Tempos de Paz
Naturalmente não viveríamos em uma taverna, o trato que nós três fizemos se referia a companhia, não a local. Após uma longa celebração no melhor clima de festa que só alguns povos realmente conhecem, e que durou até o dia seguinte, fomos de volta para a Cidadela dos Leitores, Guido queria passar uma boa temporada em dedicação à leitura e à educação, sem, é claro, deixar de passar na taverna para uma boa cantoria, alimentação e bebida. "Nosso pai" nos aconselhou a ler bastante, o que de fato, era o que eu pretendia fazer antes de conhecer Astarte. Começamos lendo o exemplar de A Divina Comédia que eu tinha pego no dia anterior, escolhemos uma forma bastante diferenciada de leitura para que pudessémos as duas usufruir da poesia do épico ao mesmo tempo, eu lia cada página ímpar em voz alta, e ela as pares, também em voz alta. Dessa maneira, nós duas líamos e escutávamos, ora leitora e narradora, ora ouvinte. Era uma poesia profunda e maravilhosa, uma verdadeira viagem ainda mais espiritual do que a que me encontrava, sim, me fascinavam todos aqueles versos, palavras que soavam tão bem, rimas perfeitamente calculadas, uma métrica (onde aprendi isso?) impecável, e aquela sonoridade que só um dos nossos poderia ter. O único problema foi que, não poucas, mas muitas vezes, não entendíamos os assuntos sobre os quais o autor falava, pois citava nomes de personagens históricos, mitológicos e literários que desconhecíamos, como Ugolino della Gherardesca e Midas. As notas de rodapé supriam nossas duvidas, mas a necessidade de consultá-las quebrava a linha de raciocínio e atrapalhava o profundo e prazeroso clima de poesia.
Enquanto líamos esse, Guido parecia estar se enchendo de textos medievais de conteúdo obscuro, alguma coisa sobre alquimia e misticismo.
Meus gostos talvez divergissem dos da minha "irmã", mas eu não saberia ainda, já que era a primeira vez que eu lia um livro de verdade na vida, e havia sido uma experiência ótima, que eu precisava repetir, a leitura sequer aliviava os meus tormentos internos, mas não deixava de ser agradável. Terminada a obra de Dante, fomos sozinhas até a Taverna, comemos um bolo muito gostoso recheado com uma calda vermelha de morango, tão doce quanto o fato de ser de graça. Comer de graça! Morrer havia sido a melhor coisa que me havia acontecido, por mais que o dom me maltratasse permanentemente, eu pelo menos não tinha que sentir fome. Astarte ainda me sugeriu que eu arranjasse uma roupa mais digna de meu novo estilo de vida, assim, me levou para a Cidade das Belezas, ela acabou me arranjando um elegante conjunto: Um vestidinho branco até os joelhos e um jaqueta preta com mangas até os punhos, ainda deu um trato no meu cabelo nojento, que ficou ondulado e bonito, e também me deu um banho e deixou minha pele bem macia e cheirosa. Foi tão bom me sentir pelo menos um pouco bonita!
De volta à biblioteca, pedi ao bibliotecário sugestões de livros que me ajudassem a conhecer o mundo e a me encher de cultura e conhecimento. Dito e feito, me indicou livros de filosofia ocidental, que, de acordo com ele, eram os melhores para "abrir a mente ao conhecimento". Primeiro li A República de Platão, depois Discurso do Método de Descartes, O Príncipe de Maquiavel e Cândido de Voltaire. Me apaixonei por aquele tipo de escrita, não sei se foi porque comecei a ler através dela, mas era incrível como minha iniciação à filosofia era rápida, e como eu absorvia bem as informações que me eram oferecidas, assim, desejava mais e mais. Cada autor contradizia o outro, mas era exatamente esse pequeno problema que tornava a leitura interessante, pois os conflitos me levavam a pensar, pensar em quem estaria certo, quem estaria errado, quem detinha de fato a razão. Racionalidade extrema? Materialismo? Ceticismo? Tolerância? Rudeza? O que escolher? Obviamente, não parei, íamos todos os dias ao bar para nos alimentar, mas no resto quase todo do dia, apenas líamos. Alguns meses se passaram e Astarte decidiu ir embora, já estava cansada da leitura em massa, já eu, apenas queria mais, e Guido também parecia satisfeito com a situação atual, ele estava acostumado desde sempre, na verdade, conversávamos muito, e nos tornávamos cada vez mais amigos, e assunto não era o que nos faltava. Falar sobre o que é a verdadeira virtude ou sobre a origem do mundo? Fiquei muito triste com a despedida de Astarte, mas não pedi que ficasse, e nem pensei em ir com ela, abracei-a com todas as força antes que fosse pra outro plano, e não deixei de me preocupar com os perigos que talvez a esperassem lá fora, por mais que ela fosse forte para lidar com qualquer impasse. Nem o Inferno inteiro poderia parar minha boa amiga Astarte, disso eu tinha quase certeza.
Parecia que haviam me tirado parte de mim, não uma grande parte, mas algo que faria falta pelo menos por um bom tempo, um dedo mindinho, talvez, e não teve um minuto em que eu não sentisse um pouco a falta dela. Mas não permiti que a melancolia me tornasse improdutiva em minha caçada cultural. Li dezenas de livros, não me limitei à filosofia, me interessei bastante em especial por todos os assuntos das ciências exatas, viajei nos capítulos da história mundial, mergulhei à fundo nos conhecimentos sobre o Império Romano e Bizantino, as teorias sociológicas mais recentes e também as mais antigas, conhecimento sobre os países, os povos, e toda forma de informação relacionada ao ser humano. Não consegui me interessar realmente pelos elementos, pela natureza, ou pelos animais, o alvo de minha avidez era a minha própria espécie, a raça humana, queria conhecê-la, entendê-la em toda a sua natureza, saber o que pensam, o que fazem, e o porquê. Havia um livro em especial, escrito por um tal Frederico Francis, que declarava ser o pai da psicologia, eu não fazia ideia do que seria psicologia, até ler aquele livro "Psicologia", o nome pode até soar ridículo, mas o conteúdo de suas quase oitocentas páginas era bastante esclarecedor, e dava uma visão geral sobre o funcionamento da mente humana. Definitivamente seria necessário mais do que um livro para se revelar o suficiente sobre as pessoas e seus pensamentos, pois se nem todos os livros já escritos chegaram sequer um pouco perto dessa meta, muito menos seria possível que um único autor conseguisse cumprir tão ambicioso objetivo. Mas para mim, que era completamente desinformada em vida, aquelas milhares de folhas que devorei avidamente foram a maior das luzes para me tirar da escuridão da ignorância. É como é odioso ser ignorante! Comecei a "morar" com Guido no ano de 1836, e saí de lá em 1861, completamente transformada intelectualmente, deixava de ser um monstrengo desinformado, para ser um ser pensante e, talvez, cheio de esperança. De fato muitos anos se passaram, e a cada dia que se passava sem que eu fizesse uma única vítima daquele meu incessante ódio eu ficava surpresa e otimista, estava me controlando também, me mantinha bem ocupada mentalmente, o que não significava diminuir minha "fome", mas como eu sempre digo, servia para me distrair e não pensar nela.
Mas parti naquele ano de 1861, coincidindo com o ano da unificação da Itália, Guido de Arezzo e os livros eram uma boa companhia, mas faltava algo, algo muito importante e sem o qual eu não poderia viver para sempre sem, ou pelo menos, não poderia não buscar: Alguém que me entendesse e fosse como eu, uma companhia. Astarte me entendia parcialmente por causa de seu dom difícil de controlar, mas tinha uma personalidade demasiado infantil, ela era muito diferente de mim, creio que eu, Luna, tenha uma alma de idosa, ou melhor, de cadáver, enquanto ela tem aquela personalidade infantil e até ingênua, ainda que ela entenda sobre as coisas, saiba como lidar com cada problema, parecia não haver por parte dela nada de muito profundo, o que não deixava de ser melhor para ela. Quando se é mais profundo em seus pensamentos e reflexões do que se deve, quando você se questiona muito, questiona tudo, busca os porquês e não tenta aceitar as coisas como elas são, a vida se torna uma trágica sequência de desventuras e vazios. Astarte tinha amor pelas coisas simples da vida, ela não ficava constantemente reclamando de tudo, odiando a todos, ela era uma criatura de alma positiva, por mais que fosse um tanto monstruosa. Era aquele prazer de criança que a tornava tão especial, feliz, e principalmente, diferente de mim, uma niilista que sente antipatia a qualquer vida que me seja estranha, milagres aconteceram quanto àqueles meus dois companheiros, pois não me ocorreu de simpatizar com qualquer outra pessoa com que eu tenha falado nesses últimos catorze anos, e não foram poucas, pois nossas saídas da biblioteca não se limitavam apenas a idas à taverna, Guido e eu, e antes Astarte também, íamos a vários lugares com não muita frequência. Eu desejei ser como Astarte, que preferia os livros de literatura, lia por puro lazer e divertimento, sua obra favorita era Dom Quixote. Já a monstrinha de olhos castanhos não tinha tanto prazer em ler algo que acreditasse não ter alguma utilidade informativa, assim evitava as ficções que não tivessem uma boa dose de filosofia ou informações sobre um contexto histórico ou regional, meu prazer era aprender sobre o humano (não usarei o termo homem por parecer machista aos meus ouvidos), sua vida, evolução e, principalmente, seu pensamento, que varia da mais primitiva superstição, até a crença sólida na ciência espiritual, a mais avançada de todas. Esses gostos podem parecer tediosos para a maioria das pessoas, mas como eu disse, tenho alma de velha, de morta, e a seriedade me atrai muito, não sou apegada às piadas, aos sorrisos, a questões pequenas e, ao meu ver, insignificantes. Mas deixo claro que nunca considerarei a busca de alguém pela felicidade, pelo amor, por uma razão para viver, ou seja, questões existencialistas, individualistas e emocionais como irrelevantes, pois ao meu ver, não pode haver nada mais importante na vida de alguém do que a busca egoísta pela felicidade e todos os pré-requisitos necessários para alcançá-la, e o mais fascinante e ver como cada indivíduo busca esse mesmo objetivo de ser feliz de formas diferentes, gosto de ver, ou melhor, ler como foi o caminho de muitos deles, para assim, tentar encontrar o meu próprio, e por isso, os de literatura que me agradam são aqueles demasiado emotivos e intimistas.
Astarte não me entenderia! Sou egoísta e uma misantropa excepcional! Guido é sempre compreensível, mas de nada adianta compreender apenas com palavras e boa vontade, quando não se consegue sentir ou se pensar como aquela pessoa que deveria ser compreendida, que no caso, sou eu. Não quero parecer muito melosa agora, então chega, irei ao ponto para contar o que aconteceu depois que deixei meu amigo.
6
Uma cidade interiorana, casebres pintados com tintas naturais, telhas de madeira por cima de estruturas de alvenaria, arbustos brotavam de muros mal-feitos em que o cimento escapavam por entre os tijolos, havia uma grande ladeira que levava a algo que talvez tivesse sido um lixão antes, mas que agora não passava de um monte de terra pouco antes de um abismo verde, lá em baixo se podia ver muito mato e pés de frutas silvestres que se enrolavam com os galhos uns nos outros, mas era muito alto, parecendo talvez não ter sequer um fundo. Uma cerca de arame farpado impedia o acesso ao ex lixão, embora eu não quisesse ir lá, tive curiosidade de ir até aquele buraco verde pouco além, mas tive que contê-la, prestei atenção nos habitantes, havia muitos, parecia uma cidade populosa e extensa, e os rostos tranquilos de gente de todos os tipos pareciam sempre ainda melhor humorados pelo reflexo do céu de Sol dourado encoberto por trás de nuvens perfeitamente cinzas que pintavam o céu em um lindo quadro digno de um artista lendário! Foi o local espiritual mais parecido com o mundo material em que estive até o momento. Não tive que me informar com ninguém sobre o nome do plano, já havia, escrito com tinta comum azul em uma das casas mais largas e de teto baixo "Cafeteria de Belópolis". Achei um tanto estranho o nome, e já sentia aquela velha e devastadora fome, mas deveria controlá-la, por mais que aqueles rapazes com roupas largas mais me parecessem enormes frangos recheados apenas esperando para se tornarem a melhor refeição para uma menina órfã. Tantas lembranças tinham voltado na época em que estive com Arezzo, lembrei-me razoavelmente da siituação da minha morte, afogada em vômito e fezes até secar completamente, lembrei-me do cenário campestre em que trabalhava, e também do rosto de meu robusto pai, que não era alto mas era muito forte, e minha mãe, tão magra e compridona.
O ser humano é livre, e isso, às vezes, pode ser muito ruim. O que fazer com a liberdade? Eu me fazia essa pergunta agora, deveriam existir milhões de locais para ir, bilhões de atividades a serem praticadas, pessoas conhecidas e novidades descobertas, mas não fazia ideia do que fazer, e depois tem gente que não entende porque as pessoas precisam tanto de um deus para guiá-las.
Estive muito triste nesse dia, mas agi naturalmente, fui a um restaurantezinho e comi batatas assadas recheadas com molho de tomate, deliciosas! E continuava pensando no que faria e para onde iria, aquele era apenas o meu primeiro destino. Só sabia que precisava de uma pessoa como eu. Onde a encontraria? Dúvida extremamente difícil de ser esclarecida, ninguém poderia me responder essa pergunta por mim, eu deveria encontrar sozinha. Comecei depois de minha satisfatória refeição, caminhando nos menores passos pelas ruas estreitas de Belópolis, analisando a energia de cada transeunte da mesma forma que fazia quando caçava vítimas, reparei que algumas me olhavam com medo e aceleravam seus passos. Me conheciam? Queria alguém com energia semelhante à minha, um amigo que pudesse completar o vazio solitário que Astarte e Guido não puderam completar.
Busca inútil e sem resultados! Até me irritei um pouco por ter buscado o dia todo sem sequer uma sombra de suspeita de resultado, mas teria tempo, na verdade, toda uma eternidade talvez. Esperar uma eternidade não é uma ideia agradável para ninguém, talvez eu estivesse no local errado, certamente estava, pensei no local para onde havia sido jogada pós a morte. Abismo dos Condenados, lugar pior não poderia haver, mas se eu tinha conseguido escapar de lá e me habilitar, por que outra pessoa também não poderia? E por que essa pessoa não poderia ser o tão amigo que me entenderia? A ideia de voltar até lá me assustou, mas acabei tomando coragem para ir até lá, lembrei-me até do livro mais estranho que tinha lido em minha estada: Juliette do Marquês de Sade, o mesmo homem que havia me torturado barbaramente, era um romance doentio que só poderia ter sido concebido por uma mente doentia, e se alguém podia escrever algo daquela forma, então eu encontraria seres piores do que os do Abismo em outros lugares, pois o mal racional é o mais perverso de todos, assim, de todos os males, os infelizes caídos e condenados seriam os menos temíveis.
