segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Divina 4

Caçadora

A cidade seguinte era verdadeiramente extensa, arranhacéus dignos da Nova York dos anos trinta literalmente arranhavam os céus, indo até onde o olhar mal podia acompanhar. Me encostei em um poste e fiquei observando com o máximo de atenção todas as pessoas que passavam, analisava a natureza da energia de cada um, a intensidade, para assim, descobrir quais seriam vítimas valiosas, e quais não adicionariam nada de útil ao meu eu coletivo. Primeiro a postura, os espíritos de postura mais confiante deveriam certamente ser os melhores, mas se parecessem demasiado exibidos e preocupados com sua pose, certamente seriam os piores, seres preocupados apenas com a aparência, não gastaria mais espaço à toa com esses imprestáveis. De qualquer maneira, o importante não era olhar, mas sim sentir, sentir a energia de cada indivíduo que caminhasse no alcance de meus olhos, a sua naturez a e intensidade, interpretando suas formas e tamanhos, eu me tornava capaz de desvendar muitas características sobre seus possuidores. Cada espírito tem sua natureza, sua energia característica, o tipo dela define um indivíduo assim como o DNA define um ser vivo, e é sempre único, e analisando essa energia não há nada que não possamos descobrir sobre a criatura que ela forma. Alguns espíritos evoluídos na percepção conseguem conhecer todas as habilidades dos outros apenas por sentir sua presença, sua energia, suas vibrações. Eu, por não ser tão boa nessa prática, só consiguia medir a intensidade dos possíveis dons dos meus alvos, e às vezes, que tipo de dom poderia ser: Controle de elementos da natureza? De energia? Habilidades telepáticas? Vampirismo psíquico? Controle de ilusões? Eu conseguia ter uma pequena noção, escolhia em especial aqueles que fossem capaz de criar e quebrar ilusões, produzir verdadeiros mundos artificiais para criar um ou mais indivíduos. O estilo de caçada era silencioso e astuto, após a identificação da vítima em potencial (que não poderia ser forte demais para eu conseguir derrotar), eu esperava que fosse até algum local mais isolado, seguindo-a na maior das discrições silenciosas, e, lá, atacava com tudo. Se o alvo demorasse demais para ir a algum lugar isolado daquela imensa cidade, o chamá-la, abordava e inventa alguma desculpa razoável para levá-lo para o ponto desejado, se ele não acreditasse, as minhas chances de alimento acabavam, e o mesmo caso a pessoa deixasse a cidade e fosse pra outra dimensão.
As observações levavam tempo, era como ficar de tocaia esperando por algo que vale a pena, as perseguições podiam levar muitas horas de duração, e, embora algumas vítimas fossem facílimas de matar, uma vez que estivessem na área apropriada para o assassínio, outras me forçavam a lutar duramente para poder abatê-las e devorá-las, tendo passando pelo sério risco de morte com dois desses espíritos que enfrentei. Um mais que o outro, e esse, cuja absorção foi dificílima, árdua, agressiva e selvagem, essas foram as características do processo em que absorvi um homem branco de cabelo curto vestido com vestes militares antigas, ele se identificou como Caius Caligula, e se defendeu perfeitamente de meus flagelos usando estranhos formas de carne humana que ele retirava do chão. Os olhos dele eram abomináveis, havia uma escuridão mais profunda que a minha neles. Era um demônio, não havia a mínima dúvida disso, mas tão degradado moralmente que havia se tornado algo talvez pior que um demônio. Ele mantinha sua forma humana, ele mantinha sua consciência, era um indivíduo mau por escolha, possuindo então uma maldade racional, inteligente e autoconsciente, e não existe nada pior do que a maldade inteligente. Caligula não era tão poderoso quanto mau, mas era tão malevolente, que, mesmo se fosse o espírito mais fraco do universo, ainda estaria entre os mais perigosos, tendo seu único prazer em provocar o sofrimento do próximo, e esse prazer se apresentava tão intenso e claro nele, que eu pude sentir perfeitamente em sua energia esses gostos cruéis. Pior que Sade? Ou apenas mais aberto? Talvez não fosse tudo que eu imaginava, talvez apenas permitisse que sua energia fosse perfeitamente sentida e lida, um livro aberto, um malevolente livro aberto. Caius me despertava com maior perfeição que qualquer outro aquele meu lado selvagem, a voracidade animalesca me tornava tão interessada em me alimentar, mordendo ou absorvendo, de todas as formas ou qualquer uma. Posso dizer com toda a certeza que tivemos uma peleja de monstros, uma colisão de abominações, eu pelo meu dom, e ele pelos seus gostos. Os pensamentos do sujeito me surgiam