditam em qualquer par de belas palavras, mesmo que vazias como o nada, mas não funcionava em Luna.
- Bem, os levarei até Dante. – Gesticulou para que fossemos com ele, o seguimos até um cassino, entramos, passamos por entre dezenas de almas que jogavam diversos tipos de carta, além de caça-níqueis e roleta, entramos por uma porta ao fundo, descemos por uma escada que ali havia e chegamos a um salão, onde um homem de costas escrevia.
- Senhor Dante Alighieri? – O chamei.
- Sim, sou eu, Dante Alighieri. – O homem se virou, reconheci as feições das pinturas e registros, era realmente o poeta florentino, o criador da Divina Comédia. – O que querem?
- Queremos ajuda, nós sabemos que o senhor tem conhecimento sobre os pontos fracos dos governantes do Inferno, precisamos derrotar Belzebu, que ameaça nossas vidas, e que nos conte sobre os pontos fracos dele. - Ela explicou tudo, mas estranhei o modo como olhava para Dante, parecia insatisfeita e impaciente.
- Ah, mas é claro, o ponto fraco de Belzebu é muito simples, e eu lhes falarei agora.
O olhar de Luna se estreitou como se os olhos fossem puxados, pude sentir alguma coisa fria lentamente se aproximando de mim, quando de repente, ela atirou seus tentáculos de uma só vez contra Byron, que foi atingido, e Dante, que se protegeu com a mão forte, foi então que vi o rosto dele mudar, e quem eu vi era outro escritor, um escritor cujas principais obras eu havia lido, e cujo rosto estava estampado no meu rosto: Goethe. Na segunda olhada, percebi que Byron estava segurando um machado, e a proximidade do machado, que eu não podia ver antes era o motivo para sensação de frio de anterior. Uma ilusão! Uma ilusão que Luna conseguiu quebrar!
- Como vocês perceberam que era uma ilusão? – Goethe olhava sério para nós, Luna recolheu seus tentáculos e foi para o canto do salão, me levando com ela.
- Você não fala como um legítimo italiano! É óbvio que você não é Dante Alighieri, é apenas algum maldito qualquer. Quem é você?
- Goethe, escritor e poeta alemão. Você nunca leu a minha obra prima, O Sofrimento do Jovem Werther?
- Já li, é bom. Mas o que você, respeitável romancista está tentando fazer com essa ilusão? O que quer de nós? – Me virei para Byron. – E você, Dom Juan?
- Somos dois dos sete escritores, e há coisas que precisamos fazer convosco, adorável casal unido pelo mais puro e verdadeiro amor. Precisam ser separados.
- Sim, o fato é que nosso líder não quer que vocês vivam mais.
- E não poderíamos desrespeitar as ordens de Belzebu, não é? Os senhores falam muito alto, um casal que deixa sua relação exposta ao público não pode durar! Mas seremos justos, Belzebu nunca é injusto, como conseguiram quebrar nossa ilusão, serão colocados dentro das regras de um mundo de espíritos. – Se virou para o alemão e perguntou, rindo. – Quero a menina, você fica com o menino, meu amigo poeta.
Meu ódio começava a ferver violentamente por dentro de mim, me joguei contra o conquistador, usando uma verdadeira foice gigante de energia como arma, quando eu ia acertá-lo, tudo parou, e estávamos em um lugar escuro, assim como o em que S havia nos colocado dias antes. Estávamos os quatro sentados em uma mesa, eu de frente para Goethe e à esquerda de minha companheira, e ela de frente para Lord Byron.
- Bem, minha belíssima dama, meu bom cavalheiro, como bons humanos civilizados não poderíamos resolver isso como bestas e brigar, mas sim de modo civilizado e racional, jogando um divertido jogo. – Foi a fala do inglês.
- Que jogo? – Tentei despertar da ilusão como havia me sido ensinado, e então me vi de frente ao machado de Goethe que me acertaria instantaneamente, desviei com a mesma agilidade que agarrava pedras na Cidade dos Lutadores, de fato era uma ilusão, mas o mais impressionante havia sido a diferença entre o passar do tempo real e do delírio.
Byron não tinha dons além do poder da ilusão, mas seu machado era afiado, partiu o chão em dois quando o atingiu. Goethe tinha habilidades pyrocinéticas, controlava fogo, e atirava bolas e labaredas contra Luna, que se defendia com seus tentáculos, com suas enormes extensões orgânicas formadas pelas almas que a faziam! A imagem das extensões, braços ou qualquer outro nome que pudesse se dar para aquilo que ela controlava, não poderia ser descrito por palavras humanas, e nem sequer imaginado por uma mente mortal, era, é um fenômeno totalmente fora do comum, cuja natureza desafia toda a forma de se ver o mundo sob um ponto de vista material, as extensões de Luna eram diferentes de qualquer conceito já representado ou imaginado em terra, exceto talvez por poderoso médiuns e pessoas com dons espirituais extremamente avançados, mas ainda assim não creio que tivessem acesso à visão daquele dom tão obscuro por natureza. A peleja era entre eu e Byron, Luna e Goethe, ao contrário do que eles haviam decidido, minha amada ia bem, defendendo e atacando, sem êxito, mas sem fracasso, sobrevivendo. Eu tentei novamente atingir o poeta com um foice gigante de energia, porém acertei a parede, e só senti uma dor violenta e brutal nas minhas costas, e tudo escureceu por um momento, desmaiei, ele havia me pego em mais uma ilusão e me acertado com seu machado.Quando abri os olhos, Luna lutava contra os dois, se defendia do fogo, das cutiladas que faziam em pedaços seus tentáculos, e tentava atingi-los, sempre sem sucesso, ela parecia péssima, e eu estava tão machucado que não podia sequer me mover apenas ver, a arma de Byron não era normal, era muito poderosa, provavelmente ele concentrava todo o seu poder naquela lâmina. Sentia raiva, muita raiva por não poder fazer nada, ela foi atingida por parte das chamas, e logo Byron a atingiu na barriga no machado, e eu só tive forças para chorar silenciosamente, desesperadamente, acreditando que nós dois morreríamos, mas pior, assistindo impotente à morte dela. Foi a mais cruel de todas as sensações, uma temporada no inferno, uma lenta agonia que nem o mais maligno dos indivíduos merece sentir, ela foi atingida novamente pelas chamas, e já não podia se mexer, a jogaram ao meu lado e riram, olhando para nós, derrotados, prometidos de morte. Então acabaria daquele jeito? Morreríamos tão rápido? Não podia aceitar aquilo! Mas também não podia fazer nada, tentei me mover, com todas as minhas forças, tentei sentir o fluxo de energia dentro, mas não havia nada, absolutamente nada, nada além de uma dolorosa morte de qualquer esperança, e o niilismo profundo de um condenado à pior das penas.
- Nem tentem se mover, minha arma é poderosa, aqueles que são atingidos por ela ficam paralisados, entendem? Não há saída para vocês. – Byron riu e se ajoelhou, começando a acariciar o rosto de Luna. – Tão bela, ah, eu não poderia deixar Belzebu matá-la antes de amá-la.
Nunca senti tanto ódio na minha vida, não podia arranjar forças, mas arranjei, havia veneno injetado pelo machado, senti como se parte do meu espírito evaporasse,fervendo de tanta ira. Não, ele não iria tocar nela, nem agora e nem nunca! Consegui lançar uma mão de energia sobre ele, o agarrando desprevenido, lancei-o contra o chão com força, mas ele cortou a mão com sua arma, cortou tudo que havia em seu caminho, e me atingiu novamente com o machado, a dor foi muito mais brutal que antes, ele colocou seu machado em meu pescoço e sussurrou com sangue nos olhos:
- Agora irás morrer, criança, e sua tão adorada será meu objeto de amor.
Só vi uma imensa e intensa luz surgir na sala, como um portal do paraíso, e os dois cruéis escritores serem puxados por garras vermelhas que saíam dessa luz e os dilaceraram enquanto gritavam desesperados, as partes dos seus corpos eram desfiados por aquilo que parecia as unhas de um imenso dragão vermelho, pudemos ver que eram duas mãos ou patas, as partes arrancadas sumiam, se transformando em energia pura. Assisti a tudo com total prazer, não fazia idéia do que era aquilo, ou de quem era, mas por mais assustador que fosse, era amigo, pois acabava de salvar nossa vida e matar nossos inimigos. Logo as patas se recolheram para dentro da luz e ela diminuiu ao chão sobre a forma de uma silhueta luminosa como o Sol, que foi perdendo o brilho aos poucos, até tomar a última forma que eu esperava: S.
- Artur, não tinha dito que sou seu anjo da guarda e que te protegeria? Nunca gostei de poetas melodramáticos mesmo! E nem precisam agradecer. – Ele caminhou até nós, segurou em nossos pescoços e fomos imediatamente curados da paralisia, nos levantamos, e Luna falou primeiro, totalmente sem jeito.
- Então você é mesmo amigo? Por que você fez aquele jogo mau com a gente?
- Ah, não foi por mal, eu só queria testar a ligação entre vocês, mas eu menti, se tivesse perdido, não teriam morrido, apenas sido torturados e reprovados. Mas vocês passaram, foi muito bom, mas agora já sabem que mesmo bem unidos não são tão fortes assim, tanto que iam morrer. Precisam da minha proteção.
- Mas quem é você afinal, poderoso S? – O chamei assim porque depois daquela demonstração impressionante, não poderia sequer pensar em duvidar do seu poder, e também não de suas boas intenções, devia a ele a minha vida, e mais, devia a ele a vida da mulher que amo.
Capítulo 12 - O Anjo da Ciência
- Sou aquele a quem todo sábio deseja se igualar, sou a luz da ciência e morte da superstição. Um defensor das luzes, do humanismo, do racionalismo e iluminismo, das emancipação do homem como um ser independente, livre de dogmas e visões limitadas de mundo, mas que busca uma sociedade pautada no conhecimento, e não em qualquer outro valor, pois o conhecimento é o único bem confiável que se tem, não é dinheiro, não é fé, não é virtude, apenas conhecimento, ciência, inteligência podem indicar o valor de pessoa. Meu nome é S, essa única letra pode me descrever por completo, e não queira saber mais nenhuma outra letra, pois essa é a única que carrego comigo desde o início de minha vida.
- Senhor S, não perguntei seu nome, mas sim quem o senhor é. Por favor, conte-nos, salvador de nossas vidas.
- Bem, já falei, só queria dizer que sou um defensor da ciência, um velho espírito em busca de conhecimento, luz, sabedoria e novas descobertas, um ser faminto por fatos, por informação, e por tudo aquilo que faz a vida ser uma eterna jornada em busca de uma ainda mais eterna melhora, que se fosse satisfeita, nos daria o desejo da morte. Pois qual seria o sentido da vida sem a constante busca por mais? E esse mais que eu busco é o conhecimento! E falando sobre isso, ficaria muito feliz se você, garota Luna. – Virou-se para a menina. – Por que não matou aqueles dois idiotas? Eu sei muito bem que poderia fazê-lo sem muita dificuldade. Tudo apenas para testar meu pobre protegido? Ele poderia ter morrido se você demorasse.
- Eu... eu só queria que ele se esforçasse, mas como ele falhou, já o salvaria! Eu já estava para matar aqueles dois o senhor chegou.
- Luna, não me faça de bobo. Você está querendo dizer que você não brigou sério com aqueles dois poetas idiotas?
- Não fale mal de Goethe, ele podia ser um espírito cruel, mas não era um poeta idiota. Mas se explique, garota Luna, eu e o bom Arthur desejamos ouvir seus motivos para tamanha negligência, é detestável pensar que arriscou a vida dele por um capricho tão egoísta.
- Eu ia esperar o momento antes da sua morte, e então os atacaria, se eu quisesse, teria feito ambos em pedaços com duas pancadas, mas isso te deixaria acomodado, e temo que eu não esteja sempre ao seu lado para poder protegê-lo, além do mais, você tem potencial para se desenvolver e poder se defender perfeitamente mesmo contra as mais perigosas ameaças, mas ainda assim eles te dominaram, bem, de fato, nos dominaram. Mas, mas eu juro pela minha alma de volta ao Abismo dos Abandonados, eu ia agir no momento em que S chegou, ele apenas foi mais rápido! É sério, eu juro, juro, acredite em mim.
- Bom Arthur, isso é verdade. – S riu. – Vi aquelas coisas estranhas dela sendo liberados assim que cheguei, mas isso não me impediu de intervir, não poderia o risco de te ter morto, ainda assim, deu pra ver que ia machucar mais do que o meu ataque, pelo menos eu fui rápido e breve, imagino que ela fosse fazer devagar e dolorosamente.
- Ah, Luna, você é louca. Mas S, como nos encontrou? E o que eram aquelas garras que agarraram Byron e Goethe? Seu dom? Alguma forma de controle de matéria animal?
- Aha, é claro que não, bom Arthur, não queira saber o que era aquilo, não é nada de especial, sem dúvida alguma. Sou ligado a você, queira você, ou não, então é fácil encontrá-lo e me teletransportar para onde você se encontra, e o melhor de tudo é que eu posso sentir quando você corre risco, então posso observá-lo à distância utilizando meu dom favorito, e intervir instantaneamente quando a situação está crítica e insustentável.
- Qual é seu dom, S?
Luna se sentou próxima a parede, não participaria mais da conversa, seus olhos brilhavam opacos quanto a poeira de um caixão velho, carregada da frustração, certamente por minha falha em seu teste perverso. Era tão ruim não ter sido capaz de lutar contra os poetas?
- Tenho um dom bastante raro, e muito poderoso também, ele me permitiu sobreviver por muitos e muitos anos, muito mais do que a maioria, e tive uma vida espiritual dura, mas pude lidar bem com ela, passando por situações e lugares com as quais a maioria, na verdade, quase todos teriam falhado e alcançado o fim, mas este meu dom é o que me mantém vivo, um dom fantástico que me enche de orgulho e segurança, posso considerar que até um ponto em que me torne um tanto ingênuo, por ter sempre a certeza de que não morrerei, o que me permite o gosto pelo risco.
- Ora, e que incrível dom é esse? O que impede que você morra?
- Ah, bom Arthur, não direi agora, não, minhas habilidades devem ser um segredo, se um dia eu tiver necessidade de mostrá-las, mostrarei. Mas tirando esse meu dom excepcional, sei fazer algumas coisas menos interessantes, embora ainda não tão comuns, como ter um controle perfeito sobre energia, podendo formar qualquer objeto de matéria orgânica, isto é, viva, e controlar fogo.
- Não insistirei. – Estava mais preocupado com Luna do que com minha curiosidade, teria tempo para desvendar e conhecer os mistérios de meu suposto protetor, fui até ela e peguei em sua mão, sentando-me ao lado de onde estava.
- Você é louca, sabia? Não gostaria de você se fosse de outro modo!
- Não esta com raiva por eu ter arriscado sua vida? Você sabe! Você devia saber, eu estou sempre querendo desenvolver força, o próprio S acabou de falar que ele não teria sobrevivido se fosse o poderoso dom desconhecido que tem. Por que seria diferente com você? Morrerá! Eu não quero que você morra, esse mundo é uma selva insana, cheia de predadores famintos, e perigosos e nada fracos, e só com a necessidade se evolui! – Falava exaltada, parou para respirar e adquiriu um dom mais tranqüilo, talvez até frio e indiferente. Permita-me te explicar tudo, você vai entender e concordar.
Fiquei em silêncio, consentindo com o pedido que me era feito, e ela começou. - Creio já ter dito essa frase a você antes “A necessidade nos faz evoluir”, ou alguma sentença de mesmo sentido. Tenho essa idéia como a máxima de minha existência, e pude comprová-la de todos os modos possíveis, é uma lei universal que rege todos nós, mesmo que não tenhamos noção, estamos à sua mercê, como meros fantoches de uma natureza indiferente que nos impõe tal regra. Ela explica porque os japoneses desenvolveram uma agricultura tão avançada e porque os brasileiros demoraram para melhorar a deles, no Japão não há boas condições para a agricultura, lá o solo não é bom para o plantio, é escasso, e predominantemente montanhoso, estéril, seco, seria uma terra morta onde todos passariam fome ou teriam que viver como nômades caçadores primitivos, mas essa falta de terra fértil fez com que os japoneses, por necessidade de se alimentarem através da agricultura, criassem métodos de agricultura extremamente eficazes que aproveita ao máximo os recursos disponíveis, e conseguem uma produtividade elevada, eles aplicaram ciência e conhecimento para suprir essa carência, afinal, se não o fizessem, as conseqüências trágicas de fome e miséria seriam praticamente inevitáveis. Ainda usando o Japão como exemplo, citarei um segundo caso envolvendo esse arquipélago, eles possuem sistemas bastante úteis para lidarem com catástrofes como terremotos, tsunamis, vulcões, entre outros ainda piores, tiveram que desenvolver tais mecanismos para poderem viver bem naquele território onde os desastres naturais são tão comuns, por razões geológicas que não desconheço já que não sei muito sobre geologia, tiveram que dominar a natureza para poder sobreviver, a necessidade gerada pela vida em uma região naturalmente hostil e, como posso dizer, perigosa, os obrigou a pesquisar meios de amenizar essa “hostilidade natural”, um meio de criar prédios que não caíssem facilmente com terremotos, sistemas de alarme, sistemas de detecção de ondas sísmicas, e outras coisas mais. Agora o caso contrário, temos o seu Brasil, um país rico por natureza, onde desastres naturais são inexistentes e tudo que se planta dá! Ora, em um lugar assim as pessoas podem ficar tranqüilas, não é? Afinal, elas não terão dificuldade em sobreviver se a natureza colaborar e não oferecer obstáculos severos. Portanto, aqui no Brasil não temos tanta necessidade de desenvolver uma agricultura high-tech, e muito menos sistemas anti-catástrofe. Assim, constrói-se favelas que caem com a primeira chuva e os velhos cafeicultores arruinavam o solo com seus detestáveis latifúndios, plantando sem o mínimo de racionalidade, sem se preocuparem em desenvolver uma técnica de plantio mais eficaz, produtiva e de menor agressão à natureza. Mas quando precisavam de transportar sua mercadoria, aí sim, a necessidade os levou a criar estradas de ferros, trens, e então mais uma vez a tecnologia se mostrou em frente à situação em que realmente se precisa dela.
- Luna, essa sua visão não é um tanto preconceituosa e superficial?
- Não terminei. Não pretendo ser uma determinista clássica como você pode estar imaginando. Enfim, continuando, isso não significa que japoneses sejam melhores que brasileiros, mas deixa claro o fato indiscutível que o ser humano busca sobreviver acima de tudo, e além disso, busca o máximo de conforto possível, o indivíduo brasileiro que vive na terra roxa vai encontrar menos dificuldade que o nipônico que vive na montanha, eles têm a mesma vontade de viver, mas não vão ter o mesmo trabalho, quanto mais a natureza, o contexto, o mundo em si se opor à sobrevivência, mais a pessoa ou a sociedade se desenvolve, pois quanto maior é a força que vai contra você, maior é a força que você tem que usar para resistir a ela. Também é válido em uma caso individual: Quem está mais apto a sobreviver como mendigo? Você, acostumado a comer muito, estar sempre aquecido contra o frio da noite e ter muitas horas de descanso diário, ou eu, que comia muito pouco, tinha que trabalhar duro por horas no frio extremo ou no calor escaldante, desprovida de qualquer forma de luxo ou conforto? O meu contexto me fortaleceu, é uma pena que ele tenha sido tão duro que me matou, ah, que morte estúpida. Mas se eu não tivesse morrido, não acha que eu estaria me fortalecendo cada vez mais ao superar as dificuldades? É exatamente o mesmo que acontece quando você pega duas pessoas com a mesma força física treinando em uma academia. Qual se fortalecerá mais? A que levanta um peso de 10 Kg ou a que ergue um de 25 Kg? Obviamente quem levantar o maior peso irá ter mais dificuldade, mas também terá mais resultados, ele estará se esforçando mais, estará superando uma oposição árdua, mas valerá a pena, pois irá evoluir com essa provação, o peso citado é como a necessidade, quando maior for, mais haverá esforço e consequentemente também teremos a evolução, melhoria, desenvolvimento. A máxima da existência! A necessidade, que faz os países se desenvolverem na guerra, até os mendigos terem sistema imunológico resistente.