Abismo dos Condenados
Cheguei lá, não havia cenário para descrever, apenas aquela disforme escuridão por toda parte, aquelas sombras malditas rastejando como serpentes, os gemidos atormentados, gritos, o odor de podridão em cada centímetro cúbico de ar, tudo o que um espírito equilibrado tentaria evitar até sua morte final. Caminhei, e com esforço fui lendo a energia dos que se mexiam por entre meus pés, alguns me puxavam, mas eram muito fracos e não conseguiam se segurar se eu colocasse força para me soltar. Deveria ser desagradável ter que analisar os seres daquele buraco, mas não era, eles tinham odores muito curiosos, não saberia comparar com algo do mundo físico, mas se difenciavam muito de um para outro, e isso me divertia, eu me sentia em casa, uma casa doentia e suja, mas a minha casa. Fui tentando não pisar neles, ainda que por dentro minhas consciências pedissem "Absorva eles, pise neles!", meu auto-controle se mantinha muito alto, e isso me agradava muito, me sentia útil e também forte. Foi uma busca demorada, até que, em certo momento, vi lá um corpo conhecido, que me aflorou completamente as memórias, e ele estava rodeado por outros que eu também conhecia, e cada um deles trouxe mais lembranças amargas à torna, aos poucos e devagar. Mamãe, papai e meu irmão mais velho chamado Antonio, estavam todos lá, estavam lá, e começaram a chorar quando me viram, imploravam com frases de todo tipo: Perdoe-nos! Desculpa! Perdão! Foi preciso!
E eu me lembrei que eles haviam me abandonado para morrer quando fiquei doente, e o rancor que eu havia esquecido de guardar finalmente explodiu, e explodi com a mais doente ira, sei que meus olhos finalmente se tornaram cor de sangue, e creio ter tomado a forma de monstro e perdido a consciência, pois tudo escureceu e eu adormeci.
Estava de volta à consciência de Artur, naquela caverna com Mefistófeles. Era bom voltar a ser eu, pois na ilusão, sequer lembrava da minha real existência, e pensava ser Luna realmente, mas me revoltei por ter vivido uma ilusão tão exageradamente longa, até o modo como descrevi as lembranças de Luna foi com o jeito dela, com a alma dela, com a escrita dela!
- Se passou mais de vinte anos! Todo esse tempo era necessário?
- Se acalme, foi tudo uma outra ilusão, você só viveu até o fim da leitura da Divina Comédia, depois te fiz pular para a busca no Abismo dos Condenados, mas também fiz as lembranças dela dos outros momentos ficarem fixos na sua cabeça, assim, você ficou pensando que passou por eles, mas não passou.
- Ainda falta muito para terminar? - Perguntei, mais tranquilo com a informação.
- 1861 para 2011. O que acha? - Riu com zombaria e logo voltei para meu papel.
Estava caída no chão, e um homem de chapéu me olhava com desdém, segurando algo que parecia um guarda-chuva, sentia dores terríveis no meu corpo, e pude ouvir a voz de meus familiares nas profundezas de minha consciência, havia os absorvido, e agora sabia que haviam morrido há muitas décadas em um incêndio da casa, por causas desconhecidas. Também me vi abatida pelo homem que me observava, ele tinha um poder imenso.
- Você é a famosa Lady Blood de que tanto andam falando? Você vai ser muito útil pra mim, espero que goste de voar.
- Quem é você? O que está fazendo?
Por um momento, me vi no espaço, flutuando por entre as estrelas e planetas, no meio do vácuo, que sensação maravilhosa de liberdade e absoluta grandiosidade! Não, uma ilusão e nada mais, tentei fechar os olhos e acordar de tão mentira, e então estava em uma prisão da qual não gostaria de me lembrar nunca mais!
Era um salão de teto alto, cheio de lâmpadas elétricas por toda a parte, que brilhavam em feixes de luzes fortes que ardiam ao chegar aos olhos, grandes gaiolas abobodadas de rígidoe grosso ferro prendiam as pessoas ali presentes, pareciam com as de pássaros, só que maiores, eu estava dentro de uma delas, e tentei usar meus flagelos para quebrá-la, mas eles sequer saíram. Estava presa e sem poder usar meus poderes! E não, os meus conhecidos tormentos internos não pararam por causa disso. Tinha pelo menos trinta pessoas lá, a maioria estava caída e cabisbaixa, sem esperança, sem acreditar em qualquer forma de libertação, e alguns poucos se debatiam contra as grades, também incapazes de usarem seus poderes, pude ainda contar umas vinte jaulas vazias que esperavam por seus prisioneiros. O homem de chapéu estava à frente de tudo, entre o espaço que havia entre duas gaiolas vazias, já que as prisões era dispostas na forma de um círculo que lembrava vagamente uma ferradura.
- O que está acontecendo? O que é isso? O que é isso?
O homem respondeu alto para que todos ouvissem:
- Crianças, essa é a nova companheira de quarto de vocês, o nome dela é Luna.
- Como sabe meu nome? - Gritei com todas as forças, que aparentemente, não eram muitas.
- Pesquisei, todos conhecem a história do demônio que é formado por várias almas condenadas, eu apenas tratei de descobrir seu nome, te localizei e obtive informações, e assim que você saiu da segura Cidade dos Livros, a capturei. Você agora está no Salão de Belzebu, eu sou Belzebu, e agora você é meu animalzinho, e devo dizer que é o meu animalzinho favorito.
- Não sou seu animal. Pra que você me quer, desgraçado imundo?
- Não me insulte. - Estalou os dedos, mostrando uma expressão enfurecida, e senti que minhas costelas se quebravam, gritei de dor, mas depois vi que havia sido uma sensação completamente ilusionária, e que ele gargalhava às minhas custas. O que ele queria? Por um momento imaginei se minhas vítimas não havia pensado a mesma coisa: Por que? Comecei a me sentir culpada, mas a culpa ainda era inferior à ânsia de matar aquele carcereiro, e absorvê-lo, seria uma adição valiosa. - Não pense que você terá tratamento especial apenas porque não é como as outras, aqui todos têm o mesmo direito: nenhum! Ele se teletransportou para outro lugar e sumiu de nossas vistas, então tratei de me debater mais fortemente contra as grades, talvez sem ele vigiando a fuga se tornasse mais possível, ou pelo menos, de meno impossibilidade. Do que era feito aquela porcaria? Era de uma rigidez que jamais tinha visto ou sonhado em ver, sentia-me tão impotente e fraca naquela situação, realmente como um animalzinho encarcerado, à mercê de seu proprietário, e proprietários se diferem muito de donos, pois os últimos se importam em cuidar do seu bichinho. Ser um bichinho? Aquilo mais parecia um circo, tentei me informar com um velho encolhido na gaiola mais próxima à esquerda: - Por que estamos aqui?
- Ele captura espíritos que têm dons consideráveis e os utiliza para pesquisas. Qual é seu dom, garota? Dependendo de qual você tenha, não durará uma semana aqui. - Choramingava, não havia sequer um vestígio de esperança na voz daquele pobre condenado.
- Meu dom é um dos mais poderosos, e acho que ele sabe disso. E o seu?
Respondeu revoltado, com lágrimas nos olhos que quase me deram pena: - Consigo me regenerar de qualquer dano em pouquíssimo tempo, esse cretino testa suas "armas" em mim por causa disso, eu ainda não sei porque não me matei, sou submetido a toda forma de barbaridade e continuo vivo, acho que ainda tenho esperança de escapar daqui, ou melhor, de ser liberto, porque eu mesmo não tenho forças pra quebrar essas grades. Acho que ninguém tem.
- E que tipo de dom é agraciado com uma morte rápida? E quais duram por aqui?
- Se você diz a verdade, vai durar muito tempo, pois quanto mais poderoso e complexo o dom é, mais demorada é a pesquisa sobre ele, torna-se fácil de ser desvendado, no caso contrário, a pesquisa é rápida e o espírito se torna descartável em pouco tempo, literalmente descartável.
- Literalmente descartável, então ele apenas usa e mata. - Disse pensativa e fui pro outro canto, segurei nas grades e chamei pela jovem que chorava sem parar,, com as mãos no rosto, suas pernas estavam cheias de cortes profundos já cicatrizados que formavam um crosta vermelho enegrecida grossa e desagradável, e eu podia sentir o cheiro dos ferimentos.
- E você? Qual é seu dom, senhorita que chora? - Me mantinha calma a qualquer custo, mas não era difícil perceber que não poderia continuar assim por muito tempo, quando aquele homem voltasse, me desesperaria tanto quanto todos os outros, e me uniria àquele Inferno coletivo.
- Eu sou Nina, tenho o dom de ler os pensamentos da maioria das pessoas, os seus me assustam, são confusos, múltiplos. O que é você? O que é seu dom? - Tirou as mãos dos olhos e me fitou com aquele bolinhas pretas tão amedrontadas que me davam dó, ela lembrava uma criança em seu jeito, ainda que fosse bem mais velha que eu fisicamente.
- Tenho o dom te manter várias mentes em meu corpo, de absorver outras e torná-las parte de mim mesma, ao mesmo tempo que adquiro todos os seus poderes e conhecimentos, resumindo, sou um monstro terrível e vou demorar pra sair daqui. Peço que me informe sobre o homem de chapéu, ele é capaz de adquirir os dons que pesquisa por aqui?
- Não sei, acho que não, senão ele seria invencível, acho que ele apenas estuda, procura compreender, ele é um daqueles homens que buscam conhecimento à qualquer custo, mas que preferem agarrá-lo da forma mais imoral e cruel possível, nada o apraz mais que o nosso suplício. - Demorou para terminar sua explicação, pois soluçava muito e era difícil falar aos prantos.
- Eu vou arranjar um jeito de sair daqui, de sairmos, fique tranquila, e pare de chorar. - Terminei o assunto e me encolhi em um canto da jaula, na mesma posição da maioria dos prisioneiros e fechei os olhos. Me concentrar, me acalmar e tentar colocar meus lindos flagelos pra fora, quebrar aquelas jaulas, usar todos os meus amplos poderes para me libertar. Me libertar a qualquer custo! Tentei, tentei e tentei... uma hora se passou no mais aplicado esforço psíquico ao qual pude me dedicar, a calma diminuía a cada minuto que se passava, e eu nem sei porque pensei que apenas uma hora havia se passado! Que coisa imbecil! Péssimo método, talvez ser racional e tranquila fosse uma grande idiotice, lembrei-me até daquela literatura suja a que tive acesso na Cidadela dos Leitores, a literatura do Marquês de Sade, defendia o instinto como o maior guia do ser humano, o lado animal não deve ser suprimido, deve-se dar espaço a todos aqueles desejos carnais e selvagens que a muitos parecem demasiado primitivos. Muito contrariada tentei seguir a ideia dessa filosofia tortuosa, abri meus olhos apenas para ver o que acontecia ao meu redor, e nada mudara, então fechei novamente minhas pálpebras e adormeci por um momento quando aquele véu negro tomou conta de mim. Infelizmente a luz voltou tão rápido que sequer tive tempo de repousar, caí enfraquecida no chão.
- O que aconteceu comigo? Digam! - Gritei, mal acreditando.
O velho respondeu no mesmo tom lamurioso de sempre: - Você começou a tomar uma forma estranha, tava perdendo sua forma de humano e se tornando um monstro esquisito de olhos vermelhos e que ia crescendo, só que a gaiola te impediu de continuar crescendo e aí você voltou ao normal. Eu fiquei com medo, mas ainda senti uma leve esperança de que você conseguisse quebrar a prisão de pudesse nos libertar, mas parece que nem um monstro pode nos salvar agora.
- Que maldição! Não me chame de monstro! - Fiquei enfurecida, e comecei a socar as grades novamente, sem objetivo, apenas tentava disfarçar meu medo e minha tristeza com uma explosiva ira, e era isso que eu sempre fazia. Por que ficar triste quando se pode ter raiva? Talvez seja uma covarde por isso, mas realmente prefiro esse caminho venenoso que é a raiva.
Passado o meu surto, me sentei de novo e voltei a pensar em uma forma de sair de lá. Ora, meus poderes não funcionavam, mas eu conseguia ficar inconsciente e despertar minha forma monstro, ainda que ela fosse regredida pela gaiola. O que tinha aquela gaiola de especial? Havia lido muitos livros sobre o mundo espiritual, obviamente não teria me limitado às ideias humanas, li a obra completa póstuma de Platão, que foi o maior estudioso do mundo espiritual depois de morrer e até reencarnar muitas vezes. Então eu sabia o princípio da criação dos objetos e cidades espirituais, e também dos mesmo no mundo real, e devo descrevê-la detalhadamente até onde meu limitado conhecimento permite, para depois explicar o método que tentaria usar para escapar. No mundo existem dois mundo, o material e o espiritual, isso é óbvio, o mundo espiritual é formado por um único tipo de energia, e essa mesma energia forma tanto o mundo material quanto o espiritual, pois mesmo a matéria é formada por uma grande quantidade de energia que unida acaba por formar a massa. Essa mesma energia, aqui no plano astral, se divide para formar duas formas diferentes de existência, as vivas e as inanimadas, é o mesmo tipo de energia, apenas muda sua função, ela passa de uma forma para a outra constantemente, o vivo se desgasta e transforma energia viva em inanimada, enquanto outros espíritos nascem ou se alimentam ou evoluem, e transformam energia inanimada na energia viva de seus corpos prânicos. Dessa forma, todos os objetos, todas as cidades, e todo o mundo espiritual são formados por essa energia inanimada moldada, assim como se faz no material, onde formam cavernas muito sólidas, por exemplo. Mas existe uma única forma, também formada por energia, que é diferente de toda as outras, que não pode ser transformada em outra coisa, é a Alma, a alma é o que define a natureza, a consciência, a inteligência e as emoções de um ser vivo, cada uma é diferente da outra, a alma é como que o "centro" do espírito, enquanto o espírito seria mais como o seu "corpo", mas claro, isso se estivermos usando a terminologia científica mais apropriada, pois, em situações comuns que não exigem tais detalhes, alma e espírito continuam sendo sinônimos. Meu dom me permite absorver tanto a o espírito, que me serve de fonte energética e estrutural, quanto a alma, que me oferece inteligência e dons, e apesar de ser possível destruir a energia a alma ao se romper a unidade que a torna um centro inteligente, transformando-a em mera energia comum dissipada e acabando definitivamente com a vida do indivíduo, meu dom só é realmente útil se a vítima for absorvida viva, para que eu possa adquirir os benefícios de sua alma, e isso me torna tão especial, e tão monstruosa. Um ser com vários núcleos sob o controle de um único, o mais doentio deles! Quem, em sua vida mortal, poderia acreditar em um horror desse? Enfim, seguindo essa lógica, eu poderia... infelizmente tive minha linha de raciocínio quebrada quando ouvi alguém chegar e vi um rosto conhecido diante de meus olhos.
Sadismo
Lá estava Donatien François Alphonse de Sade, o infame marquês que me torturara e me oferecera muitas horas de iníqua leitura, e ele veio com uma idosa desgranhada nos braços, inconsciente, abriu uma gaiola vazia com apenas um movimento do dedo, e o lançou lá dentro como uma bola. Fiquei horrorizada com a violência com que ele alojava o "hóspede", pensei em gritar e insultá-lo, mas me contive, preferindo me manter calada para não correr o risco de passar por mais maus bocados, ele estava no controle. Mas o que ele fazia ali?
Quando a porta da gaiola foi fechada, o velho acordou, parecia ser automático, e então, consciente, se segurou nas grades e começou a gritar e tirar satisfações.
- Cale-se, senhor Liovka, você agora é um prisioneiro do Salão de Belzebu, e estará a mercê de todos os caprichos dele e de seus ajudantes, e isso inclue a mim, Marquês de Sade.
Eu deixei meus olhos fechados e fiquei encolhida, tentando me esconder dos olhos devassos daquele demônio. Por favor, não me veja! Estava recuperando minha humanidade aos poucos, mas a desvantagem de não ser um monstro é que o medo se torna cada vez mais intenso, humanos sentem medo, humanos temem a dor e a morte.