à mente como por osmose, eram tão fortes, densos e intensos, que transbordavam e passavam por todos que estivessem por perto, naquele caso, apenas eu. Eu me achava suja, imunda, perversa, mas apenas antes de ver aquelas imagens e sons originárias de suas lembranças desequilibradas. Atos hediondos de verdade eram aqueles! Praticados contra pessoas de carne e osso às centenas, e na mesma proporção contra espíritos! Por que? Eu pelo menos tinha o argumento de meu dom, mas não havia nenhuma espécie de dom raro, nenhum trauma brutal, nada que aquele... cheirava a imperador, sim, era um imperador, eu não teria sabido que ele havia sido um imperador romano se não fosse pelo conhecimento que minhas vítimas compartilhavam comigo! Um romano, até hoje Roma é Roma, de certo modo, era um quase conterrâneo meu, pelo menos na época dele as terras estavam unificadas, separar para conquistar, alguém sabia muito bem disso. Bem, eu sequer sabia que pensamentos eram esses que vinham juntos das lembranças imperiais, ao passo em que lutava pela minha própria sobrevivência, fazendo de meus flagelos a minha arma suprema. As massas de carne, material vivo que ele controlava eram demasiado resistentes, mais duros que a carne que minha família comia, certamente mais saboroso. Mais lembranças minhas vinham, e estranhos devaneios políticos. Unificar os estados italianos? Não, não era hora para pensar nisso, já não contava as pancadas que levava, e eu mesmo me impressionava com a minha resistência, e mais ainda com a dificuldade que tinha para acertá-lo. Caligula soltava gracejos à toda hora, era a personificação do sarcasmo, e foi essa a primeira vez que comecei a odiar os sarcásticos, eles são tão cínicos, desagradáveis, grosseiros, e devo admitir, geralmente inteligentes, utilizando sua inteligência com o único fim de causar desgosto aos outros, sejam em suas palavras de sentido tortuoso, ou em atos ainda mais tortuosos. Chegou um momento em que pensei que realmente iria morrer lá, ele era forte, me atingiu muitas vez, não havia sequer conseguido encostar nele, enquanto já ficava difícil me manter de pé e resistir por muito tempo, desesperei-me de verdade, sem poder abandonar aquele excesso de reflexões sobre Roma, a crueldade humana, governo, eu. Estava sobre a corda bamba, o fio da navalha entre a vida eterna e a morte eterna, como no juízo final bíblico, Caligula poderia ser o juíz, mas eu preferiria ser eu mesma a juíza de minha existência, o risco é a condição ideal para a evolução. Dito e feito! Ah, fiquei um pouco feliz quando consegui perceber um dos privilégios que meu dom me oferecia, sempre instintivamente, alguns espiritualistas desprezam a palavra "instinto", e descaracterizam, dizendo que não existe instinto, mas uma inteligência inata, ainda que tenham razão, abraço essa palavra, pois não consigo pensar em inteligência quando falo de um conhecimento absolutamente emocional, isto é, de algo que você sabe que funciona, mas não sabe como funciona. Não pude compreender mas pude usar essa habilidade para a qual criei tantos rodeiros em citar, mas afinal, descreverei-a: Era/sou capaz de usar perfeitamente qualquer habilidade de qualquer um dos espíritos de meu eu coletivo, e, ao contrário do que eu pensava, não podia usar apenas uma por vez, mas podia tinha acesso a uma em cada flagelo que eu estivesse exteriorizando, isso me permitia usar dez dons diferentes ao mesmo tempo, contando com o meu próprio, mas infelizmente, era difícil manter uma precisão e coordernar bem tantas atividades ao mesmo tempo. Independente da dificudade, literalmente botei fogo em Caligula, e o esmaguei, não sem antes perder metade do meu rosto em um revide dele, que doeu como o diabos! Tal dor não me assustou, ao contrário, me deixou com raiva e me faz derrotá-lo e absorvê-lo mais rápido, era um alimento altamente energético. Eu preferia mordê-los para, assim, sentir o gosto, mas era mais seguro absorver pelo flagelo, o césar era denso e sombrio, senti-me um pouco mal depois da completa "digestão", era como comer um alimento estrago ou contaminado. Contaminado? Eu também não conhecia essa palavra, devo agradecer aos membros de minha consciência coletiva, estavam me "ensinando" tantas coisas novas". A sensação crescia, senti uma repulsa à espécie humana, um desejo diferente de qualquer fome, era um impulso por maldade, meu espírito exigia que eu seguisse os gostos degradantes de Caligula, e obtesse, à qualquer custo, prazer com o sofrimento alheio. Sadismo incondicional, o espírito recém absorvido me contaminava por inteira com sua alma negra, e agora eu estava mais doente do que costume. E os sintomas duraram dez dias.