- Você está sim, sendo determinista, não acha? Se fosse assim, não haveria tecnologia alguma no Brasil, como você diz, mas há.
- A necessidade pode ser natural ou não, os seres humanos tem outras além de comer e respirar, como por exemplo, serem felizes e livres, no Brasil não pôde se desenvolver uma tecnologia tão precisa quanto no Japão, isso você não pode negar, mas se faz o que precisa, como biocombustível, uma forma inteligente de se aproveitar a riqueza da agricultura desse país, mas ainda assim, uma prova do quanto aqui há o excesso de terras férteis, tanto que sobre muito para se planta combustível, enquanto em outros lugares mal há espaço para plantar arroz e batatas! Aqui há necessidade de se eliminar a violência, a desigualdade, de se diminuir preços, os problemas naturais que dei como exemplo são os mais simples que se opõem à vida, embora esses no Japão sejam bem visíveis, são problemas sociais e econômicos que mais dificultam a existência no mundo moderno, e que geram muitas vezes meios violentos de evolução para a sobrevivência, indivíduos que se “adaptam ao ambiente” através do crime e do tráfico. Ainda assim, as pessoas criam seus interesses individuais, que muitas vezes, são parcialmente independentes dos meios, como o desejo de um jovem rico, que já tem tudo, passar em uma universidade e ser um grande cientista. Ora, ele não precisa realmente disso, não pelas leis da natureza, mas pelo desejo pessoal, aquilo é uma necessidade, e aí entram os fatores da psicologia, da natureza da pessoa, e são esses detalhes que mudam tudo, adicionando necessidades e gerando evolução mesmo onde não haveria, no Brasil há pessoas assim, que buscam mais do que a natureza exige que busquem, como em qualquer do mundo há pessoas assim, por isso, o Brasil, mesmo sem ter tantas dificuldades do meio físico, tem a evolução da ciência, da tecnologia, da agricultura, mas certamente não tanto quanto teria em um local onde essas evoluções foram exigidas pelo próprio ambiente. Mesmo se existisse um lugar perfeito, que desse comida boa em árvores mágicas e houvesse igualdade e felicidade, ainda assim as pessoas inventariam novas necessidades, e então descobririam e inventariam mais coisas. Bem, acho que estou estendendo a conversa mais do que devia, eu só quero dizer que não estou sendo determinista porque não estou falando que o meio determina o indivíduo, mas que as necessidades o forçam ao desenvolvimento.
- Oh, jovenzinha, até que você não é burra como eu imaginava, é uma pequena até bastante iniciada em geografia, pelo menos. Como sabe tanto sobre os assuntos? – S veio até nós, sempre arrogante, dava para ver o quando Luna o detestava até mesmo no modo como ela respirava enquanto ele falava.
- Não, não sou burra, e nada é melhor para aprender geografia do que conversar com sábios. – Se virou para mim. – Aqueles com quem falamos, nunca havia falado com eles, mas já tinha conversado com várias pessoas com muito a ensinar, pessoas como Engels, Epicuro, Ratzel, Raul Seixas, o virtuoso Martin Luther King, o astuto Al Capone, Kemal Atarturk, a brava Jeanne D’Arc, a cruel rainha Zingua, Goethe, sim, aquele mesmo que tentou nos matar, Manuel Bandeira, Luiz de Camões, Frida Kahlo, o escriba Himotep, Ueda Akinari, Bob Marley, Hailê Selassiê, entre tantos outros.
- Você se lembra de todos?
- Sim, não sei se você reparou, mas a memória aqui no mundo espiritual é bem superior à do mundo material. Você conseguiria resumir tudo que fizemos e as pessoas que encontramos até agora desde que você veio para cá?
Pensei um pouco, lembrei-me da ordem dos acontecimentos e das pessoas neles envolvidos com tal facilidade que era como se estivesse vivendo o momento.
- Sim, me lembro perfeitamente.
- Calem suas bocas burras e parem de conversar abobrinhas, senhores, pois você, bom Arthur, está a um pé da cova, e o tempo corre contra sua vida, morrerá, morrerá e morrerá cada vez mais, a cada segundo que se passa nessa grande enrolação, um pedaço da sua alma se lacra em um túmulo pré-concebido! A morte eterna o espera, a menos que seja ligeiro e faça alguma coisa!
- Então você sabe de toda a situação, não é, S? Por que não me ajuda a acabar com Belzebu? Ou melhor, se é tão poderoso, por que não faz isso por mim?
- Ah, você agora pede para mim? Eu ajudaria, pois sim, sou muito poderoso, mas Belzebu não é a melhor pessoa para se ter como inimigo, é um dos piores, para chegarmos até ele, precisaríamos de um plano muito bom. Um fator gravíssimo me impede de ajudá-los bem, ele habita o Inferno, e toda a natureza do universo define que simplesmente não existe nenhuma maneira de um anjo ir ao Inferno, pois a freqüência é totalmente oposta, e do mesmo modo impede que demônios vão ao paraíso, por isso, os planos intermediários são os mais populosos, pois são onde tanto anjos, quanto demônios, quanto espíritos médios podem estar. Portanto, o único modo de eu ajudar é fazer com que ele saia de lá e venha até vocês, então poderei pegá-lo no nosso território, caso contrário, pode preparar seu caixão, Arthur.
- Nós como espíritos livres podemos ir até lá, Arthur, disso eu não tenho nenhuma dúvida. – Luna opinava.
- Ah, e eu dizendo que você não é burra. Claro que você pode ir, você é um demônio, não é tão diferente de Belzebu quanto se imagina, não no que se refere ao baixo nível de humanidade e decência, mas quanto ao nível de poder, encará-lo de frente seria suicídio, pois você, má Luna, pode ser uma criatura com muito potencial, mas Belzebu é velho, muito velho, e já desenvolveu habilidades que lhe escapariam da imaginação, capazes de prendê-la em um mundo falso e forçar o seu suicídio sem ter que se mover do lugar.
- S, você não gosta muito de mim, não é? Por que então não vai embora, já que não pode ajudar o Arthur, seu suposto protegido?
- Se acalme, garotinha, eu não gosto de você porque você é estúpida e irracional, e é interessada em ciências humanas, essas infantilidades imprecisas que não negam toda a lógica pura e absoluta da matemática e da física, você é emocional e humana, além claro, de ser um demônio, enquanto eu sou um anjo, o que garante que não tenhamos muita afinidade um pelo outro. Mas bem, eu não irei com vocês até o Inferno, mas irei ajudá-los de outros modos, posso ajudar a atrair Belzebu para fora de lá, então eu poderei enfrentá-lo eu mesmo, ou então conceber um bom plano para haver chances de vocês o derrotarem quando chegarem até aquele local de horror, o Círculo da Preguiça, onde ele governa, e onde vocês serão abordados por cada espírito lá presente, que sob o domínio do Senhor das Moscas, irão fazer de tudo para neutralizar invasores indesejáveis. Portanto, além de terem que enfrentar Belzebu, terão que passar por seus lacaios, mas isso poderá ser evitado se tivermos uma boa estratégia, e tudo já está em minha mente, essa minha imaginação racional e numérica, pouco sujeita a falhas.
- Você despreza as ciências humanas pois não tem capacidade de compreendê-las! Do que adianta você saber essas malditas fórmulas matemáticas se é incapaz de interpretar um fato, de usar de uma racionalidade mais pessoal? Se você é incapaz disso, você é apenas um marionete sem vontade, sem criatividade, e sem nenhuma imaginação. Imaginação matemática? Isso não existe! Você é apenas um seguidor de regras automáticas ditadas pelos números. – Estava exaltada como de costume.
- Se acalma, Lunática. É incapaz de ver o quanto as ciências humanas são falhas? De que adianta eu ter toda essa imaginação e essa “racionalidade pessoal”, se tudo isso que imagino e penso tem grandes chances de estar errado? Não pretendo estar sujeito a erros, não quero ouvir o que os geógrafos acham, o que os historiadores supõem e inventam usando a imaginação e alguns poucos fatos talvez concretos, as filosofias contraditórias dos gregos, os meios ingênuos da literatura e das artes, e muito menos as extravagâncias mentirosas da oratória! Quero apenas ouvir e falar das únicas verdades inegáveis e absolutas, as verdades matemáticas, fatos que não podem em nenhuma condição ser negados, aquilo que sempre será igual, absoluto, absolutamente absoluto, perfeito, imutável, completo! Um mais um sempre será dois, não importa se a constituição não aprova, se falta matéria prima ou se as condições de relevo são propícias. Não importa em que lugar do mundo é feita essa operação, um mais um é dois, e a raiz quadrada de quatro é dois, esse gosto pela certeza, por tudo aquilo que é universal e perfeito, isso não limita minha imaginação ou minha existência, ao contrário, me livra de todos os enganos que eu poderia cometer, afinal, assim como formas de se classificar os países podem estar indevidas, o meu modo de agir também pode ser indevido caso eu siga o mesmo tipo de lógica, mas não, eu sigo a lógica exata, e isso me dá a liberdade para fazer qualquer coisa que eu quiser, sem ter o risco de perder o tempo com um erro. E de qualquer modo, não sou idiota, a lógica perfeita é nas minhas ações sérias, mas se eu quiser simplesmente rir de você por ser tão estúpida , posso ouvir a emoção e me divertir um pouco.
Ela demonstrava calma apesar de todos os insultos e provocações que lhe eram lançados, acariciou-me no cabelo, talvez para continuar mantendo a calma, contendo a raiva que provavelmente brotava em seu interior
- Se você fosse algum grande espírito não teria que se ligar a regras tão formais! Não teria tanto medo de errar, isso só demonstra o quão incapaz você é, tanto que necessita de métodos para obter sucesso,demonstra seu medo de demonstrar sua incapacidade. Incapacidade e nada mais, você é um medroso, e se não fosse, não seria tão apaixonado pela lógica matemática, ter medo de errar não significa ser superior, mas ser covarde e fraco.
- Agora você está sendo muito demagógica, argumentos fracos em palavras bonitas, não posso negar que você tenha um excelente vocabulário e seja boa com as palavras, até mesmo convincente, mas ser capaz de convencer não significa que você está certa. Por que você acha que existem tantos políticos se reelegendo? Essas suas ciências humanas, não direi que elas são completamente vazias e inúteis, elas servem para causar a ilusão de que você tem a razão, criam lógicas duvidosas para provar diversas coisas, mas não mostram a verdade, elas apenas a supõem! Sim, suas ciências servem como meio de convencimento, mas não, jamais e nunca mostraram o que é verdadeiro e o que é falso! Entre todos com quem você falou após sua morte, nunca teve a chance de falar com o maior pensador ocidental que já existiu, René Descartes?
- René Descartes é um maníaco, Nietzsche é o verdadeiro sábio ocidental! E..
- Dá para vocês calaram e a boca? Que porcaria é essa? Vão ficar discutindo matérias escolares? Movam-se, movam-se, deixem assunto para depois, como já disseram, eu morrerei. S, pare por favor de implicar com Luna, Luna, não aceite as provocações, se mantenha calma, não seja irracional! – Perdi a paciência, cheguei a me surpreender com a altura do meu próprio grito, esquecendo pelo termo que tinha dos dois, sem dúvidas, poderosos, mas que discutiam como crianças, ela tinha aparência de criança realmente, mas a mente, a experiência e o conhecimento de uma idosa, eram duas crianças crescidas discutindo assuntos extremamente complexos, que, não devo negar, me interessaram e geraram dúvidas. Não, não era momento para tais reflexões, tínhamos muito a fazer, e um embate filosófico não estava na lista de atividades. Entretanto, aquelas idéias eram bastante indagadoras. Ciências humanas ou ciências exatas? O que vale mais, a subjetividade de uma interpretação ou a objetividade da certeza absoluta? A matemática pode não estar sujeito ao erro, mas não pode ser aplicada a muitos casos em que a interpretação da filosofia e da sociologia se torna necessária, mas essas mesmas observações são sujeitas a erros, mas resolvem os problemas com que a matemática não pode lidar, por serem questões de interpretação e não de certeza objetiva. Vamos deixar esse assunto para depois.
Os dois não pareceram realmente incomodados com minha reação, mas se calaram, Luna encostou o rosto no meu ombro e fechou os olhos, como se estivesse com sono.
- Desculpa. Devíamos conversar e pensar em uma boa estratégia ao invés de brigar, é só que, só que esse velho me provoca muito, você sabe que sou muito irascível.
- Vou parar, calma, calma. – Ainda demonstrava sinais de riso, mas já se continha.- Escutem bem, tenho um plano que considero razoavelmente bom e fácil de ser executado, na verdade, é mais como um roteiro que vocês dois deverão seguir, enquanto eu, como o anjo que sou, os auxilio à distância. – Estalou os dedos e uma cadeira de madeira e com assento acolchoado de cor vermelha surgiu como em um perfeito e indecifrável truque de mágica, sentou-se sobre ela confortavelmente. Estranhei o modo como ele criou um objeto tão rapidamente, mas não falei nada, e creio que Luna tenha tido a mesma impressão. – Claramente, nosso objetivo é capturar, vencer, matar, dominar, ou qualquer coisa do gênero, Belzebu, vocês não podem ir sozinhos até ele pois serão mortos, e eu não posso entrar no território onde ele mora, pois sou anjo, o que teremos que fazer é atraí-lo para algum lugar onde eu possa ir. Isso deveria ser fácil, e seria se ele fosse burro. – Olhou especialmente para minha companheira quando falou a última palavra, sempre com aquele jeito de desdém, ela percebeu, mas fingiu que não, foi quando eu percebi que havia entre nós dois uma forte ligação e empatia, e eu podia saber perfeitamente o que ela sentia em um momento ou outro, talvez fosse esse o verdadeiro significado de “almas gêmeas”, ou não. – Ele não vai se precipitar atrás de vocês, pois sabe que Arthur morrerá com o tempo e cancelará a proteção da pequena Luna, que Belzebu tanto deseja.
- Mas ele sabe que você está com a gente?
- Sim, é claro que ele descobriu tudo quando eu matei Byron e Goethe, você, Luna, falhou miseravelmente, colocou em risco sua proteção e namoradinho, e o meu ingresso para o sucesso. Por que acha que estou a te insultar a todo instante? Me enoja imaginar que um capricho de “você tem que ser forte” pudesse matá-lo. Você sabe o valor que ele tem para mim? – Sua voz não mudava nas broncas, não me incomodava ser descaradamente usado, mas a curiosidade do “pra que” eu seria usado era uma dúvida com a qual tinha que lidar sem nenhuma satisfação, sem citar o medo do desconhecido, talvez toda aquelas intenções fossem levar à minha morte, ou a qualquer destino pior do que Belzebu me daria. E se S fosse me sacrificar para algum propósito vil e maquiavélico? Possivelmente só precisava que eu passasse uma mensagem após retornar ao meu corpo físico, ou tarefas do gênero, mas nunca é bom ignorar as piores possibilidade. Luna mantinha-se calada, ainda que desse para sentir sua irritação fervendo lentamente como a água de uma panela, se tratando dela, provavelmente uma panela a cozinhar carne com batatas. – Por isso, Belzebu já sabe que há um grande poder que está vos protegendo, então ele não tentará acelerar o processo, o que torna impossível fazer uma armadilha, não totalmente, mas não acredito quase nada que um espírito velho como ele vá cair em um truque ainda mais velho que ele! Não, não irá, e é por isso que temos um problema verdadeiramente grave, pois não podemos tirá-lo do Inferno, e eu não posso entrar, assim, somos obrigados a pensar em algo diferente, mas como a mente racional, analítica e matemática que sou, posso sim pensar em alguma forma totalmente possível de fazermos isso, não posso garantir que de algum modo seguro, mas pelo meio menos perigoso e arriscado possível. Mas não mentirei, dizendo a vocês que as chances de sucesso serão grandes, pois levando em conta a impossibilidade de levar o Senhor das Moscas a uma emboscada, o que se necessita é exatamente um meio de vocês dois serem capazes de combatê-lo, como os planos idiotas de Luna, mas sob meu comando, isso será feito de forma organizada e eficaz.
- Você quer dizer que nós iremos matar Belzebu, e não você? É isso? – Interrompi.
- Sim, é exatamente isso, e mais necessariamente, Luna fará o trabalho sujo.
- Como ele pode saber que você está conosco? Como ele sabe que foi você que matou os escritores?
- Ele é velho, poderoso e experiente, muitos espíritos conseguem rastrear territórios e outros indivíduos, por exemplo, eu posso rastrear facilmente Arthur, sabendo exatamente onde ele está, e ao mesmo tempo, poderei sentir o que está acontecendo onde ele está, e nesse caso, ver o que Arthur ver, caso esse seja meu desejo, e esse poder é bem comum. É improvável que alguém poderoso que manda um subordinado para fazer uma tarefa não tenha rastreamento sobre o enviado, na verdade, é impossível, ele com certeza soube do que aconteceu. Luna, você sabe como são os três tipos de rastreamento, não sabe?
- Sim, eu sei, mas explique, pois Arthur não poderia saber, não faz muito tempo que ele ainda estava em seu corpo.
Apenas concordei, e S prosseguiu: - Existem três tipos de rastreamento: Primeiro nível, que é quando o usuário é capaz de saber onde a pessoa está, o que permite que ele se transporte para lá, já que sabe a localização. O segundo nível é quando o usuário sabe onde a pessoa está, e é capaz de sentir o que está acontecendo no local, percebe se o rastreado está em perigo ou em um bom ambiente, se está em um lugar com muita gente, de energia densa, leve, se há alguma presença poderosa ou perigosa, é esse o nível de rastreamento que tenho sobre você, por isso soube quando precisaria interferir, e tenho certeza de que também é o tipo que Belzebu tinha com seus subordinados, esse sempre é o tipo de ligação que um espírito tem com outro que lhe esteja à serviço. E o terceiro e último nível se trata de uma verdadeira extensão do espírito do usuário, ele é capaz de ouvir, ver e sentir tudo que estiver ao alcance do alvo, é como se ele fosse a pessoa por um momento, é esse o tipo de possessão que Luna tem com você.
- Sim, eu podia ver, ouvir, sentir tudo que acontecia à sua volta quando você ainda vivia no mundo material, por isso sei muito bem sobre sua vida, e aqui não será diferente, poderei usar essa habilidade quando quiser, mas como nós dois estamos juntos, não será preciso. Mas acho bom avisar que você também pode fazer isso, eu te ensinarei um dia.
- Então me ensine agora, estou com pressa.
- Não. – O ruivo interrompeu com mais grosseria do que a usual. – Você se arrependeria de querer ver isso agora, acredite, eu sei mais de Luna que você, espíritos mais evoluídos não apenas sentem a energia que há em locais distantes, mas também aquela que os rodeia, e eu sei muito bem que sentir o mesmo que ela sente não será uma experiência agradável, confie em mim, Arthur.
- Nisso ele tem razão, você não iria gostar de ver com meus olhos.
- Mas por que?