- Lamento, Luna, mas eu te vi. - A voz dele ecoou pertinho de mim, abri os olhos e não pude deixar de tremer. Era ele! Ele! Abaixo de frente pra minha jaula e se apoiando em uma das grandes, inteiramente sorridente com o olhar fixo em mim. E eu totalmente indefesa! Poderia ser pior? Não, não poderia! Estava em pânico, histérica, mas pelo menos tinha a certeza de que esses terríveis sentimentos eram humanos, e que me faziam quase esquecer da raiva gerada pelo meu dom. Eu não respondi nada, apenas o olhei com meus olhos dilatados e suando frio, tão humana, tão frágil, e tão medrosa, sem coragem para sequer abrir a boca.
- O que foi, Luna? Parece um pouco assustada! Pelo nível da sua energia, você fez o que eu esperava que fizesse e espalhou o sofrimento por aí. Oh, que ótimo semeador eu sou! Fala pra mim, fala! Quantos matou? Quantas vidas você destruiu sem hesitar? - Ele parecia louco, de fato, era louco! - Fala! Vamos, você matou meus companheiros, estou me lixando para aqueles cretinos, amigos são assim, vêm, vão, todos descartáveis, mas você tentou me matar, senhorita, e precisa sofrer mais por isso. No entanto, não me tema, depois que Belzebu vier analisá-la, você sentirá saudades de mim. - Abaixou a voz e cochichou, enquanto eu tentava me encolher mais. - Ah, espero que não tenha esquecido daquela deliciosa noite de amor.
Senti nosso em ouvir isso, e me lembrei do que ele me havia feito, ao mesmo tempo perdi os movimentos. Não! De novo em uma ilusão, e agora me via suspendida pelas mãos em grilhões muito apertados que impediam a minha circulação e me provocavam uma insuportável sensação de... corrente sanguínea parando? E a voz de meu inimigo vinha e voltava: - Luna, tente escapar, vamos, saia desse pesadelo. O que pode fazer?
Não consegui sequer imaginar que tipo de experiência era aquela, certamente era apenas uma tortura, não o obedeci e me submeti completamente ao delírio, apenas para não obedecê-lo. Torci para estar sendo enganada, para aquele "tente escapar" não ser um "fique quietinha" disfarçado. Senti algo pontudo cutucando meu bumbum, fez umas cócegas estranhas, então comecei a tentar me soltar, mas não conseguia mover meu corpo e muito menos usar meus flagelos. Flagelos, como eu sentia falta deles, nada pior do que deixar de ser o algoz atroz para ser a vítima impotente, e creio que muitos já tenham sentido essa ingrata emoção diretamente na pele, pele essa minha que começava a arder. A ilusão foi cancelada, eu estava de pé, e estava com as mãos fechadas enfiadas nas grades de cima, o que me deixava pendurada a uns cinquenta centímetros do chão. Tentei me soltar, mas estavam presas, como se coladas, e então senti de novo algo me cutucando por trás, tentei virar a cabeça e vi Sade segurando uma espada francesa pesada e mal afiada.
- O que você está fazendo? - Perguntei, tentando me soltar, fracassando completamente em meus árduos esforços.
- Você não entenderia um procedimento científico como esse, estou apenas testando seu fluxo energético com essa espada especial condutora. Aliás, vamos ver. - Explicou, apontou a ponta no meio das minhas costas, e furou, segurei o grito de dor que teria dado apenas para não ver dar a ele esse gostinho, não falei nada, mas continuei olhando, sem parar de tremer, mas fazendo de tudo pra não demonstrar meu profundo terror.
Ele passou o dedo em um pouco do sangue que manchava a lâmina, então lambeu e deu um sorriso quase cômico: - O gosto é nojento, ferrugem pura, é denso e sujo. Muito bem, vamos para o próximo exame, Belzebu não me deu nenhuma ordem sobre isso, mas faço questão.
- Senhor Sade, como você pode aceitar se subordinar a um velhote feio como aquele? Você não acha ridículo que um grande escritor como você seja o funcionário e ele o patrão? - Tentei envenená-lo contra o superior, pelo menos nas ficções, esse apelo à vaidade costumava funcionar.
- Desculpe, minha pequena, mas eu não sou tão burro. Você está lendo muito Homero, é um poeta muito ingênuo para os meus gostos refinados e modernos, bem vindo à era moderna, Luna, e bem vindo à República! - Ironizou, temi muito mais quando ele pegou um comprido fio de borracha, o enrolou no meu corpo sem entrar na cela, continuei tentando soltar minhas mão enfiadas nas grades, que funcionavam como algemas muito apertadas e incômodas. Queria muito descansar, como queria... senti um choque pelo corpo inteiro e não pude deixar de gritar, o fio pegou fogo rapidamente e virou fumaça em um piscar de olhos, e meu lindo vestidinho ficou todo cheio de queimados e fuligem.
- Incrível, você impressiona em todos os testes. - Sorriu e desapareceu, fiquei muito aliviada e pude respirar fundo, mas infelizmente, esqueceu (duvido que tenha sido por falta de atenção e não por maldade) de me despendurar do teto da gaiola. Fiquei lá, e continuei por muito tempo tentando me soltar, balançando as pernas e puxando o braço, tentei abrir as mãos, mas estavam presas de tão maneira que até isso era possível. Bem, pelo menos eu podia me mexer e Donatien não estava mais lá, eu tinha de ser otimista...
Que espera demorada, creio que tenha se passado umas seis horas, que pareceram pelo menos dois dias, fiquei tentando pensar em assuntos típicos de livro, refletindo concentrada, tentando me esquecer de meus problemas através da reflexão sobre assuntos de extrema relevância, mas não diretamente ligados a mim mesma, talvez solucionar as questões universais e fundamentais fosse uma boa maneira de me desligar de minha infeliz situação. Muito infeliz mesmo, e sem esperança também, aliás, creio que ninguém por lá tivesse alguma esperança.
Belzebu chegou acompanhado de um bonito velho de cabelo e barbas longas. Vieram diretamente até mim, o chefe apontou para mim como se eu fosse uma mercadoria e começou a explicar.
- Veja, Eurípedes, essa aqui é minha aquisição mais preciosa até agora, essa garotinha tem a energia de pelo menos quatrocentas e cinquenta e sete almas, Sade testou para mim, agora eu irei ver até vão os limites dela, espero que você assista para saber como deve fazer.
- Mas mestre, eu sei como são os procedimentos. Com ela serão diferentes?
- Sim, ela é muito especial, mostrarei como devemos fazer, e quero que esteja aqui, de qualquer forma, para que a cure se eu a machucar demais durante os testes, ninguém é tão bom pra curar quanto você. - Tirou uma espada estilo árabe toda adornada de jóias, tive um mau pressentimento, mas não tremia.
- O que vocês vão fazer? - Perguntei, virando os olhos para um lado e para o outro.
Não responderam, Belzebu golpeou-me as mãos com a espada em um ângulo tão estranho que sequer consegui ver, elas foram cortadas fora e caí no chão, sangrando como um porco no abate, e chorei demais, gritando, e me esperneando, atirada e terrivelmente ferida. Como ele conseguiu me cortar de fora da grade? Como? Gritei todos os xingamentos que conhecia, rolei no chão, afetada até as profundezas da minha racionalidade pela dor pungente. E pior era saber que tal suplício era justo se fôssemos levar em conta os meus crimes passados, e que aliás, nem tão passados, como meus familiares haviam percebido da pior maneira recentemente. Ainda consegui me ajoelhar e me levantar, tirando forças não sei de onde, os olhava com absoluto ódio, e enquanto meu sangue manchava todo o chão, senti um um suave prazer em meio ao sofrimento: Onde minhas mãos deviam estar havia uma estranha sensação de leveza, como se meus dons tivessem se tornado mais intensos lá, fossem mais fáceis de controlar, como se realmente houvesse mais controle sobre eles por causa da mutilação. A necessidade permite a evolução, de alguma forma, consegui tirar flagelos nas minhas áreas amputadas, só que eles não iam além dessa área, e só alcançavam o formato das minhas mãos, estavam perfeitamente e instintivamente moldados na forma das mão recém-cortadas. A dor acabou, tentei levá-los pra frente, sair da jaula e atacar Belzebu e Eurípedes, que, covardes, recuaram alguns passos. Me esforcei pra aumentar aquelas falsas mãos, transformá-las em poderosos tentáculos, almas mortais para me libertar e me vingar, mas não funcionou, e passaram uns vinte minutos, eles apenas observavam meus esforços com interesse, até que parei e senti aquelas mãos de energia começarem a virar carne de verdade, e, à partir delas, regenerei minhas mãos verdadeiras quase que instantaneamente. Coloquei as palmas de frente dos meus olhos e sorri alegremente em vê-las ali, inteiras e curadas. Que poder formidável! Até tirei minha atenção de meus torturadores por um momento, mas logo tive que me lembrar deles.
- Viu, Eurípedes? Ela é fantástica, se regenera quase instantaneamente, temos muito a fazer com ela, temos muito pra descobrir. Como uma criaturinha pode ser capaz de tamanha façanha? Se ela não estivesse enjaulada, se eu não fosse o mestre das ilusões e tivesse que realmente brigar com ela, cara à cara, seria feito em pedaços tão rápido que não daria nem tempo de sentir dor! Você não pode, em nenhuma condição, permitir que ela consiga escapar, e todos os outros devem cuidar com cautela redobrada quando lidarem com essa aqui. Um fenômeno, com certeza, e ainda não sei nada sobre ela, logo faremos mais experiências para descobrir até que ponto vão os seus talentos.
Lancei à grade tentei novamente colocar meus flagelos para fora, falhando miseravelmente, furiosa, passei os dedos por entre as grades, tentando alcançá-los com as mãos para estrangular, socar, ou qualquer outra forma de agressão. Minha boca maldizia em todas as línguas que meus constituintes conheciam, especialmente em italiano e chinês, não conseguia passar a mão ferros apertados, e corria o risco de ficar presa como antes. Não temia o risco, o que eu tinha a perder? Só meus dedos, que o velho miserável me arrancou em um golpe impiedoso de espada. Nem gritei, apenas mordi os lábios e recuei, me concentrando para regenerar o que havia sido tirado, eles cresceram novamente tão rápidamente que fiquei surpresa. Me apoiei novamente na grade, só logo me vi presa a uma cruz, pregada, na verdade, e ele continuava na minha frente.
- A primeira experiência é um teste de resistência, ou melhor, as primeiras, preciso saber até que ponto o seu corpo aguenta agressão, então te cortarei até o ponto em que você não conseguir se regenerar. Aí eu paro, eu imagino que você vá fingir que não está conseguindo para que as mutilações cessem, mas felizmente tenho como um de meus ínumeros dons, o de ler a mente daqueles que iludo. Os cortes serão reais, então, se você fingir que não consegue se regenerar, continuarei cortando e você acabará por morrer. - Explicou enquanto eu tremia amedrontada e começou a fazer escarnificações pequenas na minha barriga, foi quando eu percebi que estava nua. Ou esse detalhe era uma ilusão? Sim, não havia comigo, eu devia estar com meu vestido ainda, mas o rasgavam, e eu remendaria com minhas energias pensando estar apenas regenerando minha pele e carne, dessa maneira, ficava difícil ter noção da realidade mesmo depois de despertar para ela. Arranhava devagar, já me acostumava a dor, ia rasgando lentamente a pele, me torturando com tranquilidade e sem remorso, e eu nem pensava em tentar me curar, até que... furou de uma vez o meu fígado, e, sem poder evitar gritar de dor, tive que me preocupar com regeneração, mas ainda evitei, e deixei aquela pequena cachoeira vermelha correr livre. Eu não ia morrer, ia? Os insultos que lancei ao meu carrasco não são relevantes nesta minha narrativa, mas o fato é que depois perfurou meu intestino, meu estômago, e finalmente, meu pulmão, ele continuava mesmo que eu não demonstrasse nenhuma cura, sabia que eu podia, mas não queria. Tentava um por um, e cada vez mais me sentia fraca, esmagada pela dor dos devastadores ferimentos, e minha visão escurecia muito, alguns segundos depois de ter o pulmão direito atravessado, imaginei qual seria a próxima parte: coração. E saía sangue demais, sim, eu morreria daquele jeito, tratei de me concentrar na minha sobrevivência, as chagas se fecharam em um par de segundos, tanto por dentro como por fora, e minha visão se tornou completamente clara.
Naturalmente não viveríamos em uma taverna, o trato que nós três fizemos se referia a companhia, não a local. Após uma longa celebração no melhor clima de festa que só alguns povos realmente conhecem, e que durou até o dia seguinte, fomos de volta para a Cidadela dos Leitores, Guido queria passar uma boa temporada em dedicação à leitura e à educação, sem, é claro, deixar de passar na taverna para uma boa cantoria, alimentação e bebida. "Nosso pai" nos aconselhou a ler bastante, o que de fato, era o que eu pretendia fazer antes de conhecer Astarte. Começamos lendo o exemplar de A Divina Comédia que eu tinha pego no dia anterior, escolhemos uma forma bastante diferenciada de leitura para que pudessémos as duas usufruir da poesia do épico ao mesmo tempo, eu lia cada página ímpar em voz alta, e ela as pares, também em voz alta. Dessa maneira, nós duas líamos e escutávamos, ora leitora e narradora, ora ouvinte. Era uma poesia profunda e maravilhosa, uma verdadeira viagem ainda mais espiritual do que a que me encontrava, sim, me fascinavam todos aqueles versos, palavras que soavam tão bem, rimas perfeitamente calculadas, uma métrica (onde aprendi isso?) impecável, e aquela sonoridade que só um dos nossos poderia ter. O único problema foi que, não poucas, mas muitas vezes, não entendíamos os assuntos sobre os quais o autor falava, pois citava nomes de personagens históricos, mitológicos e literários que desconhecíamos, como Ugolino della Gherardesca e Midas. As notas de rodapé supriam nossas duvidas, mas a necessidade de consultá-las quebrava a linha de raciocínio e atrapalhava o profundo e prazeroso clima de poesia.
Enquanto líamos esse, Guido parecia estar se enchendo de textos medievais de conteúdo obscuro, alguma coisa sobre alquimia e misticismo.
Meus gostos talvez divergissem dos da minha "irmã", mas eu não saberia ainda, já que era a primeira vez que eu lia um livro de verdade na vida, e havia sido uma experiência ótima, que eu precisava repetir, a leitura sequer aliviava os meus tormentos internos, mas não deixava de ser agradável. Terminada a obra de Dante, fomos sozinhas até a Taverna, comemos um bolo muito gostoso recheado com uma calda vermelha de morango, tão doce quanto o fato de ser de graça. Comer de graça! Morrer havia sido a melhor coisa que me havia acontecido, por mais que o dom me maltratasse permanentemente, eu pelo menos não tinha que sentir fome. Astarte ainda me sugeriu que eu arranjasse uma roupa mais digna de meu novo estilo de vida, assim, me levou para a Cidade das Belezas, ela acabou me arranjando um elegante conjunto: Um vestidinho branco até os joelhos e um jaqueta preta com mangas até os punhos, ainda deu um trato no meu cabelo nojento, que ficou ondulado e bonito, e também me deu um banho e deixou minha pele bem macia e cheirosa. Foi tão bom me sentir pelo menos um pouco bonita!