Não pretendo descrever muitos dos atos hediondos que pratiquei em um período de dez dias, fui me teletransportando de um plano para outro, resultando em incontáveis mortes violentas, dolorosas, sádicas, doentias, mas aconteceu que, após um massacre no Círculo do Medo, me teletransportei pra um lugar diferente, onde finalmente pareci controlar minha sede de sangue e espírito que parecia cada vez maior e pior, assim como os atos de sadismo que eram cada vez mais brutais. "O Mal de Caligula" estava curado, e, de alguma forma, eu já conseguia me controlar pelo menos com um fraco brilho de serenidade, certamente adquirido dos bons que absorvi. Curada, e novamente sob o controle da racionalidade, fui para um local que não me estimulasse ao crime.

Teresa

Era uma outra cidade, parecia bem maior, e mais parecia com a Paris do século XIX, tinha um céu cinza muito bonito. Senti uma ânsia de voltar a me alimentar, mas pude controlá-la, uma ponta de racionalidade me dizia que tentar fazer algo assim naquele local seria fatal, havia, claramente, muitos espíritos poderosos e outros evoluídos por lá. - Onde estou? - Perguntei à primeira pessoa que vi, e a resposta: - Cidade dos Leitores.
Agradeci humildemente e olhei para um letreiro de Biblioteca, foi aí que percebi que eu sabia ler, e que Luna não sabia ler quando viva, mas aprendeu instantaneamente depois da morte. Que grande felicidade era saber ler! Não o bastante para acabar com os tormentos do Dom, mas poderia ser distração, corri pra biblioteca e procurei pelo único livro que conhecia de nome: A Divina Comédia. Minha mãe, quero dizer, a mãe de Luna, contava para ela que a avó costumava contar a história resumida desse livro, em uma forma simples e infantil, mas fascinante, e agora eu tinha essa lembrança também, pois a mãe de Luna também contava essa mesma história para seus filhos, que passava de geração em geração. Não lembrava do rosto da minha mãe, não lembrava de onde era, não lembrava praticamente nada, mas me recordava razoavelmente daquela história que havia permeado minha... infância inacabada. Andei entre as estante, procurando por algo com Divina Comédia no título, mas logo voltei à entrada e perguntei para o bibliotecário onde o livro estava, afinal, seria impossível achar um exemplar em uma biblioteca que parecia tão grande quanto uma pequena cidade, ele me indicou o número da estante, já que eram todas numeradas. Havia pelo menos cinco mil estantes, A Divina Comédia estava na número vinte e nove, fui até lá e procurei entre os títulos, lendo as lombadas, peguei o livro vermelho com Divina Comédia na Lombada, era bastante grosso, abri e folheei, era a primeira vez que pegava um livro com minhas mãos. Uma criança mais nova veio correndo até mim e me puxou pelo meu "vestido", virei-me brava: - O que é?
- Moça, você sabe quando que irá terminar de ler esse livro? - Ela tinha os olhos mais doces que já havia visto, negros como a mais negra noite, brilhantes como a mais brilhante estrela, profundo como o mais profundo mergulho, por um momento quis parar de sentir raiva de tudo, pelo menos dela eu não queria sentir.
- Não sei, é a primeira vez que venho aqui, não faço ideia de quanto tempo vou demorar pra ler. - Fui educada.
- Espero que não demore muito - Sorriu. - Gosto do seu cheiro.
- Que cheiro? - Perguntei sem fazer ideia de qual seria a resposta.
- Esse cheiro, parece o cheiro que tinha na fábrica em que eu e meu papai trabalhavámos. - Tudo indicava que eu devia ter ou odor de carvão, ou de aparelhos de ferro, eu era uma pobre camponesa, mas sabia o que era uma fábrica.
- Do que era essa fábrica de que você fala? Só então percebi que ela falava em outra língua e eu entendia, essa compreensão universal já havia se tornado claro com Myio, mas como Luna, não reconhecia ser o idioma inglês.