- Isso é assunto para depois. – Ele não deu sequer tempo para ela negar responder minha pergunta. – Agora darei o roteiro para vocês, será uma trabalhosa jornada para que possam derrotar Belzebu, e ela será dividida em três partes, que nomeei de modo que ficasse mais didático e explicativo. A primeira parte será chamada de A Busca do Conhecimento, vocês deverão obter informações sobre os pontos fracos de Belzebu, e sobre que tipos de recursos podem ser úteis contra ele, procurarão até no covil mais imundo se for necessário, mas conseguirão uma completa ficha técnica do inimigo, conhecer o inimigo é importantíssimo. E aliás, Luna, não sabe qual é o ponto fraco dele? Afinal, você já teve tanto contato com ele antes.
- Quando lutamos contra os poetas, estávamos exatamente em busca dessa informação, eu acho que esse seu plano não tenha nada em que ainda não tenhamos pensado! E sei que ele é o mestre das ilusões, sei que é esperto, cruel, conhece muitos truques, sua astúcia o faz dificílimo de enganar, mas esses são os pontos fortes, apesar de todas essas habilidades, não tem uma tão energia intensa e nem em grande quantidade, não tem tanta força física, não diria que tem pouco, mas em relação aos seus outros poderes formidáveis, poderia sim dizer que são escassos. Isso é o que tenho conhecimento, mas claro, Dante Alighieri, o poeta saberá falar com mais precisão sobre tal informação.
- Ah, vocês já tem conhecimento sobre Dante ser conhecedor dos pontos fracos de todos os senhores do Inferno, não é? Eu não posso ler a mente de você, Arthur, apenas sentir o que acontece à sua volta, então espero que se comunique comigo e conte tudo que acontecer, estou aqui para orientá-los, ajudá-los de todas as maneiras que estiverem ao alcance de minhas mãos. Vocês também sabe por que Dante tem toda essa informação?
- Vimos em um livro que tem essas informações, mas não sabemos porque. – Eu disse, e Luna: - Nada além disso.
- A história da Divina Comédia é levemente verdadeira, Alighieri foi o único mortal que esteve no Inferno com assistência de um espírito. Esse espírito não era Virgílio como ele alega no livro, na verdade diferentes pessoas o guiaram, no Céu foi guiado por Confúcio, no meio, nas cidades de espíritos médios, foi guiado por Júlio Cesar, e no Inferno, quem o guiou fui eu.
Capítulo 13 - O Demônio que Ascendeu
- Mas como você pode tê-lo guiado no Inferno? Você é um anjo! – Perguntei-lhe com surpresa, era como se tivesse me enfiado uma bola de gude garganta à dentro, o tipo de revelação em que não se acredita à primeira vez que se ouve, duvidosa, incomum, irreal. Que mistérios se escondiam por trás de S afinal?
- Nem sempre eu fui um anjo, espíritos mudam, evoluem, caem, eu evoluí, era um demônio e vivia no Círculo da Ganância, lá eu recebi a atenção e a ajuda de um demônio poderoso chamado Hades, ele viu potencial em mim e me ensinou algumas de suas artes.Um espírito impiedoso, ele tem domínio sobre uma forma de energia anormalmente intensa, e era amigo de Leviatã, o grande governante do círculo, cujo simples presença pode inundar campos inteiros. Mas falando de Hades, ele praticamente me adotou como seu irmão, e fomos como dois irmãos, Hades e... enfim, ele me levava para seus passeios, existem vários locais mais internos no Inferno, mais profundo, fascinantes, perturbadores, alguns são como verdadeiros campos de concentração, onde demônios conscientes mais cruéis podem praticar toda forma de violência e crueldade contra os fracos e caídos, Hades era um verdadeiro torturador, era capaz de infestar o espírito das vítimas com uma forma de energia nociva, destrutiva, que agia como um veneno que matava dolorosa e lentamente, consumindo cada partícula formadora do corpo astral. Eu e ele costumávamos nos divertir vendo a agonia, o desespero e a degradação de espíritos fracos que achávamos caídos em localidades do Inferno e também no Abismo dos Esquecidos, ele causava a destruição parcial com sua energia venenosa, e os deixava agonizantes, para que depois, se recuperassem, e pudessem ser torturados novamente, isso claro, se eles conseguissem se recuperar, o que acontecia com a maioria, mas não com todos. Hades era um bom parceiro, éramos uma dupla, mas mesmo uma dupla não age isoladamente, tínhamos mais dois “associados”, se assim posso dizer, a primeira era uma espécie de filha adotiva de meu irmão, uma Succubus chamada Nahemah, a mais fraca do grupo, mas ainda assim uma existência sinistra, era capaz de influenciar a mente de homens ainda vivos, entrar em seus sonhos, em suas mentes, enlouquecê-los e seduzi-los por seu romance astral, com seu sexo astral, tornando-os escravos, e então se alimentando da energia de cada um de seus adoradores, o modo dela de entrar na mente de um vivo é como o de Luna, mas não o modo de agir, pois não posso negar que a burrinha seja, no mínimo, fiel ao seu protetor. E por último, tínhamos Belzebu, o mais controlado do grupo, com o hábito compulsivo de prender espíritos fracos em ilusões e torturá-los psicologicamente por longos períodos de tempo, brincava como se fossem hamsters em uma gaiola, fazia experiências que sabia que não dariam certo, fazia com que revivessem as piores lembranças, sentissem os maiores medos, levava suas pobres mentes ao limite da loucura e do sofrimento, Belzebu simplesmente via nos distúrbios psicológicos de suas vítimas, seu maior prazer. Ele já era o chefe no Círculo da Preguiça nessa época, mas sempre teve o costume de passar grande parte do tempo fora dos seus domínios, mantendo sempre alguns serviçais para o representarem, muitos, às vezes, mais poderosos que ele, mas sem astúcia o bastante para poderem lidar com sua mente doentia. Por muito tempo esse grupo diabólico foi a minha família, até que comecei a deixar a inveja crescer dentro de mim, um ciúme, um grande desejo de superar meu irmão, ele era o líder, Belzebu era como se fosse o vice-líder, eu não era o espírito poderoso que eu queria, não como eu queria, eu desejava mais, eu desejava ser grande, eu deseja ser como um Deus no submundo, governar todos os 8 círculos, ser invencível, onipotente, onisciente, um sonho extravagante demais para poder ser realizado, mas não pensava assim na época, e defini, como o primeiro objetivo para à minha ascensão ao trono, que eu deveria matar Hades, para me mostrar superior a ele. Claro que treinei muito para tornar-me mais forte para o confronte contra ele, mas tentar matá-lo foi meu grande erro, erro do qual não me arrependo nem um pouco.
Eu tremia a cada palavra que ele pronunciava. Como poderia alguém ter feito tudo aquilo e ainda ser um anjo? Cada momento no mundo dos mortos apenas me apresentava novos e incontáveis horrores, aos quais custava acreditar, que antes fossem duvidosos, exagerados. Mas não conseguia duvidar, mesmo que ele se dissesse arrependido, eu não podia sentir qualquer remorso ou culpa na voz daquele “anjo”, que falava com naturalidade e calma, como se contasse sobre uma pequena travessura da infância
Estávamos só eu e ele em um local isolado do Círculo da Ganância no qual costumávamos ir para conversar, comecei um assunto diferente.“Hades, você se acha muito mais poderoso que eu? Me acha fraco ou sem potencial?”e ele “S..., você tem muito potencial, se continuar ao meu lado, poderá desenvolvê-lo ao máximo, tudo e todos se curvarão diante de nós. Mas não sonhe demais, você nunca irá me superar, sou o mestre, e você”. “Vejamos se é como você diz, eu te matarei e você verá que não apesar serei, mas já sou muito superior a você, Hades.””Hahahaha... está me traindo? Está contra mim depois de tudo que fiz por você? Não pense que chorarei por sua morte, estamos no Inferno, traição, morte, tanto faz, eu arranjo um outro pra ocupar meu tempo.” Lutamos, fui queimado até não conseguir me mexer, não consegui machucá-lo quase nada, fui ingênuo demais de achar que tinha força para lidar com o irmãozão, então me impôs uma punição bastante cruel, que faria o sangue de vocês dois gelar só de imaginar, a pior tortura conhecida no mundo dos espíritos. – Ele fez suspense, nós ouvíamos com interesse, e muito curiosos por saber qual seria o terrível castigo, então ele continuou, vendo que não comentaríamos, mesmo com toda aquela ansiedade de saber. – Um lugar conhecido como Judeca, se trata de uma dimensão diferente da nossa, que foi criada em 234 A.C por Ereshkgal, a rainha da Ira, é um espaço de gelo infinito, em que o tempo passa sessenta vezes mais devagar do que aqui, um segundo lá é equivalente a um minuto daqui, quando um espírito está extremamente enfraquecido e debilitado, como eu estava, ele pode ser enviado para lá, então fica congelado naquela gelidez interminável, com a desvantagem de ficar consciente, de sentir o corpo queimar de frio, o sangue congelar, as veias estourarem, cada pedaço do corpo se rachar como vidro,uma dor, um tormento que vocês sequer conseguiriam imaginar, um horror sem fim, sobrenatural. – S exaltou-se ao falar do local onde havia passado seus piores momentos, pela primeira vez, ele parecia nervoso, um trauma tão forte, que era capaz de quebrar aquela personalidade de aço que ele sempre demonstrava. – Mas há um detalhe que torna o local um tanto justo, só pode ser enviado para lá, aqueles que possuem muito mal no espírito, em suas atitudes, em seus sentimentos, apenas o mais perversos, que realmente merecem punição, e eu me encaixava perfeitamente nesses quesitos, além de ter cometido um dos maiores delitos existentes: a traição. Mas Judeca também tem outra aliviante característica, quem envia uma pessoa para lá não define quanto tempo ela estará lá, quem define, é a própria culpa da pessoa, não a culpa em sua consciência, de arrependimento ou qualquer sentimento parecido, mas o peso das ações que fez no passado, cada crime em cada situação é registrado eternamente no espírito que o comete, mesmo que o tenha cometido na vida material, e cada um deles tem uma gravidade diferente, matar um soldado inimigo em uma guerra é um crime, mas não tão grave quanto é matar uma criança à sangue frio por prazer. Assim, com meus inúmeros crimes imperdoáveis, passei o equivalente a 20 anos lá, e sabe, se eu tivesse tido a oportunidade de morrer, eu teria, mas eu tive que agüentar aquela dor infinita, pois não havia escolha, não havia a opção de não agüentar, de morrer, de desistir. Saí de lá insano de ódio e sede de vingança, mas ainda assim, eu tinha entendido a gravidade de meus crimes, e não os cometeria de novo, tentei vencer meu ódio, minha vingança, não consegui, mas pelo menos pude evitar ao máximo pensar neles, tentei por tudo buscar o bem, me tornar bom a ponto de pagar pelos meus pecados, essa busca me trouxe muita sabedoria e luz, e evoluí, evoluí até me tornar um anjo, que é o que sou hoje. O anjo da ciência, que busca espalhar conhecimento e ciência pelo mundo, que luta contra a ignorância, a superstição e a tolice, que se esforça para o romper os grilhões do dogma e da religião, que oferece sua vida e sua alma parra a propagação da verdade absoluta, das verdades exatas, das ciências, das leis naturais de todo o universo, sou aquele que ensina a matemática, a física e a química, o anjo que ama o conhecimento acima de todas as coisas.
- De novo essa história de ciências exatas? Você é um velho deslumbrado! O que foi quando ainda estava vivo? Um mendigo ou um ladrão?
- As palavras de uma escrava não podem atingir um verdadeiro senhor de si mesmo, você, criança, posso sentir o seu cheiro de subordinada sem sequer me aproximar, faz parte da sua natureza. Então por que me chama de mendigo? Antes o fosse, a ser uma criatura sem liberdade e sempre subordinada ao seu senhor, como você. Europeus idiotas como você se dizem donos do “velho mundo”, mas não passam de lixo, contaminaram o mundo com suas tolices humanas, suas sofismas e dogmas detestáveis. Sim, as religiões em que os ocidentais acreditam surgiram todas no oriente, mas foram vocês que as corromperam com leis falsas e odiosas, vocês transformar os ensinamentos sábios de Jesus Cristo em motivo para fazer guerras e um meio de dominação sobre os pobres, vocês transformaram o judaísmo em uma forma de capitalismo doentio, transformaram o budismo em meios de ócio e passividade, transformaram a velha religião egípcia em uma forma idiota de Música New Age, e o mesmo com o Hinduísmo, tornaram o candomblé uma forma ainda mais imbecil de misticismo, e a umbanda em algo ainda pior. Vocês transformaram toda a sabedoria antiga em alguma forma de dogma imbecil, toda forma de espiritualidade em alguma corrente contra o verdadeiro conhecimento espiritual e científico. A culpa dos males do mundo é do mundo ocidental, ou melhor, daqueles que se dizem “mundo ocidental”, os europeus, que escravizaram, mas claro, nem todos os europeus são odiosos e desprezíveis. Não, eu poderia dizer com toda a certeza que os mais desprezíveis são os italianos, que sediam o Vaticano e seus dogmas, os alemães, com seu protestantismo asqueroso, portugueses e espanhóis, colonizadores animalescos e primitivos, e claro, os ingleses, os mais cruéis de todos, o povo mais maligno que a terra já viu.
- S, você está sendo preconceituoso. Você sabe que essa é uma atitude de gente ignorante e sem raciocínio, não sabe?
- Você teria razão, mas eu não estou generalizando, estou me referindo basicamente ao poder dominante, aos políticos, aos dominadores cruéis, déspotas, religiosos, gente autoritária e sem a luz da ciência, claro que Newton da Inglaterra, Einstein da Alemanha, e Galileu da Itália são alguns exemplos de exceção, como eu disse, nem todos os europeus são desprezíveis, só muitos, e os que são, são os mais desprezíveis do mundo.
Luna ia falar alguma forma perversa de grosseria, mas tomei a liberdade de colocar a mão sobre sua boca, um ato de coragem, talvez. – Parem de brigar, vamos fazer o que precisamos antes que eu morra. Os dois concordaram sem apresentar nenhuma forma de agressividade.
- Meus bons amigos, falarei exatamente qual será o cronograma de nossa viagem, embora que só vá acompanhar vocês à distância. – Um papel surgiu em sua mão direita junto com uma pena na esquerda, sentou-se no chão e começou a escrever.
- S, como você faz para tirar objetos do nada
- Alguns truques devem ser aprendidos sozinhos com o tempo, Artur, mas não encontrará dificuldades nisso. Luna e eu esperamos ansiosamente que terminasse os seus rabiscos, e ele nos entregou o papel em pouco mais de dois minutos, peguei-o em minha mão, era uma lista de lugares.
Capítulo 14 - Gato Preto
“Floresta dos Alienados
Círculo da Luxúria
Grande Templo Subterrâneo
Estrada de Éolo
Abismo dos Condenados
Galeria do Suicídio”
- Você vão ir na exata ordem em que listei, e há algumas informações adicionais, muitas, na verdade, que darei a Artur enquanto estiverem por esses locais.
- S, isso não é uma armadilha, é? Galeria do Suicídio, o que faríamos lá? É ingênuo achar que o Artur sobreviveria a uma visita àquele local, nem eu que sou a mais perturbada das almas consigo me sair bem com aquele ambiente. – Ela ficou extremamente séria, estava preocupada, e sua preocupação era tão contagiosa que me contaminou profundamente, me enchendo com uma desagradável sensação de insegurança, beirando próxima ao medo.
- Bem, podem já ir até a Floresta dos Alienados, lá vocês deverão procurar informações sobre Belzebu, seus poderes, domínios, localização e hordas, isto é, sobre os servos.O mais ideal é que vocês vão até o líder do local e perguntem, o líder quase sempre sabe mais.
- Mas pelos nomes esses locais devem ser inacessíveis para você também, parecem de baixa freqüência, se formos atacados, você não poderá ajudar.
- Fique tranqüilo, falarei tudo ao seu tempo, mas quando à Floresta dos Alienados, ela é segura, pode ter um nome ameaçador, mas não é inferior o bastante para impedir uma visita minha. Lá é um dos muitos locais onde almas enlouquecidas se concentram, mas tem como ponto principal o fato de conter almas loucas porém inofensivas, pessoas que não têm noção da realidade, que inventam suas próprias fantasias, não diferenciam o que é verdadeiro do que é falso, mas que não usam de sua loucura para fazer o mal, não são como Ottis Toole ou Calígula, são mais como aqueles mendigos que ficam falando com fadas e vendendo seu artesanato barato, ou como Ozzy Osbourne.
Luna segurou na minha mão, ainda se mantinha séria desde que S havia citado a Galeria do Suicídio. – Vamos, eu sei como chegar lá. Fechei os olhos por alguns momentos e quando abri já estávamos em outro lugar. Não havia muito lugar para andar livremente, estávamos em uma floresta constituída de árvores parecidas com eucaliptos, mas altas demais para o serem, os troncos levemente castanho levemente avermelhados soltavam um incomum e suave odor semelhante a ervas usadas em tempero, talvez as árvores fossem comestíveis, O céu não podia ser visto, era totalmente coberto pelas numerosas folhas nas altíssimas copas das árvores, que formavam um verdadeiro teto natural no local, ainda assim havia luz, fraca demais para ser um sol, mas forte o bastante para atravessar a cúpula verde. No chão, apenas terra e raízes entrando fundo nela, não havia nada de especial no ambiente, até aí, uma floresta normal, seria se não fosse o que logo vimos passar por entre árvores próximas a nós: Um homem nu usando apenas óculos escuros que cantava uma canção erótica muito bem feita mas eu que não ousaria repetir, ele vinha na minha direção, como para me agarrar, mas Luna o segurou com um de seus braços de energia, o agarrando firmemente com uma mão que aberta teria o tamanho do corpo inteiro dela.
- Me soltem, eu preciso ir pra um show, o patrão me aguarda. – Ele gritou, agora sua voz parecia mais irritada e confusa, olhei bem para ele, os óculos escuros, o nariz, os longos cabelos, não era um rosto desconhecido.
- Ozzy Osbourne, é você?
- Sim, então me conhece? – Tentou se soltar sem sucesso das garras de minha pequena companheira, ela não apertava mais, parecendo se preocupar em não machucá-lo.
- Sim, preciso ir cantar para o chefe agora. Enquanto ele falava, mais alguns loucos passaram por perto, ao mesmo tempo que dois estavam a umas quatro árvores de distância, encarando um ao outro sem piscar e nem se mover, certamente brincando de ver quem consegue ficar mais tempo sem se mover, talvez estivessem lá a mais tempo do que imaginava e não tivesse reparado antes.
- Como você morreu? Quando eu vim pra cá você ainda estava vivo, cara!
- Não sei, eu tava transando com uma linda jovem depois de cheirar um pouco de cocaína, eu estava mandando ver quando vi tudo escurecer de uma vez e vim parar aqui.
- Faz quantos dias, mais ou menos?
- Menos de um, mas fui muito bem recebido, o líder desse lugar onde os mortos vivem me contratou para ser seu cantor particular, mas estávamos em uma orgia, e eu tinha que correr atrás das ninfas. – Quando ele falou eu pude entender por que aquele lugar era chamado de Floresta dos Alienados, chegava a ser cômico. – Aliás, podem me soltar? – Ele parecia olhar fixamente para Luna, que estava estática como uma estátua, sem soltar um pio, apenas mantendo o nosso “prisioneiro” sob controle, devíamos estar pensando a mesma óbvia coisa: Usar Ozzy para conseguir informações.
- Sim, tem, mas prometa que não vai fugir, senão eu não apenas irei te agarrar novamente, como irei te matar, e morder sua cabeça como se você fosse um morcego. – Ela deu um sorriso perverso, o colocou no chão e recuou as extensões de volta ao corpo. Ozzy continuou olhando para sua algoz. – O que querem comigo?