De volta à biblioteca, pedi ao bibliotecário sugestões de livros que me ajudassem a conhecer o mundo e a me encher de cultura e conhecimento. Dito e feito, me indicou livros de filosofia ocidental, que, de acordo com ele, eram os melhores para "abrir a mente ao conhecimento". Primeiro li A República de Platão, depois Discurso do Método de Descartes, O Príncipe de Maquiavel e Cândido de Voltaire. Me apaixonei por aquele tipo de escrita, não sei se foi porque comecei a ler através dela, mas era incrível como minha iniciação à filosofia era rápida, e como eu absorvia bem as informações que me eram oferecidas, assim, desejava mais e mais. Cada autor contradizia o outro, mas era exatamente esse pequeno problema que tornava a leitura interessante, pois os conflitos me levavam a pensar, pensar em quem estaria certo, quem estaria errado, quem detinha de fato a razão. Racionalidade extrema? Materialismo? Ceticismo? Tolerância? Rudeza? O que escolher? Obviamente, não parei, íamos todos os dias ao bar para nos alimentar, mas no resto quase todo do dia, apenas líamos. Alguns meses se passaram e Astarte decidiu ir embora, já estava cansada da leitura em massa, já eu, apenas queria mais, e Guido também parecia satisfeito com a situação atual, ele estava acostumado desde sempre, na verdade, conversávamos muito, e nos tornávamos cada vez mais amigos, e assunto não era o que nos faltava. Falar sobre o que é a verdadeira virtude ou sobre a origem do mundo? Fiquei muito triste com a despedida de Astarte, mas não pedi que ficasse, e nem pensei em ir com ela, abracei-a com todas as força antes que fosse pra outro plano, e não deixei de me preocupar com os perigos que talvez a esperassem lá fora, por mais que ela fosse forte para lidar com qualquer impasse. Nem o Inferno inteiro poderia parar minha boa amiga Astarte, disso eu tinha quase certeza.
Parecia que haviam me tirado parte de mim, não uma grande parte, mas algo que faria falta pelo menos por um bom tempo, um dedo mindinho, talvez, e não teve um minuto em que eu não sentisse um pouco a falta dela. Mas não permiti que a melancolia me tornasse improdutiva em minha caçada cultural. Li dezenas de livros, não me limitei à filosofia, me interessei bastante em especial por todos os assuntos das ciências exatas, viajei nos capítulos da história mundial, mergulhei à fundo nos conhecimentos sobre o Império Romano e Bizantino, as teorias sociológicas mais recentes e também as mais antigas, conhecimento sobre os países, os povos, e toda forma de informação relacionada ao ser humano. Não consegui me interessar realmente pelos elementos, pela natureza, ou pelos animais, o alvo de minha avidez era a minha própria espécie, a raça humana, queria conhecê-la, entendê-la em toda a sua natureza, saber o que pensam, o que fazem, e o porquê. Havia um livro em especial, escrito por um tal Frederico Francis, que declarava ser o pai da psicologia, eu não fazia ideia do que seria psicologia, até ler aquele livro "Psicologia", o nome pode até soar ridículo, mas o conteúdo de suas quase oitocentas páginas era bastante esclarecedor, e dava uma visão geral sobre o funcionamento da mente humana. Definitivamente seria necessário mais do que um livro para se revelar o suficiente sobre as pessoas e seus pensamentos, pois se nem todos os livros já escritos chegaram sequer um pouco perto dessa meta, muito menos seria possível que um único autor conseguisse cumprir tão ambicioso objetivo. Mas para mim, que era completamente desinformada em vida, aquelas milhares de folhas que devorei avidamente foram a maior das luzes para me tirar da escuridão da ignorância. É como é odioso ser ignorante! Comecei a "morar" com Guido no ano de 1836, e saí de lá em 1861, completamente transformada intelectualmente, deixava de ser um monstrengo desinformado, para ser um ser pensante e, talvez, cheio de esperança. De fato muitos anos se passaram, e a cada dia que se passava sem que eu fizesse uma única vítima daquele meu incessante ódio eu ficava surpresa e otimista, estava me controlando também, me mantinha bem ocupada mentalmente, o que não significava diminuir minha "fome", mas como eu sempre digo, servia para me distrair e não pensar nela.
Mas parti naquele ano de 1861, coincidindo com o ano da unificação da Itália, Guido de Arezzo e os livros eram uma boa companhia, mas faltava algo, algo muito importante e sem o qual eu não poderia viver para sempre sem, ou pelo menos, não poderia não buscar: Alguém que me entendesse e fosse como eu, uma companhia. Astarte me entendia parcialmente por causa de seu dom difícil de controlar, mas tinha uma personalidade demasiado infantil, ela era muito diferente de mim, creio que eu, Luna, tenha uma alma de idosa, ou melhor, de cadáver, enquanto ela tem aquela personalidade infantil e até ingênua, ainda que ela entenda sobre as coisas, saiba como lidar com cada problema, parecia não haver por parte dela nada de muito profundo, o que não deixava de ser melhor para ela. Quando se é mais profundo em seus pensamentos e reflexões do que se deve, quando você se questiona muito, questiona tudo, busca os porquês e não tenta aceitar as coisas como elas são, a vida se torna uma trágica sequência de desventuras e vazios. Astarte tinha amor pelas coisas simples da vida, ela não ficava constantemente reclamando de tudo, odiando a todos, ela era uma criatura de alma positiva, por mais que fosse um tanto monstruosa. Era aquele prazer de criança que a tornava tão especial, feliz, e principalmente, diferente de mim, uma niilista que sente antipatia a qualquer vida que me seja estranha, milagres aconteceram quanto àqueles meus dois companheiros, pois não me ocorreu de simpatizar com qualquer outra pessoa com que eu tenha falado nesses últimos catorze anos, e não foram poucas, pois nossas saídas da biblioteca não se limitavam apenas a idas à taverna, Guido e eu, e antes Astarte também, íamos a vários lugares com não muita frequência. Eu desejei ser como Astarte, que preferia os livros de literatura, lia por puro lazer e divertimento, sua obra favorita era Dom Quixote. Já a monstrinha de olhos castanhos não tinha tanto prazer em ler algo que acreditasse não ter alguma utilidade informativa, assim evitava as ficções que não tivessem uma boa dose de filosofia ou informações sobre um contexto histórico ou regional, meu prazer era aprender sobre o humano (não usarei o termo homem por parecer machista aos meus ouvidos), sua vida, evolução e, principalmente, seu pensamento, que varia da mais primitiva superstição, até a crença sólida na ciência espiritual, a mais avançada de todas. Esses gostos podem parecer tediosos para a maioria das pessoas, mas como eu disse, tenho alma de velha, de morta, e a seriedade me atrai muito, não sou apegada às piadas, aos sorrisos, a questões pequenas e, ao meu ver, insignificantes. Mas deixo claro que nunca considerarei a busca de alguém pela felicidade, pelo amor, por uma razão para viver, ou seja, questões existencialistas, individualistas e emocionais como irrelevantes, pois ao meu ver, não pode haver nada mais importante na vida de alguém do que a busca egoísta pela felicidade e todos os pré-requisitos necessários para alcançá-la, e o mais fascinante e ver como cada indivíduo busca esse mesmo objetivo de ser feliz de formas diferentes, gosto de ver, ou melhor, ler como foi o caminho de muitos deles, para assim, tentar encontrar o meu próprio, e por isso, os de literatura que me agradam são aqueles demasiado emotivos e intimistas.
Astarte não me entenderia! Sou egoísta e uma misantropa excepcional! Guido é sempre compreensível, mas de nada adianta compreender apenas com palavras e boa vontade, quando não se consegue sentir ou se pensar como aquela pessoa que deveria ser compreendida, que no caso, sou eu. Não quero parecer muito melosa agora, então chega, irei ao ponto para contar o que aconteceu depois que deixei meu amigo.
6
Uma cidade interiorana, casebres pintados com tintas naturais, telhas de madeira por cima de estruturas de alvenaria, arbustos brotavam de muros mal-feitos em que o cimento escapavam por entre os tijolos, havia uma grande ladeira que levava a algo que talvez tivesse sido um lixão antes, mas que agora não passava de um monte de terra pouco antes de um abismo verde, lá em baixo se podia ver muito mato e pés de frutas silvestres que se enrolavam com os galhos uns nos outros, mas era muito alto, parecendo talvez não ter sequer um fundo. Uma cerca de arame farpado impedia o acesso ao ex lixão, embora eu não quisesse ir lá, tive curiosidade de ir até aquele buraco verde pouco além, mas tive que contê-la, prestei atenção nos habitantes, havia muitos, parecia uma cidade populosa e extensa, e os rostos tranquilos de gente de todos os tipos pareciam sempre ainda melhor humorados pelo reflexo do céu de Sol dourado encoberto por trás de nuvens perfeitamente cinzas que pintavam o céu em um lindo quadro digno de um artista lendário! Foi o local espiritual mais parecido com o mundo material em que estive até o momento. Não tive que me informar com ninguém sobre o nome do plano, já havia, escrito com tinta comum azul em uma das casas mais largas e de teto baixo "Cafeteria de Belópolis". Achei um tanto estranho o nome, e já sentia aquela velha e devastadora fome, mas deveria controlá-la, por mais que aqueles rapazes com roupas largas mais me parecessem enormes frangos recheados apenas esperando para se tornarem a melhor refeição para uma menina órfã. Tantas lembranças tinham voltado na época em que estive com Arezzo, lembrei-me razoavelmente da siituação da minha morte, afogada em vômito e fezes até secar completamente, lembrei-me do cenário campestre em que trabalhava, e também do rosto de meu robusto pai, que não era alto mas era muito forte, e minha mãe, tão magra e compridona.
O ser humano é livre, e isso, às vezes, pode ser muito ruim. O que fazer com a liberdade? Eu me fazia essa pergunta agora, deveriam existir milhões de locais para ir, bilhões de atividades a serem praticadas, pessoas conhecidas e novidades descobertas, mas não fazia ideia do que fazer, e depois tem gente que não entende porque as pessoas precisam tanto de um deus para guiá-las.
Estive muito triste nesse dia, mas agi naturalmente, fui a um restaurantezinho e comi batatas assadas recheadas com molho de tomate, deliciosas! E continuava pensando no que faria e para onde iria, aquele era apenas o meu primeiro destino. Só sabia que precisava de uma pessoa como eu. Onde a encontraria? Dúvida extremamente difícil de ser esclarecida, ninguém poderia me responder essa pergunta por mim, eu deveria encontrar sozinha. Comecei depois de minha satisfatória refeição, caminhando nos menores passos pelas ruas estreitas de Belópolis, analisando a energia de cada transeunte da mesma forma que fazia quando caçava vítimas, reparei que algumas me olhavam com medo e aceleravam seus passos. Me conheciam? Queria alguém com energia semelhante à minha, um amigo que pudesse completar o vazio solitário que Astarte e Guido não puderam completar.
Busca inútil e sem resultados! Até me irritei um pouco por ter buscado o dia todo sem sequer uma sombra de suspeita de resultado, mas teria tempo, na verdade, toda uma eternidade talvez. Esperar uma eternidade não é uma ideia agradável para ninguém, talvez eu estivesse no local errado, certamente estava, pensei no local para onde havia sido jogada pós a morte. Abismo dos Condenados, lugar pior não poderia haver, mas se eu tinha conseguido escapar de lá e me habilitar, por que outra pessoa também não poderia? E por que essa pessoa não poderia ser o tão amigo que me entenderia? A ideia de voltar até lá me assustou, mas acabei tomando coragem para ir até lá, lembrei-me até do livro mais estranho que tinha lido em minha estada: Juliette do Marquês de Sade, o mesmo homem que havia me torturado barbaramente, era um romance doentio que só poderia ter sido concebido por uma mente doentia, e se alguém podia escrever algo daquela forma, então eu encontraria seres piores do que os do Abismo em outros lugares, pois o mal racional é o mais perverso de todos, assim, de todos os males, os infelizes caídos e condenados seriam os menos temíveis.
Abismo dos Condenados
Cheguei lá, não havia cenário para descrever, apenas aquela disforme escuridão por toda parte, aquelas sombras malditas rastejando como serpentes, os gemidos atormentados, gritos, o odor de podridão em cada centímetro cúbico de ar, tudo o que um espírito equilibrado tentaria evitar até sua morte final. Caminhei, e com esforço fui lendo a energia dos que se mexiam por entre meus pés, alguns me puxavam, mas eram muito fracos e não conseguiam se segurar se eu colocasse força para me soltar. Deveria ser desagradável ter que analisar os seres daquele buraco, mas não era, eles tinham odores muito curiosos, não saberia comparar com algo do mundo físico, mas se difenciavam muito de um para outro, e isso me divertia, eu me sentia em casa, uma casa doentia e suja, mas a minha casa. Fui tentando não pisar neles, ainda que por dentro minhas consciências pedissem "Absorva eles, pise neles!", meu auto-controle se mantinha muito alto, e isso me agradava muito, me sentia útil e também forte. Foi uma busca demorada, até que, em certo momento, vi lá um corpo conhecido, que me aflorou completamente as memórias, e ele estava rodeado por outros que eu também conhecia, e cada um deles trouxe mais lembranças amargas à torna, aos poucos e devagar. Mamãe, papai e meu irmão mais velho chamado Antonio, estavam todos lá, estavam lá, e começaram a chorar quando me viram, imploravam com frases de todo tipo: Perdoe-nos! Desculpa! Perdão! Foi preciso!
E eu me lembrei que eles haviam me abandonado para morrer quando fiquei doente, e o rancor que eu havia esquecido de guardar finalmente explodiu, e explodi com a mais doente ira, sei que meus olhos finalmente se tornaram cor de sangue, e creio ter tomado a forma de monstro e perdido a consciência, pois tudo escureceu e eu adormeci.
Estava de volta à consciência de Artur, naquela caverna com Mefistófeles. Era bom voltar a ser eu, pois na ilusão, sequer lembrava da minha real existência, e pensava ser Luna realmente, mas me revoltei por ter vivido uma ilusão tão exageradamente longa, até o modo como descrevi as lembranças de Luna foi com o jeito dela, com a alma dela, com a escrita dela!
- Se passou mais de vinte anos! Todo esse tempo era necessário?
- Se acalme, foi tudo uma outra ilusão, você só viveu até o fim da leitura da Divina Comédia, depois te fiz pular para a busca no Abismo dos Condenados, mas também fiz as lembranças dela dos outros momentos ficarem fixos na sua cabeça, assim, você ficou pensando que passou por eles, mas não passou.
- Ainda falta muito para terminar? - Perguntei, mais tranquilo com a informação.
- 1861 para 2011. O que acha? - Riu com zombaria e logo voltei para meu papel.
Estava caída no chão, e um homem de chapéu me olhava com desdém, segurando algo que parecia um guarda-chuva, sentia dores terríveis no meu corpo, e pude ouvir a voz de meus familiares nas profundezas de minha consciência, havia os absorvido, e agora sabia que haviam morrido há muitas décadas em um incêndio da casa, por causas desconhecidas. Também me vi abatida pelo homem que me observava, ele tinha um poder imenso.
- Você é a famosa Lady Blood de que tanto andam falando? Você vai ser muito útil pra mim, espero que goste de voar.
- Quem é você? O que está fazendo?
Por um momento, me vi no espaço, flutuando por entre as estrelas e planetas, no meio do vácuo, que sensação maravilhosa de liberdade e absoluta grandiosidade! Não, uma ilusão e nada mais, tentei fechar os olhos e acordar de tão mentira, e então estava em uma prisão da qual não gostaria de me lembrar nunca mais!