- Papai fabricava navios de guerra para a Marinha Americana. Ele era um grande homem, mas depois que ele morreu de doença, eu, mamãe e meus irmãos todos tivemos que trabalhar para manter nossa casa, eu morri, tinha saúde fraca, tinha uma doença de pele que até hoje ninguém conseguiu diagnosticar mesmo no mundo espiritual. Como você se chama?
Me interessei pela história dela, uma doente. Do que eu havia morrido mesmo? Achava que de doença também, mas não lembrava exatamente, tentar lembrar do meu passado era difícil, como um emaranhado, as múltiplas mente em nada ajudavam e eu acabava confundindo as lembranças de uma com a de outra. Quem era eu antes de me tornar aquilo? De onde era, onde vivia e como morri?
- Eu não sei meu nome, não estranhe, não lembro nem quem fui ou de onde vim, nada. E o seu?
- Meu nome é Teresa Smith, mas costumam me chamar de Astarte.
- Astarte? Por que Astarte?
- Foi quando estive no Círculo das Igrejas, uma pessoa muito boa, chamada Guido de Arezzo, conversou comigo por muitas horas, eu contei a ele a minha história, e ele me disse que eu deveria mudar meu nome se eu quisesse mudar de vida, se não quisesse mais ser aquela menina doente, fraca e ingênua. Pedi uma sugestão de nome pra ele, e ele respondeu: Astarte, e explicou o porquê dessa escolha, disse que esse era o nome da deusa fenícia do amor, e também um anagrama incompleto de Teresa, T E R E S A, A S T E R E, A S T A R T E. Ainda adicionou que sentia em mim um poder fora do comum, e que eu deveria usá-lo para o bem se quisesse ser digna desse nome.
- E qual dos dois nomes você prefere? - Estava muito interessada em falar com ela, de alguma forma eu me identificava com seu jeito e história.
- Me chama de Astarte, a Teresa morreu. Sabe, eu acho que você devia ter um nome novo também! E aproveita que não lembra qual era antes de vir pra cá e usa só o novo! - Ria como a criança que era, muito simpática.
- Qual nome você me daria, Astarte? - Já eu me mantinha sempre séria e sem jeito pra conversar apropriadamente. Confiava instintivamente naquela menina, apesar de tê-la conhecido no momento, e também confiava nos meus instintos, o instinto de um ser múltiplo é mais intenso do que o de um indivíduo comum.
- Eu não sei dar nomes, eu nem sabia falar sua língua, o Arezzo que é bom com esse negócio de escolher nomes, porque ele conhece vários idiomas e aí conhece vários nomes também. Sua língua é a mesma do Arezzo, dá pra reconhecer, italiano. Agora você pelo menos sabe de onde era né? Seu reino deveria se unificar, fazer como a Inglaterra, que é um estado sólido e firme e domina quase um terço do mundo, me orgulho de ser descendente de ingleses.
- Italiana? - Tentei me lembrar, consegui alcançar uma lembrança de uma voz masculina entoando "nel mezzo del cammin di nostra vita, mi ritrovai per una selva oscura, ché la diritta via era smarrita", mas não consegui sequer trazer à memória o rosto de quem declamava.
- Sim, se você quiser, a gente pode ir até ele, eu te apresento, e se você for gentil, pode até ler esse livro em voz alta para que eu escute também.
- Podemos sim. Ela pegou na minha mão e pediu para que fechasse os olhos, obedeci, e quando os abri estávamos em uma taverna.

Astarte

O pessoal bebia, escrevia, conversava, cantava e ria, o estabelecimento tinha um clima de espontânea alegria, aquela felicidade simples e modesta que as pessoas humildes costumam ter. Astarte me levou até um velho que cantava de olhos fechados, sentado em uma mesa cheia de ouvintes que escutavam atentamente.
- Guido, pára de cantar, quero que conheça uma pessoa. - Pegou no ombro dele, que abriu os olhos e sorriu em vê-la, depois olhou para mim com aparente desconfiança.
- Olá, qual é seu nome? - Falou o bonachãõ.
- Eu não tenho nome, a Astarte disse que o senhor poderia me dar um nome adequado.
- Mas eu não te conheço, devíamos conversar para que eu de fato possa te dar um nome. - Levantou-se da cadeira e me pegou pela mão. - Amigos, devo dar assistência a essa pequena, me despeço.
Todos os amigos do sujeito apertaram sua mão e ele levou a mim e a Astarte até uma mesa no canto esquerdo próximo à entrada da taverna, fomos os únicos a nos sentar nela, me mantive, assim como minha amiga, em silêncio até ser abordada.