- Eu só quero que você nos leve até o seu líder, aquele que você chama de chefe, quem manda nessa floresta, e gostaria mais ainda que nos dissesse antes o nome dele.
- Certo, só me sigam. – Fez um gesto nos chamando e saiu andando, seguimos, ficamos bem atentos a todas as pessoas que passavam por perto, desconfiados e considerando qualquer movimento como suspeito e perigoso. – Ozzy, qual é o nome do chefe? – Luna perguntou, agora eu podia ver um jeito diferente em sua voz, como se estivesse mais calma e controlada do que quando estávamos acompanhados de S, e não demonstrava as suas fortes tendências sádicas, agindo apenas por necessidade, fria.
- Ele se chama Edgar Allan Poe, vocês o conhecem? É bem famoso, já li vários livros dele enquanto ainda estava vivo. Caminhamos por alguns minutos, até que nossa insegura jornada fosse interrompida: Um homem surgiu do meio das árvores, uma aparição do nada, era um homem vestido de terno, com bigode e penteado à moda dos anos 20, não conseguia decifrar sua idade apenas olhando, mas pelos olhar, parecia um sábio, no mínimo, um pensador. Só um pouco depois reparei que tinha um gato em seus braços, um gato preto a quem ele acariciava, foi quando finalmente percebi que era ele quem procurávamos.
- Poe, viemos em paz, em busca de uma informação. – O cumprimentei educadamente, fazendo uma reverência com cabeça e mãos.
- Ozzy, por que trouxe eles até mim? Achei que fosse meu amigo. – Ignorou-me.
- Edgar, a garota me ameaçou de morte, eu acabei de morrer no meu corpo, não quero perder meu espírito agora mesmo.
- Ah, eu vejo, é você, a famosa garota com o dom. É muito bom te ver. Por que não deixa Ozzy ir embora? – Sentou-se sobre uma cadeira de surgiu instantaneamente atrás dele.
- Claro, ele já fez o que eu queria, agora só falta conversarmos, senhor Alan Poe. – Gesticulou para que o cantor se retirasse, e ele, sem um fazer um ruído, foi embora correndo o mais rápido que podia.
- Que bom que o senhor é hospitaleiro. Mas só por curiosidade, por que Ozzy Osbourne tava pelado?
- Bem, acho que é comum que os mortos tenham seu corpo espiritual semelhante ao que tinham quando morreram, com exceção de ferimentos, vão ter o corpo inteiro e saudável, mas com a mesma idade, estatura, e roupas que tinha, claro que depois ele pode ir modificando seu corpo espiritual e trocar de roupa, mas não é a primeira a coisa a se fazer na morte, ele morreu nu enquanto fornicava, o que chega quase a ser cômico se não fosse trágico.
- Mas vamos direto ao assunto, nós dois gostaríamos de saber se o senhor tem alguma informação sobre Belzebu. O que sabe sobre ele? – Falei o mais rápido que pude, a expressão de Poe, o escritor, mudou de uma hora para outra, talvez fosse um assunto delicado para ele.
- Belzebu? Claro, é bem conhecido, mas devo considerar que não foram nem um pouco gentis com meu subordinado quando o ameaçaram, então me vejo no direito de pôr em prática um pequeno capricho. Sabem, tenho um profundo gosto por enigmas, e realmente saberia dar alguma explanação útil sobre esse mórbido assunto que é do interesse de vós, por isso terei uma proposta que talvez venham a considerar infantil e fútil, mas que será do interesse de ambos os lados. – Deixou seu gato no chão, o bichano se deitou no pé do escritor, folgado. – Eu darei a vocês a informação de que necessitam, mas em forma de enigma, e tenho certeza de que será de grande utilidade, mas de difícil assimilação, se forem capazes de entender o que irei dizer com minhas palavras, então estarão realmente aptos para lidar com o conhecimento que elas contêm. – Seu tom era solene, como o de um papa.
- Claro, aceitamos. – Falei por nós dois e apertei o braço de Luna, dava para perceber uma faísca de violência reacendendo no seu olhar, ela queria, como de costume, tomar as informações à força, mas deveríamos evitar o conflito enquanto fosse possível, assim, nos arriscaríamos menos.
- Aqui está. – Um papiro surgiu em sua mão, e lançou-o para nós, eu mesmo o segurei, abri e li:
“Primeiro, por que viver? Por que morrer? O que é que torna a alma humana digna de ser chamada de humana? Ele é a resposta para todas as perguntas e a pergunta para todas as respostas, é como vinho que embriaga, e o vício que todo coração deve apreciar, uma, duas ou mil vezes, viver por, morrer por, tão importante quanto comer, beber e respirar. E eu o experimentei em todos os seus excessos, tantas vezes quanto pude e em todas as suas formas, como o mais doce mel que se pode beber!
Tudo desejar é estar condenado a tudo perder, à se afogar na maior das misérias, a miséria de se ter tudo mas de nada possuir verdadeiramente, quando posse se tornam proprietário e proprietário se torna posse, uma despersonificação maldita, a perda completa da alma viva!
Uma nova realidade, livre da vulgar normalidade, além de todas as formas razoáveis de imaginação, um produto doente de uma mente incomum, de pensamentos abstratos ao ponto da distorção de formas . O maior prazer de se ser livre por completo, de poder voar até o mais alto dos céus, e reinar sobre o mais antigo e o maior dos impérios, como se todos os atos de grandeza, verdadeiros ou não,fossem capazes de trazer aqueles olhos perdidos e fechados de volta para a luz do dia!
A ofensa ao Pai, a qualidade dos antigos imperadores, de Tibério a Alexandre, a teoria do medalhão em pessoa, um brilho feito por palavras ou ações, grandiosidade fora do comum, fenômeno visto nas pirâmides do Egito e na grande Basílica de São Pedro, a grande coroa que mistura ouro e espinhos e que torna a tirania tão comum entre o homens, mulheres e crianças. Mas tão necessário se faz quando em meio à mediocridade, que de crime se torna em virtude, como água em vinho, sem as mãos divinas de alguém, alcançada pelo próprio intelecto, a virtude daquele que anda sob a cabeça dos vulgares sem brilho.
A origem de todos os males, a única verdadeira lei da natureza.
Escura e salgada, pesa uma tonelada, o maior dos pesos, grilhão que acorrenta cabeça, mãos e pés, veneno que mata devagar e torna a vida apenas um maldito pesar.
A forma mais egoísta e distorcida de altruísmo e justiça.”
Talvez eu tenha demorado muito, mas quando terminei de ler o papiro percebi o número de parágrafos que continha, cada um com uma charada fora do comum, percebi que eram exatamente sete delas, e me lembrei do que Byron havia dito enquanto nos atacava há algum tempo atrás: “Somos dois dos sete escritores.” Aquelas charadas se referiam aos sete escritores em serviço de Belzebu! Parte da charada já havia sido resolvida, mas havia um problema: Poe era um deles? Poe era um de nossos inimigos literários? O raciocínio deveria ser a maior das minhas armas, havia lido com extrema atenção e memorizado com cuidado as idéias principais sugeridas, agora faltava interpretar. Se cada uma delas era um escritor, então deveria haver uma que descrevesse Allan Poe, então tentei encaixá-lo logicamente com um daqueles textos, felizmente havia lido livros deles em vida, o que me dava um perfil geral do que a charada deveria sugerir, mas o meu raciocínio era atrapalhado pela desconfiança, pois se ele era um dos sete escritores, então poderíamos estar correndo risco em uma cilada.
- Artur,você entendeu o mesmo que eu entendi? – Luna virou-se pra mim sorridente, parecia confiante, talvez já tivesse decifrado tudo que eu ainda tentava compreender. Reparei que Allan Poe abaixava-se para acariciar seu gato, e parecia distraído, provavelmente fingindo.
- A primeira charada tem amor como resposta, e podemos relacionar amor ao Byron, ele se referiu a sete escritores, aqui temos sete charadas, a primeira se encaixa perfeitamente no nobre, então creio que seja isso. – Sussurrou o mais baixo que pode no meu ouvido para que Poe não ouvisse, depois virou o rosto para ele. – Então Allan,por que está nos ajudando? Você vai nos entregar os sete escritores por que razão? Vocês têm divergências ideológicas?
Ele riu-se. – Podemos dizer que sim, parecem que vocês são rápidos. Quem falou pra vocês sobre os sete escritores? – Byron, que aliá, é a resposta do primeiro enigma. – Respondi. – Entendo, Byron não era a pessoa mais racional desse mundo, ele era um idiota, todos os outros seis escritores são. Devo muito a Belzebu, mas sinceramente ele não é uma exceção! Ele é um torturador terrível, ele fez muita coisa com a gente, tentou nos fazer mudar a entrar no serviço deles, funcionou nos outros, mas não em mim, o meu caráter é instransponível por meras ilusões e...
-Acho que ele está mentindo. – A voz soou na minha cabeça, podia ser facilmente reconhecida como a de S, ainda assim levei um leve susto, que devo, ter expressado nos meus olhos, instintivamente respondi com um simples pensamento. – Como sabe? – Fui imediatamente respondido: - Como achava que eu ajudaria vocês? Não posso ler a mente dele ou a sinceridade de suas palavras, mas pela lógica matemática que tanto aprecio, isso que ele falou não faz nenhum sentido! Não, não faz, é absurdo e ilógico!
- Então, conseguem decifrar os outros enigmas? Vocês não tem todo o tempo do mundo, na verdade possuem apenas quinze minutos para todos. – Um relógio de ponteiro com números romanos surgiu acima da cabeça dele, flutuando, e senti uma sensação estranha pelo meu corpo, como se meu sangue começasse a esquentar incomodamente. -
- Por que não podemos ter tempo indeterminado? – Perguntei, revirando-me em pensamentos.
Ah, aliás, vocês têm algo a pagar em troca da informação caso falhem, nesse momento os ponteiros estão correndo. – Apontou para o relógio. – Para cada segundo que se passar, o sangue de vocês irá aumentar um pouco de temperatura, em um certo ponto ele estará fervendo e causando dores horríveis em vocês, e quando já tivermos quinze minutos contados, seu sangue estará tão quente que estourará suas veias e causará uma morte instantânea para ambos, para sorte de vocês, são duas pessoas pra responder as mesmas perguntas.
- Eu sabia, esse inglês idiota não podia ser confiável! – Ela aparentemente tentou sair do lugar ou usar suas extensões no americano, mas estava incapacitada, assim como eu que tentei dar um passo para a frente, me senti como se estivesse com o pé colado com a mais forte das colas no chão, parcialmente paralisado e inapto a qualquer movimento de fuga ou ataque. Rápido Artur, pense, temos que descobrir, você sabe que eu entendo de filosofia, mas literatura não é minha área, não saberei descobrir. – Luna não tinha como conhecer autores para colaborar. Eu não fazia idéia do que Poe tinha feito para que ficássemos naquele estado, e nem como ele poderia causar nossa morte apenas por não sermos capaz de responder a algumas perguntas codificadas, um pouco mais tarde entenderia o funcionamento daqueles extravagantes e detestáveis procedimentos.
- Eu sou americano, sua ignorante! – Poe gritou aparentemente ofendido. –E fique tranqüila, os sete escritores que estão nessa charada são famosos o bastante pra que qualquer um o conheça, bem, pelo menos qualquer dos seus países de origem. As regras me proibiriam de fazer esse jogo com vocês se não houvesse chance de vocês descobrirem.
Tentei me comunicar com S, infelizmente a tentativa foi totalmente frustrada, sentia que a ligação que tínhamos havia sido quebrada, fosse o que o que fosse que o escritor tivesse feito, agora Luna e eu estávamos sozinhos e à nossa própria sorte. Eu pensava ansioso e nervoso, o medo da punição sugerida pela falha me aterrorizava de uma maneira realmente impiedosa, definitivamente não queria morrer, e o peso que agora se apoiava nas minhas costas era insuportável, pois no último “jogo” mórbido ao qual havíamos sido submetidos, tínhamos ambos uma parcela da culpa pela morte ou do crédito pela vida, então a culpa ou crédito seriam divididos em dois, mas agora a situação mudava, pois eu seria totalmente responsável pela morte de nós dois caso não pudesse pensar nos escritores certos. Mais tarde eu iria me acostumar com situações de tanta tensão, mas não estava pronto naquele momento, não ainda. Usei mais uma vez de minha racionalidade, mas me apercebi de um detalhe estúpido no qual sequer havia prestado atenção devido ao nervosismo. – O segundo enigma nos leva até Goethe, Goethe, é Goethe! – Eu podia não saber qual era a dica que levava a Goethe, mas sabia que era ele, e nada nas regras me proibia de falar apenas o nome do escritor.
- Ainda faltam cinco, Raul e Luna. – Deu uma olhadela sarcástica para o relógio.
- Artur, não Raul. – Repliquei rapidamente para não perder tempo. Uma nova realidade... uma nova realidade... O que seria uma nova realidade? Sem a vulgar normalidade?Normalidade... normal... anormal, anormalidade, loucura. Loucura! – Loucura, a terceira charada é loucura. – Declarei, vitorioso, ao mesmo tempo refletindo sobre que autor poderia representá-la.
- Muito bem, e quem é. O interrompi antes que pudesse completar, eles não estavam sendo muito criativos na ordem das charadas, e a resposta era praticamente óbvia: - Allan Poe.
- Muito bom, faltam quatro agora.
Luna repousava no mais absoluto dos silêncios, mas me fitava, e a ansiedade em seus olhos –brilhava como duas tochas frias e brilhantes, uma estranha forma de chama invisível ardia neles, como em uma espera impaciente porém indiferente de alguém que não teme a morte e nem nada, e eu tive certeza de que ela me perdoaria se fosse responsável pelos nossos fins.
Pensei e pensei com cada vez mais empenho, com a precisão cirúrgica e exata de um médico eu analisava cada palavra, seus significados, suas funções, e as conectava a toda a informação guarda na minha memória sobre literatura e escritores, sobre movimentos literários, livros, obras primas. Era a vez da quarta charada, ofensa ao pai... seria blasfêmia? Tibério, Alexandre, não, não era blasfêmia. Mas teoria do Medalhão? Seria.
- Orgulho é característica, o escritor é Machado de Assis? – Afirmei confiante.
- Orgulho, certo, Machado de Assis, errado, mas como você acertou o malefício do autor, então terei que te dar uma dica: É um autor brasileiro.
Invoquei em minha mente o nome dos autores brasileiros mais famosos, comecei a pronunciá-los sem pensar muito, tentando acertar com um pouco de sorte: - Jorge Amado, Castro Alves, Machado de Assis.
- Certo, Machado de Assis, já conseguiram mais da metade.
O relógio parecia correr cada vez mais rápido, mas o ponteiro ainda estava por volta de dez minuto, até que estávamos sem bem sucedidos no teste excêntrico, o problema é que aquela sensação de calor nas veias aumentava cada vez mais, e o odioso incômodo me atrapalhava o raciocínio, ainda assim, precisava pensar. A origem de todos os males? Qual seria? Cobiça? Mas essa não seria a única lei da natureza, devia ser algo relacionado à crueldade, à morte, à lei do mais forte, e o único modo se relacionar a lei dos mais fortes com a vida e os males humanos seria pensar no que, entre os homens, é a maior fonte de problemas de todos os tipos. – Violência. – Anunciei a principal ferramenta usada pela raça humana para alcançar seus objetivos, quer seja na guerra, quer seja na caça, quer seja na simples competição.
- Certo, a dica: escritor brasileiro especializado em romances policiais.
O nome me veio à cabeça no momento exato, se não fosse o autor que em que pensava, a morte seria certa, pois não conseguia lembrar de nenhum outro: - Marcos Rey.
- Você é bom.
Na charada seguinte quis pensar em voz alta, talvez Luna pudesse me ajudar pelo menos a descobrir a dica, ela olhava fixamente para mim, menos ansiosa do que era de se esperar.
- Luna, qual é o veneno que mata aos poucos? O maior dos pesos?
- Ódio, se não for, só pode ser tristeza, mas tem que ser um dos dois, creio que os conheço bem o bastante para falar. – Sua expressão se tornou bastante abatida quando respondeu, era como se tivesse sido instantaneamente contaminada com uma doença, talvez a doença que a havia matado, estava seca, fria, como morta.
- Bravo, bravíssimo! Sofrimento, a dica é que é um escritor muito muito antigo..
- Platão, Aristófanes, Virgílio, Sófocles, Amiano, Suetônio, Claudiano, Homero. – Me recordei do fato de nos tempos antigos, no ocidente pelo menos, a maioria dos textos era ou poesia ou dramáticos, para o teatro, seria completamente lógico, talvez até óbvio, que o escritor que procurávamos fosse ou poeta ou dramaturgo, assim, eu citava o nome de cada homem letrado de milênios passados que me viesse à mente, mas de todos os milhares de autores, poucos surgiam como idéias, e um branco terrível se formava no meu cérebro.
- Talvez não seja grego nem romano, Artur.
- Não conheço escritores antigos que não sejam gregos ou romanos! – Eu começava a me desesperar de verdade, se fosse um escritor de alguma cultura pouco valorizada pelo mundo ocidental, onde vivi toda a minha vida, não haveria nenhuma chance de sobreviver.
- Eurípedes, Confúcio, não sei se são escritores, ah, Herá. – Foi interrompida antes de poder pronunciar o nome do filósofo da natureza Heráclito, ela demonstrava não saber nada sobre literatura, mas podia citar filósofos.
- Muito bem, Eurípedes, estou surpreso que tenha conseguido.
- Eu também. – Ela suspirou de alívio, ainda tínhamos sete minutos para o último nome, e voltou a se pôr pensativa, não sabia o que se passava na sua cabeça, embora soubesse sobre o que fosse. Me irritou o fato de não ter me recordado de Eurípedes, um dos grandes dramaturgos trágicos da história, melancólico e triste, mas inteligente e crítico, um homem à frente de seu tempo, a descrição da charada se encaixava perfeitamente.
- Esperem, para o Gran Finale, teremos algumas regras extras que dificultarão o processo, vocês não ter dica e só poderão dizer um nome, sintam-se livres pra discutir um com o outro sobre suas suspeitas e depois declarem quando tiverem certeza, esse negócio de ir falando até acertar me lembra algum daqueles programas de auditório que comem o cérebro dos americanos modernos. – Se referiu com desdém à programação de TV dos Estados Unidos no século XXI, mas não faço idéia de que programa em específico ele tinha como alvo da crítica, e definitivamente, eu tinha mais com o que me preocupar.
- A forma mais egoísta e distorcida de altruísmo e justiça. Luna, o que você acha? – Já estava começando a tremer, o sangue aquecia-se ao ponto de causar dor, uma intensa dor, um envenenamento quase que natural, aquela sensação absoluta de agonia me percorria em cada veia, artéria e capilar do corpo, e sentia a pressão aumentar, assim como minha cabeça, que parecia ser espremida de dentro pra fora, era cada vez mais difícil pensar em algo, em qualquer coisa. Mas sabe-se que quando o ser humano não tem opção ele supera os seus limites, assim como Luna já me dizia há tempos, tive que pensar mesmo com toda aquela dificuldade gerada pela dor.
- Como altruísmo pode ser egoísta? Como? –Falava agitada, sentia a mesma dor que eu, talvez mais. – A forma egoísta de justiça é a vingança, a gente sabe disso, está bem claro. Mas de altruísmo? Vingança altruísta? Egoísmo altruísta? Pense comigo, pense comigo.