Era um salão de teto alto, cheio de lâmpadas elétricas por toda a parte, que brilhavam em feixes de luzes fortes que ardiam ao chegar aos olhos, grandes gaiolas abobodadas de rígidoe grosso ferro prendiam as pessoas ali presentes, pareciam com as de pássaros, só que maiores, eu estava dentro de uma delas, e tentei usar meus flagelos para quebrá-la, mas eles sequer saíram. Estava presa e sem poder usar meus poderes! E não, os meus conhecidos tormentos internos não pararam por causa disso. Tinha pelo menos trinta pessoas lá, a maioria estava caída e cabisbaixa, sem esperança, sem acreditar em qualquer forma de libertação, e alguns poucos se debatiam contra as grades, também incapazes de usarem seus poderes, pude ainda contar umas vinte jaulas vazias que esperavam por seus prisioneiros. O homem de chapéu estava à frente de tudo, entre o espaço que havia entre duas gaiolas vazias, já que as prisões era dispostas na forma de um círculo que lembrava vagamente uma ferradura.
- O que está acontecendo? O que é isso? O que é isso?
O homem respondeu alto para que todos ouvissem:
- Crianças, essa é a nova companheira de quarto de vocês, o nome dela é Luna.
- Como sabe meu nome? - Gritei com todas as forças, que aparentemente, não eram muitas.
- Pesquisei, todos conhecem a história do demônio que é formado por várias almas condenadas, eu apenas tratei de descobrir seu nome, te localizei e obtive informações, e assim que você saiu da segura Cidade dos Livros, a capturei. Você agora está no Salão de Belzebu, eu sou Belzebu, e agora você é meu animalzinho, e devo dizer que é o meu animalzinho favorito.
- Não sou seu animal. Pra que você me quer, desgraçado imundo?
- Não me insulte. - Estalou os dedos, mostrando uma expressão enfurecida, e senti que minhas costelas se quebravam, gritei de dor, mas depois vi que havia sido uma sensação completamente ilusionária, e que ele gargalhava às minhas custas. O que ele queria? Por um momento imaginei se minhas vítimas não havia pensado a mesma coisa: Por que? Comecei a me sentir culpada, mas a culpa ainda era inferior à ânsia de matar aquele carcereiro, e absorvê-lo, seria uma adição valiosa. - Não pense que você terá tratamento especial apenas porque não é como as outras, aqui todos têm o mesmo direito: nenhum! Ele se teletransportou para outro lugar e sumiu de nossas vistas, então tratei de me debater mais fortemente contra as grades, talvez sem ele vigiando a fuga se tornasse mais possível, ou pelo menos, de meno impossibilidade. Do que era feito aquela porcaria? Era de uma rigidez que jamais tinha visto ou sonhado em ver, sentia-me tão impotente e fraca naquela situação, realmente como um animalzinho encarcerado, à mercê de seu proprietário, e proprietários se diferem muito de donos, pois os últimos se importam em cuidar do seu bichinho. Ser um bichinho? Aquilo mais parecia um circo, tentei me informar com um velho encolhido na gaiola mais próxima à esquerda: - Por que estamos aqui?
- Ele captura espíritos que têm dons consideráveis e os utiliza para pesquisas. Qual é seu dom, garota? Dependendo de qual você tenha, não durará uma semana aqui. - Choramingava, não havia sequer um vestígio de esperança na voz daquele pobre condenado.
- Meu dom é um dos mais poderosos, e acho que ele sabe disso. E o seu?
Respondeu revoltado, com lágrimas nos olhos que quase me deram pena: - Consigo me regenerar de qualquer dano em pouquíssimo tempo, esse cretino testa suas "armas" em mim por causa disso, eu ainda não sei porque não me matei, sou submetido a toda forma de barbaridade e continuo vivo, acho que ainda tenho esperança de escapar daqui, ou melhor, de ser liberto, porque eu mesmo não tenho forças pra quebrar essas grades. Acho que ninguém tem.
- E que tipo de dom é agraciado com uma morte rápida? E quais duram por aqui?
- Se você diz a verdade, vai durar muito tempo, pois quanto mais poderoso e complexo o dom é, mais demorada é a pesquisa sobre ele, torna-se fácil de ser desvendado, no caso contrário, a pesquisa é rápida e o espírito se torna descartável em pouco tempo, literalmente descartável.
- Literalmente descartável, então ele apenas usa e mata. - Disse pensativa e fui pro outro canto, segurei nas grades e chamei pela jovem que chorava sem parar,, com as mãos no rosto, suas pernas estavam cheias de cortes profundos já cicatrizados que formavam um crosta vermelho enegrecida grossa e desagradável, e eu podia sentir o cheiro dos ferimentos.
- E você? Qual é seu dom, senhorita que chora? - Me mantinha calma a qualquer custo, mas não era difícil perceber que não poderia continuar assim por muito tempo, quando aquele homem voltasse, me desesperaria tanto quanto todos os outros, e me uniria àquele Inferno coletivo.
- Eu sou Nina, tenho o dom de ler os pensamentos da maioria das pessoas, os seus me assustam, são confusos, múltiplos. O que é você? O que é seu dom? - Tirou as mãos dos olhos e me fitou com aquele bolinhas pretas tão amedrontadas que me davam dó, ela lembrava uma criança em seu jeito, ainda que fosse bem mais velha que eu fisicamente.
- Tenho o dom te manter várias mentes em meu corpo, de absorver outras e torná-las parte de mim mesma, ao mesmo tempo que adquiro todos os seus poderes e conhecimentos, resumindo, sou um monstro terrível e vou demorar pra sair daqui. Peço que me informe sobre o homem de chapéu, ele é capaz de adquirir os dons que pesquisa por aqui?
- Não sei, acho que não, senão ele seria invencível, acho que ele apenas estuda, procura compreender, ele é um daqueles homens que buscam conhecimento à qualquer custo, mas que preferem agarrá-lo da forma mais imoral e cruel possível, nada o apraz mais que o nosso suplício. - Demorou para terminar sua explicação, pois soluçava muito e era difícil falar aos prantos.
- Eu vou arranjar um jeito de sair daqui, de sairmos, fique tranquila, e pare de chorar. - Terminei o assunto e me encolhi em um canto da jaula, na mesma posição da maioria dos prisioneiros e fechei os olhos. Me concentrar, me acalmar e tentar colocar meus lindos flagelos pra fora, quebrar aquelas jaulas, usar todos os meus amplos poderes para me libertar. Me libertar a qualquer custo! Tentei, tentei e tentei... uma hora se passou no mais aplicado esforço psíquico ao qual pude me dedicar, a calma diminuía a cada minuto que se passava, e eu nem sei porque pensei que apenas uma hora havia se passado! Que coisa imbecil! Péssimo método, talvez ser racional e tranquila fosse uma grande idiotice, lembrei-me até daquela literatura suja a que tive acesso na Cidadela dos Leitores, a literatura do Marquês de Sade, defendia o instinto como o maior guia do ser humano, o lado animal não deve ser suprimido, deve-se dar espaço a todos aqueles desejos carnais e selvagens que a muitos parecem demasiado primitivos. Muito contrariada tentei seguir a ideia dessa filosofia tortuosa, abri meus olhos apenas para ver o que acontecia ao meu redor, e nada mudara, então fechei novamente minhas pálpebras e adormeci por um momento quando aquele véu negro tomou conta de mim. Infelizmente a luz voltou tão rápido que sequer tive tempo de repousar, caí enfraquecida no chão.
- O que aconteceu comigo? Digam! - Gritei, mal acreditando.
O velho respondeu no mesmo tom lamurioso de sempre: - Você começou a tomar uma forma estranha, tava perdendo sua forma de humano e se tornando um monstro esquisito de olhos vermelhos e que ia crescendo, só que a gaiola te impediu de continuar crescendo e aí você voltou ao normal. Eu fiquei com medo, mas ainda senti uma leve esperança de que você conseguisse quebrar a prisão de pudesse nos libertar, mas parece que nem um monstro pode nos salvar agora.
- Que maldição! Não me chame de monstro! - Fiquei enfurecida, e comecei a socar as grades novamente, sem objetivo, apenas tentava disfarçar meu medo e minha tristeza com uma explosiva ira, e era isso que eu sempre fazia. Por que ficar triste quando se pode ter raiva? Talvez seja uma covarde por isso, mas realmente prefiro esse caminho venenoso que é a raiva.
Passado o meu surto, me sentei de novo e voltei a pensar em uma forma de sair de lá. Ora, meus poderes não funcionavam, mas eu conseguia ficar inconsciente e despertar minha forma monstro, ainda que ela fosse regredida pela gaiola. O que tinha aquela gaiola de especial? Havia lido muitos livros sobre o mundo espiritual, obviamente não teria me limitado às ideias humanas, li a obra completa póstuma de Platão, que foi o maior estudioso do mundo espiritual depois de morrer e até reencarnar muitas vezes. Então eu sabia o princípio da criação dos objetos e cidades espirituais, e também dos mesmo no mundo real, e devo descrevê-la detalhadamente até onde meu limitado conhecimento permite, para depois explicar o método que tentaria usar para escapar. No mundo existem dois mundo, o material e o espiritual, isso é óbvio, o mundo espiritual é formado por um único tipo de energia, e essa mesma energia forma tanto o mundo material quanto o espiritual, pois mesmo a matéria é formada por uma grande quantidade de energia que unida acaba por formar a massa. Essa mesma energia, aqui no plano astral, se divide para formar duas formas diferentes de existência, as vivas e as inanimadas, é o mesmo tipo de energia, apenas muda sua função, ela passa de uma forma para a outra constantemente, o vivo se desgasta e transforma energia viva em inanimada, enquanto outros espíritos nascem ou se alimentam ou evoluem, e transformam energia inanimada na energia viva de seus corpos prânicos. Dessa forma, todos os objetos, todas as cidades, e todo o mundo espiritual são formados por essa energia inanimada moldada, assim como se faz no material, onde formam cavernas muito sólidas, por exemplo. Mas existe uma única forma, também formada por energia, que é diferente de toda as outras, que não pode ser transformada em outra coisa, é a Alma, a alma é o que define a natureza, a consciência, a inteligência e as emoções de um ser vivo, cada uma é diferente da outra, a alma é como que o "centro" do espírito, enquanto o espírito seria mais como o seu "corpo", mas claro, isso se estivermos usando a terminologia científica mais apropriada, pois, em situações comuns que não exigem tais detalhes, alma e espírito continuam sendo sinônimos. Meu dom me permite absorver tanto a o espírito, que me serve de fonte energética e estrutural, quanto a alma, que me oferece inteligência e dons, e apesar de ser possível destruir a energia a alma ao se romper a unidade que a torna um centro inteligente, transformando-a em mera energia comum dissipada e acabando definitivamente com a vida do indivíduo, meu dom só é realmente útil se a vítima for absorvida viva, para que eu possa adquirir os benefícios de sua alma, e isso me torna tão especial, e tão monstruosa. Um ser com vários núcleos sob o controle de um único, o mais doentio deles! Quem, em sua vida mortal, poderia acreditar em um horror desse? Enfim, seguindo essa lógica, eu poderia... infelizmente tive minha linha de raciocínio quebrada quando ouvi alguém chegar e vi um rosto conhecido diante de meus olhos.
Sadismo
Lá estava Donatien François Alphonse de Sade, o infame marquês que me torturara e me oferecera muitas horas de iníqua leitura, e ele veio com uma idosa desgranhada nos braços, inconsciente, abriu uma gaiola vazia com apenas um movimento do dedo, e o lançou lá dentro como uma bola. Fiquei horrorizada com a violência com que ele alojava o "hóspede", pensei em gritar e insultá-lo, mas me contive, preferindo me manter calada para não correr o risco de passar por mais maus bocados, ele estava no controle. Mas o que ele fazia ali?
Quando a porta da gaiola foi fechada, o velho acordou, parecia ser automático, e então, consciente, se segurou nas grades e começou a gritar e tirar satisfações.
- Cale-se, senhor Liovka, você agora é um prisioneiro do Salão de Belzebu, e estará a mercê de todos os caprichos dele e de seus ajudantes, e isso inclue a mim, Marquês de Sade.
Eu deixei meus olhos fechados e fiquei encolhida, tentando me esconder dos olhos devassos daquele demônio. Por favor, não me veja! Estava recuperando minha humanidade aos poucos, mas a desvantagem de não ser um monstro é que o medo se torna cada vez mais intenso, humanos sentem medo, humanos temem a dor e a morte.
- Lamento, Luna, mas eu te vi. - A voz dele ecoou pertinho de mim, abri os olhos e não pude deixar de tremer. Era ele! Ele! Abaixo de frente pra minha jaula e se apoiando em uma das grandes, inteiramente sorridente com o olhar fixo em mim. E eu totalmente indefesa! Poderia ser pior? Não, não poderia! Estava em pânico, histérica, mas pelo menos tinha a certeza de que esses terríveis sentimentos eram humanos, e que me faziam quase esquecer da raiva gerada pelo meu dom. Eu não respondi nada, apenas o olhei com meus olhos dilatados e suando frio, tão humana, tão frágil, e tão medrosa, sem coragem para sequer abrir a boca.
- O que foi, Luna? Parece um pouco assustada! Pelo nível da sua energia, você fez o que eu esperava que fizesse e espalhou o sofrimento por aí. Oh, que ótimo semeador eu sou! Fala pra mim, fala! Quantos matou? Quantas vidas você destruiu sem hesitar? - Ele parecia louco, de fato, era louco! - Fala! Vamos, você matou meus companheiros, estou me lixando para aqueles cretinos, amigos são assim, vêm, vão, todos descartáveis, mas você tentou me matar, senhorita, e precisa sofrer mais por isso. No entanto, não me tema, depois que Belzebu vier analisá-la, você sentirá saudades de mim. - Abaixou a voz e cochichou, enquanto eu tentava me encolher mais. - Ah, espero que não tenha esquecido daquela deliciosa noite de amor.
Senti nosso em ouvir isso, e me lembrei do que ele me havia feito, ao mesmo tempo perdi os movimentos. Não! De novo em uma ilusão, e agora me via suspendida pelas mãos em grilhões muito apertados que impediam a minha circulação e me provocavam uma insuportável sensação de... corrente sanguínea parando? E a voz de meu inimigo vinha e voltava: - Luna, tente escapar, vamos, saia desse pesadelo. O que pode fazer?
Não consegui sequer imaginar que tipo de experiência era aquela, certamente era apenas uma tortura, não o obedeci e me submeti completamente ao delírio, apenas para não obedecê-lo. Torci para estar sendo enganada, para aquele "tente escapar" não ser um "fique quietinha" disfarçado. Senti algo pontudo cutucando meu bumbum, fez umas cócegas estranhas, então comecei a tentar me soltar, mas não conseguia mover meu corpo e muito menos usar meus flagelos. Flagelos, como eu sentia falta deles, nada pior do que deixar de ser o algoz atroz para ser a vítima impotente, e creio que muitos já tenham sentido essa ingrata emoção diretamente na pele, pele essa minha que começava a arder. A ilusão foi cancelada, eu estava de pé, e estava com as mãos fechadas enfiadas nas grades de cima, o que me deixava pendurada a uns cinquenta centímetros do chão. Tentei me soltar, mas estavam presas, como se coladas, e então senti de novo algo me cutucando por trás, tentei virar a cabeça e vi Sade segurando uma espada francesa pesada e mal afiada.