- Pensei em um nome qualquer para chamá-la por enquanto, usarei Elisa, que é um de meus nomes favoritos. Pela sua fala, você é italiana como eu, não é?
- Eu não lembro de nada da minha vida, só que a minha mãe contou a história da Divina Comédia pra mim e que. - Pensei um pouco, não sabia se seria suposição ou lembrança de fato, mas falei. - E morri por uma doença, não sei qual.
- Não é comum que os espíritos não se lembram de nada sobre suas vidas, geralmente esquecem muitas coisas, mas quase nunca de tudo. Há quanto tempo você morreu, mais ou menos?
- Não faço ideia, eu tenho um problema. Será que posso confiar realmente no senhor e contar? É muito grave, perturbador, íntimo. - Sentia confiança nele, assim como em Astarte, o meu instinto gostava deles.
- Então temos um caso bastante raro por aqui, não é? - Riu, mas não achei que estivesse achando graça, Astarte apenas nos ouvia, muito interessada. - Desde que te vi que pude sentir uma energia totalmente fora do comum, densa e pesada, muito densa e muito pesada. Você não a sentiu, Astarte? - E perguntou para a menina.
- Claro que senti, Guido! Mas poxa, eu gostei dela, achei que você pudesse ajudá-la, ela tem quase tanta energia quanto eu, se você me ajudou, pode ajudá-la também!
- Do que vocês estão falando? - Por um momento senti vontade de matar ambos, se sabiam que eu possuía um dom como o que meu, deveriam morrer, seriam um problema para minha ação silenciosa! Mas o afeto gratuito que eu tinha pelos dois me impediu de praticar esse crime.
- Deixa eu falar. Guido, fica quietinho, eu vou contar pra Elisa como tudo aconteceu. Veja, minha amiga, eu tenho um dom especial, assim como você também tem. - Quando ela falou, me assustei. Como podia saber qual era o meu dom? Continuei calada, ainda que nervosa. - Não sei qual é seu dom. - A frase me aliviou. - Mas você tem, espíritos evoluídos como Guido e eu conseguimos facilmente sentir quando alguém é evoluído ou tem um poder muito acima da média, e o seu é sobrenatural. E quando esse poder é inato, quando o espírito o possui naturalmente, sem precisar de nenhum treino para obtê-lo, ele acaba tendo dificuldades em controlá-lo. É como dar uma espada claymore para uma criança de seis anos cega, sabe? Eu era assim, meu poder de expansão e transformação corporal é incrível, mas quando eu o descobri, ainda estava confusa, e sem saber controlá-lo direito, acabei fazendo besteiras, matei pessoas sem razão, muitas pessoas, e o pior é que eu era tão sem consciência de mim mesma, que achava que estava brincando. Quando alguém como eu faz uma brincadeira sem saber realmente o que faz, ela pode destruir a população de uma cidade facilmente, só que por acidente, tudo por falta de controle. Guido, que é muito sensitivo, me ensinou a controlar minhas avançadas habilidades, ele não me disse para usá-las pro bem ou pro mal, apenas me mostrou o caminho para ter controle, e assim, escolher o que farei com elas.
Eu ouvi tudo muito interessada, ela realmente me comprendia, mas: - Mas qual é esse seu dom? O que é expansão e transformação corporal?
- Eu consigo transformar meu corpo em qualquer material sólido, e aumentá-lo de tamanho dezenas de vezes, ainda transformado em qualquer material, se eu quiser encher essa sala de chicotes e espinhos, por exemplo, eu posso, basta aumentar meu corpo e transformá-lo. E o seu? Deveria me contar. - Tocou-me no rosto, sorri, me sentia em casa, de certa maneira, tínhamos realmente dons parecidos, devia ser por isso que havíamos simpatizado uma com a outra.

Guido

- Contarei, talvez assuste aos dois. Ainda assim contarei, mas se preparem, e tentem não sentirem nojo, medo ou repulsa, pois também contarei sobre minhas últimas ocupações.