- Vingança altruísta. – Tínhamos que pensar juntos, talvez não desse certo, mas quando se tem tudo a perder com o recuo, avançar diretamente até o risco é a melhor opção. – Vingança, justiça, fazer o mal a alguém que te fez mal, e com essa punição eliminar ambos os males, punir o mau em nome do bem geral, um ato de altruísmo, de justiça severa. Espera, do que eu estou falando?
- Se acalma, faz sentido. E se é uma punição egoísta e distorcida, só precisamos pensar em que forma de distorção é essa. O que seria uma punição distorcida?
- Uma punição injusta, estamos falando de uma punição injusta, tenho certeza disso agora. Relacionemos isso ao altruísmo e conseguiremos a resposta, precisamos passar por cima desse paradoxo. – Eu já me jogaria no chão de dor se pudesse, mas ainda estava preso, meu sangue já estava se aproximando de uma fervura. Uma tortura lenta e implacável vinda de dentro!
- Altruísmo, ato de se importar com os outros, de quer o bem com os outros. – Começava a fazer caretas para conter a dor que a arrasava, já eu mastigava minhas próprias mãos para tentar esquecer, não do modo canibal, obviamente. - Altruísmo distorcido é uma variação contrário do altruísmo tradicional, ao invés de se fazer bem, se faz mal, é gostar de fazer mal aos outros, de se compensar as próprias frustrações punindo os outros por estarem no lugar errado na hora errado, fazê-los sofrer, fazer da crueldade a sua justiça. – Falava o mais rápido que conseguia sempre se fazendo por entender, embora sua voz já perdesse o seu tom original, agora pintada com uma animalesca agonia, a dor apenas crescia, e a contagem regressiva alcançava vinte segundos, logo morreríamos, não sei como consegui não gritar enquanto sentia minhas hemáceas começarem a borbulhar. Apreciar o sofrimento alheio e considerá-lo uma forma de justiça, essa doença distorcida, a conheço bem, é o.
- Sadismo. – Completei.
- Sim, rápido, pense no autor! – Fechou os olhos, vinte segundos restante.
- Sadismo, sádico, qualquer um, não, sadismo, Sadismo. – O imenso redemoinho de nomes se misturava à tempestade de sensações desagradáveis que sentia, tanto físicas quanto psicológicas, mas o nome lógico viria em seguida. Sádico, Sade-co, Sade... Marquês de Sade! –Quatro segundos e o relógio parou a contagem, pausa. Não deu tempo dele falar qualquer coisa, livre, Luna o agarrou com duas extensões, envolvendo todo o corpo, menos a cabeça.
-Pára, pára, eu posso ajudar vocês. – Ele falou com tanta calma que eu que me espantei.
- Não sei se te mato ou não, você merece, mas talvez tenha utilidade pra nós, deve saber de um monte de coisas.
- Eu não posso contar, nós os sete escritores somos os servos oficiais dele, temos um contrato oficial que causa nossa morte instantânea se dermos qualquer informação não autorizada sobre o grupo ou sobre ele.
- O que? E essa informação que você acabou de dar é autorizada? Vocês são estúpidos? – Ela o aproximou do próprio corpo, ele estava imobilizado, apertou-o mais, a força ficou clara nos gritos que Poe deu.
- É sim, exatamente para esses casos, se tivermos que contar esse detalhe para não precisarmos contar o que não podemos, o chefe pensou em tudo.
- Sinceramente, você pensa que eu tenho quantos anos? Doze? – A menina fechou mais o olhar, mas não estava brava, estava séria, dura e severa, se não fossem as circunstâncias, eu teria tido pena de Allan.
- Aparência de doze, só que não estou mentindo!
-Então eu realmente terei que fazer algo pra tirar a prova de que você não está mentindo. – Ergueu a ponta do lábio, acho que seria ingênuo chamar aquele movimento de sorriso, mas seu olhar se mostrava tão determinado que chegava ao extremo do cruel, transparecia todas as suas intenções e idéias, todas os métodos que conhecia e poderia usar para alcançar a verdade naquele contexto. Olhos castanhos que pareciam mais escuros, não na parte castanha, mas na branca, ainda não estava como quando havia enfrentado os ditadores, monstruosa, mas talvez eu pudesse afirmar que o estado atual fosse ainda pior do que o anterior, porque antes ela apresentou todos os sintomas da ira, um mal emocional, mas no exato momento em que nos encontrávamos agora não havia um único sinal de raiva, apenas de uma frieza seca, uma indiferença prodigiosa a toda forma de misericórdia ou remorso. Stálin, Mao TséTung e Hitler, ela os odiava verdadeiramente, conhecia os males de uma ditadura, pelos meus cálculos, teria vivido na época em que Napoleão expandia seus territórios, incluindo a Itália de Luna, talvez o que ela presenciou nesse período da história, que desconheço, não tenha servido para que tivesse alguma ou qualquer forma de simpatia por governante absolutos, então a sua raiva naquela situação já passada não era mais do que uma prova de humanidade, de um vício humano e emocional, a raiva, mas agora, à sangue frio, mostrava um vício muito pior, típico dos répteis rastejantes quando devoram algum passarinho desapercebido. Mas eu não queria que ela fosse um réptil.
- Luna, pára! – Peguei no ombro dela, ela me olhou, surpresa, e finalmente pude ver alguma emoção voltar a seus olhos, ela não era um réptil afinal.
- Quer deixá-lo viver?
Capítulo 15 - Iniamigo
- Sim, acho que talvez te faça bem. Sabe, eu não quero ver seus olhos vermelhos novamente. A voz veio em seguida na minha mente: - Bom trabalho, agora é com vocês, tomem a liberdade de fazer o quiserem com esse verme americano.
- Mas a gente precisa que ele confesse. – Mordeu os lábios.
- Obrigado garoto, você é um bom menino, diga a ela que não me mate.
- Como pretende que ele faça isso? Tem certeza de que ele está mentindo?
- Sim, eu tenho, ele é esperto, se mentisse pra um espírito novato, como você, seria difícil duvidar.Eu vou torturá-lo, fazer com que sinta as mais perversas sensações que se é possível sentir, ele implorará pela morte ou pela redenção, e fará qualquer coisa para que eu pare, assim, conseguirei a informação que desejo e poderei deixá-lo vivo ainda assim.
- Você não entende que se Belzebu me considerar um traidor, qualquer crime que você possa cometer contra mim irá parecer cócegas? Ele é mau, você, Luna, sabe o quanto ele é mau, mas não sabe o quanto ele é mau com traidores, nem poderia imaginar.
- Você não sabe o quanto eu fui má também. Vamos, me diga, faz quanto tempo desde que eu e eles nos encontramos? Acha que fiquei parada o tempo todo? Aprendi muito com ele, e você, com certeza, iria preferir que eu e ele nunca tivéssemos cruzado nossos caminhos. Pode ser que ser punido por ele seja a pior opção, mas pense comigo, se eu não conseguir o que quero, você sofrerá até falar, se não falar, não vai parar de sofrer, mas se falar, ficará livre e poderá cometer suicídio, evitando assim uma retaliação posterior de Belzebu.
- Vejo que não tenho escolha. – As ameaças funcionaram bem, aquele resquício de emoção que eu havia visto quanto Luna me fitou sumia completamente quando ela negociava. – O que quer saber?
- A história dos sete escritores, como se tornaram os sete escritores?
- Eu não sei qual é a história dos doze escritores, juro por Deus, nós não costumamos falar sobre nossa vida espiritual antes de Belzebu, apesar de gostarmos de discutir literatura e sobre nossas vidas terrenas.
- Conte a sua, e não pense em mentir, eu saberei.
- Luna, como você faz pra saber se ele tá mentindo ou falando a verdade?
- Depois eu te ensino como fazer, não é tão difícil, mas não funciona em qualquer um.
- Eu estava aqui, na Floresta dos Alienados, foi pra onde eu fui depois de morrer, e eu vivia nessa floresta com um monte de vizinhos interessantes e até divertidos, mas essa não era a vida que eu realmente desejava, na Terra eu era um grande escritor, aqui eu não sou nada. Não fui realmente feliz, nem infeliz, posso afirmar que estive exatamente em um estado de felicidade mediana, mas um dia Belzebu apareceu nesse santuário de loucura e natureza, nos encontramos, conversamos e ele me ofereceu um “emprego” de Membro dos Sete Escritores. Ele me explicou o que seria isso, já que eu achava que se trataria simplesmente de escrever, mas não, os Sete Escritores é um grupo de espíritos treinados por Belzebu para serem capazes de criar ilusões, eles funcionam como seus guarda-costas e fazem algumas tarefas, e em troca ele oferece todo tipo de vantagem e privilégio. Pra mim ele ofereceu a liderança da Floresta dos Alienados, pedi que não matasse o antigo líder, Ivan Grozny, então ele apenas o expulsou daqui e me colocou em seu lugar, se eu mando aqui e ninguém vai contra mim, pode ser até ser porque me respeitam, mas é mais porque temem Belzebu.
- Por que precisavam ser sete escritores? Não podiam ser pintores. – Perguntei.
- Belzebu queria que fossem escritores porque, na opinião dele, não há outro tipo de homem que tenha uma capacidade maior de criar, imaginar, enganar e de iludir do que um escritor, de criar uma fantasia, um mundo novo, e de convencer os outros de que a ilusão é real. Portanto, nós os escritores seríamos o grupo perfeito para aprender as artes dele. Nós não éramos sete inicialmente, na verdade, quando tudo começou, só havia um escritor, e os outros foram sendo adicionados à medida que nosso líder encontrava os dignos de serem contratados. Muitos morreram ou saíram, ele nos permite sair do grupo, mas exige que abramos mão de todos os privilégios obtidos, então é difícil que isso aconteça. O único membro que está nos Sete Escritores é o Eurípedes, e o que completou o grupo como sete realmente foi o Marquês de Sade, eu substituí um escritor que saiu do grupo, um jovem chamado Álvares de Azevedo. É isso, não tenho mais o que falar.
- Ah, tem sim. – Luna afirmou, balançando a cabeça negativamente. – Sabem que um bom soldado é aquele que conhece os inimigo,s quando um deles é capturado, o primeiro segredo que lhe será cobrado através da tortura é a estratégia de seu exército, nada melhor que informação. Naturalmente, você nos vai nos ensinar as ilusões que a ti foram ensinadas por Belzebu, e espero que também trate de ensinar como combatê-las, seus pontos fracos e tudo mais que nos for necessário? Capiche?
-Eu sou o mais condenado dos espíritos! Me solte, não posso ensinar assim. Não, melhor, faça um contrato, Luna, podemos fazer um contrato e assim eu ensino com certeza e você poupa minha vida. – Dessa vez suas palavras se direcionavam exclusivamente a ela, me perguntava o que seria um contrato, mas não retive a dúvida.
- Luna, o que é um contrato?
- Uma pergunta um tanto complexa, mas útil e necessária. – Sorriu e passou suas mãos aparentemente tão suaves no meu pescoço, roubando um gentil beijo nos lábios, talvez fora de hora, mas tal agradável e terno como o primeiro de uma vida. – O contrato é uma das leis que regem o mundo espiritual e permite que haja uma certa convivência pacífica entre aqueles que aqui habitam, é uma forma formal de trato feito por duas ou mais, mais esse que pode chegar a milhares, e que não pode ser quebrado em nenhuma condição. O funcionamento infalível do contrato nunca foi explicado nem mesmo por Deus, ninguém o compreende realmente, mas o importante é que funciona, esse fenômeno ocorre quando uma pessoa faz uma proposta, e com um papel escrito, uma espécie de documento, escreve todos os termos que ambos os negociantes deverão seguir. Uma vez que todos os termos e exigências tenham sido definidos, os dois contratantes devem assinar seus nomes atuais, quando ambos terminarem de assinar, devem apertar a mão um do outro, selando o contrato. Como eu disse, é uma explicação um tanto complexa, no contrato existem dois tipos de termo: compromissos e exigências, geralmente são os mesmo para ambos os contratantes, mas não necessariamente, o contrato vai ser escrito por uma só pessoa, então ele escreve as exigências do outro na forma de compromisso de si mesmo, e vice-versa, a exigência é o que um contratante exige do outro, e o compromisso é o que se é exigido fazer ou não fazer ao escrever o contrato. E existe ainda uma última parte chamada quebra de contrato, que é uma punição imposta a quem não seguir fielmente os termos, geralmente é muito severa, muitas vezes a morte instantânea. E não adianta o que se faça, um contrato só pode ser quebrado se todas as partes envolvidas aceitem cancelá-lo em total acordo e concórdia, nem Deus pode desfazê-los por vontade própria, e o incrível é que não importa o que esteja escrito na punição, se você escrever “o espírito virará uma mosca”, ele virará se desrespeitar as regras, e nunca mais poderá se redimir, é como uma força onipotente fosse responsável pela manutenção do contrato, uma força universal e infinita. – Fez uma pausa. – Mas alguns contratos são temporários, e assim que têm suas condições satisfeitas, perdem o efeito.
- Incrível.- Estive boquiaberto, era difícil acreditar que existisse uma força tão poderosa em nosso universo, e tão aparentemente racional, sistemática, eficaz. Parecia bom, até divertido que fôssemos capaz de impor regras impossíveis de ser quebradas sob qualquer condição, mesmo que isso pudesse ser assustador por um certo ângulo. Aquele jogo que Edgar criou para tentar nos matar, aquilo é uma forma de ilusão avançada combinada com um contrato, pode-se fazer qualquer coisa anormal em uma ilusão dessa, desde que haja alguma chance da vítima passar pelo “teste”, mas quanto mais poderoso for o criador da ilusão, mais difícil o jogo poderá ser.
- Faça as suas regras, mas seja justa, só não quero morrer, nem por sua causa nem pela dele! E se querem saber, jogos são os métodos principais usados pelos sete escritores, eles testam, enlouquecem e matam suas vítimas, só que é bem mais difícil fazer com a Luna, porque ela...
- Certo. – Luna o interrompeu, um documento surgiu em sua mão, começou a escrever.
- Eu, Luna, aceito assinar este contrato com Artur Leon e Edgar Allan Poe, em troca da total fidelidade do último aos dois primeiros, ele receberá o direito de se esconder na mente de Artur por tempo indeterminado, desde que não causa danos, caso Allan pratique qualquer ação que prejudique ou possa prejudicar os outros contratantes, será queimado por uma semana e morrer após o período, qualquer outra infração por parte de qualquer um dos contratante é uma morte semelhante. – Soltou o nosso refém e entregou-lhe o contrato. – Vamos, apresse-se. Uma caneta surgiu em sua mão e ele assinou, ele me entregou e assinei também, em seguida o papel desapareceu de forma que pareceu que se evaporou, o que me surpreendeu. Luna previu minha pergunta.
- Uma vez assinado, o contrato desaparece, quer dizer que está pronto, mas só entra em vigor quando os membros apertam a mão, exceto nos contratos universais, que sinceramente, eu nem sei explicar de fato, os que regem o universo inteiro. – Ela nos chamou para o aperto de mão triplo, não foi bem um aperto de mão, colocamos nos mãos uma por cima da do outro, como em um grito de guerra de uma equipe de esporte ou escoteiros. – Agora vamos todos pro nosso refúgio coletivo. Sabíamos todos o que fazer, fechamos os olhos, ainda tocando uns nos outros, e quando abrimos nossas pálpebras, estávamos novamente naquele celeiro, com a vista para aqueles campos produtivos e o céu vazio.
- Agora suma daqui, quero um tempo a sós com Artur. Allan concordou e foi embora correndo, aproveitaria a sorte de ter conseguido proteção, mas a aproveitaria na sua “liberdade condicional”. Olhei para ela com aquele modo como as crianças admiram seus amores inocentes, e me lancei sobre ela, deitando sobre o corpo dela por cima da palha.
Capítulo 16 - Flagelos
- Luna, como você chama esses seus braços estranhos que são produzidos pelo seu dom?
- Nunca pensei em um nome. Braços, talvez?
- Não, às vezes se parecem tentáculos, braços, muitas coisas, eu acho que podemos criar algum novo que tenha algum significado mais profundo, mais... poético, interessante e digno da raridade deste seu dom.
- Flagelo, seria um bom trocadilho, mesmo que eu não seja bem iniciada nas ciências biológicas.
- Não não, flagelo me lembra aquelas perninhas dos protozoários e você não combina com um protozoário, é indigno, eu prefiro um nome que ainda não foi usado e que tenha um significado realmente poético, posso estar sendo um bobo, mas quero esse nome.
- Flagelo, ao mesmo tempo significa a perninha do protozoário, representando o fato deles serem apêndices do meu corpo, e por carregarem os flagelos, os suplícios dos que eu carrego, eu realmente gostaria de usar esse termo, nada seria mais natural e verdadeiro.
- Flagelos, você escolheu, como sempre. Certo Luna, flagelos, você e seus terríveis flagelos.
- Me desculpe por tal costume. – Me encheu dos mais sinceros beijos. – Gosto de escolher o que me diz respeito, eu realmente odeio que façam escolhas por mim.
- Trauma de quando ainda era viva, não é? Ela não respondeu imediatamente, encostou a cabeça no meu ombro e fechou bem os olhos, imaginei se a lembrança tivesse sido desagradável, e se minha pergunta havia sido inconseqüente e inconveniente.
- Sim, meus pais escolheram como eu viveria, odiei minha vida, e odiei minha morte.
- Luna, toda a sua habilidade com as palavras veio na vida espiritual? É que você não parece muito, pelo jeito de falar, com uma operária pobre do campo. -
- Sim, e você sabe, falar com espíritos que possuem essas habilidades e ler clássicos das ciências humanas e filosofia é de muita ajuda, li Karl Marx, Adam Smith, Eric Hobsbawm Milton Santos, Nietzsche, Voltaire, e tantos outros, eu tenho uma forte inclinação ao comunismo, mas acho que se eu voltar à vida eu não vou me interessar em pô-lo em prática, por mais que minha racionalidade me diga pra buscar o bem comum, a justiça, o meu coração só me oferece raiva, sadismo, violência, indiferença. – Suspirou.
Quanto à presença de S, podíamos senti-la não muito distante, mas não havia dúvida e que ele não queria que fizéssemos nada no momento, estávamos todos em nosso momento de repouso, o intervalo merecido, o estranho é que eu podia sentir essa intenção vinda telepaticamente dele sem que fosse necessário o uso de palavras, do mesmo que em muitos momentos eu me sentia em relação a Luna. Luna, anormal Luna, que obra incomum da natureza ela era, seria uma grande hipocrisia de minha parte dizer que eu não podia ver as más emoções dentro dela, pois eu as via e as sentia, tão claras quanto a luz do Sol, um ser envenenado com um rancor sobrenatural extremamente perceptível, mas era diferente, terrivelmente diferente, pois comigo ela era doce, carinhosa, como nem a mais doce das criaturas, sob o ponto de vista tradicional de doçura e gentileza, poderia ser qualquer dia. Como uma semente que cresce no mais árido e hostil dos solos e produz muitos frutos de qualidade, assim eu poderia perfeitamente ter uma descrição do que era Luna, o amor é tão mais valorizado onde só aparente ser possível o desenvolvimento dos males do ódio e da vingança, o amor de uma odienta vale mais do que o daquela que muito ama, pois o sentimento de exclusividade, de ser a única exceção a uma regra ruim é gratificante e prazerosa, e dá um sabor especial à vida. Sim, de que adianta receber o amor de uma pessoa que o dá a todos que conhece? Tal amor universal ao nível romântico não tem valor, enquanto o amor egoísta e dividido apenas pelo único indivíduo que o recebe, que nesse caso sou eu, é muito mais precioso, uma jóia rara, um oásis no deserto. Talvez o leitor não possa entender tanta devoção de minha parte, mas entenderá quando eu contar acontecimentos que vieram bem antes desses que agora conto, mas que não são relevantes no momento.