- O que você está fazendo? - Perguntei, tentando me soltar, fracassando completamente em meus árduos esforços.
- Você não entenderia um procedimento científico como esse, estou apenas testando seu fluxo energético com essa espada especial condutora. Aliás, vamos ver. - Explicou, apontou a ponta no meio das minhas costas, e furou, segurei o grito de dor que teria dado apenas para não ver dar a ele esse gostinho, não falei nada, mas continuei olhando, sem parar de tremer, mas fazendo de tudo pra não demonstrar meu profundo terror.
Ele passou o dedo em um pouco do sangue que manchava a lâmina, então lambeu e deu um sorriso quase cômico: - O gosto é nojento, ferrugem pura, é denso e sujo. Muito bem, vamos para o próximo exame, Belzebu não me deu nenhuma ordem sobre isso, mas faço questão.
- Senhor Sade, como você pode aceitar se subordinar a um velhote feio como aquele? Você não acha ridículo que um grande escritor como você seja o funcionário e ele o patrão? - Tentei envenená-lo contra o superior, pelo menos nas ficções, esse apelo à vaidade costumava funcionar.
- Desculpe, minha pequena, mas eu não sou tão burro. Você está lendo muito Homero, é um poeta muito ingênuo para os meus gostos refinados e modernos, bem vindo à era moderna, Luna, e bem vindo à República! - Ironizou, temi muito mais quando ele pegou um comprido fio de borracha, o enrolou no meu corpo sem entrar na cela, continuei tentando soltar minhas mão enfiadas nas grades, que funcionavam como algemas muito apertadas e incômodas. Queria muito descansar, como queria... senti um choque pelo corpo inteiro e não pude deixar de gritar, o fio pegou fogo rapidamente e virou fumaça em um piscar de olhos, e meu lindo vestidinho ficou todo cheio de queimados e fuligem.
- Incrível, você impressiona em todos os testes. - Sorriu e desapareceu, fiquei muito aliviada e pude respirar fundo, mas infelizmente, esqueceu (duvido que tenha sido por falta de atenção e não por maldade) de me despendurar do teto da gaiola. Fiquei lá, e continuei por muito tempo tentando me soltar, balançando as pernas e puxando o braço, tentei abrir as mãos, mas estavam presas de tão maneira que até isso era possível. Bem, pelo menos eu podia me mexer e Donatien não estava mais lá, eu tinha de ser otimista...
Que espera demorada, creio que tenha se passado umas seis horas, que pareceram pelo menos dois dias, fiquei tentando pensar em assuntos típicos de livro, refletindo concentrada, tentando me esquecer de meus problemas através da reflexão sobre assuntos de extrema relevância, mas não diretamente ligados a mim mesma, talvez solucionar as questões universais e fundamentais fosse uma boa maneira de me desligar de minha infeliz situação. Muito infeliz mesmo, e sem esperança também, aliás, creio que ninguém por lá tivesse alguma esperança.
Belzebu chegou acompanhado de um bonito velho de cabelo e barbas longas. Vieram diretamente até mim, o chefe apontou para mim como se eu fosse uma mercadoria e começou a explicar.
- Veja, Eurípedes, essa aqui é minha aquisição mais preciosa até agora, essa garotinha tem a energia de pelo menos quatrocentas e cinquenta e sete almas, Sade testou para mim, agora eu irei ver até vão os limites dela, espero que você assista para saber como deve fazer.
- Mas mestre, eu sei como são os procedimentos. Com ela serão diferentes?
- Sim, ela é muito especial, mostrarei como devemos fazer, e quero que esteja aqui, de qualquer forma, para que a cure se eu a machucar demais durante os testes, ninguém é tão bom pra curar quanto você. - Tirou uma espada estilo árabe toda adornada de jóias, tive um mau pressentimento, mas não tremia.
- O que vocês vão fazer? - Perguntei, virando os olhos para um lado e para o outro.
Não responderam, Belzebu golpeou-me as mãos com a espada em um ângulo tão estranho que sequer consegui ver, elas foram cortadas fora e caí no chão, sangrando como um porco no abate, e chorei demais, gritando, e me esperneando, atirada e terrivelmente ferida. Como ele conseguiu me cortar de fora da grade? Como? Gritei todos os xingamentos que conhecia, rolei no chão, afetada até as profundezas da minha racionalidade pela dor pungente. E pior era saber que tal suplício era justo se fôssemos levar em conta os meus crimes passados, e que aliás, nem tão passados, como meus familiares haviam percebido da pior maneira recentemente. Ainda consegui me ajoelhar e me levantar, tirando forças não sei de onde, os olhava com absoluto ódio, e enquanto meu sangue manchava todo o chão, senti um um suave prazer em meio ao sofrimento: Onde minhas mãos deviam estar havia uma estranha sensação de leveza, como se meus dons tivessem se tornado mais intensos lá, fossem mais fáceis de controlar, como se realmente houvesse mais controle sobre eles por causa da mutilação. A necessidade permite a evolução, de alguma forma, consegui tirar flagelos nas minhas áreas amputadas, só que eles não iam além dessa área, e só alcançavam o formato das minhas mãos, estavam perfeitamente e instintivamente moldados na forma das mão recém-cortadas. A dor acabou, tentei levá-los pra frente, sair da jaula e atacar Belzebu e Eurípedes, que, covardes, recuaram alguns passos. Me esforcei pra aumentar aquelas falsas mãos, transformá-las em poderosos tentáculos, almas mortais para me libertar e me vingar, mas não funcionou, e passaram uns vinte minutos, eles apenas observavam meus esforços com interesse, até que parei e senti aquelas mãos de energia começarem a virar carne de verdade, e, à partir delas, regenerei minhas mãos verdadeiras quase que instantaneamente. Coloquei as palmas de frente dos meus olhos e sorri alegremente em vê-las ali, inteiras e curadas. Que poder formidável! Até tirei minha atenção de meus torturadores por um momento, mas logo tive que me lembrar deles.
- Viu, Eurípedes? Ela é fantástica, se regenera quase instantaneamente, temos muito a fazer com ela, temos muito pra descobrir. Como uma criaturinha pode ser capaz de tamanha façanha? Se ela não estivesse enjaulada, se eu não fosse o mestre das ilusões e tivesse que realmente brigar com ela, cara à cara, seria feito em pedaços tão rápido que não daria nem tempo de sentir dor! Você não pode, em nenhuma condição, permitir que ela consiga escapar, e todos os outros devem cuidar com cautela redobrada quando lidarem com essa aqui. Um fenômeno, com certeza, e ainda não sei nada sobre ela, logo faremos mais experiências para descobrir até que ponto vão os seus talentos.
Lancei à grade tentei novamente colocar meus flagelos para fora, falhando miseravelmente, furiosa, passei os dedos por entre as grades, tentando alcançá-los com as mãos para estrangular, socar, ou qualquer outra forma de agressão. Minha boca maldizia em todas as línguas que meus constituintes conheciam, especialmente em italiano e chinês, não conseguia passar a mão ferros apertados, e corria o risco de ficar presa como antes. Não temia o risco, o que eu tinha a perder? Só meus dedos, que o velho miserável me arrancou em um golpe impiedoso de espada. Nem gritei, apenas mordi os lábios e recuei, me concentrando para regenerar o que havia sido tirado, eles cresceram novamente tão rápidamente que fiquei surpresa. Me apoiei novamente na grade, só logo me vi presa a uma cruz, pregada, na verdade, e ele continuava na minha frente.
- A primeira experiência é um teste de resistência, ou melhor, as primeiras, preciso saber até que ponto o seu corpo aguenta agressão, então te cortarei até o ponto em que você não conseguir se regenerar. Aí eu paro, eu imagino que você vá fingir que não está conseguindo para que as mutilações cessem, mas felizmente tenho como um de meus ínumeros dons, o de ler a mente daqueles que iludo. Os cortes serão reais, então, se você fingir que não consegue se regenerar, continuarei cortando e você acabará por morrer. - Explicou enquanto eu tremia amedrontada e começou a fazer escarnificações pequenas na minha barriga, foi quando eu percebi que estava nua. Ou esse detalhe era uma ilusão? Sim, não havia comigo, eu devia estar com meu vestido ainda, mas o rasgavam, e eu remendaria com minhas energias pensando estar apenas regenerando minha pele e carne, dessa maneira, ficava difícil ter noção da realidade mesmo depois de despertar para ela. Arranhava devagar, já me acostumava a dor, ia rasgando lentamente a pele, me torturando com tranquilidade e sem remorso, e eu nem pensava em tentar me curar, até que... furou de uma vez o meu fígado, e, sem poder evitar gritar de dor, tive que me preocupar com regeneração, mas ainda evitei, e deixei aquela pequena cachoeira vermelha correr livre. Eu não ia morrer, ia? Os insultos que lancei ao meu carrasco não são relevantes nesta minha narrativa, mas o fato é que depois perfurou meu intestino, meu estômago, e finalmente, meu pulmão, ele continuava mesmo que eu não demonstrasse nenhuma cura, sabia que eu podia, mas não queria. Tentava um por um, e cada vez mais me sentia fraca, esmagada pela dor dos devastadores ferimentos, e minha visão escurecia muito, alguns segundos depois de ter o pulmão direito atravessado, imaginei qual seria a próxima parte: coração. E saía sangue demais, sim, eu morreria daquele jeito, tratei de me concentrar na minha sobrevivência, as chagas se fecharam em um par de segundos, tanto por dentro como por fora, e minha visão se tornou completamente clara.
- Ah, então você consegue, e se eu tentar assim? - Atravessou a espada no meu coração, senti aquela dor lancinante, a maior de todas e tudo escureceu completamente, e eu perdi a consciência. Quando abri os olhos, creio que pouco tempo depois, estava sem um arranhão.
- Que fascinante, se a atinjo no coração posso matá-la, mas você se regenera inconscientemente para evitar a própria morte. Como pode? Serão os outros espíritos que te habitam que tratam de curá-la?
- Quanto tempo vai durar esse suplício, miserável? - Eu não aguentava mais, cada golpe era demasiado cruel para todos os sentidos, tentava me mostrar fraca na voz, mas não podia, a ira me fortalecia apesar do medo de continuar naquela situação por muito tempo.
- Muito, você precisa ir aos limites, e você ainda nem suou.
Digamos que seja redundante explicar como foram as duas horas seguintes. Furar, cortar, atravessar, rasgar, regenerar, ele me furou em todos os locais possíveis, poupando apenas a minha intimidade, minhas pernas foram arrancadas incontáveis vezes, também os braços, mãos, pés, e a cada regeneração, a imaginação miasmática daquele louco dava mais frutos de formas de me ferir. O último golpe foi o mais perigoso de todos, Belzebu começou a serrar meu pescoço com a espada, foi escurecendo rápido, parou antes de chegar em um quarto do diâmetro do meu pescocinho ferido, teria cortado minha cabeça.
- Ah, aqui está o ponto fraco. Não aguenta ter a cabeça arrancada, não é? Talvez não seja tão impressionante quanto achei. - Ficou rindo enquanto limpava o sangue da espada com uma toalhinha.
Sufocada e sem qualquer visão, me apressei em curar-me, com muito esforço, exausta, com poucas forças disponíveis para minha sobrevivência. Acabava de chegar no meu limite final quando terminei de fechar meu pescoço, pois ainda havia um pequeno corte nele quando minhas forças de regeneração acabaram, não podia suportar mais, não podia me curar novamente, sem energia, sem forças, sem disposição, acabada. Desmaiei.
Não sei quanto tempo havia se passado quando acordei, mas nenhum dos dois estava mais lá, comecei a rir aliviada. Poderia descansar, eu estava jogada no chão da cela, não estava pregada, pendurada, ninguém me cortava, e eu me senti realmente feliz por não sentir nenhum dor física. Meus tormentos psicológicos pareceram tão insignificantes naquela hora! Coloquei as mãos em conchinha e deitei sobre elas, fechei os olhos e pensei em todas as coisas boas que minha memória conseguia me trazer, respirar ar puro, comer, dormir, estar com quem se gosta, e fiquei devaneando entre ilusões criadas por mim mesma, tão mais doces que aqueles pesadelos que aqueles vis torturadores me inculcavam. Os gritos do abismo de minha consciência, aquela ira vingativa vil e rancorosa, nada daquilo tinha valor, a maior alegria era não sentir dor.
Deve ter se passado um longo tempo assim, ninguém voltava, para minha sorte, senti vontade de falar com alguém, então chamei aquele velho prisioneiro, afinal perguntei seu nome, que era Marcelo. Ele se lamentava sobre sua vida infeliz e vazia, sobre como só havia sofrido e passado por provações nas duas vidas, sem jamais ser recompensado. Eu não poderia discordar dele, tendo tido, até o momento, a mesma sorte, tal constatação me levou a uma trágica conclusão, que, creio eu, é bastante difícil de ser refutada.
- Ah, aqui está o ponto fraco. Não aguenta ter a cabeça arrancada, não é? Talvez não seja tão impressionante quanto achei. - Ficou rindo enquanto limpava o sangue da espada com uma toalhinha.
Sufocada e sem qualquer visão, me apressei em curar-me, com muito esforço, exausta, com poucas forças disponíveis para minha sobrevivência. Acabava de chegar no meu limite final quando terminei de fechar meu pescoço, pois ainda havia um pequeno corte nele quando minhas forças de regeneração acabaram, não podia suportar mais, não podia me curar novamente, sem energia, sem forças, sem disposição, acabada. Desmaiei.
Não sei quanto tempo havia se passado quando acordei, mas nenhum dos dois estava mais lá, comecei a rir aliviada. Poderia descansar, eu estava jogada no chão da cela, não estava pregada, pendurada, ninguém me cortava, e eu me senti realmente feliz por não sentir nenhum dor física. Meus tormentos psicológicos pareceram tão insignificantes naquela hora! Coloquei as mãos em conchinha e deitei sobre elas, fechei os olhos e pensei em todas as coisas boas que minha memória conseguia me trazer, respirar ar puro, comer, dormir, estar com quem se gosta, e fiquei devaneando entre ilusões criadas por mim mesma, tão mais doces que aqueles pesadelos que aqueles vis torturadores me inculcavam. Os gritos do abismo de minha consciência, aquela ira vingativa vil e rancorosa, nada daquilo tinha valor, a maior alegria era não sentir dor.
Deve ter se passado um longo tempo assim, ninguém voltava, para minha sorte, senti vontade de falar com alguém, então chamei aquele velho prisioneiro, afinal perguntei seu nome, que era Marcelo. Ele se lamentava sobre sua vida infeliz e vazia, sobre como só havia sofrido e passado por provações nas duas vidas, sem jamais ser recompensado. Eu não poderia discordar dele, tendo tido, até o momento, a mesma sorte, tal constatação me levou a uma trágica conclusão, que, creio eu, é bastante difícil de ser refutada.