Os dois se mostraram atentos, em silêncio para ouvirem à minha trágica história. Contei com todos os detalhes de que me lembrava, à partir do momento em que me encontrei no mundo espiritual. Teria contado sobre minha vida e o modo como morri, se eu pelo menos me recordasse. Teresa começou a ouvir a minha narração com um sorriso doce da sua boca pequena, e terminou séria, era difícil manter o bom humor ouvindo sobre tão desesperadores acontecimentos, Guido, pior do que ela, ficou claramente amedrontado, por mais que tentasse esconder, o terror que sentiu estava pendurado no seu rosto, só que mesmo assim, suas palavras após o fim da história foram as mais gentis possíveis:
- Você tem o mesmo dom da Deusa Nyx, mulher que aterroriza o mundo espiritual até hoje, temida e odiada. Mas, por mais que eu possa sentir que você é a mais nítida manifestação personificada da iniquidade, não consigo deixar de ver inocência no fundo, muito no fundo dos seus olhos. Como Deus poderia ser tão pouco misericordioso a ponto de colocar um "Dom" desse tipo em uma criança tão pura? Creio que ele tenha um propósito em tudo, e em você, só consigo pensar que seja provar que o bem pode vencer o mal. Mas cabe apenas a você decidir se será boa, má, ou até mesmo neutra, você é livre para usar ou não seu dom, para resistir à sua coletiva mente insana e se mante sempre no controle, não como um monstro, mas como uma pessoa.
- Acho que não acredito mais em Deus. Luna?
- Você deve acreditar, mesmo se ele não existisse, seu nome daria forças e esperança para quem sofre, e portanto, ainda seria melhor acreditar do que viver uma vida cética e vazia! Luna, acredite em algo, tenha fé em algo, se não for Deus, que seja em outra coisa, mas se não acreditar em nada, terá uma vida vazia e triste, e o passar de cada dia será um infortúnio, e não o prazer eterno de viver que todos deveríamos experimentar. É esse meu conselho, pequena Luna.
Sorri com o vocativo, soava bem, e até tinha significado em minha língua. - Esse é o nome que o senhor escolhe para mim? Luna?
- Sim, Luna, não poderia ser outro. Seu dom te permite usar o brilho dos outros para aumentar o seu próprio, você não tem amplos poderes por si só, mas sugando o de outras almas, você pode refleti-los comp bem entender, assim com a Lua tem luz própria, mas reflete a luz do Sol. Luna, você não tem luz própria, você apenas reflete a luz daqueles que suga, na verdade, sim, você tem luz própria, mas ela se apagou a muito tempo, e cabe a você acendê-la novamente! Luna, encontre e acenda a sua luz própria! Se essa luz é boa ou ruim, não importa, já passei da idade de ser idealista e sonhador demais em imaginar demasiada perfeição, mas não perdi a capacidade de pensar que pode haver melhora, e que mesmo os corações mais condenados e afligidos pelos piores sofrimentos podem alcançar a felicidade.
As palavras dele me tocavam, e eu senti que aquele era de fato meu nome. Não me incomodei em ouvir não ter brilho, de fato, minha auto-estima não estava nos mais altos níveis. Do que adianta ser o mais forte, se também se é o mais infeliz dos humanos?
- Guido, escuto e aceito de coração o nome que me oferece, e ainda peço, em adição, que me deixe viver com você, e que me deixe usar também o seu sobrenome, daquele que me batizou. Luna de Arezzo, quero poder me chamar assim, mas apenas se o senhor me der permissão.
Astarte assistia e escutava toda empolgada, dava para ver que se esforçava para não falar nada, ela era uma criança, não importava o quanto parecesse madura, ela ainda tinha a personalidade de uma criança, e toda aquela felicidade que se tem na infância pelas coisas mais simples e pequenas, e que tornam esse o melhor período da vida humana.
- Por que não? Não pense que só existe um Arezzo no mundo, isso não necessariamente te ligar a mim, mas será ligada pelos laços que construíremos no tempo que passarmos juntos. Quem sabe quanto tempo? Você realmente quer viver comigo? Será bom para mim ter a companhia de uma menina, só costumo ter de homens velhos, raramente mulheres, e nunca meninas.
Sorri empolgada, aqueles meus tormentos internos não cessavam, mas eu percebi que enquanto eu estivesse bastante feliz, distraída e despreocupada, os efeitos deles pareciam muito incômodos, embora não diminuissem realmente. Virei-me para a pequenininha toda animada para tê-la como uma irmã. - E você, Astarte?
- Luna. Mas é claro! Somos um pouco parecidas, não somos? - Ela gostou tanto da ideia quanto eu.
Daí ficou decidido que seríamos uma espécie de família espiritual, o pai e suas duas filhas, comemoramos e brindamos com taças de vinho da melhor qualidade, tinha um gosto ótimo, seria estupidez criar uma lei de maioridade em um mundo em que os mais velhos possuem dezenas de milhares de anos.

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