- Eu quero que você ajuda, Artur, por favor, eu quero ser boa. – Suas esferas irradiavam desespero, foi como se eu ouvisse vários gritos de dentro delas, gritos sem um único sinal de esperança, o último sintoma da desgraça humana. Senti uma força crescer dentro de mim, Luna visivelmente sofria, e era eu quem deveria ajudá-la, eu precisaria de força para ajudá-la, à qualquer custo!
- Ajudarei, tirarei todo o ódio que você tem. – Selei meus lábios sobre os dela, sentindo aquele já conhecido sabor de ferrugem, que já me agradava devido à mais simples associação. –Você é um demônio afinal, mas não precisa ser, será um anjo, um anjo iluminado, feliz, desenvenenado de todas essas formas de emoções negras, baixas, que tornam a existência tão pesada e infame. – Eu sequer sabia de onde eu estava tirando aquelas palavras, mais tarde perceberia que de informações esquecidas de vidas passadas, que eu não podia realmente lembrar, mas cuja natureza ainda se encontrava imprimida em minha alma.
- Artur, não fica bravo comigo se eu te falar que meu verdadeiro nome é Luna?
- Não? – Aquilo podia não ser de real importância, mas o choque que me causou foi extraordinário. Ela mentia? Por que? Me perguntava dez mil coisas em dez segundos.
- Não me leve a mão, eu morri de uma forma incomum e por algum motivo que verdadeiramente desconheço não tenho lembranças claras da minha vida, outro fato que você conhece, e uma das lembranças que não tenho é do meu nome. Eu não falei agora que meu nome não é Luna, só falei que esse não é meu nome verdadeiro, é o nome que uso por não lembrar o que me pertencia quando eu ainda tinha um corpo físico.
- Entendo. – Fiz uma pausa. – Por que Luna?- A abracei, não importava o nome, não, só ela importava, sob qualquer apelido, aparência, natureza. Luna ou não, mas Ela.
- Passei os primeiros anos da minha morte sem um nome, eu era apenas um monstrinho, mas depois eu encontrei um pouco de razão e comecei a me preencher de conhecimento para compensar a ignorância de camponesa que tanto me incomodava. Quando as pessoas perguntavam meu nome, eu respondia que não sabia, elas começaram a me chamar de Luna por causa do meu dom, lembro-me exatamente de quem foi o primeiro a usar esse nome, Guido de Arezzo, o criador da escala musical, e um bom amigo que nunca me descriminou por causa do dom doentio. Luna, Lua em italiano, um astro que sozinho não brilha, mas que refletido a luz de outro corpo celeste, o Sol, brilha muito e ilumina a noite. Luna porque sozinha eu sou fraca e frágil, mas meu dom me permite absorver a luz,a força de outros espíritos, e usá-las como se fossem minhas, assim como a Lua, que para ter qualquer função ou utilidade precisa da luz do Sol emprestada, a única diferença é que essa luz que tomo para mim não é emprestada, é de fato roubada, para sempre. À cada luz alheia que adiciono à minha própria, menos frágil fraca eu me torno, mais iluminada e forte me torno. – Fez uma pausa, olhava para mim com aqueles mesmos olhos desesperados, mas dessa vez os gritos pareciam mais baixos. – Luna, Lua, sem brilho próprio, alguém que absorve as forças e habilidades dos outros, a única possuidora do dom, eu aceitei o nome como meu. Lu... na.
- Lu-na. – Repeti o nome. – Então seu verdadeiro nome é um mistério? Como podemos descobri-lo?
- Não sei, se eu soubesse ia tentar descobrir, não é importante de verdade. Quero dizer, posso viver sem saber com que nome eu vivi na terra, é coisa do passado, mas a gente sempre quer conhecer melhor o passado. Luna de Arezzo, por ter sido Guido o meu “padrinho”, me foi permitido usar o sobrenome dele como se fosse meu, bem, é como se ele fosse meu pai.
- Ele ainda está vivo?
- Sim, ele está vivo
- Depois que matarmos Belzebu podemos procurar descobrir mais sobre seu passado, seu nome, quem você era com detalhes, como tudo aconteceu.
- Sim, não sei como, mas podemos tentar.
Conversamos por alguns minutos, creio que, pela minha percepção de tempo, mais ou menos meia hora, tempos agradáveis e tranqüilos, assuntos pueris e inocentes, inofensivos e de modo algum incômodos, e sim o que se fala quando se está em uma mesa com amigos.
Capítulo 17 - Os Sete Escritores
S surgiu para interromper nosso repouso, vinha vestido com algo que parecia a vestimenta de um coronel da República das Oligarquias brasileira. Me levantei, Luna continuou sentada no chão, e fechou os olhos para não ter que vê-lo, não estava para conversa com ninguém além de mim.
- Crianças, então vocês já descansaram o bastante. Podem me mostrar a lista que Poe lhes deu?
- Não anotamos nada, apenas temos os nomes. – Respondi.
- E quais nomes são?
- Dois mortos: Goethe e Lord Byron. Um do nosso lado: Allan Poe. E os que importam: Monteiro Lobato, Marcos Rey, Eurípedes e Marquês de Sade.
- Bem, me expliquem exatamente o que aconteceu, a informação obtida por telepatia à distância não é tão boa quanto a dita cara à cara.
- Esses são os Sete Escritores, são servos de Belzebu e têm habilidades de criar e controlar ilusões, enganar os sentidos, inebriar a percepção de outros. Por que nossa ligação telepática falhou quando mais precisamos de você?
- Vocês foram presos em uma ilusão, isso é como levar um celular para dentro da terra, não há nenhum sinal ou possibilidade de ligação. O mais natural seria eliminar um a um, mas poderia ser demorado, ainda que fosse muito útil para treiná-los para a verdadeira batalha contra o Senhor das Moscas. Ainda assim, eu sei o que vocês devem fazer, confiem em mim sempre e não terão nenhum problema com o qual não sejam capazes de lidar.
- O que nos sugere?
Luna se mantinha em silêncio, sentada no chão ao meu lado com um papel em mãos, escrevendo, não o possuía antes da chegada de nosso suposto protetor.
-Faça com que a menina Luna absorva cada um deles, incluindo o Poe, que vocês dizem ter passado para o lado de vocês.
- Fizemos contrato, não podemos machucá-lo ou fazer qualquer mal a ele.
- Mas eu posso. – Olhou para trás, procurando onde Poe estaria metido.
- Não atrapalhe, ele não pode quebrar o contrato também, então nos será útil. Mas posso absorver os outros sem problemas, não pretendo fazer mais contratos, excesso deles é um problema muito irritante. – Ela respondeu de má vontade, sem parar de escrever.
- O que está escrevendo? E de olhos fechados, que habilidade!
- Só pra não correr o risco de esquecer. – Levantou-se e entregou a folha ao árabe.
“ Edgar Alan Poe – Loucura
Lord Byron – Luxúria
Goethe – Ganância
Monteiro Lobato – Orgulho
Marcos Rey – Violência
Eurípedes – Tristeza
Marquês de Sade – Sadismo”
- Preciso admitir que esse Belzebu tem bom gosto artístico, isso soa como uma verdadeira poesia.
- Você deve querer dizer poema, seu ignorante literário, nem fale como se entendesse disso.
- Sempre tão mal humorada, tão talentosa e tão grosseira. Mas se for para agirem de maneira inteligente, devem começar com Monteiro Lobato, não sei se colocaram a lista nessa lista de propósito, mas não tenho nenhuma única dúvida de que um inimigo orgulho será o menos assustador, e um inimigo sádico seja o último obstáculo que vocês devem enfrentar.
- Sabe onde algum deles está? – Concordava com as palavras dele, de fato um orgulhoso deveria ser menos problemático que um sádico, mas pior seria uma combinação de ambos os vícios, característicos aos tiranos mais violentos da história, como Xerxes e Vlad Tepes.
- Sei que o Marquês geralmente está no Círculo do Sadismo, mas entrar lá seria suicídio. Claro, as pessoas andam de um lugar pra outro, poderiam encontrar em qualquer ponto do universo. Os outros eu desconheço totalmente tanto o nome quanto a moradia mais comum, mas se vocês souberem algo, posso ajudar a descobrir pessoas que possam informá-los apropriadamente.
- Não é necessário, dessa vez deixe por minha conta. Eu sei como encontrar Monteiro Lobato.
- Se sabe, não devo ter mais nenhuma utilidade no momento, despeço –me de vocês, se comuniquem por vias telepáticas se for necessário.
- Espera. Só por mera curiosidade: Onde você passa o tempo em que não está conosco?
- Bem, gosto do Círculo dos Cientistas, onde Einstein reina, e também tenho os Salões dos Números como um local de apreço, lá estão reunidos os grandes matemáticos da história, e tem um árabe como líder: Abu Rayhan al Biruni, um dos homens mais brilhantes que já colocaram seus pés no mundo dos mortais!
- Bom, pode ir então, a gente se vira daqui em diante, como sempre.
- Claro. – Estalou os dedos e desapareceu.
Virei para a garota, ela se agarrou no meu braço e encostou a cabeça no meu ombro.
- Onde você vai encontrar o Monteiro?
- Um escritor brasileiro, vamos perguntar pra Dante Alighieri, dessa vez o verdadeiro.
- S é amigo dele, por que não pediu que ele perguntasse por você?
- Bem, bem, eu realmente quero conhecê-lo,nem sei porque ainda não conheci.
- Então pedisse para que eles nos levasse e apresentasse, oras! Luna, você está sendo infantil por querer eliminar a ajuda do S. Não devo chamá-lo?
- Eu não confio nele, você sabe, se tem uma frase que define o mundo é essa: Você é seu único amigo.
- Mas eu sou seu amigo e você é minha amiga. Você tem alguma dúvida disso?
- Você está se tornando mais confiante, isso é tão bom, não brigaria comigo assim antes. – Sorriu com um jeito fraco e impotente.
- Apenas responda a pergunta. – Tentei não sorrir, mas fiquei satisfeito com o comentário.
- Eu não consigo confiar em S, ele é ruim comigo! Talvez minha desconfiança se baseie apenas na antipatia e não na racionalidade. Não, com certeza é isso, eu sou uma emocionalmente desequilibrada que baseia seu julgamento nas suas simpatias e antipatia, no que sente e não no que pensa! Estou errada, eu definitivamente estou errada. Vamos chamar o S. – Se apertou bem mais contra meu ombro, olhava com o canto do olho, irritada, frustrada, mas com a ciência de estar assumindo a verdade.
- Isso economizará tempo pra nós. – Fechei os olhos e me concentrei no ruivo, mandando a mensagem. “Venha até aqui e nos leve até Dante Alighieri, Luna acha que ele pode nos levar até nossos adversários.”
Veio em um par de segundos, em pé à minha frente.
- Ótimo, então vocês finalmente começaram a raciocinar, o caminho mais curto, o caminho mas eficaz.
Trocamos algumas palavras sem importância entre os três e de mãos dadas nos teletransportamos até o Círculo dos Poetas. Ele nos guiou para uma construção de pedra muito semelhante a uma pirâmide asteca, o interior era escuro, mas a luz exterior permitia que víssemos a escadaria que levava a algum lugar subterrâneo, que já estava tão distante que se escondia sob a escuridão total. Fomos descendo com cuidado.
- Assustador. O Dante mora aí em baixo? – Me segurava nas paredes enquanto ia descendo os degraus escuros.
- Não está pensando que é uma armadilha, não é? Haha. – Uma chama surgiu em sua mão, flutuando a alguns centímetros da pele, e iluminou todo o local, a dimensão da escada ficou finalmente visível, pois ainda faltava tanto para o local de chegada que na frente ainda se viam mais e mais degraus.
- Então você tem controle sobre o fogo, bom saber. – Ficava melhor descer com luz.
- Por que um poeta tão grandioso mora em local tão sombrio? - Luna estava de braço dado comigo, eu mais me apoiava nela do que o contrário, apesar de ser maior.
- Você verá, é só ter um pouco de paciência na nossa descida.
Andamos muitos degraus até vermos o fim das escadarias, que levavam a uma luz branca semelhante à de lâmpadas comuns, finalmente chegamos até lá e pude entender o que ele queria dizer com “você verá”. Era um local magnífico e belo, semelhante aos mais luxuosos palácios, era um salão extenso que, ao invés de paredes, tinha estantes cheias de livros suportando o teto, deviam existir milhões de livros lá, a mobília era fantástica, os mais luxuosos, confortáveis e grandes sofás, mesas e cadeiras, tudo para permitir uma ótima acomodação para a leitura. Poucas pessoas em muito espaço, cerca de oito delas em todo o local, todas bem ajeitadas lendo ou escrevendo, reconheci Dante assim que o vi, escrevendo com uma pena em um caderno muito grosso, ergueu os olhos para nós quando chegamos, levantou-se e veio andando em nossa direção, os outros possíveis poetas sequer deram atenção.
- Dante Dante, sempre assim, concentrado em seu trabalho. – S chamou risonho quando o poeta já estava próximo.
- Grande Samael, como é bom vê-lo! Desde que você me levou ao Inferno que eu não te vejo. Mas fiquei sabendo que há tempos conseguiu virar um anjo, isso me deixou realmente feliz. Quem são essas crianças? – Dante sorria pro velho amigo, acabou revelando, talvez, o possível nome de S. Samael... pela memória disponível naquele momento era o anjo da morte, talvez não estivesse me recordando bem, ou me confundindo.
- Samael, é esse seu verdadeiro nome? – Luna pareceu levemente assustada, se soltou de mim. O que o nome significa? Tinha que me lembrar...
- Artur, meu protegido, e Luna, a monstrinha que o acompanha, estamos em uma peleja contra os vis Sete Escritores. Conhece eles? – Ignorou-a completamente.
- Me. – Ela ia gritar quando tampei sua boca, então tentou se acalmou.
- Ela parece não gostar muito de você. Luna é um nome muito bonito. Mas o que vocês querem lutando contra os Sete Escritores? No que querem minha ajuda? Você sabe, S, qualquer coisa que for possível fazer contra esses criminosos que sujam o nome dos poetas e escritores. – Mantinha o sorriso com completa simpatia, fixando seu olhar em Luna.
Destampei a boca dela, que deu um suspiro de quem quer falar mas não pode, e que mesmo não podendo, fala: - O que os Sete Escritores representam para você, Dante Alighieri. Aliás, sou uma grande admiradora sua, me chame Luna de Arezzo, sou da mesma nacionalidade que você, e tenho que agradecer por ter tornado nossa língua tão bela.
- Obrigado pelo apreço, é bom saber que ainda me lêem. Os Sete são pessoas que servem ao demônio Belzebu, uma das criaturas mais odiadas por todas em todo o universo, eles usam de nossa arte para fazer o mal, espalhar a injustiça e impor sua tirania, é por isso que nós, escritores honestos, os odiamos com todas as nossas forças.
- E eu os odeio porque estão no meu caminho para a verdadeira felicidade, quero cada um deles morto. Não, não cada um deles, pois já derrotamos Edgar Allan Poe, e ele está sob nosso controle e pode ser considerado como um aliado, e nós já assinamos contrato de não agressão com ele, sob punição de morte para a queda. E com nós eu quero dizer Artur e eu, e mais ninguém. Então, falando de mim, eu quero que me informe sobre a possível localização de Monteiro Lobato, um dos Sete Escritores.
- Na verdade eu nem sei quem são os Sete Escritores, só sei do Marquês de Sade e do Lord Byron, que são muito barulhentos e não sabem esconder, mas os outros são discretos, mas sabemos que eles existem e fazem o mal.
- Não sabia de Monteiro Lobato?
- Não, mas eu sei que ele se encontra nesse mesmo círculo onde eu moro, não sei se ele está aqui, mas sei que é um morador assíduo. Tenho uma lista dos moradores oficiais, e ele é um deles, mas ele geralmente fica em uma área à parte desse círculo.
- Qual?
- O chamamos comumente de Teatro dos Bonecos. É um grande teatro em que escritores se reúnem para discutir o rumo da literatura na Terra, e alguns deles se organizam para voltarem à terra para psicografarem novos livros, é de lá que J.W Rochester tirava as idéias para seus livros póstumos psicografados. Lá Monteiro Lobato é um dos mais críticos críticos, e é conhecido por isso, mas acho que ninguém sabia que ele seria um dos Sete.
- Estrada de Éolo, Samael, você disse que deveríamos ir para lá? Pra que você disse isso? Ainda me lembro, então não venha com ladainhas. – Luna começou a perguntar, não gritava, mas o tom de sua voz era a mais perfeita agressão verbal.
- O que? Do que está falando, Lunática?
- Aquela listinha. Pela ordem estava tudo certo até agora, mas você não falou de nenhum Teatro dos Bonecos, mas sim escreveu sobre uma Estrada de Éolo. O que é? – Se virou pra Dante. – Poeta, o que é? O senhor sabe?
- Estrada de Éolo? Que coisa feia, Samael! A Estrada de Éolo é um dos caminhos no Castelo das Mentiras, um dos locais mais anormais que existem. Uma grande fortaleza m que espíritos capazes de criar ilusões se reúnem para comemorar a loucura e a mentira, Estrada de Éolo é a um corredor imenso em que Éolo, o grande deus dos ventos, reina, usando de seus ventos para produzir ilusões totalmente realistas na mente de quem passa por lá, a cada vinte pessoas que passam por esse corredor, apenas uma não sai louca e totalmente insana. Se vocês foram lá, não saem vivos.
- É um local possível para se encontrar informação sobre Belzebu! Ele é um mestre das ilusões, e o Castelo das Mentiras é um império de ilusões. Como poderia ser mais natural?
- Ele não está mentindo, minha jovem, nessa situação, lá seria o primeiro ponto a se explorar, mas seria uma atividade de extremo risco, e não poderia ser feita sem preparação.
Puxei o braço da garota barulhenta: - Então pare de discutir, vamos nesse teatro e vamos exterminar Monteiro Lobato. Senhor Alighieri, como achamos esse lugar?
- Ah, esperem, vou desenhar dar um mapa pra vocês. – Correu até uma das estantes que formavam a parede e pegou um papel bem dobrado, me entregando.
- Obrigado, senhor Alighieri, e eu, assim como essa minha linda companheira, também li sua Divina Comédia, e a achei realmente fascinante, apesar de não ser católico.
- Ah, fique bem tranqüilo, ninguém aqui continua sendo católico. – Riu-se.
Então vamos, crianças. Obrigado,Dante, meu velho amigo. – Apertou-lhe a mão e foi subindo as escadas, e o seguimos, cada um com suas próprias despedidas ao grande poeta que havia sido tão gentil e atencioso. O caminho de subida pareceu ainda mais longo que a descida. O mapa era claro e detalhado, indicando a localização de cada local e suas subdivisões, o Teatro dos Bonecos ficava em um dos extremos do Círculo dos Escritores, foi a primeira vez que vi o fim de um plano, além do qual não se podia ir, era como um imenso vazio escuro, uma parede além da qual não se podia passar, mas que também não se podia sentir, como uma força que segura sem ser percebida, um campo de força instransponível diante da visão, não do vácuo ou do vazio, mas do completo nada, ausência de espaço, onda ou matéria. Já dentro do Teatro pude entender o porque do nome, havia um grande palco onde dois escritores que reconheci faziam uma apresentação com marionetes, mas sem esconder seus rostos: Cecília Meireles e Bukowsky, os bonecos que interagiam eram um pirata e um peão de rodeio, sendo portanto, obviamente, uma apresentação de comédia ou semelhante.
- Bom, crianças, vocês sabem que se eu estiver com vocês ele irá fugir, então, até logo.
- Espera, acha que vamos ter muita dificuldade com ele?