A vida humana é terrível. Eu vivi bastante e cheguei a uma conclusão única, e todas as reflexões, as experiências, aquilo que assisti e tudo que senti, presenciei, fiz, tudo, absolutamente tudo indica uma única verdade, que é irrefutável, por ter total embasamento lógico e empírico. A conclusão é de que a existência é definitivamente uma sequência constante de infortúnios e sofrimentos, e que não há maior felicidade e fortuna do que a de não estar em sofrimento. Afinal, o que é a vida? Por que a natureza nos criou? Qual é o sentido de vivermos, de existirmos? Os religiosos diriam que fomos criados por Deus e que fomos feitos para adorá-lo, mas como eu poderia considerar tal visão se eu sequer cheguei a ver, ouvir ou mesmo sentir esse tal Deus? E se essa fosse o objetivo de nossa existência, então esse seria natural, e portanto os nossos instintos mais primitivos nos levariam a essa adoração, mas não é isso que vemos, pois os humanos primitivos não adoravam um Deus, mas sim os elementos da natureza, a colheita, a caça, os animais e o sexo. Então não poderiam todos esses elementos serem Deus, representado pela natureza? A resposta é não, pois esse ser em que todos acreditam deveria ser perfeito, e não se vê perfeição na natureza. Natureza perfeita? Uma ova! Por que temos falhar evolutivas? Por que há câncer gerado por células mal programadas? Por que crianças nascem deficientes físicas, cegas, com retardamento mental? E dizer que isso se deve ao fato do homem ter mudado o estilo de vida, e ser o culpado por todos esses problemas, dizer que a humanidade que vivia em sintonia com a natureza, sem tanta química, tecnologia,industrialização, poluição e alimentação sintéticos, dizem que todos esses são responsáveis pelos males de saúdes modernos. Pode até ser, mas um humano que vive em estado de natureza não passará dos 20 anos certamente, enquanto hoje em dia vivemos 70, um homem na floresta tem mais chances de morrer de fome ou devorado por um predador do que o mendigo que vive na cidade e pode ser assassinado a qualquer momento, por isso, por pior que seja o estilo de vida criado pelos seres humanos, eles vivem mais tempo com ele do que o tempo que viveriam se agissem como animais comuns, seguindo instintos primitivos e naturais, que são cruéis e inseguros, a qualquer momento, pode-se ser vítima de um predador, e misericórdia não é um sentimento natural, ao contrário, é totalmente humano, desenvolvido por nós de maneira artificial para permitir uma boa convivência. Bem, consideremos essa boa convivência como teórica e utópica, pois não podemos negar totalmente nossos instintos por sangue e violência, que são aqueles que temos quando habitamos em uma mata cheia de presas e predadores, onde não há lei ou regras além da sobrevivência. Além do mais, o que absolutamente completo precisa ser adaptável, e nós que mudamos nossos costumes com o passar dos milênios, e já não precisamos de várias características, ainda as carregamos, um real perfeição na programação dos seres vivos seria boa o bastante para que nos adaptássemos ao estilo de vida moderno, ao novo ambiente, mas isso não ocorre, e por isso a obesidade, a hipertensão e a apendicite são problemas comuns, para não falarmos do já citado câncer. Resumindo esta parte de minha explicação, quero dizer que o humano pode fazer um trabalho melhor do que o da própria natureza, então ela não é perfeita, pois se fosse perfeita, seria impossível melhorá-la ou superá-la, ela seria o estado mais evoluído possível, mas se nós conseguimos superá-la e manipulá-la para nosso conforto, abandonar a carne crua e fazer fogueiras, construir armas de metal e televisões, se nós somos capazes de usar da ciência para a dominarmos e estarmos acima da existência que teríamos nela, então não pode ser perfeita, e se a Natureza não é perfeita, não pode haver um Deus por trás dela. Mas não é esse o assunto principal de minha explicação, essa pequena introdução foi apenas para evidenciar duas verdades: A primeira é que Deus não existe, e se existe, não é perfeito, e a segunda é que a natureza também não é perfeita, e essa segunda verdade será a base para o resto da explicação. Enquanto os religiosos falam que o motivo para nossa existência é Deus, os materialistas falam que vivermos para sermos felizes, satisfazermos nossos desejos, seguirmos nossa racionalidade e tentar existir em uma existência cada vez mais completa e satisfatória. Acreditam que a ciência venha para trazer conforto para o homem, e de fato ela traz, mas estão errados em achar que o motivo para existirmos seja a felicidade, a satisfação, a racionalidade. Não! Como poderia? Essas razões para existirmos não podem ser naturais, elas foram escolhidas, são motivos que as pessoas selecionaram ou simplesmente criaram para explicar o porque de viverem,mas isso não explica porque vivem, apenas explicam pelo que vivem. Para ser mais clara e não permitir nenhuma forma de ambigüidade, irei usar um exemplo: Por que existe um barbeador? A resposta é óbvia e automática, para fazer a barba de alguém, isso explica o propósito para que ele foi criado, isto é, o porque que dele existir, a função inicial, e o pelo que será o mesmo, pois ele estará sendo usado para barbear. Mas se pegarmos uma bola de gude, o pelo que dela será o de ser usado no jogo de bolinha de gude, mas ao mesmo tempo, ela poderá servir como uma arma branca, se for lançada sobre a cabeça de alguém para machucar, nesse caso, o pelo que dela será diferente do seu porque, ela foi criada para o jogo, mas no momento do ataque, estará existindo para outra função, a de arma branca. Isso deixa esclarecido que Porque é a razão primeira da criação de algo ou alguém, é o porque ele existe, algo que será imutável durante toda a existência do objeto analisado, independente e qualquer fator, o porque é sempre o mesmo, e o Pelo que é a razão imperfeita da existência, é uma razão secundária, que não está eternamente ligada ao objeto, mas se liga por causa de uma escolha ou um contexto, sendo então variável. Tudo isso indica a impossibilidade das pessoas existirem para serem felizes, pois essa não é a razão primeira da sua existência, a razão primeira é apenas uma, a mais fundamental, e que se aplica a todos os seres vivos, sendo também de fácil dedução: Sobreviver. Todos os instintos de todos os seres vivos levam a essa afirmação, de que a natureza nos fez com o único objetivo de tentarmos nos manter vivos pelo maior tempo possível. Mas e quanto ao suicídio? O suicídio pode ser de dois tipos, altruísta, que é quando uma mãe morre pra salvar o filho, um soldado morre pelo seu general, um presidente se mata para proteger seu povo, um revolucionário se mata para evitar que descubram informações sobre seus camaradas, é todo o caso em que se provoca a própria morte, ou em que se permite morrer pelo bem dos outros. E há o suicídio egoístico, e este é a chave de toda a minha explicação, aqui está! O suicídio egoístico é aquele feito pelo próprio bem, quando uma pelo que supera o porque natural da existência da vida, esse pelo que é o de não sofrer mais, as pessoas se matam pois consideram que o alívio de parar com a dor e o sofrimento que sentem é mais importante que o mais fundamental de seus instintos, o de sobrevivência! O mesmo acontece no altruísta, em que o pelo que de fazer o bem, escolhido pelo indivíduo, que preferirá ajudar os outros a manter sua sobrevivência, mas é no egoístico que podemos acentuar o quão terrível é viver! Através da história, podemos ver que guerras, doenças e fome, miséria, crime e crueldade, toda a forma de infortúnio e mal, sofrimento para todos os gostos, mas ainda assim, os humanos continuaram a viver, mesmo vivendo como ratos, piores que animais, trabalhando sem parar para poder comprar um pouco de lixo pra comer, sem descanso, sem lazer, sem felicidade, não, o ser humano não tem vivido durante todos esses séculos de sofrimento para ser feliz, ele tem vivido para continuar vivendo, sobreviver tem sido o único objetivo, e nos casos em que as pessoas percebem que talvez não a velha a pena tanto sofrimento apenas para manter a própria existência, temos os suicídios egoísticos. Todos precisam lidar com alguma forma detestável de infortúnio, povos primitivos sofriam pela constante insegurança e medo, pela fome, a dificuldade de sobreviver, as doenças, o desconforto, a dor causada por atividades perigosas ou trabalhosas, povos mais modernos sofrem dos mesmos males, e aqueles que tem a sorte de não serem vítimas da fome, da dificuldade e da insegurança, esses ainda sofrem com seus problemas pessoais: solidão, amor não correspondido, remorso, tédio, e claro, doenças, pois não são só os miseráveis que ficam gripados. Vemos os artistas famosos e ricos se acabando em drogas, se suicidando, vemos os pobres miseráveis morrendo de fome, morrendo de doença, mendigando um pouco de lixo, ou os nem tão miseráveis, usando de toda sua força e trabalho incansavelmente por horas e mais horas para poder viver com o básico dos básicos, para poder comprar um pão mofado, ainda no melhor dos casos, essas pessoas serão submetidas ao sofrimento da exaustão do esforço excessivo. Isso que quero mostrar, todos sofrem, o sofrimento é naturalmente ligado à existência, e não apenas nos humanos, vemos as formigas que vivem em condições de trabalho escravo, as gazelas que vivem com medo e terror de serem devoradas por um guepardo, os tubarões que nunca dormem e não podem parar de nadar para não afundar, além de devorarem os próprios irmãos na barriga da mãe. Ora, a águia precisa passar por um violento e doloroso ritual de auto-mutilação para poder sobreviver, tendo que arrancar todas as penas e o próprio bico para continuar vivendo por mais alguns anos, para nascerem novos em folha, além de suas presas, que são comidas vivas, passando por dores terríveis. Todo ser vivo está condenado ao sofrimento, mais ou menos, seja ele por viver como um escravo, ou seja por melancolias infantis e tolas, pois podem ser infantis, mas causam sofrimento, como os jovens que se mataram após ler o livro de Goethe, todos eles deviam ter suas dores emocionais e melancólicas, e decidiram dar cabo de suas vidas para poderem descansar, se aliviar, se livrar das sensações agonizantes do sofrimento melancólico emocional! Assim como aqueles que se tornam aleijados após algum acidente ou doença, e preferem morrer a ter que lidar mais com a própria situação infeliz. Ora, assim como tantas crianças vítimas da solidão, da doença, da fome, que só não se mataram porque morreram antes, vítimas da cólera, dos acidentes, da pneumonia, assim como Judas Iscariotes, que não pôde lidar com o violento remorso de ter traído Jesus, e para evitar mais daquela sensação tão torturante que é o remorso por um crime, tirou a própria vida, apenas para se aliviar. Sim, a vida é uma sequência de sofrimentos, o sofrimento do filósofo que não é compreendido pelo povo estúpido, do rei que não consegue governar como quer e se frustra, do mendigo que sofre com o ronco da própria barriga o dia todo, da mãe que vê o filho nas drogas , do filho que está nas drogas para esquecer de algum infortúnio de sua vida, pessoal ou não, do soldado que passa por situações degradantes na guerra, do padre medieval que se penitencia em nome, do bom menino que apanha dos colegas na escola e é excluído, do menino que bate para descontar suas frustrações, da garota que se prostitui com pessoas que considera asquerosas para poder se alimentar, do idoso sem forças que sofre ao pensar que já teve a saúde perfeita, do idoso fracassado que vê o quanto sua vida foi sem frutos e em vão, do velho bem sucedido, que imagina todas as alegrias que ele deixou de viver por causa do trabalho, a pessoa rica que se sente culpada pelos pobres, a pessoa rica que se sente insegura por não ser capaz de viver como os pobres vivem, o pobre que inveja o rico e odeia imaginar que poderia ter tudo aquilo mas não tem, o paraplégico que pensa em como seria bom andar, o corredor profissional que sente as dores do treinamento, mesmo que recompensadas, o louco que ouve vozes e não tem paz, o preguiçoso que sofre com a própria preguiça, desejando dormir e até morrer para não ter que mover nenhuma palha, e é infeliz por não poder estar sempre descansando. E o mais extremo dos casos! Aquele que tudo tem, bens materiais, amigos, amor, paz de consciência, a completa felicidade, mesmo essa pessoa terá o cruel sofrimento do medo da morte, o medo de perder toda a incrível felicidade que sente, de ter seu inevitável fim. Tudo, tudo isso apenas prova que a felicidade não é nada mais do que a ausência de sofrimento, pois com tanto sofrimento possível, não poderia haver nada mais gracioso e agradável do que não sofrer, feliz de verdade é quem não sofre, mas isso é impossível, por isso, não dá para negar, a vida é uma longa e eterna desventura, e só vale a pena quando conseguimos ao máximo reduzir os momentos sofridos, e assim, alcançar o bastante da felicidade, já que ela completa é tanto utópica, quanto impossível. Essa foi minha trágica conclusão, mas não a citei para ninguém, estava cravada somente na minha mente como um prego.
Minha conversa foi interrompida quando Marquês de Sade chegou, segurava nas mãos uma lança de ferro na mão, de ponta fina e afiada, me atravessaria como papel, o medo voltou. Ele veio até minha gaiola e chamou em um tom cavalheiro: - Luna, vamos filosofar? Preciso de alguém inteligente para um debate intelectual, mas os outros prisioneiros são todos uns celerados.
- Como pode saber que eu não seja também uma celerada, velho cristão? - Chamei-o do possível único termo que para ele seria um insulto, soava ridículo, mas...
- Do que você me chamou, sua vagabunda hipócrita? - Furioso, moveu a flecha pra frente pra me acertar de fora da gaiola, recuei e escapei da furada por muito pouco.
- Perdoe-me, acho que li um livro de Santo Agostinho pensando que era seu. - Me escondi na outra ponta da cela, eu tinha feito besteira e ia pagar caro, muito caro. Mas ele sorriu e me deu as costas, o que me deixou feliz, pois achei que iria embora, mas depois voltou o olhar para a minha direção, só que não olhava para mim, mas sim para algo além de mim, segui essa direção e vi Belzebu novamente no maior espaço livre do círculo de gaiolas, e ele segurava nos braços, uma pequena menina, ele abriu a quarta jaula à minha esquerda, que estava vazia, e atirou a menina lá dentro, quando a vi lá, deitada de rosto para cima, finalmente a reconheci. E não, não podia ser! Ela não! A visão me causou tanto agonia que eu realmente desejei morrer naquela hora, era Astarte, eles a haviam capturado, e agora a minha única amiga tinha um destino tão ruim quanto o meu.
- Seus insultos e sofismas não me pertubarão, parece que o chefe trouxe algo maior que você para cá. - Me deixou e foi até Belzebu, não deu pra ouvir o que cochichavam baixo do lado da gaiola de Astarte. Eu tremia convulsiva, olhava fixamente para ela, aquele rostinho lindo e doentinho, pele macia, cabelos negros, tão negros quanto os meus, tão bem cuidados, tão longos. Por que ela? Imediatamente desmaiei, acordei pouco tempo depois, havia tentado despertar meu monstro novamente, mas as malditas gaiolas! Bati nas grades, mas não gritei nada sobre Astarte, temia que eles fizessem mal a ela se soubessem de nossa relação. Angústia da mais devassa assolava meu coração, era pior que qualquer dor que já tivesse sentido, um demônio devorava minhas estranhas e bebia o meu sangue de dentro pra fora, vermes roíam meu coração rapidamente, inoculando venenos fatais para aumentar a dor e os espasmos de agonia. Cruel, demasiado cruel, eu tinha que conter essas feras que me consumiam por dentro, mas Astarte estava lá, no salão de tortura, no Inferno! Ora, eu era humana afinal, e esse único pensamento me deu um alívio quase insignificante à angústia. Se eu sofro por alguém de quem gosto, é porque tenho sentimentos, é porque tenho coração, sou humana, não um monstro, não um maldito demônio.
Minha conversa foi interrompida quando Marquês de Sade chegou, segurava nas mãos uma lança de ferro na mão, de ponta fina e afiada, me atravessaria como papel, o medo voltou. Ele veio até minha gaiola e chamou em um tom cavalheiro: - Luna, vamos filosofar? Preciso de alguém inteligente para um debate intelectual, mas os outros prisioneiros são todos uns celerados.