- Sim, mas devem sobreviver, especialmente se forem racionais. Me despeço. – E desapareceu.
- Você consegue reconhecê-lo? – Luna me perguntou, apertando minha mão.
- Sim, mas ainda não vi. – Passei o olho nas pessoas ao alcance da minha visão, nenhum Monteiro Lobato, puxei minha companheira mais adiante, procurando entre aqueles que estavam além do palco, a maioria estava sentada discutindo em mesas, ou assistindo o espetáculo de trás, em uma posição pouco privilegiada, enxerguei o escritor sobrancelhudo que discutia com um gordo careca, o careca era Winston Churchill, e o sobrancelhudo não era ninguém mais ninguém menos que Monteiro Lobato, nosso alvo.
- Senhor Monteiro Lobato, sou Adenor, brasileiro, seu admirador. – Inventei um nome falso para que, talvez, não percebesse à primeira vista quem éramos. – E esta é Consuelo, uma mexicana muito gentil que é minha namorada.
Ele ergueu suas enormes sobrancelhas para nós, o olhar era rígido e severo, e quando percebi, já não estávamos mais naquele local, mas em um cubículo de paredes brancas, iluminado por uma luz avermelhada que vinha de lugar nenhum.
- Luna e Artur, alvos em potencial. Não sei como me descobriram, mas não seria interessante se os outros escritores soubesse que sou da organização de Belzebu. Ele vai premiar muito bem quando estiverem neutralizados.
A ilusão foi criada, o dramático jogo que seríamos obrigados a jogar. Que regras desequilibradas e maldosas deveríamos seguir? O cenário era terrível, nos encontrávamos no topo de um torre de pedra, a alturas que desafiavam a engenharia humana, imagino que o equivalente a um prédio de mil e duzentos andares. Lá em baixo a visão era das mais perturbadoras: centenas, talvez milhares, de pessoas de pura pele e osso, magras ao extremo, com faces cadavéricas, que, por algum motivo, podiam ser vistas mesmo da distância em que nos encontrávamos. O corpos se amontoavam, choravam, gritavam, acreditei estar no Inferno, a agonia dos sons que aqueles pobres miseráveis emitiam eram mais dolorosos que muitas dores severas. Desespero, foi exatamente esse o sentimento que me contagiou em cada célula do meu corpo astral, frio, perverso, intenso, uma toxina silenciosa e paralisante, e aqueles poucos segundos ao som exclusivo da sinfonia dantesca demoram alguns dias, até que meu transe fosse quebrado pela voz de Monteiro Lobato,e eu percebesse quem estava ao meu lado e à minha frente, ela e ele respectivamente.
- Luna, Luna, Luna, a senhorita é demasiada forte e realmente perigosa, se sair daqui, me matará e me fará em pedaços com a maior das facilidades, e com possível prazer sádico, violência desnecessária porém deliciosa. Como a senhorita pode encontrar tanto prazer na dor? Tens demência ou algum problema semelhante? Essas são as perguntas que faço mas sei que não saberás responder, senhorita Luna, portanto, essa dinâmica que faremos irá testá-la, e se for aprovada, eu morrerei, sem dúvidas, mas terei minha resposta.
- Não, eu estou sentindo, você é muito maior que isso. Quem é você na realidade? Antes não, mas, agora há um cheiro que me lembra o meu em você ... urina, sangue, couro, e ferrugem... e mais umas coisa... madeira úmida junto a algum tipo de cola, isso é nojento. Seu jeito de falar, ele mudou, agora seu sotaque não é de um brasileiro como antes, assim como o seu odor que agora é insuportável. Você é outra pessoa agora, mas de fato era Monteiro Lobato antes de criar essa ilusão. Ou é essa a sua ilusão? Mas sinto tão bem que estou certa! Como posso estar errada do fundo de minha alma? – Minha companheira declarou em voz alta, em um tom inconvenientemente tranqüilo, tentou sair do lugar, mas seus pés estavam presos em grilhões, que só percebi no momento em que não saiu do lugar, puxado pelo metal. Ela grunhiu e tentou utilizar seus flagelos, mas sequer saíram, presos dentro das Regras do Jogo.
- Tão hábil em sentir, tão incapaz na arte de pensar! Uma poeta em pessoa, será que tu já desvendaste minha primeira pergunta então? Eu deveria mentir, sim, deveria, mas não o irei, mentiras não me agradam e cheiram a sepulcro. Ofereço então a minha mais pura sinceridade, analisada hermeticamente por todo o meu espírito e racionalidade para evitar confusões ou ambigüidades. Não sou Monteiro Lobato, não de espírito realmente! O corpo dele é meu, meu brinquedo, meu avatar, e não vejo nenhum problema em confessar, gosto de como soa um jogo em que os participantes conhecem seus perigos e também seus mais íntimos detalhes! Será a nossa brincadeira de criança. Que diferença fará para vós que tenhais conhecimento de minha situação? Saber que sou um espírito possuindo outro espírito, usando-o como seu marionete, de que adianta? De nada, só as regras de meu jogo adiantam de alguma forma!
- O que você quer dizer com estar possuído outro espírito? Como é possível? – Perguntei, seria difícil saber qual das descobertas feitas na minha jornada teria sido a mais surpreendente.
- É como a possessão demoníaca dos ingênuos mortais, tolos eles são, mas a minha possessão é mais completa e verdadeira, é permanente, e me permite, literalmente, fazer dos espíritos os meus marionetes, tornando-se bonecos sob a minha livre vontade.
- E quais são a bosta das regras do jogo que você quer jogar com a gente?
- Imploro que não uses dessa linguagem vulgar, ela é demasiada grosseira para um local tão belo quanto o em que nos encontramos. As regras, afinal as regras! Vejais que vós estais presos a grilhões de Noírio, e...
- Noírio? Artur, esse é o metal mais raro no mundo espiritual, o tenho no meu corpo, está dentro da minha boca e no meu sangue. – Ela a interrompeu falando comigo exaltada. Noírio? Tinha alguma relação com o Dom? Isso explicava perfeitamente o gosto de ferrugem dos beijos.
- Por favor, não me interrompa, é realmente grosseiro, a senhorita é demasiado grosseira, tens a natureza de uma camponesa mau educada, de um inseto sem classe. Se sobreviveres, terão tempo para conversar sobre o metal Noírio. – A pessoa sobre a casca de Monteiro Lobato humilhava Luna, que visivelmente se segurava para não soltar alguma grosseria mais grave. – Os grihões que vos prendem são a sustentação de nossa competição.
Olhei para o meu pé e só então percebi que também estava aprisionado, perceber as coisas mais simples, naquele mundo artificial,-se tornava tarefa das mais árduas. E ele continuava:
- Eles irão, assim que vós estiverdes prontos, esses grilhões irão penetrar em vossas peles através de espinhos bastante afiados e grossos, tal movimento causará, sem dúvida alguma, dores intensas em ambos. No entanto eles não irão passar disso, em compensação, inocularão lentamente um veneno que costumo chamar de Nocivitas, é fraco e não tem nenhum efeito em pequena quantidade, mas à medida que essa quantidade aumenta, os efeitos serão realmente dramáticos, o corpo se tornará como um castelo de areia e desmoronará como tal, feito em grãos míseros, só que a dor não será tão grande, pois o veneno tem efeito entorpecente, irá diminuir a sensibilidade e fazer com que ter o corpo desmanchado em pó não doa muito. Os espinhos irão injetar Nocivitas com o tempo, degradando suas estruturas lentamente, e o único modo de escapar será que quebrem os grilhões, mas para isso terão que fazer muita força, e, claro, como Noírio possui uma dureza próxima da indestrutibilidade, o que será quebrado, em realidade, serão vossos pés e parte das pernas, vós tendes de fazer muita força e agüentar dor. E além desses pequenos empecilhos, necessário é que tenhais atenção no fato de que os grilhões dos dois estão ligados um ao outro, se um puxa o próximo, puxa o do outro também, assim, ambos sentem a dor.
Nós dois olhamos para os nossos pés como reação natural, os grilhões estavam ligados a correntes que entravam no chão, mas aparentavam estar fixadas.
- Ah sim, eles não estão preparados ainda, não estão conectados um ao outro, estarão assim que vós quiserdes.
- Luna, você está pronta para começar? – Perguntei.
- Sim, estou. Suponho que também esteja. Vamos aceitar e começar? – Ela estava segura, não havia uma única faísca de receio ou covardia em seus olhos, estavam acesso com uma chama de bravura- que a fazia parecer a mais superior das criaturas, só parecer. Segui sua firmeza:
- Sem nenhuma dúvida! E nós vamos pendurar a cabeça desse imprestável e pendurar em uma parede, pobre Monteiro Lobato. – Quando terminei de falar a frase pude sentir aquela fisgada terrível no pé, não apenas uma, na verdade, mas dezenas. Soltei um grito ao ser perfurado pelos espinhos metálicos já esperados, a dor era terrível, recuei e puxei o pé, senti uma força puxando na direção ao contrário, e reparei que Luna era puxada quando eu puxava, e o contrário, e adora era pungente dilacerante, rasgava a carne profundamente e da forma mais crua e devastadora. Que jogo insano começava!
- Dói mais quando eu puxo ou quando você puxa, Artur? – Ela puxou o pé, mordia os lábios e se retorcia de dor, já eu gritava com mais rasgados na carne, sem conseguir me conter, era uma tortura insuportável, parecia demais com dor física.
- Pera. – Puxei do mesmo modo , a dor foi levemente menor, o que não significou alívio de forma alguma, nervos rasgados, desfiados, músculos dilacerados. Ah, odeio lembrar! Pergunto a mim mesmo se esses relatos talvez não sejam muito desagradáveis para o leitor, que venha a imaginar como seriam essas mórbidas sensações, se colocando na pele das vítimas que aqui são narradas. – Quando eu puxo, sem dúvidas, acho que esse miserável está pretendendo que machuquemos um ao outro, ou que nos sacrifiquemos um ao outro ou um pelo outro.
- Você sabe que eu agüento melhor, puxe.
Não tive dúvidas de que isso era a mais absoluta verdade, enquanto eu chorava, me contorcia e gritava descontroladamente, ela apenas mordia os lábios, menos do que alguém que está tirando uma unha encravada em estágio inicial. Puxei o pé com toda a força disponível, nadei contra aquela intensa corrente que era a dor, que me desafiava em todos os meios, os mais selvagens, os mais duros e ásperos, e puxei, olhando apenas meu pé que se banhava em sangue, sem ousar, sob nenhuma condição, olhar para Luna. Doloroso, apenas isso, ao extremo, a morte seria preferível se a coragem me faltava, e ela deveria estar sofrendo tão mais que eu, e eu devia ignorá-la, ignorar seu sacrifício, ignorar sua tão profunda agonia, e apenas puxar, sem poder, porém, ignorar a minha própria! De forma alguma exagero ao descrever minha aflição, o tempo se arrastava cadavérico, e os fios de pela cada vez mais se abriam, e eu puxava, resistindo a toda aquele brutal fulgor, queima, cortava, furava e então, em meio ao meus gritos lancinantes de animal ferido, houve o estouro, e tudo escureceu. Acordei depois de... não fazia idéia de quanto tempo depois, eu estava deitado, Luna sentado ao meu lado acariciava meu rosto.
- Vencemos. – Sorriu.
- Matou-o? Descobriu alguma coisa? – Peguei em sua mão.
- Vou contar: Nossas canelas estouraram dentro da ilusão, você desmaiou com a dor extremamente realista, eu suportei e então acordei para a realidade, agarrei Monteiro e então disse:
- Quem é você? O que é você? Como sabe sobre mim? Apenas leu nossas mentes? Conte-me,me conte, eu quero saber quem você realmente é por trás dessa marionete.
- Peça principal da filosofia desse mundo injusto, isto sou eu, deves temer-me, deves respeitar-me, e nunca me ter com teu inimigo. Adeus Luna.
E então o corpo astral dele se tornou imóvel, era um espírito sem alma, uma alma sem espírito! Um espírito vazio, uma carcaça, uma visão muito rara de se ter, praguejei bastante e o absorvi, sem, com isso, estar fazendo qualquer coisa de errado, e então me preocupei em cuidar de você até que açordasse.
- Então ele apenas soltou o marionete, acabamos sem nenhuma informação nova dessa vez.
Capítulo 18 -
S surgiu próximo a nós, e pela primeira vez parecia preocupado, suava frio e começou a falar livre de qualquer forma de serenidade ou calma: -
seu chato, insuportável
00:20:18
eu te odeio
te odeio mesmo
00:20:56
te odeio por não conseguir te odiar
00:21:18
te odeio pq vc é um besta que fica perdendo tempo com coisas inúteis enquanto to do seu lado
00:21:32
te odeio pq vc é um maníaco, paranóico
-
-
- Antes de ir, apenas quero que saiba de uma coisas.
- Qual?
- Você é seu único amigo.
- Levante-se, Luna, parece que temos o que fazer.
S vinha para a nossa direção, sorridente
Se mostrares que és feliz as pessoas poderão invejar tua felicidade. E por que uma pessoa vai querer ser infeliz se ela só vive uma vez? Você pode ser sério, rude, arrogante, mas Você também pode ser feliz, e demonstrar que é feliz por conta própria já é uma grande vitória.
-
- Bem,
-Sabe, existem várias formas de estupidez, existem vários tipos de pessoas no mundo. Existem as imbecis, as idiotas, as burras e as lerdas, falando do pior para o “menos pior”.
As imbecis são as mais comuns, são a forma mais odiosa de ser humana, pois elas conseguem carregar em suas cabeças a maior as deficiências que uma mente humana pode apresentar: alienação. Imbecil é uma pessoa que não consegue pensar por si própria, sem criatividade, sem capacidade de independência intelectual, ela não sabe questionar, ela não consegue questionar, ela aceita o que lhe é imposto pelos outros, ela é facilmente crente, acredita no que os outros acreditam, é alienada e inapta demais para pensar em outra possibilidade além do que aquelas que estão ao seu alcance real, ela simplesmente não consegue imaginar, criar uma idéia própria, é um boneco vazio como se não tivesse alma, é facilmente manipulável. Exemplos perfeitos são os indivíduos muito religiosos que mantém sua fé acima da racionalidade, e recusam qualquer possibilidade que vá contra sua convicção, mesmo que tal possibilidade faça muito mais sentido do que os idéias débeis de sua fé, elas fecham sua mente, elas têm tanta certeza de que tudo em que acreditam é verdade, que bloqueiam qualquer informação diferente, e se tornam totalmente alienadas. Imbecis! Resumindo, o imbecil é uma pessoa sem brilho próprio e de mente fechada, e ele pode ser desde a dona de casa até o cientista cético extremista, o cara pode ser um físico nuclear e ainda ser um imbecil, não estou falando de raciocínio matemático, mas de um raciocínio mais profundo, eu posso dizer que a imbecilidade é a estupidez da alma, do espírito, da essência mais pura de uma pessoa, é o maior dos males, um imbecil é um estúpido em sua essência, em sua alma, não em sua habilidade de aprender, mas na sua habilidade de imaginar e aceitar idéias novas. Como dizia o filósofo, “A convicção é maior inimiga da verdade do que a mentira”, e mesmo que um imbecil seja presidente de um grande país, um grande cientista ou um empresário de sucesso, ele ainda será um imbecil, pois é tão firme em suas convicções errôneas que é incapaz de ver além delas!
Os idiotas são uma forma menos grave de indivíduo estúpido, pode-se disse que a idiotice é a estupidez do corpo e das emoções ligadas a ele, ser idiota é ser imaturo, ser ingênuo, ser descontrolado, ser inconseqüente, irracional, tolo, fútil. A pessoa que não pensa no que faz antes de fazer, que segue seus instintos de modo irracional, aquela que se apaixona terrivelmente sem ser correspondido e se suicida por causa da mágoa, aquela que chega em uma escola com uma metralhadora e mata todos os colegas para descontar a raiva, aquele que enfia uma cueca na cabeça e sai correndo nu na rua, todos esses são idiotas. A idiotice é a estupidez emocional, os idiotas têm baixo QI emocional e, ou não sabem controlá-las, ou não querem controlá-las, e agem de forma incorreta em situações pouco convenientes, podem ser desde a pessoa grosseira que trata todos mal e é muito sério, até aquele rapaz divertido que só pensa em brincar e fazer baderna, inconseqüente e imaturo. Mas por pior que o Idiota seja, ele quase sempre será preferível a um imbecil se formos colocá-los em uma escala de estupidez mais ou menos grave, pois ele não é necessariamente alienado, seu problema é não agir racionalmente e com inteligência, e não ser alienado e ser incapaz de aceitar novas idéias, o idiota não estará cegado pela convicção, mas pelo seus próprios sentimentos, e mesmo que isso seja ruim, é menos ruim do que o outro caso.
Quanto aos burros, eles são a classe de estúpidos menos preocupantes, eles são amaldiçoados não com a estupidez da alma ou do corpo, mas com a estupidez do raciocínio lógico, o burro é uma pessoa que não tem facilidade para aprender, memorizar, adquirir informação, sem muita habilidade de dedução, de abstração, pouco aptos para o conhecimento acadêmico, pouco aptos para escrever, calcular, negociar, debater, investigar, etc. São pessoas com pouca capacidade mental, sem muito potencial, que muitas vezes são fáceis de enganar, ou que não conseguem entender um texto que lêem, possuem dificuldade para entender as coisas, para apreender as informações que lhes são oferecidas, apresentando também deficiências de interpretação. Mas como eu disse que estávamos falando do pior para o menos pior, o burro é um estúpido menos grave que os anteriores, pois ele não é nem alienado, e nem emocionalmente estúpido, mesmo que ele seja incapaz de entender um livro que leu, ele é capaz de aceitar novas idéias e visões da vida, e não são emocionalmente irracionais, embora possam ser ingênuos devido à baixa inteligência.
E para terminar, os lerdos, que nada mais são do que os inteligentes lentos e distraídos, eles não são alienados como os imbecis, nem irracionais como os idiotas, e muito menos são intelectualmente prejudicados como os burros. Eles não possuem nenhum desses defeitos, eles conseguem alcançar bons pensamentos, raciocínio, soluções, mas fazem tudo devagar, eles alcançam a idéia que deve ser alcançada, só que demoram muito para conseguir isso, ainda assim é uma vantagem, pois a grande maioria citada anteriormente não conseguiria tais resultados nem mesmo se tivesse a vida inteira para isso. Mesmo que seja o menos grave, o lerdo ainda é uma forma de estúpido, pois será lento e distraído, o que na vida prática pode ser um problema imenso, eles são vítimas fáceis em um assalto na rua, por exemplo, já que não possuem a habilidade de apresentar respostas rápidas e bom reflexo, e também podem ser muito prejudicadas quando precisam de rapidez, objetividade ou atenção, os lerdos possuem dificuldades para se concentrar, o que atrapalha em qualquer trabalho e mesmo em uma leitura por lazer, atrapalhando em qualquer situação em que atenção é necessária, isto é, praticamente todas as situações existentes, pois atenção é uma qualidade fundamental a para o sucesso de qualquer atividade, desde lavar o pratos direito até investigar a cena de um crime. Portanto, o lerdo é capaz, sua lentidão e falta de concentração podem inutilizar toda essa sua capacidade, mas ainda serão preferíveis a um alienado, um irracional e um mentalmente prejudicado, porque mesmo que demorem pra conseguir algo e errem muitas vezes por falta de atenção, eles ainda fazem melhor do que os outros, que podem ter toda a velocidade do mundo, mas não podem praticar muitos feitos e tem muitas ideias, simplesmente por não terem capacidade mental, emocional ou espiritual para isso.
Resumindo, Imbecil é estúpido de alma, espírito, essência, podendo se encaixar no perfil de “alienado” e “ignorante por vontade própria”,Idiota é estúpido de corpo e emocionalmente, podendo se encaixar nos perfis de “trouxa” e “bobão”, o burro é o estúpido de mente em sua área ligada ao aprendizado e raciocínio lógico, se encaixando simplesmente no perfil de “burro”, e o lerdo que é nada mais do que um “lento”.
Mas claro, todas as pessoas pode se encaixar em uma ou mais dessas classes infames , ela pode ser imbecil, idiota, burra e lerda ao mesmo, o que apenas demonstra o quanto algumas pessoas são medíocres, mas considerando apenas uma deficiência por vez, imbecilidade é a pior e lerdeza a mais aceitável.
- Luna, em qual dessas classes você me encaixaria?
- Ah, não seja cínico, meu amor, eu sei que você sabe muito bem a que classe você pertence, é a mesma que eu. – Ela sorriu quase com ironia, eu achava, pelo menos.
- Idiota, ambos somos incapazes de ter um verdadeiro controle emocional.
- Exatamente.
-
Mulheres são superiores, nós temos maior auto-controle, somos mais concentradas e somos mais inteligentes! Nós podemos ser mais emocionais que os homens, mas antes ser emocional do que ser um animal que obedece ao corpo, aos seus instintos mais primitivos, isto é, uma criatura idiota que pensa com a cabeça de baixo, porque é isso que os homens, no geral, são! Eles não são mais racionais só porque são menos emocionais, antes seguir o coração do que seguir o pênis! Desde sempre a mulher tem sido subordinada ao homem e sido tratada como se fosse inferior, mas isso não se dá devido à superioridade de qualquer habilidade senão a física, os homens são naturalmente, a grosso modo, mais fortes, mais brutos que quem é do sexo feminino, isso na da idade das cavernas podia ser o mais importante, mas desde que a civilização surgiu, tal posição deveria ter sido modificada, repensada. Com o advento da vida civilizada a racionalidade deveria ter se tornado o quesito decisivo para a escolha do sexo dominante, a sociedade deveria ter adotado uma base matriarcal, ter se apoiado nas mulheres, e se fosse assim, a humanidade seria bem menos estúpida do que é, e muitas tragédias, catástrofes e erros colossais teriam sido evitados. E nós fomos exploradas, tratadas como animais, como seres sem alma, como posses dos marido, objetos, lixo! Somos nós que damos a vida, não são vocês homens! E a prova de nossa superioridade está nos milhares de censos que esses pesquisadores adoram fazer, não há tantas mulheres morrendo em acidente de carros, morrendo em brigas, viciadas em cocaína, cigarro, maconha, crack e sei lá mais que droga, alcoólatras, ladras, homicidas, traficantes, estupradoras, corruptas, e envolvidas em todas essas porcarias, os homens sempre as praticam mais, e morrem mais, e matam mais!
Entramos pelo grande portão que tinha inscrições nas mais diversas línguas orientais, em vários alfabetos, representando culturas diferentes, mas todas diziam a mesma coisa: Galeria do Suicídio. Senti um arrepio intenso atravessar meu corpo, não era como nada que tivesse sentido antes, era muito mais agudo e frio, como se minha coluna fosse preenchida com gelo, um gelo doloroso e torturante.
- A Galeria do Suicídio, um dos três lugares mais repulsivos de todo o universo. Aqui habitam os que são seus próprios assassinos, e que sem nenhuma forma de arrependimento de tirarem suas próprias vidas, vivem em neste local de tormento, violência, vício, crueldade e sofrimento. Essa é a morada de Judas Iscariotes, o traidor, ele é o mais conhecido suicida da história, e seu crime se fez famoso através dos séculos, odiado por milhões de almas, aqui ele e sua culpa, o maior de todos os remorsos já sentidos por uma pessoa viva, formam uma atmosfera de profundo niilismo, tristeza e depressão, um desespero tão profundo que leva as almas aqui a tentarem se suicidar novamente, alimentadas pelo mal desse local repulsivo, tendo todas as suas dores e remorsos alimentados. – Luna abriu o portão, que rangeu sonoramente, e deu finalmente visão para uma paisagem digna do pior dos pesadelos. Uma enorme galeria fechada com paredes imundas de sangue e mofo, um teto baixo que não passava de 5 metros de altura, dezenas de pessoas penduradas pelo pescoço em cordas, agonizando, chorando, enforcadas vivas, outras abriam as próprias entranhas com objetos cortantes: facas, espadas e as próprias unhas, gemendo em uma medonha agonia masoquista. Alguns espíritos pareciam ainda manter sua consciência, embora não demonstrassem um único sinal de misericórdia, no chão encontrava-se algo que nunca antes havia visto, pedaços de espíritos mortos, como em um campo de batalha, um açougue pintado de vermelho, assombroso. Gritos cortantes penetravam-me pelos ouvidos, eram de uma agonia, um desespero tão profundo, que infestavam meu coração com os piores sentimentos possíveis, um profundo niilismo, a total ausência de esperança, era pior, muito do que olhar para os olhos vermelhos de Luna quando ela estava descontrolada, era como se eles dividissem aquele tormento, um tormento suicida egoístico doentio, de almas doentes, sem salvação, condenadas para sempre à danação quase eterna e à morte.
- Luna, como é possível? Como é possível que existam cadáveres de espíritos? Eles não deveriam se transformar em energia pura e se dissiparem, voltarem ao universo após terem suas mortes espirituais?
- Esse lugar maldito é de uma energia de tão baixa freqüência, de tamanha perversidade, que as almas aqui sofrem com características semelhantes às do mundo material, físico, de baixa freqüência, impuro, a Galeria do Suicídio é um antro de altíssima densidade, pesado, negativo, a energia espiritual aqui é suprimida de tal forma, que os corpos astrais recebem as propriedades de corpos físicos, propriedades físicas, e isso torna impossível que haja a dissipação após a morte, e torna possível essa carnificina repugnante que você assiste agora. Mas apesar de receberem tais características, eles ainda mantém parte da resistência espiritual, que é superior à física, então os suicídios se tornam difíceis e lentos, sendo portanto extremamente dolorosos, eles se cortam dezenas de vezes, e o pior de tudo é que nesse local, devido aos fatores que já citei, a dor é semelhante a que se sente no mundo real, então esse inferno de dores auto-infligidas se torna como uma câmara de torturas do mundo real, com a diferença que os torturados demoram bem mais para ceder e morrer.
Eu podia acreditar completamente naquelas palavras ásperas, estávamos às portas da Galeria do Suicídio
Abdul Salim
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E essa é a oportunidade perfeita para explicar outra coisa sobre o mundo espiritual. – Fez uma pausa e lambeu a mão, esticou a palma pra mim e havia um pó negro sujando a parte em que sua língua esteve, e eu não fazia idéia do que era. – Vê isso? Pó de ferro, controle de materiais semelhantes aos do mundo real, eu consigo controlar metais e materiais biológicos. Você sabe por que?
- Não, eu realmente não sei. – Peguei o pó na mão dela e coloquei sobre a minha outra palma, apertei o dedo em cima e confirmei: Sem dúvidas era ferro.
- A vida humana é terrível, meu querido. Eu vivi bastante e cheguei a uma conclusão única, e todas as reflexões, as experiências, aquilo que assisti e tudo que senti, presenciei, fiz, tudo, absolutamente tudo indica uma única verdade, que é irrefutável, por ter total embasamento lógico e empírico. A conclusão é de que a existência é definitivamente uma sequência constante de infortúnios e sofrimentos, e que não há maior felicidade e fortuna do que a de não estar em sofrimento. Afinal, o que é a vida? Por que a natureza nos criou? Qual é o sentido de vivermos, de existirmos? Os religiosos diriam que fomos criados por Deus e que fomos feitos para adorá-lo, mas como eu poderia considerar tal visão se eu sequer cheguei a ver, ouvir ou mesmo sentir esse tal Deus? E se essa fosse o objetivo de nossa existência, então esse seria natural, e portanto os nossos instintos mais primitivos nos levariam a essa adoração, mas não é isso que vemos, pois os humanos primitivos não adoravam um Deus, mas sim os elementos da natureza, a colheita, a caça, os animais e o sexo. Então não poderiam todos esses elementos serem Deus, representado pela natureza? A resposta é não, pois esse ser em que todos acreditam deveria ser perfeito, e não se vê perfeição na natureza. Natureza perfeita? Uma ova! Por que temos falhar evolutivas? Por que há câncer gerado por células mal programadas? Por que crianças nascem deficientes físicas, cegas, com retardamento mental? E dizer que isso se deve ao fato do homem ter mudado o estilo de vida, e ser o culpado por todos esses problemas, dizer que a humanidade que vivia em sintonia com a natureza, sem tanta química, tecnologia,industrialização, poluição e alimentação sintéticos, dizem que todos esses são responsáveis pelos males de saúdes modernos. Pode até ser, mas um humano que vive em estado de natureza não passará dos 20 anos certamente, enquanto hoje em dia vivemos 70, um homem na floresta tem mais chances de morrer de fome ou devorado por um predador do que o mendigo que vive na cidade e pode ser assassinado a qualquer momento, por isso, por pior que seja o estilo de vida criado pelos seres humanos, eles vivem mais tempo com ele do que o tempo que viveriam se agissem como animais comuns, seguindo instintos primitivos e naturais, que são cruéis e inseguros, a qualquer momento, pode-se ser vítima de um predador, e misericórdia não é um sentimento natural, ao contrário, é totalmente humano, desenvolvido por nós de maneira artificial para permitir uma boa convivência. Bem, consideremos essa boa convivência como teórica e utópica, pois não podemos negar totalmente nossos instintos por sangue e violência, que são aqueles que temos quando habitamos em uma mata cheia de presas e predadores, onde não há lei ou regras além da sobrevivência. Além do mais, o que absolutamente completo precisa ser adaptável, e nós que mudamos nossos costumes com o passar dos milênios, e já não precisamos de várias características, ainda as carregamos, um real perfeição na programação dos seres vivos seria boa o bastante para que nos adaptássemos ao estilo de vida moderno, ao novo ambiente, mas isso não ocorre, e por isso a obesidade, a hipertensão e a apendicite são problemas comuns, para não falarmos do já citado câncer. Resumindo esta parte de minha explicação, quero dizer que o humano pode fazer um trabalho melhor do que o da própria natureza, então ela não é perfeita, pois se fosse perfeita, seria impossível melhorá-la ou superá-la, ela seria o estado mais evoluído possível, mas se nós conseguimos superá-la e manipulá-la para nosso conforto, abandonar a carne crua e fazer fogueiras, construir armas de metal e televisões, se nós somos capazes de usar da ciência para a dominarmos e estarmos acima da existência que teríamos nela, então não pode ser perfeita, e se a Natureza não é perfeita, não pode haver um Deus por trás dela. Mas não é esse o assunto principal de minha explicação, essa pequena introdução foi apenas para evidenciar duas verdades: A primeira é que Deus não existe, e se existe, não é perfeito, e a segunda é que a natureza também não é perfeita, e essa segunda verdade será a base para o resto da explicação. Enquanto os religiosos falam que o motivo para nossa existência é Deus, os materialistas falam que vivermos para sermos felizes, satisfazermos nossos desejos, seguirmos nossa racionalidade e tentar existir em uma existência cada vez mais completa e satisfatória. Acreditam que a ciência venha para trazer conforto para o homem, e de fato ela traz, mas estão errados em achar que o motivo para existirmos seja a felicidade, a satisfação, a racionalidade. Não! Como poderia? Essas razões para existirmos não podem ser naturais, elas foram escolhidas, são motivos que as pessoas selecionaram ou simplesmente criaram para explicar o porque de viverem,mas isso não explica porque vivem, apenas explicam pelo que vivem. Para ser mais clara e não permitir nenhuma forma de ambigüidade, irei usar um exemplo: Por que existe um barbeador? A resposta é óbvia e automática, para fazer a barba de alguém, isso explica o propósito para que ele foi criado, isto é, o porque que dele existir, a função inicial, e o pelo que será o mesmo, pois ele estará sendo usado para barbear. Mas se pegarmos uma bola de gude, o pelo que dela será o de ser usado no jogo de bolinha de gude, mas ao mesmo tempo, ela poderá servir como uma arma branca, se for lançada sobre a cabeça de alguém para machucar, nesse caso, o pelo que dela será diferente do seu porque, ela foi criada para o jogo, mas no momento do ataque, estará existindo para outra função, a de arma branca. Isso deixa esclarecido que Porque é a razão primeira da criação de algo ou alguém, é o porque ele existe, algo que será imutável durante toda a existência do objeto analisado, independente e qualquer fator, o porque é sempre o mesmo, e o Pelo que é a razão imperfeita da existência, é uma razão secundária, que não está eternamente ligada ao objeto, mas se liga por causa de uma escolha ou um contexto, sendo então variável. Tudo isso indica a impossibilidade das pessoas existirem para serem felizes, pois essa não é a razão primeira da sua existência, a razão primeira é apenas uma, a mais fundamental, e que se aplica a todos os seres vivos, sendo também de fácil dedução: Sobreviver. Todos os instintos de todos os seres vivos levam a essa afirmação, de que a natureza nos fez com o único objetivo de tentarmos nos manter vivos pelo maior tempo possível. Mas e quanto ao suicídio? O suicídio pode ser de dois tipos, altruísta, que é quando uma mãe morre pra salvar o filho, um soldado morre pelo seu general, um presidente se mata para proteger seu povo, um revolucionário se mata para evitar que descubram informações sobre seus camaradas, é todo o caso em que se provoca a própria morte, ou em que se permite morrer pelo bem dos outros. E há o suicídio egoístico, e este é a chave de toda a minha explicação, aqui está! O suicídio egoístico é aquele feito pelo próprio bem, quando uma pelo que supera o porque natural da existência da vida, esse pelo que é o de não sofrer mais, as pessoas se matam pois consideram que o alívio de parar com a dor e o sofrimento que sentem é mais importante que o mais fundamental de seus instintos, o de sobrevivência! O mesmo acontece no altruísta, em que o pelo que de fazer o bem, escolhido pelo indivíduo, que preferirá ajudar os outros a manter sua sobrevivência, mas é no egoístico que podemos acentuar o quão terrível é viver! Através da história, podemos ver que guerras, doenças e fome, miséria, crime e crueldade, toda a forma de infortúnio e mal, sofrimento para todos os gostos, mas ainda assim, os humanos continuaram a viver, mesmo vivendo como ratos, piores que animais, trabalhando sem parar para poder comprar um pouco de lixo pra comer, sem descanso, sem lazer, sem felicidade, não, o ser humano não tem vivido durante todos esses séculos de sofrimento para ser feliz, ele tem vivido para continuar vivendo, sobreviver tem sido o único objetivo, e nos casos em que as pessoas percebem que talvez não a velha a pena tanto sofrimento apenas para manter a própria existência, temos os suicídios egoísticos. Todos precisam lidar com alguma forma detestável de infortúnio, povos primitivos sofriam pela constante insegurança e medo, pela fome, a dificuldade de sobreviver, as doenças, o desconforto, a dor causada por atividades perigosas ou trabalhosas, povos mais modernos sofrem dos mesmos males, e aqueles que tem a sorte de não serem vítimas da fome, da dificuldade e da insegurança, esses ainda sofrem com seus problemas pessoais: solidão, amor não correspondido, remorso, tédio, e claro, doenças, pois não são só os miseráveis que ficam gripados. Vemos os artistas famosos e ricos se acabando em drogas, se suicidando, vemos os pobres miseráveis morrendo de fome, morrendo de doença, mendigando um pouco de lixo, ou os nem tão miseráveis, usando de toda sua força e trabalho incansavelmente por horas e mais horas para poder viver com o básico dos básicos, para poder comprar um pão mofado, ainda no melhor dos casos, essas pessoas serão submetidas ao sofrimento da exaustão do esforço excessivo. Isso que quero mostrar, todos sofrem, o sofrimento é naturalmente ligado à existência, e não apenas nos humanos, vemos as formigas que vivem em condições de trabalho escravo, as gazelas que vivem com medo e terror de serem devoradas por um guepardo, os tubarões que nunca dormem e não podem parar de nadar para não afundar, além de devorarem os próprios irmãos na barriga da mãe. Ora, a águia precisa passar por um violento e doloroso ritual de auto-mutilação para poder sobreviver, tendo que arrancar todas as penas e o próprio bico para continuar vivendo por mais alguns anos, para nascerem novos em folha, além de suas presas, que são comidas vivas, passando por dores terríveis. Todo ser vivo está condenado ao sofrimento, mais ou menos, seja ele por viver como um escravo, ou seja por melancolias infantis e tolas, pois podem ser infantis, mas causam sofrimento, como os jovens que se mataram após ler o livro de Goethe, todos eles deviam ter suas dores emocionais e melancólicas, e decidiram dar cabo de suas vidas para poderem descansar, se aliviar, se livrar das sensações agonizantes do sofrimento melancólico emocional! Assim como aqueles que se tornam aleijados após algum acidente ou doença, e preferem morrer a ter que lidar mais com a própria situação infeliz. Ora, assim como tantas crianças vítimas da solidão, da doença, da fome, que só não se mataram porque morreram antes, vítimas da cólera, dos acidentes, da pneumonia, assim como Judas Iscariotes, que não pôde lidar com o violento remorso de ter traído Jesus, e para evitar mais daquela sensação tão torturante que é o remorso por um crime, tirou a própria vida, apenas para se aliviar. Sim, a vida é uma sequência de sofrimentos, o sofrimento do filósofo que não é compreendido pelo povo estúpido, do rei que não consegue governar como quer e se frustra, do mendigo que sofre com o ronco da própria barriga o dia todo, da mãe que vê o filho nas drogas , do filho que está nas drogas para esquecer de algum infortúnio de sua vida, pessoal ou não, do soldado que passa por situações degradantes na guerra, do padre medieval que se penitencia em nome, do bom menino que apanha dos colegas na escola e é excluído, do menino que bate para descontar suas frustrações, da garota que se prostitui com pessoas que considera asquerosas para poder se alimentar, do idoso sem forças que sofre ao pensar que já teve a saúde perfeita, do idoso fracassado que vê o quanto sua vida foi sem frutos e em vão, do velho bem sucedido, que imagina todas as alegrias que ele deixou de viver por causa do trabalho, a pessoa rica que se sente culpada pelos pobres, a pessoa rica que se sente insegura por não ser capaz de viver como os pobres vivem, o pobre que inveja o rico e odeia imaginar que poderia ter tudo aquilo mas não tem, o paraplégico que pensa em como seria bom andar, o corredor profissional que sente as dores do treinamento, mesmo que recompensadas, o louco que ouve vozes e não tem paz, o preguiçoso que sofre com a própria preguiça, desejando dormir e até morrer para não ter que mover nenhuma palha, e é infeliz por não poder estar sempre descansando. E o mais extremo dos casos! Aquele que tudo tem, bens materiais, amigos, amor, paz de consciência, a completa felicidade, mesmo essa pessoa terá o cruel sofrimento do medo da morte, o medo de perder toda a incrível felicidade que sente, de ter seu inevitável fim. Tudo, tudo isso apenas prova que a felicidade não é nada mais do que a ausência de sofrimento, pois com tanto sofrimento possível, não poderia haver nada mais gracioso e agradável do que não sofrer, feliz de verdade é quem não sofre, mas isso é impossível, por isso, não dá para negar, a vida é uma longa e eterna desventura, e só vale a pena quando conseguimos ao máximo reduzir os momentos sofridos, e assim, alcançar o bastante da felicidade, já que ela completa é tanto utópica, quanto impossível.