- Como pode saber que eu não seja também uma celerada, velho cristão? - Chamei-o do possível único termo que para ele seria um insulto, soava ridículo, mas...
- Do que você me chamou, sua vagabunda hipócrita? - Furioso, moveu a flecha pra frente pra me acertar de fora da gaiola, recuei e escapei da furada por muito pouco.
- Perdoe-me, acho que li um livro de Santo Agostinho pensando que era seu. - Me escondi na outra ponta da cela, eu tinha feito besteira e ia pagar caro, muito caro. Mas ele sorriu e me deu as costas, o que me deixou feliz, pois achei que iria embora, mas depois voltou o olhar para a minha direção, só que não olhava para mim, mas sim para algo além de mim, segui essa direção e vi Belzebu novamente no maior espaço livre do círculo de gaiolas, e ele segurava nos braços, uma pequena menina, ele abriu a quarta jaula à minha esquerda, que estava vazia, e atirou a menina lá dentro, quando a vi lá, deitada de rosto para cima, finalmente a reconheci. E não, não podia ser! Ela não! A visão me causou tanto agonia que eu realmente desejei morrer naquela hora, era Astarte, eles a haviam capturado, e agora a minha única amiga tinha um destino tão ruim quanto o meu.
- Seus insultos e sofismas não me pertubarão, parece que o chefe trouxe algo maior que você para cá. - Me deixou e foi até Belzebu, não deu pra ouvir o que cochichavam baixo do lado da gaiola de Astarte. Eu tremia convulsiva, olhava fixamente para ela, aquele rostinho lindo e doentinho, pele macia, cabelos negros, tão negros quanto os meus, tão bem cuidados, tão longos. Por que ela? Imediatamente desmaiei, acordei pouco tempo depois, havia tentado despertar meu monstro novamente, mas as malditas gaiolas! Bati nas grades, mas não gritei nada sobre Astarte, temia que eles fizessem mal a ela se soubessem de nossa relação. Angústia da mais devassa assolava meu coração, era pior que qualquer dor que já tivesse sentido, um demônio devorava minhas estranhas e bebia o meu sangue de dentro pra fora, vermes roíam meu coração rapidamente, inoculando venenos fatais para aumentar a dor e os espasmos de agonia. Cruel, demasiado cruel, eu tinha que conter essas feras que me consumiam por dentro, mas Astarte estava lá, no salão de tortura, no Inferno! Ora, eu era humana afinal, e esse único pensamento me deu um alívio quase insignificante à angústia. Se eu sofro por alguém de quem gosto, é porque tenho sentimentos, é porque tenho coração, sou humana, não um monstro, não um maldito demônio.
- Que barulheira é essa? - Belzebu estalou os dedos e senti uma dor aguda que me jogou no chão, eu não conseguia gritar, não consegui me mexer, mas podia ouvir perfeitamente:
- Meus prisioneiros, essa é a nova aquisição de nossa coleção, é um tesouro raro, se chama Astarte. Essa criança tem habilidades tão fora do comum que tivemos que usar o grupo todo para capturá-la, e os outros tão todos desacordados e sendo cuidados em outro lugar.
Quis sorrir com essa última parte, mas a soma de males era demais para justificar tal gesto, de qualquer maneira, impedido pela paralisia total.
- Astarte tem o estranho dom de controlar o material, tamanho e a forma do corpo, ela pode se transformar em uma montanha, por exemplo. Esperemos que acorde.
Creio que tenha se passado pouco menos de uma hora, então minha amiga finalmente se levantou, e começou a bater na grade e gritar, como todos faziam:
- O que aconteceu, que lugar é esse?
- Bem vinda ao Salão de Belzebu, você está aqui para ser usada em experiências que desvendarão seu dom incomum. - O anfitrião explicou.
- Não, não fará nada comigo. - Se virou e olhou em volta, foi aí que me viu, e vi que suas pupilas dilataram e começou a gritar meu nome: Luna! Luna! O que você tá fazendo? O que te fizeram? - A voz soava como um trovão agudo, e eu não podia responder, paralisada, Astarte podia ver o corte que ainda havia no meu pescoço, e creio que a poça gigante de sangue no chão da gaiola sobre o qual eu estava deitada também parecesse uma "pista de maus tratos". Fiquei um pouco feliz por ela realmente se importar comigo, mas tão desesperada por estarmos dividindo um estado tão ruim, minha amiga gritava mais alto que qualquer um. Belzebu causou um forte barulho de estralo, e ela caiu no chão, não faço ideia do que ilusão a prendia, mas ela gritava angustiada, desesperada, eu sabia que estava sentindo dor, assim como eu senti, e meu coração se partia em pedaços pequenos demais para ser jamais reconstituído. Usei de toda a minha sensibilidade a energia para tentar imaginar os tormentos pelo qual ela passava, tentei usar meus flagelos, tentei quebrar as grades, fiz tudo que minha condição impotente me permitia, mas, como eu disse, impotente, e só e restava... chorar. Belzebu movia a bengala para cima e para baixo, temia a criatividade dele. O que estaria fazendo com Astarte? Eu tinha que imaginar, não devia, só me envenenaria com desgosto e ódio, e culpa, por não poder fazer nada, mas precisava saber que dor a minha melhor amiga sentia. Pensei que a raiva aumentaria minha força, ainda assim, a focalizei como se fosse um exercício, raiva seria poder puro, energia em forma de flagelos ofensivos usados pra destroçar Belzebu do jeito que ele merecia. Não saía nada das minhas costas, tentei pelas mãos, Astarte se retorcia no chão em lamentos desesperados, consegui formar uma espécie de luva com os flagelos em volta da minha palma, nada mais. Sade fazia algo com um velho próximo, que praguejava compulsivamente enquanto sofria.
O tempo se arrastou e o miserável deu as costas à minha amiga, que despertou do mundo falso onde estava e se ajoelhou com a cabeça entre os joelhos, chorando apropriadamente, já não era por dor, era por... medo, suponho.
- Astarte. - Gritei seu nome, encostada na grade.
- Luna! Me ajuda, por favor, eu não quero mais que ele faça isso. - Ergueu o rosto, mostrando os olhos molhados, foi a primeira vez que ela pareceu uma criança mais nova que eu.
-O que posso fazer? - E eu não sabia.
Sade deixou o velho e veio até mim, nem precisei que ele falasse nada para saber o que aconteceria, Belzebu foi embora do local na hora, Eurípedes foi até a cela de Astarte e tirou algo que parecia uma arma de fogo, uma espingarda, o marquês ria e me observava, recuei alguns passos e não consegui mais, novamente paralisada.
- Meus poderes são interessantes. Veja, não só de cortes de faz a dor, ela também vem com o amor, e é por isso que não amo ninguém, assim só sofro por mim. Eurípedes irá fazer experiências mais interessantes com sua amiga agora, e vou adorar saber o quanto você irá chorar enquanto vê.
Evitarei descrever minhas emoções nos momentos seguintes, o ódio já está se tornando redundante nessa narração trágica. Eurípedes deu um tiro na barriga dela, que se jogou no chão, ferida e agonizante por um instante. Apenas uns instante, logo se levantou, tão intacta quanto eu estaria, regeneração superior à minha, já tão especial. Que tolice ela estava fazendo, não sabia o que eles faziam com quem tem tal habilidade, eu sabia, e isso me desesperava. Euripedes foi atirando nela da mesma forma que Sade havia me espetado, atacando os órgãos vitais, vendo até onde ela aguentava, ela não se importava, não dava um único gemidinho, ficava de pé, era como socar uma rocha. Uma rocha, era isso que Astarte era, levava o furo e ele já se fechava, foi aí que percebi porque ela se identificava comigo, se visse talvez como um monstro, não sentia dor, sua sensibilidade física era mínima, seu dom a tornava incapaz de sentir a dor de um corte ou o prazer de um abraço. Uma criatura inorgânica, homunculus, máquina, para o azar dela, as ilusões ainda poderiam gerar-lhe sofrimento.
- Vai ficar quanto tempo nessa bobagem? - Gritou, mostrando a língua zombeteiramente.
- Resistente demais, você é boa, vamos fazer sério agora. - Desapareceu.
- Luna, como você tá? O que esse velho nojento está fazendo? - Ela perguntou, eu não podia responder paralisada, mas Sade tomou a palavra com alguns insultos, ainda assim, não fez nada.
Astarte respondeu à altura, eu nem sabia que ela conhecia tantos palavrões, chegaria a ser engraçado se estívessemos em outro contexto, em um bar, em uma biblioteca talvez. Eles ficaram se xingando como marinheiros bêbados até que Eurípedes voltou acompanhado do chefe, Belzebu, foram direto até a menina, e a paralisaram. Marquês se afastou e se apoiou na minha gaiola. Malvados, Belzebu pegou a mesma que havia me ferido e golpeou, daquela forma estranha que atravessa as grades, as pernas de Astartes, cortadas fora, imobilizada, não podia se recuperar, mas só sentir o sangue jorrar estupidamente. Evito dizer o que senti, desespero não se encaixaria como um bom termo, não sei que palavra das línguas neo-latinas serviria para descrever essa emoção terrível, animum despondeo. Aqueles criminoso a observavam sangrar, a vida se esvair, suas forças diminuírem aos jorros, e eu apenas olhava suas pupilas de cadáver gelado, inanimada, indefesa, foi então que consegui me mexer, e meu vigia disse:
- Pode se mexer agora, ela vai morrer mesmo, será engraçado ver a sua reação.
Então gritei louca, olhando as pupilas sem brilho: - Astarte, reage!
Não houve reação, e eu senti que ela morreria em pouco tempo, sim, tudo estaria ficando escuro para a minha amiga. O fim de uma boa menina. Os canalhas também perceberam que ela morreria, e então a liberaram do congelamento. Jogada no chão, olhou-me assustada e regenerou suas pernas, foi aí que vi que suas pupilas escuras tomaram todo a área dos olhos, e, aquele dom se revelou tão rápido quanto um piscar de olhos, seus cabelos cresceram e tomaram toda a jaula e, de alguma forma, conseguiram sair dela, não foram segurados pela barreira invisível que me impedia de crescer na forma de monstro, e de que bloqueava todos os dons. Também era impressionante como o sangue arrancado voltou para o corpo dela como se jamais tivesse se separado dele. Como ela conseguiu?
O tempo se arrastou e o miserável deu as costas à minha amiga, que despertou do mundo falso onde estava e se ajoelhou com a cabeça entre os joelhos, chorando apropriadamente, já não era por dor, era por... medo, suponho.
- Astarte. - Gritei seu nome, encostada na grade.
- Luna! Me ajuda, por favor, eu não quero mais que ele faça isso. - Ergueu o rosto, mostrando os olhos molhados, foi a primeira vez que ela pareceu uma criança mais nova que eu.
-O que posso fazer? - E eu não sabia.
Sade deixou o velho e veio até mim, nem precisei que ele falasse nada para saber o que aconteceria, Belzebu foi embora do local na hora, Eurípedes foi até a cela de Astarte e tirou algo que parecia uma arma de fogo, uma espingarda, o marquês ria e me observava, recuei alguns passos e não consegui mais, novamente paralisada.
- Meus poderes são interessantes. Veja, não só de cortes de faz a dor, ela também vem com o amor, e é por isso que não amo ninguém, assim só sofro por mim. Eurípedes irá fazer experiências mais interessantes com sua amiga agora, e vou adorar saber o quanto você irá chorar enquanto vê.
Evitarei descrever minhas emoções nos momentos seguintes, o ódio já está se tornando redundante nessa narração trágica. Eurípedes deu um tiro na barriga dela, que se jogou no chão, ferida e agonizante por um instante. Apenas uns instante, logo se levantou, tão intacta quanto eu estaria, regeneração superior à minha, já tão especial. Que tolice ela estava fazendo, não sabia o que eles faziam com quem tem tal habilidade, eu sabia, e isso me desesperava. Euripedes foi atirando nela da mesma forma que Sade havia me espetado, atacando os órgãos vitais, vendo até onde ela aguentava, ela não se importava, não dava um único gemidinho, ficava de pé, era como socar uma rocha. Uma rocha, era isso que Astarte era, levava o furo e ele já se fechava, foi aí que percebi porque ela se identificava comigo, se visse talvez como um monstro, não sentia dor, sua sensibilidade física era mínima, seu dom a tornava incapaz de sentir a dor de um corte ou o prazer de um abraço. Uma criatura inorgânica, homunculus, máquina, para o azar dela, as ilusões ainda poderiam gerar-lhe sofrimento.
- Vai ficar quanto tempo nessa bobagem? - Gritou, mostrando a língua zombeteiramente.
- Resistente demais, você é boa, vamos fazer sério agora. - Desapareceu.
- Luna, como você tá? O que esse velho nojento está fazendo? - Ela perguntou, eu não podia responder paralisada, mas Sade tomou a palavra com alguns insultos, ainda assim, não fez nada.
Astarte respondeu à altura, eu nem sabia que ela conhecia tantos palavrões, chegaria a ser engraçado se estívessemos em outro contexto, em um bar, em uma biblioteca talvez. Eles ficaram se xingando como marinheiros bêbados até que Eurípedes voltou acompanhado do chefe, Belzebu, foram direto até a menina, e a paralisaram. Marquês se afastou e se apoiou na minha gaiola. Malvados, Belzebu pegou a mesma que havia me ferido e golpeou, daquela forma estranha que atravessa as grades, as pernas de Astartes, cortadas fora, imobilizada, não podia se recuperar, mas só sentir o sangue jorrar estupidamente. Evito dizer o que senti, desespero não se encaixaria como um bom termo, não sei que palavra das línguas neo-latinas serviria para descrever essa emoção terrível, animum despondeo. Aqueles criminoso a observavam sangrar, a vida se esvair, suas forças diminuírem aos jorros, e eu apenas olhava suas pupilas de cadáver gelado, inanimada, indefesa, foi então que consegui me mexer, e meu vigia disse:
- Pode se mexer agora, ela vai morrer mesmo, será engraçado ver a sua reação.
Então gritei louca, olhando as pupilas sem brilho: - Astarte, reage!
Não houve reação, e eu senti que ela morreria em pouco tempo, sim, tudo estaria ficando escuro para a minha amiga. O fim de uma boa menina. Os canalhas também perceberam que ela morreria, e então a liberaram do congelamento. Jogada no chão, olhou-me assustada e regenerou suas pernas, foi aí que vi que suas pupilas escuras tomaram todo a área dos olhos, e, aquele dom se revelou tão rápido quanto um piscar de olhos, seus cabelos cresceram e tomaram toda a jaula e, de alguma forma, conseguiram sair dela, não foram segurados pela barreira invisível que me impedia de crescer na forma de monstro, e de que bloqueava todos os dons. Também era impressionante como o sangue arrancado voltou para o corpo dela como se jamais tivesse se separado dele. Como ela conseguiu?
- Vamos sair daqui. - Belzebu, covarde, gritou e se teletransportou pra outro lugar quando os cabelos iam alcançá-lo, e parece que eram muito duros, Eurípedes também fugiu, os cabelos se espalharam muito rápido pelo salão, e a gaiola em que Astarte estava guarda foi quebrada como vidro, logo eu não vi mais nada, pois tudo ficou envolvido por negro, cabelos negros. Quebrou minha gaiola, aquele cabelo mais parecia uma grande quantidade de fios metálicos escuros ou algo parecido, ou melhor, bem mais resistente e rígido, infelizmente, ela não foi muito delicada, acabaram me acertando e desmaiei, portanto não sei o que aconteceu logo em seguida.
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